} Crítica Retrô: Edith Evans

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Friday, May 6, 2022

O Mordomo Trapaceiro (1967) / Fitzwilly (1967)

 

Foi no Letterboxd que eu vi que um dos meus amigos havia assistido a “O Mordomo Trapaceiro” (1967) – naquele momento, eu já adicionei o filme à minha lista para assistir mais tarde, afinal, seus protagonistas são duas estrelas que eu adoro: Dick Van Dyke e Barbara Feldon. Não me lembro de qual amigo viu “O Mordomo Trapaceiro”, mas eu lembro bem de que, poucos dias após adicionar o filme à minha lista, minha amiga Paddy escreveu sobre ele em seu blog Caftan Woman (em inglês). Foi o que faltava para eu me animar a vê-lo logo, afinal, Paddy tinha ótimo gosto e só recomendava bons filmes. Este texto é para Paddy.

It was on Letterboxd that I saw that one of my friends had watched “Fitzwilly” (1967) - in that moment, I added the film to my watchlist, after all, it stars two actors I adore: Dick Van Dyke and Barbara Feldon. I don’t remember which friend had logged “Fitzwilly”, but I do remember well that, a few days after I added the film to my watchlist, my friend Paddy wrote about the movie in her blog Caftan Woman. I was sold, after all, Paddy had great taste and recommended only the best movies. This review is for Paddy.

Claude R. Fitzwilliam, mais conhecido como Fitzwilly (Dick Van Dyke) trabalha como mordomo para a senhorita Victoria Woodworth (Edith Evans), ou Miss Vicki, uma senhora excêntrica que atualmente está escrevendo um dicionário para pessoas que não sabem soletrar – um dicionário com todas as maneiras erradas de se soletrar uma palavra. Para este trabalho ela precisa de uma secretária, e aí entra Juliet Nowell (Barbara Feldon), uma jovem estudante que é contratada por Miss Vicki. Desde o começo, Fitzwilly e Juliet não se dão bem, mas ela é contratada do mesmo jeito.

Claude R. Fitzwilliam, better known as Fitzwilly (Dick Van Dyke) works as a butler for miss Victoria Woodworth (Edith Evans), or Miss Vicki, an eccentric old woman who is currently writing a dictionary for people who can’t spell – a dictionary with all the wrong ways to spell the words. For this endeavor she needs a secretary, and then enters Juliet Nowell (Barbara Feldon), a young student who is hired by Miss Vicki. From the beginning, Fitzwilly and Juliet don’t get along, but she is hired anyway.

O problema com Miss Vicki é que ela costumava ser rica, mas não é mais. Entretanto, para manter o estilo de vida dela e suas constantes doações para a caridade, seus empregados, comandados por Fitzwilly, se envolvem em uma série de esquemas. Isso faz de Fitzwilly um tipo diferente de Robin Hood: ele rouba dos ricos para dar para quem não é mais rica – melhor ainda: só companhias de seguro são lesadas no processo! A chegada de Juliet, no entanto, coloca em perigo todos os esquemas.

The issue with Miss Vicki is that she used to be rich, but she isn’t anymore. But, to maintain her lifestyle and her constant donations to charity, her employees, commanded by Fitzwilly, are involved in a series of schemes. This makes Fitzwilly a different kind of Robin Hood: he steals from the filthy rich to give to someone who isn’t rich anymore – better yet: only insurance firms are harmed in the process! Juliet’s arrival, however, puts all the schemes in jeopardy. 

Com o tempo, Juliet passa a gostar de Fitzwilly e até a admirá-lo. Ela acha que Fitzwilly é inteligente demais para ser um mordomo, uma profissão que não é estimulante o suficiente, na opinião dela, e assim Juliet decide convencer Fitzwilly a encontrar um trabalho mais adequado. Ao mesmo tempo, Fitzwilly não vê outra saída a não ser fazê-la desistir do trabalho como secretária, pois sua interferência com os negócios de Miss Vicki está crescendo demais – por exemplo, ela faz um dos empregados, Albert (John McGiver), se arrepender de fazer parte dos esquemas.

With time, Juliet starts liking Fitzwilly, and this liking grows into admiration. She thinks Fitzwilly is too intelligent to be a butler, a profession that is not exciting enough in her opinion, and she decides to convince Fitzwilly to find a more suitable job. At the same time, Fitzwilly sees no other way out than making her quit her job as a secretary, as her interference with Miss Vicki’s businesses is becoming too big – for instance, she makes one of the employees, Albert (John McGiver), repent for taking part in the schemes.

Assim como eu, você deve conhecer Barbara Feldon como a Agente 99 da série de TV “Agente 86”. Ela já estava interpretando a esperta agente na TV – afinal, “Agente 86” estreou em 1965 – e “O Mordomo Trapaceiro” foi seu primeiro papel no cinema. Não é um papel desafiador, mas Barbara está bonita e é um bom contraponto, mais pé no chão, para o trapaceiro Fitzwilly.

Like me, you might know Barbara Feldon as Agent 99 from the TV series “Get Smart”. She was already playing the clever agent on TV – after all, “Get Smart” premiered in 1965 – and “Fitzwilly” was her first movie role. It’s not a challenging role, but Barbara looks cute and is a good down-to-Earth counterpoint to Van Dyke’s schemer.

Dick Van Dyke está ótimo como o personagem principal, mas ele não foi a primeira escolha para o papel. De acordo com fontes da época, Alec Guinness e Cary Grant foram cotados para o papel protagonista antes de Van Dyke ser escalado. Guinness teria sido uma escolha bem interessante, e Cary Grant também seria fantástico no papel, considerando seu carisma e persona cinematográfica elegante.

Dick Van Dyke is excellent as the title character, but he wasn’t the first choice for the role. According to sources from the time, Alec Guinness and Cary Grant were considered for the main role before Van Dyke was cast. Guinness would have been quite an interesting choice, and Cary Grant would also be great in the role, considering his charisma and debonair screen persona.

“O Mordomo Trapaceiro” foi dirigido por Delbert Mann e produzido por Walter Mirisch. Mann foi o diretor de “Marty” (1955), um dos filmes mais ternos a ganhar o Oscar de Melhor Filme e o filme mais curto até hoje a ganhar na categoria principal – e também o primeiro filme de Mann como diretor. Walter Mirisch, com seus irmãos Marvin e Harold, produziu muitos e variados filmes, como “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), “Amor, Sublime Amor” (1961) e “No Calor da Noite” (1967). Embora os anos 60 tenham sido sua era de ouro como produtor, Walter continua trabalhando, aos 100 anos de idade.

“Fitzwilly” was directed by Delbert Mann and produced by Walter Mirisch. Mann was the Oscar-winner director of “Marty” (1955), one of the tenderest Best Picture Oscar winners and the shortest film to date to win in the main category – and also Mann’s first film as a director. Walter Mirisch, together with his brothers Marvin and Harold, produced many varied films, such as “Some Like It Hot” (1959), “West Side Story” (1961) and “In the Heat of the Night” (1967). Although the 1960s were his golden years as producer, Walter is still working at age 100.

Eu fiquei surpresa ao descobrir – lendo o texto da Paddy – que a trilha sonora de “O Mordomo Trapaceiro” foi composta por ninguém menos que o grande John Williams, então no comecinho da carreira. Ele é até creditado como “Johnny” Williams! No começo do filme, a música é mais solene, depois se torna mais brincalhona, conforme assistimos aos esquemas de Fitzwilly e torcemos por ele e, finalmente, no golpe final, a música é triunfante. Há também uma canção composta por Williams, “Make Me Rainbows”, com letra de Marilyn e Alan Bergman, que é ouvida brevemente.

I was surprised to learn – through Paddy’s review – that the soundtrack for “Fitzwilly” was composed by none other than the great John Williams, then in the very beginning of his career. He is even credited as “Johnny” Williams! In the very beginning of the film, the music is more solemn, then it becomes more playful as we watch Fitzwilly’s schemes and root for him, and finally, in their final caper, the music becomes triumphant. There is also a song composed by Williams, “Make me Rainbows”, with lyrics by Marilyn and Alan Bergman, that is heard briefly.

“O Mordomo Trapaceiro” é um filme da MGM que se parece com um filme da Disney dos anos 60, por causa do tema leve e principalmente por causa da presença de Dick Van Dyke. É um filme bem divertido, embora previsível. Ambientado na época do Natal, o filme é uma boa pedida para assistir no final do ano. É um filme que eu gostei muito de ter visto. Obrigada por mais essa recomendação, Paddy.

“Fitzwilly” is a MGM movie that looks like a Disney movie from the 1960s, because of the light, family-friendly theme, and mainly because of Dick Van Dyke’s presence. It’s a quite funny movie, although predictable. Set during Christmastime, the movie is a good choice to watch during the holidays and a film I really enjoyed watching. Thanks for another recommendation, Paddy.

This is my contribution to the Caftan Woman blogathon, hosted by Patricia and Jacqueline at Lady Eve’s Reel Life and Another Old Movie Blog.



Saturday, August 3, 2019

A Dama de Espadas (1949) / The Queen of Spades (1949)


ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS

THIS ARTICLE HAS SPOILERS

Ver um filme que é elogiado pela maioria dos críticos e também por diretores como Martin Scorsese e Wes Anderson é como fazer uma aposta segura. A obra-prima britânica de horror “A Dama de Espadas”, baseada em um conto russo, foi considerada perdida até 2009, quando foi redescoberta e restaurada – para hoje termos a sorte de poder vê-la.

Watching a film that is praised by most critics and also by filmmakers like Martin Scorsese and Wes Anderson is always a safe bet. The British horror masterpiece “The Queen of Spades”, based on a Russian short story, was considered lost until 2009, when it was rediscovered and restored – and now we’re lucky to be able to watch it.


O ano é 1806. Um novo jogo de cartas chamado Faro se tornou febre na Rússia. O capitão Herman Suvorin (Anton Walbrook), entretanto, parece ser imune a esta febre. Ele tem outras coisas com as quais se preocupar: sendo um grande fã de Napoleão Bonaparte – ele tem um busto e um quadro de Napoleão no quarto – Suvorin sonha com uma grandeza e uma fortuna que não consegue alcançar.

The year is 1806. A new card game called Faro has became a fever in Russia. Captain Herman Suvorin (Anton Walbrook), however, seems to be immune to that fever. He has bigger things to worry: a big fan of Napoleon Bonaparte – he has a bust and a painting of Napoleon in his bedroom – Suvorin dreams with a greatness and a fortune that he fails to achieve.


Um dia, enquanto mexia em uma pilha de livros, ele encontra um sobre pessoas que venderam suas almas ao diabo em troca de algo grandioso em troca. No livro ele descobre que a Condessa Ranevskaya (Edith Evans), em 1746, vendeu sua alma ao diabo em troca do poder de nunca perder um jogo de cartas, pois ela precisava recuperar o dinheiro do marido, roubado por seu amante. Suvorin se alegra ao descobrir que a condessa ainda está viva.

One day, while perusing a bunch of old books, he finds one about people who sold their souls to the devil to get something big as a reward. In the book he learns about Countess Ranevskaya (Edith Evans) who, in 1746, sold her soul to the devil so she would never lose a card game, because she needed to recover her husband's money, stolen by her lover. Suvorin is thrilled to learn that the Countess is still alive.


Pra conhecer a condessa, ele decide seduzir a dama de companhia dela, Lizaveta Ivanova (Yvonne Mitchell). A pobre Ivanova acretiva que ele realmente a ama. Quando Suvorin está escrevendo uma carta de amor para ela, uma aranha tecendo uma teia aparece: afinal, ele apenas quer usar Ivanova para chegar à condessa. Assim a armadilha é representada por uma poderosa metáfora visual.

To get to meet the Countess, he decides to seduce the lady's companion, Lizaveta Ivanova (Yvonne Mitchell). Poor Ivanova thinks he really loves her. When Suvorin is writing a love letter to her, a spider in its web appears: after all, he only wants to use her to reach the Countess. It’s a trap translated in a powerful visual metaphor.


Depois de um baile, Suvorin consegue entrar no quarto da condessa e pergunta a ela quais são as três cartas que nunca a deixaram perder. Antes de contar o segredo, a condessa morre. Suvorin é mais tarde assombrado pelo fantasma da condessa e, durante seu delírio, descobre que as três cartas são o três, o sete e o ás. Ele então decide apostar alto no Faro, mas se engana e aposta na Rainha de Espadas e não no ás. Enquanto isso, Ivanova descobre a verdade sobre seu pretendente.

After a ball, Suvorin manages to enter the Countess’s bedroom and asks her for the secret of the three cards that never let her lose. Before telling the secret, the Countess dies. Suvorin is later haunted by the Countess’s ghost and, during his delirium, he learns that the three cards are the three, the seven and the ace. He then decides to bet high on Faro, but mistakenly bets on the Queen of Spades instead of on the ace. Meanwhile, Ivanova learns the truth about her suitor.


“A Dama de Espadas” é um excelente filme com grandes atuações, trilha sonora arrepiante e um design de produção maravilhoso. Os figurinos e em especial os cenários, todos lindamente feitos., foram os meus aspectos favoritos do filme.

“The Queen of Spades” is a terrific film with great performances, chilling music and outstanding production design. The outfits and in special the sets, all of them beautifully made, were my favorite aspects of the movie.


Anton Walbrook – hoje mais lembrado como Lermontov em “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948) – tem em “A Dama de Espadas” provavelmente a melhor performance de sua carreira. Como Suvorin, ele é extremamente ambicioso, um mentiroso e manipulador que se rende à loucura em uma sequência que é de arrepiar e demonstra seu enorme talento. É com certeza uma das melhores performances em um dos melhores filmes de terror feitos na Inglaterra.

Anton Walbrook – now better remembered as Lermontov from “The Red Shoes” (1948) – has in “The Queen of Spades” probably the best performance of his career. As Suvorin, he is overly ambitious, a liar and a manipulator who descents into madness in a sequence that is a thrill and a demonstration of his huge talent. It’s certainly one of the top performances in one of the top horror movies made in England.


Yvone Mitchell era uma novata em “A Dama de Espadas”. O mesmo quase poderia ser dito sobre Edith Evans, que estava de volta aos cinemas depois de uma breve experiência na era muda. O perfil de Yvonne e suas expressões me fizeram lembrar um pouco de Ingrid Bergman, e ela atua bem, mas o filme pertence a Walbrook.

Yvonne Mitchell was a newcomer in “The Queen of Spades”. The same could almost be said about Edith Evans, who was back to the film world after a brief experience in the silent era. Yvonne's profile and expressions reminded me a bit of Ingrid Bergman, and she delivers a good performance, but the film belongs to Walbrook.


O diretor Thorold Dickinson foi escolhido para dirigir “A Dama de Espadas” graças a uma sugestão de Walbrook. Os dois haviam trabalhado juntos no filme britânico “À Meia-Luz”, de 1940. Depois que a MGM fez sua versão em 1944, o estúdio tentou destruir todas as cópias do original britânico, mas felizmente não conseguiram. Thorold Dickinson dirigiu apenas nove filmes em sua carreira.

Director Thorold Dickinson was brought to direct “The Queen of Spades” per Walbrook’s suggestion. The two had previously worked together in the British “Gaslight” from 1940. After MGM did its version in 1944, the studio tried to destroy all the copies of the original British film, but luckily they failed. Thorold Dickinson only directed nine films in his career.


“A Dama de Espadas” é um conto escrito por Alexander Pushkin e serviu de base para uma ópera de Tchakovsky. A história foi adaptada para o cinema diversas vezes, mais notadamente em duas ocasiões durante a Rússia Czarista: uma vez em 1910 como um filme de 15 minutos e novamente em 1916 em um longa de 62 minutos. A adaptação de 1910 foi a primeira vez que a história foi transposta para as telas.

“The Queen of Spades” is a short story written by Alexander Pushkin and was the basis for an opera by Tchaikovsky. It was adapted to film several times, most notably in two occasions during Czarist Russia: once in 1910 as a 15-minute film and again in 1916 in a 62-minute feature. The 1910 adaptation was the very first time this story was seen on screen.
1918
1916
Muitas pessoas classificam o filme “A Dama de Espadas” como terror, embora a parte terrível seja apenas o delírio de Suvorin. A Inglaterra não teve grande tradição no horror clássico no cinema – o filme de terror clássico mais lembrado da Inglaterra é provavelmente o filme de antologia “Na Solidão da Noite” (1945).

Many people categorize the film “The Queen of Spades” as horror, although the horrible part is only Suvorin’s delirium. England didn’t have a big classic horror tradition in its film industry – the best remembered classic English horror is probably the anthology film “Dead of Night” (1945).
 
"Na Solidão da Noite / Dead of Night" (1945)
Talvez por causa do ritmo – construir toda a trama até o clímax de horror leva muito tempo – “A Dama de Espadas” não é reconhecida como a obra-prima de terror que realmente é. Impossível de ser filmada dos EUA anticomunistas do período, a história russa encontrou na Inglaterra uma equipe à sua altura para novamente ganhar vida nos cinemas – em uma belíssima versão.

Maybe because of the pace – building everything up until the horror-themed climax takes very long – “The Queen of Spades” is not recognized as a horror masterpiece that it is. It would be impossible to film it in the anticommunist USA of the time, so the Russian story found in England a perfect team to once again make it alive on screens – in a gorgeous version.

This is my contribution to the 6th Annual Rule, Britannia Blogathon, hosted by Terry at A Shroud of Thoughts.


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