} Crítica Retrô: conto de fadas

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Thursday, March 16, 2017

Variações sobre um mesmo tema: A Bela e a Fera (1946, 1991 e além)

Variations on the same theme: Beauty and the Beast (1946, 1991 and beyond)

Tale as old as time
True as it can be
Barely even friendship
Then somebody bends
Unexpectedly
Just a little change
Small to say the least
Both a little scared
Neither one prepared
Beauty and the Beast!
A belíssima história de amor entre uma mulher e uma criatura que parece um búfalo é um conto de fadas que existe há um bom tempo: foi publicada em 1740, escrita por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve. Após a morte de Gabrielle, outra escritora francesa, Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, reescreveu o conto de fadas. Mas a história na verdade tem mais de 4000 anos!

The wonderful love story between a woman and a bull-like creature is a fairy tale that has been around for quite a while: it was published in 1740, written by Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve. After Gabrielle died, another French writer, Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, rewrote the fairy tale.  But the story actually originated more then 4000 years ago!
Originalmente, a Bela e a Fera era bem semelhante a outros contos de fada, pelo menos em relação à história. Bela era a filha mais nova de um comerciante viúvo. Ela tinha duas irmãs muito preocupadas com a aparência e três irmãos que viviam se metendo em confusões. Quando seu pai recebe a notícia de que um de seus navios perdidos foi encontrado, a família toda, que estava há alguns meses vivendo na pobreza, fica em polvorosa. As irmãs querem que o pai lhes traga vestidos chiques com o dinheiro da venda dos produtos do navio. Bela quer apenas uma rosa.

In its genesis, Beauty and the Beast was very similar to other fairy tales, at least in its history. Belle was the youngest daughter of a widow sea merchant. She had two vain sisters and three troublemaker brothers. When her father recovers one of his ships after living some months in poverty, the whole family gets excited. The sisters want the father to bring fancy dresses to them, but Belle wants only a rose.
Voltando da negociação malsucedida no porto, o pai de Bela entra no território da Fera e é pego. A Fera deixa o pai da Bela visitar a família uma última vez, mas ele não volta ao cativeiro: a Bela toma o lugar do pai e parte para o castelo da Fera. A versão francesa de 1946 segue este roteiro. Nela, Bela é interpretada por Josette Day e a Fera por Jean Marais.

Coming back from an ill-fated negotiation at the harbor, Belle's father enters the Beast's territory and is imprisoned. The Beast lets Belle's father see his family for the last time, but he doesn't come back: Belle goes to the Beast's castle in her father's place. The 1946 French movie follows this storyline. Belle is pyayed by gorgeous Josette Day, and the Beast by Jean Marais.
A versão de 1946 pode surpreender quem não está acostumado a ver clássicos e pensa que todos os filmes antigos são primitivos e chatos. Na verdade, a versão francesa é simplesmente mágica, e faz a mágica sem efeitos especiais computadorizados. Ainda por cima, é um filme feito logo após a Segunda Guerra Mundial, conflito do qual a França saiu muito abalada. De certa maneira, este é o tipo de filme que a França precisava na época: um filme que nos faz acreditar em mágica novamente.

The 1946 version may surprise the ones who are not used to old movies and expect it to be dull and primitive. Actually, the French version is nothing but magical, and does it without CGI and when France had just left World War II with lots of scars. In a sense, it was the kind of comfort movie France needed then: a movie that makes you believe in magic again.
Meu truque favorito no filme de Jean Cocteau são os braços humanos que seguram objetos como velas e espelhos dentro do castelo da Fera. Foi asism que ele conseguiu mostrar os serviçais amaldiçoados no castelo. E isso não é tudo: a iluminação também confere um toque mágico. À luz de velas, Josette Day é etérea, angelical. Esse efeito não poderia ser obtido apenas com a luz em um filme a cores.

My favorite trick in Jean Cocteau's film is his idea of having moving arms holding the objects like candles and mirrors inside the Beast's castle. It was through this trick that he could transport to the screen the cursed maids, butlers and cooks. And this is not all: the lightning also adds to the magic. By candlelight, Josette Day looks ethereal, and such an effect couldn't be achieved in a color film.
Não, o pai da Bela não era um inventor. Ela não era filha única, nem uma leitora voraz (ou seja, ela não era como eu). Ela não era paquerada pelo insistente e vaidoso Gaston, o homem com grandes músculos e cérebro de ervilha. Tudo isso é o toque Disney. Mas estas mudanças na história, junto com a animação de qualidade, obviamente, fizeram o filme ser indicado ao Oscar de Melhor Filme em 1992. É interessante notar que a animação tem diversas conexões com o cinema clássico.

No, Belle's father wasn't an inventor. She wasn't a single child who was also a bookworm (she wasn't me, after all). She wasn't courted by Gaston, a man with great muscles and a pea-sized brain. All this is Disney exclusivity. But those changes in the story, along with the great animation, of course, made the animated feature be nominated for the Best Picture Oscar in 1992. Interestingly, the animation has many connections to classic films.


A versão de 1946 inspirou o estilo de um episódio de 'Teatro dos Contos de Fada". Neste episódio, dirigido por Roger Vadim, a Bela é interpretada por Susan Sarandon e a Fera por Klaus Kinski. Será que já houve escalação de elenco melhor do que esta?

The 1946 version inspired the look of an episode of “Shelley Duvall's Faerie Tale Theatre”. In this episode, directed by Roger Vadim, Belle is played by Susan Sarandon, and the Beast by Klaus Kinski. Has there ever been a better casting than this?
Houve uma versão em 2014, novamente feita na França, com Léa Seydoux e Vincent Cassel nos papéis principais. O filme pode ser visualmente deslumbrante, mas falta algo – talvez tenha sido a narrativa confusa, que avança e retrocede no tempo sem aviso, ou talvez seja a falta de química do casal. De toda forma, o filme é uma festa para os olhos e ao mesmo tempo uma cura para a insônia. Bem, pelo menos nesta versão a Bela e a Fera têm roupas lindas e diferentes do usual para o grande baile:

There was a 2014 version, again made in France, with Léa Seydoux and Vincent Cassel in the lead roles. While it is visually breathtaking, the film lacks something – maybe it is the confused narrative, that goes back and forward in time without warning, or maybe it is the lack of chemistry between the couple. Anyway, it is a feast for the eyes but at the same time a cure for insomnia. Well, at least in this version Belle and the Beast have different and gorgeous clothes for their dance:
A primeira adaptação para o cinema foi feita pela Pathé-Freres em 1899. Outras versões se seguiram, ainda no cinema mudo, tanto na França quanto na Inglaterra, mas há pouquíssimas informações sobre elas. O que se sabe é que existe uma cópia – ou possivelmente um fragmento – da versão de 1913 na Cinemateca Francesa. É uma pensa que não foi feita nenhuma versão da história na Hollywood do cinema mudo!

The first film adaptation of the story to the cinema was made by Pathé-Freres in 1899. Many more versions were made in the silent era, both in France and the UK, but information about these movies is scarce. A copy – or rather a fragment – of the 1913 version certainly exists in the French Cinémathèque, though. It’s a pity that no version of the tale was adapted to the screen in silent-era Hollywood!

Na TV foram feitas também diversas adaptações, entre filmes e episódios, entre os quais está um de “Shirley Temple’s Storybook” de 1958. Séries de TV também se inspiraram na história, incluindo uma versão modernizada estrelada por Linda Hamilton e Ron Perlman que durou três temporadas, de 1987 a 1990.

On TV there were several versions as well, considering TV movies and episodes such as one from “Shirley Temple’s Storybook” in 1958. TV series were also inspired by the tale, including a modernized version with Linda Hamilton and Ron Perlman, that lasted three seasons, from 1987 to 1990.
Qualquer que seja a versão e sua opinião sobre a história – afinal, qual a moral do conto de fadas (as aparências não importam ou o amor cura tudo?) – o cinema sempre conseguiu levar para as telas a magia que nos faz continuar acreditando no conto de fadas.

Whatever the version, and whatever is your reading of the story – which could exactly be the lesson we learned with Beauty and the Beast (appearances don’t matter / love cures everything?) – the film world never failed to translate the magic that makes us believe in fairy tales.

Sunday, October 2, 2016

The Doll (1919) / Die Puppe (1919)

Você sabe que está prestes a ver um filme muito bom quando a primeira imagem após os créditos é do diretor Ernst Lubitsch, tirando objetos cênicos em miniatura de dentro de uma caixa. Não era o primeiro filme de Lubitsch, que atuava desde 1912 e dirigia desde 1914. Mas é o filme que nos faz parar e exclamar: “aí está um gênio”!

You know you are about to see a very good movie when the first image after the credits shows you director Ernst Lubitsch taking miniature scenic objects out of a box. It wasn’t Lubitsch’s first movie: he acted since 1912 and directed since 1914. But it is a movie that makes us stop and shout: “here it is a genius”!
O rico, velho e doente Barão von Chanterelle (Max Kronert) quer arranjar um casamento para seu sobrinho, com o objetivo de perpetuar a linhagem nobre. Mas o tal sobrinho, Lancelot (Hermann Thimig) é um mimadinho que não quer se casar.

The rich, old and ill Baron Von Chanterelle (Max Kronert) wants his nephew to get marriage so the noble lineage won’t die. But said nephew, Lancelot (Hermann Thimig) is a cry-baby who doesn’t think of marriage at all.
Lancelot
Depois de distrair as dezenas de pretendentes que corriam atrás dele, Lancelot busca refúgio em um monastério. Os religiosos de lá estão passando por “dificuldades”, e por isso decidem convencer o hóspede a se casar e a dar o dinheiro do dote para o monastério. E eles até arrumam um jeito de Lancelot sair satisfeito do casamento: ele se casa com uma boneca, enganando a todos!

When he is able to distract dozens of young maidens who were chasing him, Lancelot goes to a monastery to hide. The monks there have been through “difficulties”, and then they decide to convince the guest to marry and give the dowry to the monastery. And they even find a way to make Lancelot happy with the marriage: he weds a doll and fool them all! 
Em um anúncio para “solteiros, viúvos e misóginos”, Hilarius Gilermund (Victor Janson), o mundialmente famoso criador de bonecas, diz que consegue fazer uma boneca quase humana, que se mexe conforme alguns botões são acionados. E a mais nova criação de Hilarius é uma boneca inspirada em sua filha, Ossi (Ossi Oswalda).

In an add for “bachelors, widowers and misogynists”, Hilarius Gilermund (Victor Janson), the world-famous dollmaker, says that he can make a human-like doll, who also moves when some buttons are pushed. And Hilarius’s newest creation is a doll inspired by his daughter, Ossi (Ossi Oswalda).
Enquanto Lancelot chega à loja para comprar a noiva boneca, o jovem e atrevido ajudante de Hilarius acaba quebrando a boneca Ossi. Para que ele não fique em apuros, a Ossi de carne e osso promete posar como a boneca até que a boneca seja consertada. Mas o problema é que Lancelot escolhe justamente Ossi para ser sua esposa. Ele pensa estar levando para casa uma boneca de “caráter sólido”, mas é a moça que embarca em sua carruagem.

While Lancelot goes to the store to buy his fiancée doll, Hilarius’s young and daring helper breaks Ossi the doll. To prevent him from having troubles, real Ossi promises to pretend to be the doll until the doll is fixed. But the big trouble comes when Lancelot chooses exactly Ossi to be his wife. He thinks he is taking home a doll of “solid character”, but it is the girl the one who goes in his carriage. 
Há um ar de conto de fadas no filme. O cenário da primeira cena é, literalmente, montado na nossa frente, e algo mágico e infantil começa. Muito antes de a Disney desconstruir os contos de fada, já tínhamos uma espécie de príncipe bobão, uma heroína corajosa, um sol sorridente e cavalos que cruzam as pernas e perdem o rabo.

There is a fairy tale touch to this film. The set of the first scene is, literally, built in front of us, and something magic and child-like begins. Many decades before Disney deconstructed fairy tales, we already had a silly prince, a bold heroine, a smiling sun and horses that cross their legs and lose their tails.
Há espaço, claro, para problematização. Poderíamos nos perguntar se Lancelot não queria se casar simplesmente porque não queria, ou seria ele homossexual? Afinal, os religiosos olham para Ossi com luxúria? Poderíamos fazer estas perguntas, olhando com olhos de 2016, mas perderíamos a graça do filme, divertidíssimo se visto com olhos de 1919.

There is room, of course, to find problems. We could ask ourselves if Lancelot didn’t want to get married because he simply didn’t want it, or if maybe it was because he was a closeted homosexual? And, do the monks or don’t they look to Ossi with luxury? We could ask those questions, looking with eyes of 2016, but the questions would destroy the fun, and the film is hilarious if watched with eyes of 1919.
Ossi Oswalda era chamada de “a Mary Pickford alemã”. E aqui vemos perfeitamente o porquê do apelido: fofa, determinada, adorável, divertida, Ossi tinha apenas 22 anos quando “The Doll” foi filmado. Ela está muito longe de ser uma vamp, uma sofredora ou uma donzela em apuros. Ossi, como boneca ou como garota, é uma protagonista maravilhosa, que sem dúvida se diverte com seu jogo de faz de conta.

Ossi Oswalda was called “the German Mary Pickford”. And here we see why this nickname: cute, courageous, adorable, funny, Ossi was only 22 when “The Doll” was made. She is far from being a vamp, a suffering girl or a damsel in distress. Ossi, as a doll or as a girl, is a fabulous leading lady, and without a doubt she has fun with her make-believe. 
A história é simples, mas a maioria das piadas se baseia na ironia. Assim, um dos personagens mais divertidos é o jovem aprendiz (Gerhard Ritterband), que tem frases ótimas e exagera em suas reações dramáticas. Temos algumas críticas pontuais e divertidas ao clero, com a exploração da piada constante de que os monges pregam e recomendam pobreza, mas vivem com luxo e sempre cometem o pecado da gula. Tal tema foi muito explorado em filmes e, em especial, livros de países cuja maioria da população é católica.

The plot is simple, but most of the jokes are ironic. That’s why one of the funniest characters is the young helper (Gerhard Ritterband), who has great ‘quotes’ and exaggerated dramatic reactions. There is also criticism against the clergy, and the constant gag involves the monks advocating the poverty vow, but at the same time overeating. This situation was already explored in several films and, in special, books from mainly Catholic countries.
Hilarius e seu ajudante / Hilarius and his helper
Raramente pensamos em Lubitsch como um diretor que teve uma musa ou uma grande colaboradora, a exemplo do que aconteceu com Gish e Griffith, Katharine Hepburn e George Cukor ou Bette Davis e William Wyler. De fato, em seu período hollywoodiano ele não teve atores constantes, mas em seu período alemão é Ossi Oswalda a colaboradora que personifica, perfeitamente, o charme das primeiras obras-primas de Lubitsch.

We rarely think about Lubitsch as a director who had a muse or top collaborator, like Griffith had Gish, George Cukor had Katharine Hepburn or William Wyler had Bette Davis. Indeed, in his Hollywood years he didn’t have constant collaborators, but in his German years it is Ossi Oswalda the one performer who personifies, perfectly, the charm we find in Lubitsch’s early masterpieces.

This is my contribution to the Dual Roles blogathon, hosted by Ruth and Christina at Silver Screenings and Christina Wehner.com 

Monday, January 30, 2012

Pele de Asno (1970): um conto de fadas musicado

O título pode não parecer muito atraente, mas este filme é um belo e surpreendente trabalho, pioneiro em sua concepção, produzido em meio à moda da “Nouvelle Vague” e estrelada por uma das mais famosas atrizes francesas, Catherine Deneuve, que mais uma vez solta a voz e encanta o público.
Num reino distante vivia um rei (Jean Marais) que não tinha do que reclamar. Quando sua esposa morre, ela o faz prometer que ele só se casará novamente se encontrar uma mulher mais bonita que ela. O problema é que esta mulher está bem próxima: é a própria filha do rei! Para escapar do desejo incestuoso do pai, a princesa contará com a ajuda da fada madrinha e precisará fugir e se passar por pobre camponesa.
A história é uma adaptação do conto de fadas homônimo, que encantou o diretor Jacques Demy em sua infância. Catherine foi escolhida para viver a princesa, protagonista que passará por um aprendizado, e ainda deverá cantar, o que já havia mostrado que sabia fazer bem em ”Os Guarda-Chuvas do Amor”, filmado seis anos antes e também dirigido por Demy (ele e Catherine trabalharam juntos em quatro filmes).
O enredo vem de um conto de fadas escrito no século XVII por Charles Perrault, que hoje pode estar esquecido, mas que foi responsável por criar histórias inesquecíveis como Cinderela. Há uma interessante repetição aqui, pois o príncipe procura entre as mulheres aquela em que sirva um anel bem pequeno, pertencente à princesa. Em Cinderela, o anel é trocado por um sapatinho de cristal. Em “Pele de Asno”, tal situação dá origem ao número musical mais engraçado de todos, que mostra o que as moças foram capazes de fazer para afinar o dedo anular, a fim de caber o anel.
Muito do clima de contos de fadas vem da bela fotografia a cores, contando ainda com belos figurinos medievais e até cavalos coloridos que me lembraram de “O Mágico de Oz”.  O filme também é carregado de momentos de comédia, trazidos em especial pela fada madrinha (Delphine Seyrig) que, além de ter um momento de glória cantando uma música, também diverte ao propor à princesa que ela exija presentes absurdos ao pai.
Os contos de fadas são histórias do folclore de vários países e que se espalharam pelo mundo graças à imprensa e ao cinema. Assim como nas fábulas há uma “moral da história”, nos contos há também muitos ensinamentos para as crianças, embora estes estejam mais velados dentro da história. Por exemplo, em “Pele de Asno” temos o tratamento do incesto por parte do rei e o preconceito que a princesa sofre enquanto está vestida com a pele do animal. Assuntos importantes para pessoas de qualquer idade, diga-se de passagem.
Veículo de aprendizado, escapismo, diversão despretensiosa ou obtenção de conhecimento, este peculiar filme francês capta com perfeição um mundo de imaginação nostálgica e simpática; um mundo de onde os adultos desejam nunca terem saído.
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