} Crítica Retrô: Paramount

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Wednesday, November 30, 2016

Sábado Alegre / Hot Saturday (1932)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.

THIS ARTICLE HAS SPOILERS.

Há algo de encantador em cidades pequenas. As casinhas com cercas baixas. As lojas passadas de pai para filho. O parque ou o lago onde acontecem todas as funções sociais. O fato de que todos se conhecem. E há algo de podre nas cidades pequenas também, e justamente pelo motivo de que todos se conhecem. É terreno de fofoca, inveja, reputações destruídas por boatos. A reputação de Ruth (Nancy Carroll) em “Sábado Alegre” é destruída justamente por um boato. Se eu fosse Ruth, nem me importaria: afinal, o boato envolve ninguém mais ninguém menos que Cary Grant.

There is something charming in small towns. The little houses with low fences around. The mom and pop stores. The park or lake where all the picnics happen. The fact that everybody knows everybody. And there is something rotten in small towns as well, also because everybody knows everybody. Small towns are ground for gossip, jealousy, are places where reputations are destroyed by rumors. Ruth’s (Nancy Carroll) reputation in “Hot Saturday” is destroyed by a rumor. If I were Ruth, I wouldn’t care: after all, the rumor involves Cary Grant!
Ruth trabalha no banco e é cobiçada por todos os funcionários do sexo masculino. Ela rejeita diversos convites para sair, mas finalmente cede quando Conny (Ed Woods, que interpretou o irmão bonzinho de James Cagney em “Inimigo Público” em 1931) a convida para ir ao clube numa tarde de sábado.

Ruth works at the bank and all the male employers are interested in her. She refuses several approaches, but finally capitulates when Conny (James Woods, who played James Cagney’s good brother in ‘The Public Enemy” in 1931) invites her to go to the club on a Saturday afternoon.
Naquele sábado alegre, em uma bela casa em frente ao lago, os jovens se divertem, nadam, passeiam de barco e comem. Mais tarde, eles vão para um baile. O dono da casa é Romer Sheffield (Cary Grant), que tem a má fama de ser um garanhão que não espera até a noite de núpcias para ter intimidade com suas namoradas.

On that hot Saturday, in a beautiful house near the lake, the young people have fun, swim, ride boats and eat. Later they go to a dancing house. The owner of the house by the river is Romer Sheffield (Cary Grant), who is a known womanizer who can’t wait until the wedding night to get intimate with his girlfriends.
Romer não vai ao baile, mas Ruth e Conny vão. Pouco depois, eles pegam um barco e Conny tenta beijar Ruth contra a vontade dela. Ela resiste e sai correndo, e em busca de ajuda vai até Romer, que pede que seu motorista a leve de volta para casa. Mas Conny não vai deixar barato: com a ajuda de Eve Randolph (Lilian Bond), a ciumenta filha do dono do banco, ele espalha um boato sobre Ruth.

Romer doesn’t go dancing, but Ruth and Conny do. A little later, they catch a boat and Ronny tries to kiss Ruth against her will. She resists, runs away and asks Romer for help. He listens to her, comforts her and asks his driver to take her home. But Conny is planning revenge: with the help of Eve Randolph (Lilian Bond), the bank owner’s jealous daughter, he starts a rumor about Ruth.
Logo todos na cidade ouvem a fofoca: Ruth passou a noite com Romer. Cada um que espalha o boato adiciona um toque de malícia. Ruth é demitida e se torna pária em sua cidade. Vítima da hipocrisia, ela vê uma chance de redenção em um velho amigo de infância, Bill Fadden (Randolph Scott), que confessa que sempre foi apaixonado por ela. Ruth decide se casar com ele. Mas será que ela o ama de verdade?

Soon everybody in town know about the gossip: Ruth spent the night with Romer. Each person adds a new spicy detail when spreading the rumor. Ruth is fired and becomes persona non grata in the city. A victim of hypocrisy, she sees a last chance of redemption in her childhood friend Bill Fadden (Randolph Scott), who confesses he has always been in love with Ruth. She decides to marry him. But is it true love?
A construção da história até chegar ao clímax – o ostracismo de Ruth – é lento, levando 40 minutos. Sobram apenas mais 32 para a história ser finalizada. Mas que final mais deliciosamente... pre-Code!

Building up the story until the clímax – that is, Ruth’s ostracism – takes 40 minutes. We have only 32 more minutes left until the end. But the end is deliciously… pre-Code!

Há uma cena em especial que grita pre-Code: vemos Ruth trocando de roupa, ficando apenas com um saiote quase transparente. E ela faz isso logo depois de tirar, à força, os shorts que a irmã pré-adolescente havia pegado de sua gaveta. É uma sequência que deixaria William Hays de cabelo em pé.

There is one scene in particular that screams ‘pre-Code’: we see Ruth changing clothes, and she wears a near transparent negligee. This happens right after Ruth violently undresses her teenager sister because the little girl had stolen her new shorts. It is a scene to freak William Hays out.
Cary Grant, pela primeira vez com seu nome no topo dos créditos, é muito sedutor já aos 28 anos. Além disso, ele aparenta usar bastante lápis de olho e rímel, que deixam seu olhar penetrante. Randolph Scott tem um personagem que consegue ser denso mesmo com poucas cenas, e é interessante ver os dois melhores amigos na vida real em uma pequena disputa cinematográfica pela mesma mulher. Eles fariam mais um filme juntos, “Minha Esposa Favorita” (1940).

Cary Grant, first-billed for the first time in his career, is a very seductive 28-year-old. And he achieves a powerful look in his eyes by, apparently, using a lot of makeup and mascara. Randolph Scott plays a character that could be dense and well-constructed even with little screen time. It’s interesting to see the two best friends in real life competing for the same woman on the screen. Grant and Scott would make one more film together, “My Favorite Wife” (1940).
O final é redentor, e muito moderno e necessário. Nancy Carroll arregala os olhos e percebe que precisa cuidar de sua própria vida, capitanear seu destino sem se importar com o que os outros pensam. É impressionante ver que um filme de 1932 tem temas tão atuais. É triste perceber que as questões (especialmente para mulheres) são as mesmas de 80 anos atrás. E é mais triste ainda saber que a sociedade continua hipócrita, mas sem a presença de Cary Grant para embelezar o mundo.

The ending is redemptive, very modern and necessary. Nancy Carroll has her eyes wide open when she realizes that she must mind her own business and live her life without bothering about the opinions of others. It’s surprising to see that a film from 1932 has such a modern theme. It’s sad to see that some troubles (for women, in special) are the same as 80 years ago. And it’s even sadder to know that society has still a lot of hypocrisy, and Cary Grant is not here anymore to make the world a little more pleasant.

This is my contribution to the Cary Grant blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies.

Thursday, September 27, 2012

Paramount: os anos silenciosos


100 anos! E parece que foi ontem que Adolph Zukor fundou a Famous Players, companhia que se destinava a levar para as telas do cinema peças de teatro. Quatro anos mais tarde ela se juntaria a outra companhia formando a Famous Players-Lasky Corporation. O nome era muito bizarro, por isso em 1930 seus administradores decidiram adotar o nome de uma pequena distribuidora que havia sido absorvida por eles: Paramount, nome que passou a figurar em todos os filmes a partir de 1935. Mas o que aconteceu antes de a Paramount ser Paramount?  
Norma narrando sua época de estrela do cinema mudo para uma plateia atenta
O primeiro filme a ser distribuído pela companhia foi o francês “Les amours de lareine Élisabeth”, estrelado pela lendária atriz de teatro Sarah Bernhardt. A transformação de peças de teatro em filmes atraiu um novo segmento para os cinemas. Os mais ricos até então desprezavam a nova arte, considerada por eles uma forma de diversão barata (lembre-se dos nickelodeons, onde as entradas custavam apenas cinco centavos) para as camadas inferiores. Na época muitas pessoas, incluindo alguns artistas, acreditavam que o cinema era uma moda passageira.  
Quem estava lá logo no início era Cecil B. De Mille, que dirigiu, junto com Oscar Apfel, “The Squaw Man”, em 1914. De Mille lançou a moda dos remakes ao dirigir novamente o filme em 1918 e 1931, obtendo sempre sucesso. A versão de 1914 foi a primeira filmada em Hollywood. De Mille alugou um pedaço de terra na futura Meca do cinema por 75 dólares para filmar um ataque de índios e assim começou uma longa história.  De Mille e Apfel dirigiram uma série de filmes para a Famous Players, sendo que De Mille não era creditado, pois ainda estava aprendendo o ofício com Apfel. E, quando se tornou diretor exclusivo de seus filmes, fez história, por exemplo, com o primeiro filme baseado em um livro homônimo, “The Virginian” (1914).
Outro nome importante presente nos primeiros anos da Paramount foi Mary Pickford. Na nascente companhia ela fez alguns de seus filmes que são famosos até hoje, como “Cinderella” (1914) e “Madame Butterfly” (1915). Claro que não foram só sucessos. Seguindo a ideia de peças transformadas em filmes, Adolph Zukor filmou “A Good Little Devil”, peça da Broadway em que Mary trabalhava, exatamente como se fosse um teatro em 1913. Mary mais tarde se referiria ao trabalho como “um dos piores filmes que eu já fiz... foi mortal”. Foram 17 filmes em dois anos, dos quais 15 chegaram praticamente intactos à nossa era.
A ideia da Broadway para o cinema continuou com força total, e em 1916 foi feita uma versão de “Oliver Twist” (a quinta da era muda), apresentando Marie Doro no papel principal, que ela já fazia com grande sucesso na Broadway. Da obra de Charles Dickens para a dos irmãos Grimm: no mesmo ano virava filme “Branca de Neve”, versão esta que serviu de inspiração para o desenho de Walt Disney.
Grandes nomes marcaram presença na década de 20, como Gloria Swanson e John Barrymore, além do mágico Harry Houdini. Aliás, esta década, que eu considero como a maturidade do cinema mudo, foi de muitos sucessos na Paramount, incluindo até uma versão de Peter Pan em 1924. De Mille usou todo seu talento para levar às telas “Os Dez Mandamentos” em 1923. “O Grande Gatsby” foi adaptado para o cinema pela primeira vez em 1926, mas infelizmente esta versão hoje está perdida. William Powell estava neste filme, e esteve também na primeira produção falada da Paramount: “Interference”, de 1928. E novamente Bill estaria num filme importante, que marca o fim de uma era na então Famous Players-Lasky: “The Four Feathers”, o último filme mudo da companhia. A época silenciosa da Paramount acabou não sem antes render uma honra ao estúdio: o primeiro Oscar de Melhor Filme para “Asas”. Muito sucesso havia sido alcançado em menos de vinte anos e, embora esta frase tenha sido cunhada na Warner Bros., ela também se aplica a este glorioso estúdio: vocês ainda não ouviram nada!    

This entry is part of the Paramount Centennial Blogathon, hosted by Angela at The Hollywood Revue. After this introduction to silent years, go learn more about Paramount!

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