} Crítica Retrô: Mazzaropi

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Friday, June 3, 2022

Uma Pistola para Djeca (1969): faroeste à brasileira

 

Uma Pistola para Djeca (1969): western, Brazilian style

Era uma vez - em meados do século XX - quando um dos astros mais populares do cinema brasileiro era um caipira, Amácio Mazzaropi. Na verdade, ele nasceu em São Paulo, a maior cidade do Brasil, mas sua persona cinematográfica era a de um homem caipira, o “Jeca”. Em seus filmes, quase todos sucessos de bilheteria, Mazzaropi manteve seu coração no interior do Brasil, mas encontrou inspiração em outros lugares - incluindo no gênero faroeste.

Once upon a time - in the mid 20th century - one of the most popular stars in Brazilian cinema was a man of the countryside, Amácio Mazzaropi. He was actually born in São Paulo, Brazil’s biggest city, but his screen persona was of a man from the countryside, the “Jeca”. In his movies, almost always box-office hits, Mazzaropi kept his heart in the countryside, but found inspiration everywhere - including in the western genre.

Mazzaropi parodiou o faroeste em “Uma Pistola para Djeca” (1969). Neste filme, ele interpreta Gumercindo, um fazendeiro cheio de problemas que acredita que todos estes problemas iriam embora se ele tivesse uma pistola. Um dos problemas é grupal: muitos roubos de gado estão acontecendo na região, afetando vários dos amigos de Gumercindo.

Mazzaropi’s western spoof is “Uma Pistola para Djeca” (A Pistol for Djeca, 1969). In this movie, he plays Gumercindo, a farmer full of troubles who believes all his troubles will go away if he gets a pistol. One of the troubles is a group issue: many cattle robberies are happening in the region, affecting several of Gumercindo’s friends.

Outro problema é com a família: a única filha de Gumercindo, Eulália (Patrícia Mayo), foi estuprada pelo filho do latifundiário mais importante da região, o Coronel Arnaldo (Rogério Câmara). O homem nunca foi julgado por seu crime e agora o neto de Gumercindo, Paulinho (Milton Pereira), sofre na escola porque não tem pai.

Another problem is a family one: Gumercindo’s only daughter, Eulália (Patrícia Mayo), was raped many years ago by the son of the most important landowner of the region, Colonel Arnaldo (Rogério Câmara). The man was never judged by his crime and now Gumercindo’s grandson, Paulinho (Milton Pereira), is bullied at school because he doesn’t have a father.

O desejo de Gumercindo se torna realidade quando a viúva Eufrásia (Zaira Cavalcanti), que está apaixonada por ele, lhe dá uma velha pistola e Gumercindo se torna o “Djeca do sertão”, um verdadeiro justiceiro.

Gumercindo’s wish comes true when the widow Eufrásia (Zaira Cavalcanti), who is in love with him, gives him an old pistol and Gumercindo becomes the “Djeca do sertão” (Djeca of the countryside), a true vigilante.

As roupas usadas pelo Coronel e sua família mostram que o filme não é ambientado no tempo presente: é ambientado no Brasil Colônia (1500-1822), quando quase toda a população vivia em fazendas e sobrevivia com a agricultura. Outros filmes de Mazzaropi se passam neste mesmo período - ou mesmo no Brasil Império (1822-1889), quando a vida rural ainda predominava - e a época é perfeita para os tipos de histórias que Mazzaropi gostava de contar.

The clothes worn by the Colonel and his family point out that the film isn’t set in modern times: it’s set during the Colonial Period in Brazil (1500-1822), when almost everyone lived in farms and survived from agriculture. Some other movies by Mazzaropi are set in this period - and even during the Imperial Period (1822-1889), when the rural lifestyle was still predominant - and the time is perfect for the kind of stories Mazzaropi liked to tell.

Djeca é, obviamente, uma referência a Django, o personagem dos western spaghetti italianos que se tornou ultrapopular desde sua primeira aparição em 1966. Django carrega uma metralhadora dentro de um caixão e é um grande estrategista. Nosso Djeca é um homem dedicado à família, honesto - ao contrário do Coronel, que é um hipócrita - e bem menos violento que Django.

Djeca is, of course, a nod to Django, the character from Italian spaghetti westerns that became ultra-popular since his first film premiered in 1966. Django carries a machine gun inside a coffin and is a huge strategist. Our Djeca - being “Jeca” a not-so-sweet way to call people from the countryside in Brazil - is a family-oriented man, honest - contrary to the Colonel, who is an hypocrite - and not nearly as violent as Django.

Ao contrário da maioria dos faroestes - e pode ser meio polêmico dizer que faroestes têm tramas simples, mas muitos deles realmente têm - a trama de “Uma Pistola para Djeca” é incrivelmente complicada, podendo ser chamada inclusive de “folhetinesca”. Há muitos focos narrativos - a família de Gumercindo, os fazendeiros que foram roubados, a vida amorosa do filho do Coronel - e há também muitos plot twists, pessoas acusadas injustamente e um ajuste de contas final que não acontece num tiroteio - embora haja um tiroteio do qual até as mulheres participam.

Contrary to most westerns - and it may be quite polemic to say that westerns have simple plots, but most of them do - the plot in “Uma Pistola para Djeca” is incredibly complicated, something that can be called “feuilleton style”. There are several narrative focuses - Gumercindo’s family, the farmers who have been robbed, the Colonel’s son’s love life - and there are also many plot twists, wrongly accused people and a final settling of accounts that doesn’t happen in a shooting - even though there is a shooting, and even the women take part in it. 

Mazzaropi teve uma carreira prolífica no cinema que durou quase 30 anos. Em sua primeira década nos filmes, mais ou menos entre 1952 e 1960, ele interpretou personagens vivendo no ambiente urbano e lidando com todo tipo de problema: trabalho, família, romance. Em 1959, entretanto, ele encontrou sua mina de ouro ao interpretar “Jeca Tatu” e dali em diante ele interpretaria sempre um homem simples vivendo numa fazenda e lidando, quase sempre, com a ganância de grandes latifundiários que querem prejudicar os homens simples que plantam para sua subsistência.

Mazzaropi had a prolific career in movies that lasted almost 30 years. In his first decade at the cinema, roughly from 1952 to 1960, he played characters in urban environments dealing with all kind of trouble: work, family, love. In 1959, however, he found his gold mine by playing “Jeca Tatu” and from then on focused in rural tales. In his films as Jeca, he would always play a simple man living in a farm and dealing, usually, with the greed of more powerful landowners who want to harm the little men sowing for subsistence.

Mazzaropi mais uma vez faria uma paródia do faroeste em “O Grande Xerife” (1972). Neste filme, Mazzaropi interpreta um funcionário do correio que de repente é nomeado xerife, exatamente quando acontece um crime e um bandido chamado João Bigode precisa ser preso. Em ambos os filmes, há uma mistura de paródia cômica e musical porque - algo que acontece em todos os filmes de Mazzaropi - há números musicais entrelaçados à narrativa.

Mazzaropi would once again spoof the western in “O Grande Xerife” (The Great Sheriff, 1972). In this movie, Mazzaropi plays a man who works at the post office but is suddenly made sheriff, exactly when a crime happens and a bandit named João Bigode (John Mustache) needs to be arrested. In both movies, there is a mix of comic spoof and musical, because - something that happens in all of Mazzaropi’s movies - there are musical numbers intertwined to the plot.

Quando “Uma Pistola para Djeca” foi feito, em 1969, o Brasil era ainda um país muito rural e conservador. Hoje não é mais um país tão rural, mas infelizmente ainda é bem conservador.  Muitas pessoas podiam, em 1969, se identificar com o Gumercindo de Mazzaropi e sua luta do bem contra o mal - algo, aliás, bem comum no faroeste. As pessoas ainda podem se identificar com isto. O humor no filme é simples, por vezes até pueril, e esta é mais uma razão pela qual Mazzaropi se manteve tão popular - com ou sem paródia.

When “Uma Pistola para Djeca” was made, in 1969, Brazil was still a very rural, conservative country. It’s not such a rural country anymore, but it unfortunately remains conservative. Many people could, in 1969, relate to Mazzaropi’s Gumercindo and his fight of good against evil - something that is, by the way, very common in the western genre. People still can relate to it. The humor in the movie is simple, sometimes even childish, and it’s another reason why Mazzaropi has remained so popular - with or without a spoof.

This is my contribution to The Foreign Western blogathon, hosted by Debra at Moon in Gemini. 

Friday, October 21, 2016

Slapstick à brasileira / Slapstick, Brazilian style

Trago verdades: os melhores cursos online sobre cinema são oferecidos pelo TCM em parceria com a Ball State University. Depois do grande sucesso e da maravilhosa experiência de aprendizagem em 2015 com o curso #NoirSummer, fiquei animadíssima ao descobrir que em 2016 seria oferecido o curso #SlapstickFall. Agora seria a vez de estudar o melhor da comédia física, e eu não poderia perder esta oportunidade. E, conforme fui aprendendo, vi alguns paralelos com o cinema brasileiro.


Let me tell the truth: the best online film courses are offered by TCM and Ball State University. After the massive success and wonderful learning experience that was #NoirSummer in 2015, I became ecstatic to find out that in 2016  the course to be offered would be themed #SlapstickFall. Now it'd be time to study the very best of slapstick, and I couldn't miss this opportunity. And, as I learned, I could see some things in common with Brazilian cinema.  



O curso foi, obviamente, centrado em Hollywood, com apenas um desvio para a França e as comédias de Jacques Tati. Isso não significou que não houve filmes de comédia dignos de nota em outros países, foi apenas uma escolha do canal, dos programadores e dos responsáveis pelo curso. Por isso, quero apresentar um pouco da era de ouro da comédia brasileira, não somente para os estudantes do curso, mas para todos os interessados.

The course was, obviously, Hollywood-centered, with only a small detour to France and Jacques Tati's comedies. This doesn't mean that there were no worthy comedy films made in other countries, it was only a choice made by the channel, the programmers and the ones responsible for the course. That's why I want to show this introductory post on Brazilian slapstick, not only for #SlapstickFall alumni, but to all that might be interested.


Nos anos 1950 e 1960, os críticos e especialistas norte-americanos consideravam que a era de ouro da comédia slapstick tinha sido a era do cinema mudo. O filme “Os Reis do Riso” de 1957, surpreendentemente aponta como os mais bem-sucedidos comediantes da época Laurel e Hardy, e isso em parte se deve ao sucesso tanto em filmes mudos quanto falados, e à duradoura relação com o público desenvolvida por anos e anos de reprises, em especial na televisão.

In the 1950s and 60s, critics and film connoisseurs from the US considered that the golden age of slapstick was the silent film era. The film “The Golden Age of Comedy”, from 1957, surprisingly points Laurel and Hardy as the most successful comedians of the time, and this is due to two factors: first, they were successful in both silents and talkies, and second, everybody knew them thanks to years and years of reruns of their features and shorts, in special on TV.


Hoje temos o tempo a nosso favor, e vemos de outra maneira esta época no slapstick. O filme-antologia de 1957 sequer citava Chaplin, Keaton e Lloyd, hoje considerados os três maiores comediantes do cinema mudo.

Today we have the benefit of time, and we see differently this age of slapstick. The anthology film made in 1957 didn't even cite Chaplin, Keaton and Lloyd, who are now considered the three biggest comedians in silent cinema.

Se a era de ouro da comédia americana foi a década de 1920, a era de ouro das comédias brasileiras foi a década de 1950. Um período auspicioso para o cinema como um todo, mas em especial para o slapstick 100% verde e amarelo: as chanchadas, filmes com humor ingênuo e vários números musicais. As chanchadas eram incrivelmente populares, apesar de ser consideradas um gênero vulgar pelos críticos. Algumas chanchadas eram, inclusive, paródias dos sucessos de Hollywood, como “Matar ou Correr” (1954, figura abaixo), paródia de “Matar ou Morrer” (1952), faroeste com Gary Cooper.

If the golden age of American slapstick was the 1920s, the golden age of Brazilian slapstick was the 1950s. It was a wonderful time for Brazilian cinema as a whole, but better for our slapstick: the 'chanchadas', films with naïve humor and a lot of musical numbers. The 'chanchadas' were very popular, although they were considered a lesser, vulgar genre by critics. Some 'chanchadas' were actually parodies of Hollywood films, like “Kill or Run” (1954, image below), a parody of “High Noon” (1952), a western with Gary Cooper.



E, assim como na Hollywood muda, o Brasil das chanchadas também teve sua trindade cômica principal. Os americanos tinham Chaplin, Keaton e Lloyd, nós tínhamos Mazzaropi, Ankito e Oscarito. Obviamente, havia outros tantos comediantes na época, com menos destaque ou cuja importância histórica diminuiu ao longo dos anos. Os americanos tinham, entre os representantes menores do slapstick, Charley Chase, Ben Turpin, Billy Bevan, Larry Semon, Harry Langdon, e também Mabel Normand. Os brasileiros tinham Costinha, Arrelia, Zé Trindade, Walter D'Ávila, Mesquitinha, e também Dercy Gonçalves.

And, just like in Hollywood, the Brazil from the 'chanchadas' also had their Big Three in comedy. The Americans had Chaplin, Keaton and Lloyd, we had Mazzaropi, Ankito e Oscarito. Obviously, there were many other comedians at the time, not so successful or not so historically important. The Americans had, among the lesser comedians, Charley Chase, Ben Turpin, Billy Bevan, Larry Semon, Harry Langdon, and also Mabel Normand. The Brazilians had Costiha, Arrelia, Zé Trindade, Walter D'Ávila, Mesquitinha, and also Dercy Gonçalves.

E a trindade cômica brasileira em muito se parece com a americana! Quer ver?

And the Brazilian Big Three had a lot in common with the American ones. Wanna see?


Charles Chaplin e Amácio Mazzaropi faziam filmes que misturavam comédia e drama, e que mexiam com as emoções no público. No começo da carreira, ambos estavam focados na comédia da moda, mas anos mais tarde desenvolveram sua persona cinematográfica, seu estilo próprio, e passaram a explorá-lo até o final de suas carreiras. Chaplin fez isto misturando risos e lágrimas em “O Garoto” (1921), e Mazzaropi começou a explorar mais assuntos sociais e dramas rurais a partir de “Jeca Tatu” (1959).

Charles Chaplin and Amácio Mazzaropi both made films mixing comedy and drama, and loved to play with the feelings of the audience. In the beginning of their careers, both did the kind of comedy that was in vogue, but years later they developed their film personas, an unique style, and explored it until the end of their careers. Chaplin did it by mixing laugh and tears in “The Kid” (1921), and Mazzaropi started exploring social issues and rural dramas after “Jeca Tatu” (1959).



Buster Keaton e Ankito (nascido Anchizes Pinto) eram os acrobatas. Ambos começaram a carreira fazendo acrobacias: Buster no vaudeville, Ankito no circo. Ankito foi, inclusive, cinco vezes campeão sul-americano de acrobacias. Nos filmes, ambos continuaram mostrando o lado atlético e sempre recebiam os golpes da vida com uma atitude blasé, despreocupada, até um pouco ingênua. Keaton sofreu alguns acidentes em sua carreira, e Ankito caiu de um prédio em construção durante as filmagens de “Um Candango na Belacap”, em 1960. Tudo sem maiores consequências. Ambos se dedicaram à televisão no final da carreira.

Buster Keaton and Ankito (born Anchizes Pinto) were the acrobats. Both started their careers doing acrobatics: Buster in vaudeville, Ankito at the circus. Ankito was even South American acrobatic champion for five times. At the movies, both showed their athletic side and always received the blows of life with a blasé, not worried, even naïve attitude. Keaton suffered a few accidents on set, and Ankito fell from a building during filming “Um Candango na Belacap”, in 1960. All without big consequences. Both worked on television later in life.


Harold Lloyd ganhou mais dinheiro que Chaplin e Keaton. E não havia concorrência na bilheteria quando um filme de Oscarito estava em exibição. Oscarito nasceu na Espanha, mas veio para o Brazil com um ano de idade, e aos cinco anos entrou para o circo. Oscarito fez uma dupla de sucesso com Grande Otelo, que se saía bem tanto no drama quanto na comédia. Em termos de sucesso, o filme “Esse Milhão é Meu” (1959) detém um recorde: levou 15 milhões de pessoas ao cinema, o equivalente a um quarto da população brasileira na época.

Harold Lloyd made more money than Chaplin and Keaton. And there was no place for anybody else when one of his films hit the theaters. Oscarito was born in Spain, but came to Brazil at age one and at age five he joined the circus. Oscarito was part of a successful duo with Grande Otelo, an actor brilliant in both drama and comedy. If you consider success, the film “This is my Million” (1959) set a record: it was watched by 15 million people, or one quarter of the Brazilian population at the time.



Você sabe aquele ditado: “O tempo voa quando você está se divertindo”? Foi isso que aconteceu com o curso #SlapstickFall. E a chanchada?, vocês devem estar se perguntando. Em 1962 a Atlântida, companhia cinematográfica mais associada ao gênero, produziu sua última chanchada. Um dos principais nomes do Cinema Novo brasileiro, Glauber Rocha, criticava agressivamente as chanchadas. A chanchada, entretanto, nunca morreu: como toda boa tradição no slapstick, ela ainda influencia o humor brasileiro.

Do you know that old saying: “Time flies when you’re having fun”? It was exactly what happened with the #SlapstickFall course. And what about the ‘chanchada’?, you must be asking yourselves. In 1962, Atlântida, the cinematographic company responsible for the most ‘chanchadas’, released the last film from this genre. One of the main names of Brazilian New Cinema, Glauber Rocha, aggressively criticized the ‘chanchadas’. However, the ‘chanchada’ never died: as any good slapstick tradition, it stil has an influence in Brazilian humor.   

Wednesday, April 4, 2012

Centenário de Mazzaropi

Era uma entediante tarde de domingo, há MUITOS anos (se é que se pode dizer “há MUITOS anos” quando se tem apenas 18 de idade) e eu decidi assistir a um filme que estava começando. O artista era Mazzaropi, sobre quem eu já havia lido em um almanaque. Não lembro o nome do filme, sequer o enredo, mas a lembrança do riso ficou. Riso compartilhado com milhares de outras pessoas que tiveram a sorte de vê-lo na tela grande e que também não esqueceram a comicidade deste artista cujo centenário será comemorado em breve.
Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo em 9 de abril de 1912, filho de um italiano com uma descendente de portugueses, e recebeu o mesmo nome do avô, Amazzio. Mas seria o outro avô sua maior inspiração, pois era tocador de viola e dançarino. Os pais passaram a trabalhar em uma companhia de tecelagem em Taubaté, onde ele mais tarde também trabalharia. Era bom aluno, sempre declamava poemas em festas escolares e foi aos 10 anos, num monólogo, que pela primeira vez interpretou um caipira.
Assim como outros astros do cinema brasileiro, Mazzaropi começou no circo, juntando-se a uma trupe aos 14 anos e contando piadas entre as apresentações de um faquir. Três anos depois, ele se viu obrigado a voltar para casa sem emprego, mas a efervescência trazida pela Revolução de 32 reacendeu sua vontade de atuar. Não demoraria para que ele transformasse o mais famoso grupo itinerante do interior de São Paulo, a Troupe Olga Crutt, na Troupe Mazzaropi, inclusive levando seus pais para trabalharem com ele.
Quase dez anos depois, Mazzaropi recebeu boas críticas por sua peça “Filho de sapateiro, sapateiro deve ser”. Com o sucesso veio em 1946 o convite para o programa Rancho Alegre, da Rádio Tupi, em que ele contava piadas e cantava ao som de uma sanfona. Só na primeira semana, ele recebeu 2000 cartas de fãs, que lotavam os espetáculos que ele fazia pelo país.
Mazzaropi teve o privilégo de se apresentar na estreia da TV Tupi tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, respectivamente em 1950 e 1951. Seu programa Rancho Alegre seria a primeira atração da televisão brasileira a contar com um patrocinador.
Ao contrário de tantos outros artistas, o cinema foi o último território a ser desbravado por Mazzaropi. Em 1951 ele assinou contrato com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, onde faria seus três primeiros filmes, passando por diversas outras produtoras até fundar a sua própria em 1958: Produções Amácio Mazzaropi, a PAM Filmes. Para produzir as primeiras películas, ele vendeu tudo o que tinha. Valeu a pena: fez mais sucesso, ganhou seu próprio programa de variedades e comprou uma fazenda para construir seu estúdio.
Em 1960 ele fez o filme Jeca Tatu, repetindo o papel de caipira em mais nove produções. No mesmo ano estreia na direção, com “As aventuras de Pedro Malasartes”. E o pioneirismo não parou por aí: “Tristeza do Jeca”, do mesmo ano, seria o primeiro filme nacional colorido em Eastmancolor, tendo sido editado no México. E, por fim, em 1973 sairia o primeiro de seus dois filmes rodados no exterior: “Um caipira em Bariloche”.
Mazzaropi ganhou diversos prêmios durante sua carreira. Seu filme “No paraíso das solteironas” rendeu, em um ano, 2 bilhões e 650 milhões de cruzeiros. Rodou um filme autobiográfico, “Betão ronca ferro”, em 1970, e dois anos depois se encontrou com o presidente Emílio Garrastazu Médici, pedindo maiores verbas para o cinema brasileiro. Ele se encontraria com mais dois presidentes, sempre falando sobre a sétima arte.
Sucesso garantido
O artista nunca se casou, mas, segundo alguns depoimentos, criou ao longo de sua vida cinco meninos, embora em algumas biografias conste que ele teve apenas um filho adotivo, de nome Péricles. Mazzaropi faleceu em 13 de junho de 1981, aos 69 anos, de septicemia (infecção generalizada), dois anos antes da morte da mãe. Fez ao todo 32 filmes e contracenou com grandes nomes, como Hebe Camargo, Odete Lara, Luís Gustavo e Tarcísio Meira, tendo estes últimos estreado sob a tutela do mestre. Ensinou gerações a rirem com sua personagem caipira, mas na vida real era ambicioso, perspicaz e gostava de se vestir com elegância. Caipira esperto, uai!  
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