} Crítica Retrô

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Monday, October 12, 2015

As latinas do cinema mudo: Myrtle Gonzalez e Beatriz Michelena

Latin women in silent cinema: Myrtle Gonzalez and Beatriz Michelena

O mundo real é sexista. O mundo do cinema também. Precisamos de Patricia Arquette clamando por salários iguais para homens e mulheres em seu discurso do Oscar, precisamos de estrelas denunciando o sexismo que existe dentro dos estúdios de cinema, precisamos de estudos que mostram que a minoria dos roteiristas, diretores e produtores de filmes são mulheres. Mas Hollywood nem sempre foi assim. Como toda novidade, a indústria do cinema, em seus primeiros tempos, era vista com desdém, como mera curiosidade passageira, e então muitas mulheres se envolviam no trabalho de fazer filmes. Na época do cinema mudo, havia grandes roteiristas, diretoras, produtoras e, claro, atrizes.

The real world is sexist. The movie world is sexist, too. We need Patricia Arquette asking for equal payment for women and men in her Oscar speech, we need film stars denouncing the sexism inside studios, we need studies showing that the minority of screenwriters, directors and producers are women. But it was not always like that. In its beginnings, the film industry was seen with disdain and as a fad. The consequence: many women were involved in making moving pictures. In the silent film era, there were many great female screenwriters, directors, producers and, of course, actresses.



Se hoje ainda temos de lutar contra o estereótipo da mulher-objeto, em especial quando a personagem feminina não é de origem estado-unidense (hola, Sofía Vergara), esta questão era mais complicada no passado. Nos anos 1910, personagens latinos se limitavam aos greasers: mexicanos com longos bigodes e escuros sombreros que eram invariavelmente vilões das películas. As mulheres latinas nestes filmes eram protótipos de femme fatales, sedutoras e nem um pouco confiáveis. Mas, ao lado das maiores e mais aclamadas atrizes da época, ao lado de Mary Pickford, Lillian Gish e Mabel Normand, havia duas latinas que fugiam de qualquer estereótipo: Myrtle Gonzalez e Beatriz Michelena.

If today we have to fight against the objetification of women, in special when we are talking about non-American women (hola, Sofía Vergara), this question was much more complicated in the past. During the 1910s, the only Latin characters were the greasers: Mexocan men with long moustaches  and dark sombreros who were always the villains in the movie. Latin women were femme fatale prototypes: seductive and not trustworthy. But, next to the biggest and most acclaimed actresses of the time, along Mary Pickford, Lillian Gish and Mabel Normand, there were two Latin girls who didn't fit any stereotype: Myrtle Gonzalez and Beatriz Michelena.


Myrtle Gonzalez nasceu em Los Angeles em 1891. A moça foi batizada com um nome 100% inglês, mas o sobrenome não deixa dúvidas sobre sua origem: seu pai era de origem mexicana, e sua mãe de origem irlandesa. Herdou da mãe o desejo de estar nos palcos, e começou a cantar e atuar ainda criança. Em 1913, quando os estúdios de cinema começavam a mudar de Nova York para Los Angeles, Myrtle conseguiu seu primeiro papel. Àquela altura, ela estava divorciada e tinha um filho bebê. Abaixo está um GIF de seu terceiro filme, “The Courage of the Commonplace” (1913):


Myrtle Gonzalez was born in Los Angeles in 1891. The girl's first name was 100% English, but her last name gives us no doubt about her origins: her father was from a Mexican family, and her mother from an Irish one. She inherited from her mother the desire of being on the stage, so she start singing and acting as a child. In 1913, when film studios started moving from New York to Los Angeles, Myrtle got her first role. At that time, she was divorced and had a baby son. Below there is a GIF from her third film, “The Courage of the Commonplace” (1913):




Myrtle teve pequenos papéis em curtas-metragens da Vitagraph, contracenando com William Desmond Taylor em cinco filmes entre 1913 e 1914. “The Kiss”, de 1914, é um dos poucos registros de Taylor em frente às câmeras. A protagonista do filme é Margaret Gibson, que confessou, em seu leito de morte em 1964, envolvimento com o misterioso assassinato de Taylor em 1922. Nada foi comprovado.

Myrtle had small roles in Vitagraph shorts, playing alongsie William Desmond Taylor in five films between 1913 and 1914. “The Kiss”, from 1914, is one of the few extant registers of Taylor in front of the cameras. The leading lady in this film is Margaret Gibson, who confessed, in her deathbed in 1964, that she was involved with Taylor's mysterious murder in 1922. Nothing was ever proved.


No começo da carreira, Myrtle Gonzalez não teve muito destaque, mas com o tempo conquistou papéis importantes. Suas protagonistas, como em “The End of the Rainbow” (1916), eram heroínas corajosas que viviam cercadas pela natureza e não se deixavam abater pelas adversidades.

In the beginning of her career, Myrtle didn’t call much attention, but with time she got more important papers. Her leading ladies, like in “The End of the Rainbow” (1916), were bold heroines who lived among the nature and didn’t let bad times prevent her from succeeding.



A carreira de Myrtle foi breve. Em dezembro de 1917, ela deixou o cinema para se casar pela segunda vez. Menos de um ano depois, em outubro de 1918, Myrtle Gonzalez sucumbiu à epidemia de gripe espanhola. Tinha apenas 27 anos e um coração frágil. O viúvo Allen Watt dirigiu e atuou em alguns poucos filmes da Universal nos anos 1920.

Myrtle's career was brief. In December 1917, she left the movies to get married for the second time. Less than a year later, in October 1918, Myrtle Gonzalez passed away from Spanish flu. She was only 27 and had a heart condition. Her widower, Allen Watt, direct and acted in a few Univwersal movies in the 1920s.



Beatriz Michelena nasceu em nova York em 1890. Seu pai era um tenor venezuelano que introduziu as duas filhas, Vera e Beatriz, no mundo artístico. Vera ficou no teatro de Nova York, fazendo parte do elenco do Ziegfeld Follies de 1914 a 1921. Beatriz se casou com um amor de infância em 1907, e se dedicou totalmente ao teatro nos anos seguintes.

Beatriz Michelena was born in New York in 1890. Her father was a Venezuelan tenor and he introduced his two daughters, Vera and Beatriz, to show business. Vera worked in the New York theater and was part of the Ziegfeld Follies from 1914 to 1921. Beatriz married her childhood sweetheart in 1907 and worked in theater the following years.



George E. Middleton, o marido de Beatriz, fundou a California Motion Picture Corporation em 1912 para rodar filmes publicitários dos automóveis que ele vendia. Em 1914, Michelena estreou nos cinemas com “Salomy Jane”, um ambicioso e belo western com uma trama complexa e uma bela atuação de sua protagonista. Teria nascido uma estrela para a California Motion Picture Corporation?

George E. Middleton, Beatriz’s husband, created the California Motion Picture Corporation in 1912 to make advertising films for the cars he was selling. In 1914, Michelena made her debut in the movies with “Salomy Jane”, an ambitious beautiful western with a complex plot and a great performance by the leading lady. Was a star born for California Motion Picture Corporation?


A produção caprichada deu uma ideia para George Middleton: sua esposa poderia ser uma estrela maior que Mary Pickford! Beatriz não chegou a este patamar, mas obteve relativo sucesso alternando westerns (em que ela dispensava o trabalho de dublês) e adaptações de óperas.

The gorgeous production from 1914 gave an idea to George Middleton: his wife could be a star bigger than Mary Pickford! Beatriz didn’t reach this point, but she had some success alternating between westerns (in which she dispensed stuntwomen) and opera adaptations. 



Entre 1916 e 1917, problemas na produção do épico “Fausto” levaram Beatriz a romper com a California Motion Picture Corporation. Na época, ela escrevia uma coluna de jornal sobre cinema e dava dicas para aspirantes a atrizes. Fragmentos de “Fausto” foram inseridos no filme “The Price Woman Pays”, de 1919, mas Beatriz já trabalhava em outro empreendimento.

Between 1916 and 1917, problems involving the production of the epic “Faust” amde Beatriz leave the California Motion Picture Corporation. At the time, she also wrote a newspaper column about the movies and gave tips to aspiring starlets. Stills from “Faust” were added to the film “The Price Woman Pays”, from 1919, but Beatriz was already working with something else.



No mesmo ano em que Mary Pickford se tornava sócia da United Artists, Beatriz fundou sua própria produtora: Beatriz Michelena Features. Foram realizados apenas dois filmes pela produtora, mas eles foram suficientes para Beatriz marcar seu lugar na história.
In the same year that Mary Pickford became a partner at United Artists, Beatriz created her own production company: Beatriz Michelena Features. Only two films were produced there, but it was enough to guarantee Beatriz a place in film history.



Aposentada das telas em 1920, Beatriz voltou à ópera. Ela viajou pela América Latina cantando ópera em 1927, e em 1931 um incêndio destruiu todas as cópias dos filmes da Beatriz Michelena Features (algumas cópias sobreviveram em arquivos ao redor do mundo). Beatriz Michelena faleceu em 1942, aos 52 anos.

Retired from the screen in 1920, Beatriz returned to opera. She toured in Latin America singing opera in 1927, and in 1931 a fire destroyed all the film copies at Beatriz Michelena Features (some copies survived in archives around the world). Beatriz Michelena passed away in 1942, aged 52. 


Myrtle e Beatriz, apesar de terem nascido nos Estados Unidos, tinham a força e a graça do sangue latino. Não se curvaram frente às adversidades, conquistaram um lugar ao sol, interpretaram mulheres fortes e corajosas e deixaram um legado a ser admirado por todos, mulheres e homens, latinos e não-latinos.

Myrtle and Beatriz, although American women by birth, had the strengtth and grace found only in Latin blood. They didn’t give up when obstacles appeared, they found a place in the sun, they played courageous strong women and left a legacy that deserves to be admired by all, men and women, Latin or not. 

This is my contribution to the Hollywood's Hispanic Heritage Blogathon 2015, hosted by Aurora at Once Upon a Screen. Bravo!

Friday, October 9, 2015

Variações sobre um mesmo tema: Imitação da Vida / Imitation of Life (1934 e 1959)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.

THIS ARTICLE HAS SPOILERS.

É durante os períodos mais difíceis da vida que descobrimos quem são nossos maiores amigos e mais perigosos e inimagináveis inimigos. Claudette Colbert descobriu isso em 1934. Vinte e cinco anos depois, foi a vez de Lana Turner passar pela mesma experiência, desta vez com mais cor e algumas modificações. Trata-se de uma história de luta, preconceito, traição e muitas, muitas surpresas. E, por ser tão atual em 1934, 1959 ou 2015, tem o sugestivo nome de “Imitação da Vida”.

It is during the most difficult periods of our lives that we find out who are our biggest friends and our most dangerous, and unthinkable of, enemies. Claudette Colbert found those out n 1934. Twenty five years alter, Lana Turner went through the same experience, with more color and some changes. This is a story of struggle, prejudice, treason and many, many surprises. And because it sounds so modern in 1934, 1959 or 2015, it is called “Imitation of Life”.


O ano é 1934. Bea Pullman (Colbert) é viúva, tem de cuidar da filha pequena Jessie e levar adiante o negócio de maple sirup do falecido marido. Por engano bate à sua porta Delilah (Louise Beavers), acompanhada da filha Peola. É o destino que une as duas, pois Bea oferece comida e moradia para que Delilah trabalhe para ela. Não demora para que Bea, muito astuta, transforme uma receita de família de Delilah em um grande sucesso comercial, que muda a vida de ambas.

The year is 1934. Bea Pullman (Colbert) is a widow who has to take care of her little daughter Jessie and deal with her late husband's maple sirup business. By mistake, Delilah (Louise Beavers) and her daughter Peola knock at her door. It's destiny putting the two of them together, because Bea offers food and housing if Delilah works for her. Soon the smart Bea turns Delilah's family recipe into a commercial success, changing both their lives.


O ano é 1959. Lora Meredith (Turner) é viúva e não consegue encontrar sua filha pequena Susie na praia. Com a ajuda de Steve Archer (John Gavin), ela encontra a menina brincando com a filha de Annie (Juanita Moore), uma mulher à procura de emprego. É o destino que une as duas, pois Lora oferece que Annie fique um tempo com ela. Logo Annie se torna babá / empregada e Lora começa uma carreira de sucesso no teatro.

The year is 1959. Lora Meredith (Turner) is a widow who can't find her little daughter Susie at the beach. With the help of Steve Archer (John Gavin), she finds the girl playing with Annie's (Juanita Moore) daughter, and the woman is looking for a job. It's destiny putting the two of them together, because Lora asks Annie to stay with her. Soon Annie becomes a nanny / maid and Lora begins a successful career in the theater.  


A filha de Delilah / Annie, chamada Peola em 1934 e Sarah Jane em 1959, tem pele clara, mas desde a infância sofre por ter o sangue negro da mãe. São tempos de racismo, de segregação, de lugares separados para brancos e negros. É a garota mestiça a personagem mais profunda e sofredora da história, e sua dor não pode ser curada facilmente.

Delilah's / Annie's daughter is called Peola in 1934 and Sarah Jane in 1959. She has fair skin, but since childhood she suffers because of her mother's black blood. Those were times of  racism, segregation, different spots and buildings for white and “colored” people. The mixed-race girol is the deepest and most suffering character in this story, and her pain can't be easily cured.


Delilah fala com a cadência típica dos negros da Hollywood dos anos 1930, cópias vergonhosas dos estereótipos da época da escravidão. Delilah é simplória ao extremo, preferindo cuidar de Bea e Jessie a ter sua própria casa. Ela aceita o sofrimento causado pela rejeição da filha, rejeição esta que também causa dor a Peola, mas nada faz para reagir e voltar a viver.

Delilah speaks with the accent that most black characters did in 1930's Hollywood – a shameful copy of a racist stereotype from the slavery. Delilah is extremely simple, and prefers to take care of Bea and Jessie instead of having her own house. She accepts the suffering cause by her daughter's rejection – a rejection that also makes Peola suffer – but she does nothing to react to it or move on with her life. 


É louvável, entretanto, mostrar que não é apenas a família negra que tem graves problemas, afinal, Steve Archer (Warren William em 1934 e John Gavin em 1959) está para se casar com Bea / Lora, mas quem se apaixona por ele é sua futura enteada Jessie (Rochelle Hudson) / Susie (Sandra Dee). A criação dada pela mulher branca também não foi perfeita, e seu problema chega a ser até mais chocante que o da mulher negra.

It's great, however, to show the not only the black family has grave problems, after all, Steve Archer (Warren William in 1934 and John Gavin in 1959) is about to get married to Bea / Lora, but who falls in love with him is his future stepdaughter Jessie (Rochelle Hudson) / Susie (Sandra Dee). Her upbringing by the white woman also wasn't perfect, and her problem is even more shocking than the black woman's.


John M. Stahl, o diretor da versão de 1934, consegue congelar a segregação em uma só imagem: ricas e bem-sucedidas, Delilah e Bea vivem na mesma casa, mas a mulher branca vive no brilhante piso superior e a mulher negra fica com o piso inferior. Bea não teria enriquecido sem Delilah, e mesmo assim Delilah se resigna ao plano inferior. São apenas duas escadas, mas elas separam toda a humanidade.

John M. Stahl, the director of the 1934 version, is able to freeze segregation in only one image: rich and successful, Bea and Delilah share the same house, but the white woman lives in the shining upper floor and the black woman lives in the floor below. Bea wouldn't have gotten rich without Delilah, and yet Delilah is OK with the floor below. There are only some stairs between them, but they separate the whole mankind.


Foi bom ter Douglas Sirk, o homem das lágrimas, por trás da versão de 1959. Apesar da menor importância de Annie para o sucesso de Lora, o drama da mulher negra tem grande destaque e muitos momentos emocionantes. Outro retrocesso foi ter, no papel de Sarah Jane, a atriz Susan Kohner, filha de mãe mexicana e pai judeu. Em 1934, Peola foi interpretada por Fredi Washington, atriz mulata e militante dos direitos civis.

It was good to have Douglas Sirk, the man of the tears, behind the 1959 version. Even though Annie doesn't have so much importance to Lora's success, the black woman's drama has a lot of space and many moving moments. A downkind was the casting, as Sarah Jane, of Susan Kohner, the daughter of a Mexican mother and a Jewish father. In 1934, Peola was played by Fredi Washington, a mulatto actress and civil rights activist.


Se você tem coração, irá se emocionar com as duas versões. Se tem cérebro, irá pensar sobre as feridas que o racismo deixa. Porém, é outro o mais poderoso efeito: quando acabar o filme, você terá vontade de abraçar sua mãe com muita força e agradecê-la por tudo.

If you have a heart, you will get moved by the two versions. If you have a brain, you will think about of the unseen marks of racism. But the most powerful effect is a different one: when the film is over, you'll want to hug your mother and thank her for everything.

This is my contribution to the They Remade What? Blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies. Double takes are in!

Friday, October 2, 2015

Por favor, vote em mim!

Amigos, leitores, fãs. Chegou o dia em que eu peço um favor a quem acompanha o blog. Um favor, apenas, não. Um voto. Um voto de confiança. Um voto que pode simbolizar um agradecimento por aquele dia em que você descobriu o blog, aquele post que te apresentou um filme incrível ou um "muito obrigado" por manter viva a memória do cinema. E não é só por isso. Aqui vão três razões para votar no blog Crítica Retrô, em um vídeo de campanha baseado na série Three Reasons da Criterion Collection:


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Wednesday, September 23, 2015

Abbott e Costello às voltas com fantasmas / Bud Abbott and Lou Costello Meet Frankenstein (1948)

Os tempos mudam, as décadas passam, o cinema se modifica, mas há algo que nunca para de provocar riso: a comédia física. Desde os primórdios do cinema, ela estava lá. Max Linder, Mabel Normand, Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, Chaplin, Keaton, Harold Lloyd fizeram maravilhas com a comédia física, e ainda encantam as plateias com filmes centenários.
O som chegou ao cinema, mas a comédia física continuou firme e forte. Vindos do vaudeville, os irmãos Marx misturavam bem as frases inteligentes, os trocadilhos, as canções e a comédia física, personificada no sempre incrível Harpo Marx. Vindos de curtas-metragens mudos, Stan Laurel e Oliver Hardy mantiveram um pouco das gags tão características desta era do cinema. E, um pouco parecidos com Laurel e Hardy, seguiram Abbott e Costello a partir dos anos 40.
Bud Abbott era alto, magro, prático e racional. Lou Costello era baixo, gordo, medroso e rico em expressões faciais impagáveis. Naquele que é considerado o melhor filme da dupla, Abbott e Costello interpretam respectivamente Chick e Wilbur, dois (i)responsáveis por uma companhia de seguros que devem levar uma carga preciosa até o show de horrores de MacDougal (Frank Ferguson). Nos caixotes muito bem vedados estão os corpos de Drácula e do monstro de Frankenstein, mas eles não estão nem um pouco mortos.
Drácula (Bela Lugosi) é o primeiro a acordar e assombrar Wilbur, em uma sequência divertida, mas que poderia ser mais curta. Em seguida, o vampiro acorda a criatura do doutor Frankenstein (Glenn Strange), e coloca seu plano maligno em prática: com a ajuda da doutora Sandra Mornay (Lenore Aubert), Drácula quer dar um novo cérebro, completamente obediente, para a criatura. Quem tenta impedir o plano maligno é ninguém mais ninguém menos que o Lobisomem (Lon Chaney Jr).
Costello é o rei da comédia física. Desde o começo ele está derrubando coisas e promovendo o caos. Seus gestos após a fuga dos monstros são descontrolados e hilários. Seu encontro com duas garotas em uma festa a fantasia causa inveja em Abbott e é fonte de boas surpresas. A cena em que ele senta no colo de Frankenstein é carregada de sustos e improvisos. Quando fica tenso, as palavras desaparecem, e resta a Lou Costello tentar se comunicar com gestos. Mas o mais impressionante não é o que Costello faz, mas sim o fato de que ele quase não fez este filme: se recusou a trabalhar com um roteiro que considerou fraquíssimo (ele teria dito que a filha pequena era capaz de escrever algo melhor que “aquilo”). Mas uma conversa amigável (e 50 mil dólares) o convenceram a fazer o filme, para nossa alegria.
O terror é um gênero que, assim como a comédia, depende muito dos efeitos visuais. No castelo de Drácula, as passagens secretas e cenários assombrados criam a mistura perfeita de comédia e suspense. Tanto o horror quanto a comédia dependem de histórias simples que geralmente dão origem a filmes de menos de 90 minutos, com muitas imagens poderosas. Alguns efeitos especiais também estão presentes, como a transformação de Drácula em mamífero voador. E a transformação de Chaney Jr em Lobisomem é um espetáculo à parte. E, curiosidade: na cena em que a criatura de Frankenstein pega Sandra no colo, é Chaney que está por baixo da máscara, pois Glenn Strange estava com o tornozelo machucado.
O cenário do filme é dos mais belos já feitos pela Universal, e lembra muito “O Gato e o Canário / The Cat and the Canary” (1927) e “A Mansão de Frankenstein / House of Frankenstein” (1944), ambos filmes também produzidos pela Universal, de modo que não seria de se espantar se os cenários fossem reutilizados.
O último grande filme dos monstros da Universal foi um dos mais baratos do estúdio, e também um dos maiores sucessos. Mais de 65 anos após sua estreia, o filme mantém o frescor original. Para apreciar o filme, não é preciso conhecer a história por trás de Drácula, Frankenstein e Lobisomem. Não temos piadas perdidas na tradução, não temos nada que passou da validade. Em tempos de American Pies e outras apelações cômicas, a boa e velha comédia física se mostra mais duradoura, atual e importante do que nunca. E viva Abbott e Costello!
This is my contribution to the See You in the 'Fall' Blogathon, hosted by Steve at Movie Movie Blog Blog.

Friday, September 18, 2015

O Dragão Relutante (1941) / The Reluctant Dragon (1941)

Eu tinha seis anos de idade, talvez um pouco mais, e adorava as fitas de vídeo (sim, do tempo do VHS) da Disney. Cada fita vinha com algumas propagandas de outras fitas, verdadeiros trailers feitos especialmente para aqueles lançamentos em vídeo. E um destes trailers era de “O Dragão Relutante” (ou “O Dragão Dengoso”, como também ficou conhecido aqui no Brasil). Desde o primeiro momento do trailer adorei aquele dragão fofo, que preferia escrever poemas a fazer coisas assustadoras de dragão.

I was six years old, maybe a little older, and I loved the Disney home video tapes (yes, I’m from the VCR era). Each tape came with ads from other tapes, true trailers exclusively made for those home video releases. And one of these trailers advertised “The Reluctant Dragon”. Since the first minute I loved that cute dragon, who’d rather write poems than do frightening dragon stuff.


Mas foram necessários muitos anos para que eu finalmente assistisse a “O Dragão Relutante”. As fitas de vídeo viraram objetos de museu, o DVD assumiu o posto, e até o Blu-Ray apareceu, e eu ainda não havia visto “O Dragão Relutante”. Foi quando, em dezembro de 2014, o canal americano TCM (o canal mais abençoado de todos os tempos, e também o paraíso dos fãs de cinema clássico) exibiu o filme como parte de sua série Treasures from the Disney Vault. Foi então que eu relembrei aquele trailer que tinha me marcado tanto na infância, e adicionei “O Dragão Relutante” às minhas resoluções cinematográficas de 2015. O resultado? Foi muito bom ter esperado tanto para ver o filme.

But it took me many years to finally watch “Th Reluctant Dragon”. The VCR tapes became museum artifacts, the DVD became popular, and even the Blu-Ray appeared, and I haven’t watched “The Relucatant Dragon”. In December, 2014 the American TCM (the most blessed channel of all times, and also paradise for classic film fans) exhibited the film as part of Treasures of the Disney Vault series. Then I was reminded of that trailer that had stuck with me since childhood, and I added “The Reluctant Dragon” to my 2015 film resolutions. The result? It was very good to have waited so long to watch the movie.


As crianças com certeza gostariam de “O Dragão Relutante”, mas são os adultos que conhecem um pouco sobre a história do cinema em geral e da Disney em particular que apreciarão mais ainda. Porque o filme é muito mais que um dragão bonzinho. É uma visita aos bastidores dos Walt Disney Studios, uma rara visão do processo criativo das imagens e sons que encantam as plateias, e uma fonte inesgotável de sorrisos.

The kids would certainly enjoy “The Reluctant Dragon”, but adults - who know a little about film history in general and Disney history in particular - are the ones who will appreciate it even more. Because the film is much more than a nice dragon. It’s a visit to the Walt Disney Studios, a rare vision of the creative process that makes images and sounds that enchant the audiences, and an infinite source of smiles.


Robert Benchley é convencido pela esposa a tentar vender uma história para Walt Disney. Aí já começa a diversão: fica claro que a esposa (Nana Bryant) é quem manda, e talvez este detalhe do relacionamento não seja tão divertido para as crianças quanto o é para os adultos. Robert é levado em um tour pelos Estúdios Disney por um jovem e sem graça guia turístico, Humphrey (Buddy Pepper), e logo Robert consegue escapar dele. Ele então passa pela sala dos desenhistas (onde claramente “Dumbo” está sendo gerado), pela sala de dublagem (onde somos apresentados a Clarence Nash, que dubla o Pato Donald), pela sala de efeitos especiais e chega, magicamente, à sala do Technicolor.

Robert Benchley is advised by his wife to try to sell a story to Walt Disney. Fun starts here: it’s clear that the wife (Nana Bryant) is the boss, and maybe this relationship detail isn’t as for for children as it is for adults. Robert is taken for a tour through the Walt Disney Studios by a young and funnyless guide, Humphrey (Budy Pepper), and soon Robert can escape the tour. He then goes through the drawing room (where “Dumbo” is being made), by the dubbing room (where we’re introduced to Clarence Nash, who dubs Donald Duck), by the special effects room and he finally arrives, magically, to the Technicolor room.


Aqui temos uma mudança digna de Dorothy na Terra de Oz: ao fechar a porta Robert entra em um mundo de cores, e ele próprio reconhece que está agora sendo visto em Technicolor. Lá ele conhece o processo de animação do famoso desenho em que Donald tem problemas ao ordenhar uma vaca (aposto que este desenho fez parte de sua infância!). Depois ainda passamos pela “sala do arco-íris” (onde os desenhos recebem cores, e onde vemos Bambi pela primeiríssima vez!), a sala das esculturas (olhe lá Chernabog, que foi motivo de pesadelos para todos que viram “Fantasia”), a sala dos animadores (Pateta!) e finalmente nos encontramos com Walt Disney e com o próprio dragão relutante.

Here we have a change similar to Dorothy’s in the Land of Oz: when he closes the door Robert enters a world of colors, and he even know he’s now being seen in Technicolor. There he gets to know the animation process behind the cartoon in which Donald has trouble trying to milk a cow (I bet this cartoon was part of your childhood!). Then we go through the “Rainbow Room” (wher drawings receive colors, and we see Bambi for the very first time!), the “Sculptures Room” (take a look at Chernabog, who was the source of nightmares for everybody who has seen “Fantasia”) and the “Animators Room” (Goofy!) and we finally meet Walt Disney and the reluctant dragon himself.


Além de Clarence Nash, que dificilmente seria reconhecido pelas crianças, há ainda outras pequenas pérolas que só adultos e cinéfilos notariam: a trilha sonora reproduz as músicas do maior êxito de Disney até então, “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937), o lendário animador Ward Kimball apresenta o primeiro desenho da série “Goffy How To”, Einstein, Freud e Dalí viram personagens animados. E quem é aquele desenhista segurando o modelo do bebê Weems? Ninguém mais ninguém menos que Alan Ladd, mais bonito que nunca!

Besides Clarence Nash, who wouldn’t be recognized by the kids, there are other little treasures that only older cinephiles would notice: the soundtrack brings songs from the most successful Disney movie until then, “Snow White and the Seven Dwarves” (1937), the legendary animator Ward Kimball presents the first cartoon from the series “Goody How To”, Einstein, Freud and Dalí become animated characters. And who is that animator holding the baby Weems model? It’s Alan Ladd, more handsome than ever!

Alan Ladd, Robert Benchley
O Dragão Relutante” estreou durante uma greve dos animadores dos Estúdios Disney, que se mobilizaram para boicotar o filme. Houve um problema envolvendo o Código Hays e o umbigo do dragão (!!) que quase impediu a estreia. Mas o prejuízo foi principalmente resultado da decepção do público, que esperava um filme completamente animado, e não uma mistura de animação e live-action. Este aviso no começo do filme não adiantou:

“The Reluctat Dragon” premiered during an animator’s strike, when Disney Studios animators organized to boycott the film. There was a problem involving the Hays Office and the dragon’s belly button (!!) that almost cancelled the premiered. But the box-office failure came because the public was disappointed – they were waiting for a completely animated film, and not a mix of animation and live-action. This warning in the beginning of the film didn’t work: 

Cartaz criado pelos animadores em greve
Os Estúdios Disney talvez não fossem um lugar maravilhoso como o filme tenta mostrar (a música que acompanha a entrada de Robert nos estúdios é “Whistle While You Work”), mas sem dúvida são um lugar onde sonhos são criados. Se não fosse o TCM, talvez eu não me lembrasse do desejo de ver este filme. E, se não fosse “O Dragão Relutante”, eu talvez não estaria pensando em como eu amo os clássicos Disney.

Disney Studios maybe weren’t the mrvelous place the film tries to show (the song that accompanies Robert’s entrance at the studios is “Whistle While You Work”), but without a doubt it’s the place where dreams are mde. If it wasn’t for TCM, maybe I wouldn’t remember my childish desire to wacth this film. And, if it wasn’t for “The Reluctant Dragon”, maybe I wouldn’t be thinking about how much I love Disney classics.  

This is my contribution to the TCM Discoveries Blogathon, hosted by the knowledgeable Nora at her blog The Nitrate Diva. #LetsMovie

Monday, September 14, 2015

Médica, Bonita e Solteira / Sex and the Single Girl (1964)

Comédia psicodélica dos anos 60 à vista! Começam os créditos e já somos surpreendidos pelo tipo de animação que ficou famosa naquela década com os filmes da Pantera Cor-de-rosa. Uma caricatura de Tony Curtis persegue uma caricatura de Natalie Wood. Símbolos masculinos e femininos nos apresentam também Henry Fonda, Lauren Bacall e Mel Ferrer. Vem coisa boa por aí? Hum, não exatamente.
A psicóloga PhD Helen Brown (Natalie Wood) acaba de escrever um best-seller intitulado “Sex and the S1ngle Girl”, o que rendeu muita notoriedade para ela e para o instituto onde ela trabalha. Mas a revista sensacionalista STOP publicou uma matéria desacreditando a autora, pois a “acusavam” de ser virgem, e, portanto, não ter nenhuma experiência para escrever tal livro. Por trás deste plano maligno está o repórter Bob Weston (Tony Curtis), ele próprio com muita experiência prática sobre o assunto.
Como a médica se recusa a dar uma entrevista para a revista STOP, Bob tira proveito do drama conjugal de seu amigo e vizinho Frank (Henry Fonda), um vendedor de meias que sofre com o ciúme da mulher, Sylvia (Lauren Bacall). Bob finge que é Frank para se consultar com a doutora Helen. Você já imagina o que vai acontecer, não é? Amor à primeira consulta.
Tony Curtis e Natalie Wood têm mais tempo em cena. Em seguida vem Henry Fonda, com uma boa sequência na excêntrica fábrica de meias, cena que poderia ter sido até mais longa. Do quinteto principal (Mel Ferrer interpreta o psiquiatra Rudy), quem tem menos destaque é Lauren Bacall. A moça já havia provado que sabia fazer comédia em “Como Agarrar um Milionário / How to Marry a Millionaire” (1953). Talvez fosse toda a aura séria e sedutora que Lauren tinha desde sua estreia no cinema, aos 20 anos. Talvez seja um problema mais grave: em 1964 Lauren Bacall completou 40 anos, e são poucas as oportunidades para mulheres desta idade em uma indústria sexista como Hollywood quase sempre foi. Mesmo com Fonda admitindo que este era o filme que ele menos gostou de fazer, ele brilha e diverte, mesmo sub-aproveitado. Mas a verdade é que Lauren desempenha bem seu papel. Ela tem química com Henry Fonda, e dá vontade de ver os dois juntos em mais filmes (e dançando o twist, se possível - veja o vídeo:).
Falando em sub-aproveitado, temos também Edward Everett Horton, coadjuvante sempre delicioso de se ver, como o chefe de Bob na revista STOP. Edward, já no final da carreira, tem apenas duas cenas. Outro importante comediante que faz uma breve participação como um policial é Larry Storch.
O passeio no zoológico de Helen e Bob é uma metáfora dos instintos primitivos aflorando, o que fica ainda mais evidente com os gestos de mímica de Tony Curtis em frente à jaula dos macacos. E é assim que o sexo é tratado no filme todo: podíamos estar às vésperas da grande revolução sexual, mas Hollywood ainda não estava totalmente preparada para lidar com o assunto abertamente. Tony Curtis usa o termo “inadequado” para dizer que não conseguia satisfazer a esposa fictícia. Ao final, o filme não é responsável por nenhum grande avanço no tratamento do sexo no cinema, e é provável que desagrade às feministas. Pensando bem, o filme funcionaria perfeitamente se fosse protagonizado por Rock Hudson e Doris Day!
“Sex and the Single Girl” é o título de um best-seller verdadeiro, escrito por, sim, Helen Gurley Brown. Helen foi editora da revista Cosmopolitan, e vendeu os direitos de seu livro e de seu nome por 200 mil dólares para a Warner Bros. O filme nada tem a ver com o livro, apenas utiliza seu título, mas qualquer um ficaria feliz em receber 200 mil para ser interpretado pela linda Natalie Wood nas telas, não?
Os últimos quinze minutos são dignos de uma screwball comedy, com uma divertida perseguição e várias infrações de trânsito. Este é sem dúvida o ponto alto do filme, embora uma sequência anterior também arranque muitas risadas: vestindo um roupão florido, Tony Curtis é comparado, mais de uma vez, “àquele ator, Jack Lemmon” (Lemmon e Curtis se vestiram de mulher no clássico “Quanto Mais Quente Melhor / Some Like It Hot”, de 1959).
O sensacionalismo do título, a crítica inteligente à imprensa dentro da revista STOP, a comédia leve e maluca, o grande elenco: tudo isso rendeu 4 milhões de dólares nas bilheterias. Foi um sucesso, mas visto em 2015 pode ser considerado muito conservador. É um filme bom, mas poderia ser muito melhor.

This is my contribution to the Lauren Bacall Blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.
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