} Crítica Retrô: Rex Harrison

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Saturday, November 9, 2024

Uma Mulher do Outro Mundo (1945) / Blithe Spirit (1945)

 Uma discussão recente causou frisson entre os cinéfilos do Twitter porque um usuário disse que filmes antigos eram displicentes quanto ao uso das cores. Esta pessoa poderia mudar sua visão caso assistisse a qualquer filme em Technicolor feito na Inglaterra nos anos 1940 – os mais notáveis exemplos sendo os filmes de Powell e Pressburger “Narciso Negro” (1947) e “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948). De 1945 vem outra maravilha do Technicolor: “Uma Mulher do Outro Mundo”, baseado na obra de Noël Coward.  

A recent discussion caused frisson on Film Twitter because an user said that old movies didn’t put an effort when the issue was color. This person could have his/her mind changed if he/she watched any Technicolor marvel made in 1940s England – the most notorious examples being Powell and Pressburger’s movies such as “Black Narcissus” (1946) and “The Red Shoes” (1948). From 1945 comes another Technicolor marvel: Noël Coward’s “Blithe Spirit”.

Charles Condomine (Rex Harrison) é um autor prestes a iniciar a escrita de seu novo livro – mas primeiro ele precisa fazer uma pesquisa. Ele e a esposa Ruth (Constance Cummings) convidam para jantar um casal de amigos e também uma médium chamada Madame Arcati (Margaret Rutherford). O objetivo é ver que o transe da Madame não passa de charlatanismo, mas algo acontece: a primeira esposa de Charles, Elvira (Kay Hammond), que havia morrido sete anos antes, é invocada. Mas apenas Charles pode vê-la e ouvi-la!

Charles Condomine (Rex Harrison) is a writer ready to start his new book – but first he needs to do some research. He and his wife Ruth (Constance Cummings) invite over for dinner a couple of friends and also a psychic named Madame Arcati (Margaret Rutherford). The goal was to see how Madame’s trance was nothing but charlatanism, but something happens: Charles’ first wife, Elvira (Kay Hammond), who died seven years before, is summoned. But only Charles can see and hear her!

A materialização de Elvira, obviamente, traz todo tipo de problema. Ao falar com ela, é como se Charles dissesse ofensas para Ruth. Quando Elvira começa a interagir com os objetos da casa, Ruth se apavora, como seria esperado na presença de um fantasma. E que fantasma: com pele pálida e unhas e lábios de um vermelho vivo, Elvira deveria aparecer em todas as listas de mais memoráveis fantasmas do cinema.

Elvira’s materialization, of course, brings all sorts of troubles. When talking to her, Charles is perceived as saying offenses to Ruth. When Elvira starts interacting with the things in the house, Ruth freaks out, as one does in the presence of a ghost. And what a ghost: with pale skin and bright red lispstick and nail polish, Elvira should figure in all the lists of most memorable ghosts of cinema.

É interessante notar que muito do diálogo entre Charles e Ruth acontece ao redor da mesa, conforme consomem suas refeições. Isto destaca as origens teatrais de “Uma Mulher do Outro Mundo” e também adiciona a empregada Edith (Jacqueline Clarke) à ação.

It’s interesting to notice that much of Ruth and Charles’ dialogue happens around the table where they are sharing meals. This highlights the theatrical origins of “Blithe Spirit” while also adding the maid Edith (Jacqueline Clarke) to the action.

O visual de Elvira foi criado misturando roupas e maquiagem verde-fluorescente com truques de iluminação – e os efeitos especiais ganharam um Oscar. Kay Hammond literalmente brilha como Elvira, um papel que foi pensado para Myrna Loy – e ela escreveu que havia “nascido para interpretar o papel” – mas a atriz não foi emprestada pela MGM. Filha dos atores Guy Standing e Dorothy Hammond, Kay encontrou sucesso no teatro, onde deu origem à personagem Elvira em 1941, e fez 38 filmes entre 1930 e 1961.

Elvira’s look was created by a mix of fluorescent green clothes and make-up and lighting tricks – and the special effects won an Oscar. Kay Hammond literally shines as Elvira, a role that was intended for Myrna Loy – and one she said she was “born to play” – but the actress wasn’t loaned by MGM. The daughter of actors Guy Standing and Dorothy Hammond, Kay found success in the theater, where she originated the role of Elvira in 1941, and made 28 movies between 1930 and 1961.

Não podemos falar da história das cores no cinema sem mencionar a supervisora de Technicolor Natalie Kalmus. De acordo com o IMDb, ela é creditada em quase 400 filmes feitos entre 1928 e 1950, com dezenas de créditos todos os anos. Esposa de Herbert T. Kalmus, inventor do processo Technicolor, Natalie contribuiu com a invenção e era inserida nos sets de filmagem para supervisionar o uso das câmeras de Tehcnicolor, que eram sensíveis e caras, e decidir as melhores cores para cenários e figurinos. Problemas com as cores fizeram com que as filmagens de “Uma Mulher do Outro Mundo” se prolongassem, e no final Margaret Rutherford estava reclamando que as filmagens duraram seis meses e não as doze semanas previstas.

We can’t talk about the history of color in film without mentioning Technicolor supervisor Natalie Kalmus. According to IMDb, she is credited in almost 400 movies made between 1928 and 1950, with dozens of credits every year. The wife of Herbert T. Kalmus, the inventor of the Technicolor process, Natalie contributed to the invention and was put in film sets to oversee the use of Technicolor cameras, that were both sensitive and expensive, and to decide the colors in sets and clothes. Issues with color made the production of “Blithe Spirit” drag, and in the end Margaret Rutherford was complaining that they were shooting for six months instead of the twelve weeks planned. 

A peça de Noël Coward foi escrita em 1945 e o autor – também produtor do filme – não vendeu os direitos para Hollywood porque as adaptações de seu trabalho feitas por norte-americanos não haviam lhe agradado. Mesmo assim, com as mudanças feitas pelo roteirista e diretor David Lean – que incluíram mudar o final, impossível nos palcos – Coward declarou que a melhor peça que ele havia escrito foi arruinada.

Noël Coward’s play was written in 1941 and the author – also producer of the movie – didn’t sell the rights to Hollywood because he disliked the adaptations of his work made by North Americans until then. Nevertheless, with the changes made by screenwriter and director David Lean – including changing the end, adding one that would be impossible on stage –, Coward declared that they ruined the best play he’d ever written.


Nós, como humanos, amiúde pensamos e imaginamos o que acontece depois que morremos. Há um Paraíso ou uma vida após a morte? O cinema tentou responder à questão de muitas maneiras e em muitas ocasiões. Elvira volta do além mas conta pouco do que acontece por lá. Temos visões mais elaboradas da próxima vida em filmes como “Neste Mundo e no Outro” (1946), da já mencionada dupla Powell e Pressburger. O assunto é tão presente e pertinente que não apenas filmes sobre isso são sucesso mas também médiuns como a Madame Arcati têm sua clientela para conversar com o além.

We, as humans, often think and imagine what happens after we die. Is there a Heaven or an afterlife? Cinema tried to answer the question in many ways and occasions. Elvira comes back from beyond but tells little about what happens there. Wa have more elaborate views of the next life in films such as “A Matter of Life and Death” (1946), by the aforementioned duo Powell and Pressburger. The issue is so present and pertinent that not only movies about it are a success but also psychics such as Madame Arcati have their clientele to talk to the beyond.

“Uma Mulher do Outro Mundo” foi um fracasso de bilheteria, por causa de erros na escalação de elenco, de acordo com o roteirista Anthony Havellock-Allan. Ele disse que precisavam de um homem de meia-idade – e não Rex Harrison – e uma primeira esposa atraente – Constance Cummings era mais bonita que Kay Hammond, Anthony declarou. Mesmo assim, o filme sobreviveu ao teste do tempo e agora é considerado um clássico, e um clássico muito divertido!

“Blith Spirit” was a box-office failure, due to a mistaken casting, according to screenwriter Anthony Havellock-Allan. He said the need was for a middle-aged man – not Rex Harrison – and an attractive first wife – Constance Cummings was more attractive than Kay Hammond, Anthony noticed. Nevertheless, the film stood the test of time and now is righteously considered a classic, and a very enjoyable one!

 

This is my contribution to A Haunting Blogathon: In the Afterlife, by the Classic Movie Blog Association.

Thursday, June 19, 2014

O Fabuloso Dr. Dolittle (1967) / Doctor Dolittle (1967)

Considerado um dos piores (se não O pior) indicados ao Oscar de Melhor Filme, “O Fabuloso Doutor Dolittle” também representou o ponto mais baixo da carreira do grande Rex Harrison. Mas, querendo ou não, eu adoro este filme. É meu “guilty pleasure”. E nem posso dizer que o que sinto é uma nostalgia de quem viu um filme na infância e não liga para a qualidade real da obra, porque eu só fui ver as infames aventuras do médico que fala com os animais quando eu tinha 20 anos.

Considered one of the worst (if not THE worst) films to be ever nominated to the Best Picture Oscar, “Doctor Dolittle” also represented the lowest point in Rex Harrison's career. I can't help but love this film. It is my guilty pleasure. And I can't even say that it is a nostalgic feeling of someone who saw this film as a child and doesn't care for the real artistic qualities, because I only saw the infamous adventures of the doctor who talks to animals when I was 20.


John Dolittle (Rex Harrison) é um veterinário que fala com os animais. Seu maior objetivo no momento é encontrar o misterioso caracol rosa gigante (“Great Pink Sea Snail”). Já dá para imaginar como o filme vai ser bizarro. Junto com ele vão Emma Fairfax (Samantha Eggar), Matthew Mugg (Anthony Newley) e o garotinho Tommy Stubbins (William Dix). Antes de partir, ele conta a seus novos amigos que foi com a ajuda do papagaio Polinésia que ele, um médico comum, aprendeu a se comunicar com os animais.

John Dolittle (Rex Harrison) is a veterinarian who talks to animals. His biggest goal at the moment is to find the mysterious Great Pink Sea Snail. For this alone you can imagine how bizarre the film is. Accompanying him there are Emma Fairfax (Samantha Eggar), Matthew Mugg (Anthony Newley) and the little boy Tommy Stubbins (William Dix). Before leaving, he tells his new friends that he, a common doctor, learned to talk to animals with a little help from the parrot Polinesia.
"Great Pink Sea Snail"

Embora estar cercado de animais possa parecer um sonho para muitos (e certamente é um prazer para o doutor Dolittle), o que aconteceu nas gravações foi um pequeno inferno na Arca de Noé. Rex Harrison foi ferido diversas vezes pelos animais e serviu de vaso sanitário para as ovelhas urinarem. Esquilos comeram parte do cenário, um esquilo desmaiou depois de tomar gim e uma cabra comeu o roteiro. Polinésia, o papagaio, aprendeu a dizer “corta” e atrapalhou a gravação de um número musical, fazendo com que Harrison dissesse, bem-humorado: “é a primeira vez que eu sou dirigido por um papagaio!”.

Although being sorrounded by animals may sound like a dream for many (and it certainly is a pleasure for doctor Dolittle), the shooting was like a small hell in Noah's Ark. Rex Harrison was hurt several times by the animals and was used as a toilet by sheep. Squirrels ate part of the set, a squirrel passed out after drinking gin and a goat ate the script. Polinesia, the parrot, learned to yell “cut” and interrupted the shooting of a musical number, to what Harrison, in a good mood, answered: “it's the first time I'm directed by a parrot!”


E por que “O Fabuloso Doutor Dolittle” foi um fracasso? Talvez por sua duração exagerada (152 minutos)? Ora, “Mary Poppins” (1964) tem 144 minutos e tudo mundo ama Mary Poppins! Seriam os animais (em especial o caracol rosa que não é rosa)? Não, todas as crianças adoram animais, e o dito caracol ajudou o filme a ganhar o Oscar de Melhores Efeitos Especiais (a lhama de duas cabeças “Pushmi-Pullyu” já é outra história). Hum, talvez a história inverossímil e cheia de reviravoltas em circos, tribunais e hospícios? Talvez, talvez...

Why was “Doctor Dolittle” a disappointment? Maybe because it was 152 minutes long? Well, “Mary Poppins” (1964) is 144 minutes long and everybody loves Mary Poppins! Were the animals the cause (in special the pink snail that wasn't pink)? No, all kids love animals, and the said snail made the film win the Best Special Effects Oscar (the two-headed llama Pushmi-Pullyu is something eles). Maybe it was the unbelievable story, full of plot twists in circuses, courts and asylums? Maybe, maybe...

Mesmo o fato de Dolittle ser um homem que gosta mais de animais do que de pessoas (nas próprias palavras do médico) já foi apontado como uma das causas do fracasso do filme. Em um ano dominado por “No Calor da Noite / In the Heat of the Night”, que ganhou 5 Oscars, foi surpreendente ver “O Fabuloso Doutor Dolittle” com nove indicações e dois prêmios – um deles, o de Melhor Canção Original pela adorável “Talk to the Animals”. Truman Capote, enfurecido pelo filme “A Sangue Frio”, baseado em seu livro, não ter sido indicado ao Oscar, disse na ocasião: “Anything allowing a Dolittle to happen is so rooked up it doesn’t mean anything!”.

The fact that Dolittle was a man who likes animals more than people (he says that in the movie) was also cited as one of the causes for the film’s box-office failure. In a year dominated by “In the Heat of the Night”, a film that won 5 Oscars, it was a surprise to see “Doctor Dolittle” with nine nominations and two awards – one of them being Best Original Song for the adorable “Talk to the Animals”. Truman Capote, angered because the movie “In Cold Blood”, based on his book, wasn’t nominated to the Oscar, said: “Anything allowing a Dolittle to happen is so rooked up it doesn’t mean anything!”.


Talvez a maior crítica feita ao filme seja o fato de Rex Harrison não saber cantar. Talvez a escolha de um cantor profissional para o papel protagonista tivesse sido mais interessante. Eu, pessoalmente, adoraria ver Frank Sinatra ou Bing Crosby como Doutor Dolittle! (Pense bem: Sinatra seria a escolha mais FASCINANTE possível para o papel!).

Maybe the biggest criticism made to the film is that Rex Harrison can’t sing. Maybe it’d have been more interesting if a professional singer was chosen instead. I, personally, would love to see Frank Sinatra or Bing Crosby as Doctor Dolittle! (Think: Sinatra would have been the most FASCINATING choice for the role!).

Quem quer um boneco do Rex Harrison? /
Who wants a Rex Harrison doll?
Mas a polêmica é maior: Rex Harrison aceitou o papel porque trabalharia novamente com o letrista Alan Jay Lerner, de “My Fair Lady”, peça que rendeu um Tony e um Oscar a Rex (e não é uma estranha coincidência que o nome da protagonista de “My Fair Lady” seja Eliza Doolittle?). Mas Lerner foi demitido na fase de pré-produção e, devido às suas reclamações, Rex perdeu o emprego pouco depois. Mas, ao saber que Christopher Plummer poderia ser seu substituto, o bom e velho Rex Harrison foi pedir o papel de volta. Mesmo assim, Plummer recebeu os 300 mil dólares do contrato. Outras opções para o papel principal eram Alec Guinness, Jack Lemmon, Peter Sellers e Peter Ustinov (eu escolheria Jack Lemmon).

But there is more trouble: Rex Harrison only accepted the role because he’d work again with lyricist Alan Jay Lerner, from “My Fair Lady”, a play and movie that gave a Tony and an Oscar to Harrison (and isn’t it a weird coincidence that the lead of “My Fair Lady” is named Eliza Doolittle?). However, Lerner was fired during pre-production and, after complaining, Rex Harrison was also fired. When he learned that Christopher Plummer could replace him, good old Rex begged to have the role back. Plummer received 300 thousand dollars anyway, because he had signed a contract. Other options for the role were Alec Guinness, Jack Lemmon, Peter Sellers and Peter Ustinov (I’d have picked Jack Lemmon).


Logo após o sucesso estrondoso de “A Noviça Rebelde / The Sound of Music” (1965), a Fox decidiu investir em musicais grandiosos. Foram três tentativas, e todas fracassaram. “O Fabuloso Doutor Dolittle” foi a aposta de 1967, enquanto em 1968 a grande produção era “A Estrela / Star!”, com Julie Andrews, e em 1969 foi a vez de “Hello, Dolly!”, estrelando Barbra Streisand e com direção de Gene Kelly.

Right after “The Sound of Music” (1965), which was a huge triumph, Fox decided to invest in big musicals. Three attempts were made, and all three failed. “Doctor Dolittle” was the 1967 attempt, while in 1968 the big production was “Star!”, with Julie Andrews, and in 1969 it was “Hello, Dolly!”, syarring Barbra Streisand and directed by Gene Kelly.

DENTRO do "Great Pink Sea Snail"! /
Inside the Great Pink Sea Snail!

O personagem doutor Dolittle foi inventado por Hugh Lofting nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, de onde ele escrevia cartas esperançosas para os filhos. As histórias foram publicadas em 1920, com sucesso instantâneo, e serviram de base para um desenho animado alemão de 1928 e uma série de rádio na década de 1930. A personagem Emma não existia nos livros e foi criada exclusivamente para adicionar romance ao filme. E que romance: ela é cobiçada ao mesmo tempo por Dolittle e Matthew!

The character Doctor Dolittle was invented by Hugh Lofting when he was fighting in World War I, and wrote, from the trenches, hopeful letter to his children. The stories were published in 1920, with instant success, and inspired a German cartoon in 1928 and a radio series in the 1930s. The character Emma didn’t exist in the books and was created to add romance to the movie. And what a romance: she is courted by both Dolittle and Matthew!


Mas vamos analisar com calma: “O Fabuloso Doutor Dolittle” é um belo filme, não apenas visualmente. As músicas são adoráveis, embora não memoráveis, e Rex Harrison dá ao médico ares de gentleman poliglota. O modo como os nativos africanos são retratados, como homens inteligentes, vai na contramão dos costumes da época e também dos livros de Hugh Lofting. E pensar que o papel do rei William Shakespeare X (Geoffrey Holder) tinha sido oferecido para Sidney Poitier!

But let’s analyze it with calm: “Doctor Dolittle” is a beautiful film, and not only visually speaking. The songs are adorable, although not remarkable, and Rex Harrison makes the doctor look like a multilingual gentleman. The way the African people is portrayed, as intelligent men, is the opposite of what was expected at the time, and also the opposite of what can be found in Hugh Lofting’s books. Imagine that the role of king William Shakespeare X (Geoffrey Holder) was offered to Sidney Poitier!


Esqueça o que foi dito sobre “O Fabuloso Doutor Dolittle”. Veja o filme. Se este post de defesa de um filme tão adorável não foi capaz de convencer você de que vale à pena vê-lo, talvez estes créditos iniciais fofos o convençam:

Forget about what has been said about “Doctor Dolittle”. Watch the movie. If this article defending such an adorable film wasn’t enough to convince you that it is worth watching, maybe these cute opening credits can convince you:


This is my contribution to the “1967 in Film” Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Rosie at The Rosebud Cinema.

Friday, August 30, 2013

Variações sobre o mesmo tema: Anna e o Rei do Sião (1946) e O Rei e Eu (1956)

Embora Reginald Johnson, tutor do último imperador da China, tenha tido uma papel semelhante na história e tenha sido também eternizado no cinema por Peter O’Toole em “O Último Imperador” (1989), Anna Leonowens continua como a mais famosa educadora ocidental no oriente. Essa premissa já se mostra falsa ao descobrirmos que Anna nascera na Índia, mas esta é apenas uma das muitas licenças cinematográficas sobre a vida da mulher que serviu ao rei do Sião e cuja história foi contada em dois filmes inesquecíveis.
Anna Leonowens (Irene Dunne em 1946 e Deborah Kerr em 1956) é uma viúva inglesa que viaja ao Sião com o filho, pois foi contratada para ser tutora dos filhos do rei Mongkut (Rex Harrison e Yul Brynner). Não demora para que Oriente e Ocidente entrem em conflito e choques culturais aconteçam. Para começar, Anna se surpreende com a poligamia e com as centenas de filhos do rei. Depois, vossa majestade instala a tutora no palácio, e não em uma casa própria, como ele havia prometido. A situação fica realmente crítica quando chega a escrava birmanesa Tuptim (Linda Darnell e Rita Moreno), a nova esposa do rei que não quer se casar de jeito de nenhum, porque tem outro amor.
O rei do Sião passou para a história como um dos monarcas mais hilários que já existiu, graças à visão sempre eurocêntrica com a qual é retratado. Rex Harrison, em seu primeiro trabalho no cinema americano, está bem magro, excessivamente maquiado e bastante divertido. A vontade de obter mais conhecimento e o descompasso entre as tradições inglesa e siamesa fica mais latente na versão de 1946. Dez anos depois, o traço maior de fome de saber do rei é a música “A Puzzlement”, a única cantada pelo personagem.
Os originais
Anna é explorada mais a fundo na versão de 1946. Ela passa por momentos de raiva, compaixão, admiração e divertimento com o rei. Ela se envolve com os problemas das muitas esposas, de Tuptim em especial. Ela é mais incisiva em suas vontades e em suas lições tanto para as crianças quanto para o rei. Talvez o fato de Irene Dunne já ser uma grande estrela na época tenha direcionado o foco dessa versão mais para Anna, enquanto o musical foca bastante no rei. Não que Deborah Kerr esteja mal: dublada em suas canções por Marni Nixon, ela expressa saudades do marido falecido e o amor pelas crianças.
A Anna de Irene é mais maternal, e o filme de 1946 dá bastante espaço para Louis (Richard Lyon e Rex Thompson), o filho de Anna, que inclusive se torna amigo do príncipe Chulalongkorn (Tito Renaldo e Patrick Adiarte) e cujo destino é bastante fantasioso neste filme. Ambas as versões ocultam um fato: Anna não tinha um, mas dois filhos: além de Louis, ela levou também ao Sião a filha mais velha, Avis. A Anna de Deborah Kerr não era nem para ter existido: a ideia inicial era que Gerturde Lawrence fizesse o mesmo papel que fazia ao lado de Yul na Broadway. Entretanto, ela faleceu antes do início das filmagens e começou a cruzada para arranjar uma substituta. Kerr não foi a primeira opção, pois Maureen O’Hara, cujo potencial como cantora quase nunca é reconhecido, foi recusada. Além do mais, Dunne é uma confidente do rei, enquanto a relação de Kerr com o soberano tem um lado mais amoroso, pois ele sente ciúmes dela e a música “Shall We Dance” mostra toda a tensão sexual entre eles.
A disputa é acirrada quando se trata do rei. Não é possível negar que este é o papel mais comumente associado a Yul Brynner, um tipo exótico que sem o rei do Sião dificilmente conseguiria trabalho em Hollywood. Brynner deu vida a Mongkut desde a estreia do musical em 1951 na Broadway, e continuou protagonizando novas temporadas dele até sua morte em 1985, além de interpretar o rei na televisão em 1972. Rex Harrison, por sua vez, tem outros personagens memoráveis, entre eles o protagonista de “O Fantasma Apaixonado \ The Ghost and Mrs Muir” (1947) e o professor Higgins em “My Fair Lady” (1964), pelo qual ganhou o Oscar. “O Rei e Eu” foi o responsável por dar o Oscar de Melhor Ator a Yul Brynner, e aqui tenha minha opinião: quem merecia o prêmio na ocasião era Kirk Douglas por interpretar Van Gogh em “Sedede Viver \ Lust for Life”. 
Todas as obras referentes a Anna e o rei do Sião são baseadas nas memórias de Anna e também no livro escrito por Margaret Landon em 1944. Ambas eram feministas, e por isso deram bastante ênfase à misoginia com que as várias mulheres da corte eram tratadas. Em 1946, o rei surge como uma figura mais engraçada, pois sua busca por sabedoria muitas vezes se mostra ingênua, enquanto em 1956 e na própria peça de teatro de Rodgers & Hammerstein ele é uma figura mais tirânica. O reflexo dessa caracterização foi óbvio: na Tailândia, antigo Sião, a versão de 1956 foi banida, enquanto a de 1946 pode ser exibida. Mesmo assim, a primeira provocou reação: dois intelectuais tailandeses escreveram em 1948 um livro com sua versão sobre o rei do Sião.

A história de Anna e o rei do Sião também virou desenho, em 1999, e mais um filme, no mesmo ano, com Jodie Foster e Yun-Fat Chow. Com alguns exageros e outros detalhes surpreendentes (o rei realmente escreveu para o presidente dos Estados Unidos oferecendo-lhe uma manada de elefantes, o que Abraham Lincoln recusou educadamente), a história dessas duas pessoas tão diferentes merece ser conhecida, não importa a qual versão você assista. Et cetera, et cetera, et cetera : ) 

This is my last contribution to the Summer Under the Stars Blogathon, hosted by Jill at Sittin’ on a Backyard Fence and Michael at ScribeHard on Film. Wonderful event!

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