} Crítica Retrô: Ponte de Waterloo

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Thursday, August 14, 2014

Resenha: “Na Sala Escura”, de Chico Lopes

Cada novo filme que estreia recebe um parágrafo de sinopse e uma nota, baseada em sabe-se lá qual critério. A boa e velha crítica de cinema reflexiva está quase morta. Digo “quase” porque ela sobrevive nos livros, como neste “Na Sala Escura” de Chico Lopes. Se você quer ir além do simples press-release e explorar artigos longos e cheios de detalhes sobre o melhor do cinema, este livro é para você.
Há um desfile de produções para todos os gostos, de todas as épocas: de Garbo a Herzog, de Hitchcock a Bertolucci, do terror ao cinema nacional, dos épicos aos filmes de ficção científica. E cada capítulo (seria melhor dizer “cada artigo”) se divide em subcapítulos, e lá estamos nós analisando várias obras de David Lean em sequência.
Concordo com muitas coisas que Chico escreve, em especial sobre o esquecimento de algumas estrelas, sobre o novo significado que damos a um filme favorito de infância / juventude quando o vemos mais maduro e, sobretudo, sobre a bestialização do público: em um mercado em que só os lucros importam, não é necessário se dedicar muito para fazer um filme artístico, sendo que um medíocre dá mais lucros. Nas palavras do autor: “[...] tem-se a impressão – que o passar do tempo só confirmou – que o público se tornou uma horda de dementes com um QI de passarinho e uma fúria homicida e auto-punitiva sem limites.” (pág. 115)
Percebeu como o texto é ácido? Isso faz com que em alguns momentos nós discordemos com veemência das opiniões do escritor. Para mim, foi um pouco difícil de engolir o capítulo sobre Hitchcock, em que alguns vilões são analisados sob a óptica psicanalítica e a conclusão é que o tio Charlie (Joseph Cotten em “Sombra de uma Dúvida”, 1943) e Bruno Anthony (Robert Walker em “Pacto Sinistro / Strangers on a Train”, 1951) têm em comum algum tipo de tara sexual!
Quando um livro é formado por artigos escritos em épocas diferentes da vida do autor (e olhe que a opinião de alguém pode mudar em questão de meses ou anos), um problema pode ser a incongruência. Por exemplo: achei estranho Chico falar que tem entre seus filmes favoritos “A ponte de Waterloo” (1940) no começo do livro e, no final, chamá-lo de “lixo sentimental”. Ora, a preferência de um cinéfilo tem razões que a própria razão desconhece!
Conheço Chico Lopes desde sua época pré-Jabuti, e posso dizer que sua escrita é surpreendentemente distinta de sua personalidade. Quem lê o sombrio “O estranho no corredor” ou as partes mais cáusticas deste “Na Sala Escura” pode imaginá-lo como uma pessoa ranzinza e muito séria, muito diferente do verdadeiro senhor sorridente que dava gargalhadas ao rever, com o público cinéfilo do Instituto Moreira Salles, as performances de Jack Lemmon. Essa metamorfose literária é, ao mesmo tempo, desconcertante e curiosa.
Livro por dentro: repare no foco de luz que lembra a lente de uma câmera
(o marcador de filme foi por minha conta)
Mas minha leitura não foi feita só de discórdias: também concordei com muitos pontos e fiquei feliz ao ser lembrada de outros. Fui à procura imediata de um dos filmes analisados, “Stroszek” (1973), e me senti satisfeita ao reencontrar Bruno S. e Werner Herzog. Tive vontade de rever dez vezes seguidas “Um corpo que cai / Vertigo” (1958) apenas para apreender todos os detalhes descritos no livro (como houve uma época em que me esqueci da cena “I look up, I look down”?) e me senti transportada novamente para a festa-clímax de “O Leopardo” (1963).
Com prefácio de Ignácio de Loyola Brandão e acabamento perfeito da Editora Penalux, “Na Sala Escura” é um ótimo convite a descobrir, brigar, debater e reviver a paixão pelo cinema. 

Friday, November 4, 2011

Myra & Anna Karenina: de Tolstoi à Ponte de Waterloo

Recentemente, assistindo à versão de 1997 de “Anna Karenina”, reportei-me a dois filmes clássicos. Um deles foi “Doutor Jivago / Dr. Zhivago” (1965), devido à paisagem russa coberta de neve. O outro foi “A Ponte de Waterloo / The Waterloo Bridge” (1940), por conta do final em comum. Se o destino da aristocrata Anna e da bailarina Myra se cruzam, não podemos dizer o mesmo de suas trajetórias. Afinal, como duas personagens tão diferentes vieram a ter o mesmo desfecho?
Myra é uma bailarina inglesa que tem sua vida mudada durante a Primeira Guerra Mundial. Durante um bombardeio, ela conhece Roy Cronin (Robert Taylor), um militar que está de folga. Eles vivem dias apaixonados entre espetáculos de balé e bailes elegantes, até que o sossego do casal é interrompido pelo conflito. Myra promete esperá-lo, mas sua vida não está fácil. Depois de ser expulsa do grupo de balé ao ir se despedir de Roy e chegar atrasada ao espetáculo, ela e a amiga Kitty (Virginia Field) afundam cada vez mais. É quando recebe seu maior golpe: a notícia da morte do amado. Deseperada e desiludida, ela vê como única saída tornar-se garota de programa para sobreviver.

Anna Karenina é uma mulher da elite russa, casada e com um filho, que se apaixona pelo charmoso conde Vronsky. Ela não disfarça sua paixão e passa a ser muito malvista pela sociedade conservadora e hipócrita e, ao se divorciar, tem a guarda de seu filho tomada pelo marido. Indo viver com o amante e sofrendo um aborto, ela fica viciada em ópio e vê seu amado cada vez mais preocupado com a carreira e o trabalho, deixando-a de lado.
Anna e Myra sofrem e morrem por amor, cada uma a seu modo. Anna é passional em suas atitudes e não tem vergonha de demonstrar seus sentimentos. Myra só toma uma decisão drástica ao pensar que lhe aconteceu uma tragédia e se envergonha do caminho que sua vida tomou. Anna é condenada por ter encontrado o amor de sua vida e ido para junto dele, abandonando tudo: sua sanidade, sua família, sua saúde. Myra inicia sua derrocada após pensar ter perdido o homem que amava e agarra-se ao único trabalho possível porque já não tem mais nada para abrir mão.
“Anna Karenina” foi publicado entre 1873 e 1877. Sua primeira livre adaptação para o cinema aconteceu em 1927, intitulado “Love”, estrelando Greta Garbo e John Gilbert. As demais adaptações são mais fiéis ao original. Seguiram-se ‘Annas Kareninas’ em 1935, com Fredrich March e novamente Garbo, em 1948, com (surpresa!) Vivien Leigh e Ralph Richardson, e 1997, com Sophie Marceau e Sean Bean. Há boatos de que uma nova versão está sendo produzida, com Keira Knightley no papel-título.
“A Ponte de Waterloo” surgiu como uma peça de teatro da autoria de Robert E. Sherwood, sendo adaptada pela primeira vez para o cinema em 1930, com Mae Clarke no papel principal, contando ainda com Bette Davis fazendo uma ponta. E, vejam só, há duas telenovelas brasileiras homônimas, feitas em 1959 e 1967 pela TV Tupi.
Unidas por seu trágico destino, Myra e Anna foram, coincidentemente, interpretadas por Vivien Leigh em tempos mais hipocritamente puritanos, em que uma mulher peca e é, automaticamente, condenada. Seja como a aristocrata russa, a malfadada bailarina inglesa ou (não dá para não citar) a mimada mocinha sulista, Viv empresta seu charme e seu talento para dar vida a personagens tão tragicamente cativantes.
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