} Crítica Retrô: As Mulheres

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Thursday, December 15, 2011

As Mulheres / The Women (1939)

Muito mais do que uma suntuosa reunião do melhor do elenco feminino da MGM na década de 1930, tal filme é um verdadeiro campo de batalha em que essas talentosas mulheres se engalfinham. Em um all-star movie apenas com intérpretes do chamado “sexo frágil”, foi possível construir uma história divertida em que não poderia faltar ciúme, traição, fofoca, clichês do mundo das mulheres, mas também muito charme. 
Mary (Norma Shearer) fica sabendo, por meio de boatos espalhados em um salão de beleza, que seu marido está tendo um caso com a vendedora Crystal (Joan Crawford, nossa antagonista favorita). Já Sylvia (Rosalind Russell) tem como plano casar-se para em seguida se divorciar, sobrevivendo da pensão do marido. Quando Mary sai de casa, levando a filha em uma viagem de trem, ela conhece Mirian (Paulette Goddard), amante do marido de Sylvia, e a Condessa DeLave (Mary Boland) que, saindo de seu quarto casamento e usando como lema a expressão “l’amour, l’amour”, convida Mary a passar um tempo em um rancho, onde as mulheres vão para conseguir o divórcio mais rápido.
Só faltaram Greta Garbo e Myrna Loy
O filme se originou de uma peça de mesmo nome que estreou dois anos antes da produção cinematográfica. Para a adaptação, uma valiosa contribuição foi o escritor e por vezes roteirista F. Scott Fitzgerald que, contudo, não foi creditado. Outra responsável pelo roteiro foi Anita Loos, que escrevia desde os tempos do cinema mudo e pôs suas mãos em sucessos como “San Francisco” (1936) e “Os Homens preferem as Loiras / Gentlemen prefer Blondes” (1953).

Assim como na peça, no filme todo o elenco é do sexo feminino (incluindo os animais!), somando cerca de 130 mulheres em cena. As únicas exceções, bem pequenas, são o desenho de um touro no desfile de moda e um anúncio em uma revista. Com tantas garotas no mesmo lugar, não podia deixar de acontecer uma rixa: Norma Shearer e Joan Crawford não se deram muito bem. Quando as duas eram chamadas para fotografarem juntas para cartazes do filme, nenhuma atendia o chamado até George Cukor ir chamá-las pessoalmente, quando, então, se tratavam cordialmente. Joan fazia barulho tricotando enquanto Norma precisava de silêncio para rodar suas cenas. Quem disse que a primeira briga de Joan foi com Bette Davis em “O que teria acontecido a Baby Jane / Whatever happened to Baby Jane”? 

O diretor responsável por todas essas moças foi George Cukor, que um mês antes do início das filmagens foi despedido do elenco de “E o vento levou...”. Enquanto dirigia este filme, as atrizes Viven Leigh e Olivia de Havilland iam secretamente à casa dele para ensaiarem seus papéis no épico sobre a Guerra Civil. Curiosamente, ele estava dirigindo Joan Fontaine, irmã de Olivia, em “As Mulheres”.
Norma Shearer, já viúva do poderoso Irving Thalberg (morto prematuramente em 1936), era uma das maiores estrelas da época, sendo, em 1939, a única do elenco a ter um Oscar. Alguns de seus momentos são exagerados, bem ao estilo do cinema mudo, a exemplo da cena em que chora no colo da mãe. Em minha opinião de feminista, sua melhor fala é “I´ve had two years to grow claws, mother. Jungle red!” (Eu tive dois anos para as garras crescerem, mãe. Vermelho selvagem!”), indo lutar pelo marido. 

O elenco coadjuvante dá um show à parte. Paulette Goddard tem um de seus grandes momentos ao ser mordida por Rosalind Russell, quando esta descobre que ela é quem vai se casar com seu ex-marido. Para a divertida cena ambas as atrizes entraram no espírito: Paulette dispensou uma dublê e Roz mordeu-a com força, deixando uma cicatriz em sua perna.
Mesmo se tratando de uma comédia, o filme tem seus méritos ao mostrar a sociedade da época. De um lado estão as mulheres que caçam maridos, casam-se diversas vezes ou vivem de fofocas nos salões de beleza. De outro estão aquelas que decidem deixar uma vida infeliz a dois e recomeçar, não importa quão difícil isso seja, procurando um emprego e novos relacionamentos. Afinal, na década de 1930 as mulheres divorciadas ainda eram um pouco mal-vistas pela sociedade, em especial em lugares mais conservadores (o que nunca foi o caso de Hollywood).
Tendo estreado em 1939, o excelente filme ficou à sombra de estreias maiores, como “E o vento levou / Gone with the Wind”, “Gunga Din”, “O Morro dos ventos uivantes / Wuthering Heights” e “Ninotchcka”. Por isso, o filme não levou uma indicação sequer no Oscar.  Seu visual, porém, é muito belo, contando, ainda, com uma sequência primorosa a cores mostrando um desfile de modas. 

Em 1956 foi filmada uma versão musical do filme com o título “O Belo Sexo / The Opposite Sex”, tendo no elenco Agnes Moorehead, June Allyson e Ann Miller. No ano de 2008, mais uma vez a história foi levada às telas, com um elenco que incluía Debra Messing, Anette Bening, Meg Ryan e Bette Midler. Mesmo assim, nenhuma das duas produções conseguiu o mesmo charme do original. Mas elas mostram uma coisa: divas duelando são sempre bem vindas no cinema.
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