} Crítica Retrô: Rouben Mamoulian

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Tuesday, August 13, 2019

Não Matarás (1932) / The Broken Lullaby (1932)


Em 1932, estrearam quatro filmes dirigidos por Ernst Lubitsch, incluindo o famosíssimo “Ladrão de Alcova”. Foi o ano mais prolífico de sua carreira nos EUA, trabalhando para a Paramount Pictures. E em 1932 surgiu “Não Matarás”, um filme tão incomum de Lubitsch que nos faz voltar para verificar os créditos. Sim, o filme foi produzido e dirigido por Lubitsch. E é um de seus melhores, mais humanos e emocionantes filmes.

In 1932, four films directed by Ernst Lubitsch premiered, including the very famous “Trouble in Paradise”. It was the most prolific year of his career in the US, working for Paramount Pictures. And in 1932 there appears “The Broken Lullaby”, such an unusual Lubitsch film that makes us double check the opening credits. Yes, it was produced and directed by Lubitsch. And it’s one of his most human, heartbreaking and best films.


Enquanto a multidão celebra o primeiro aniversário do Armistício em 1919 com um desfile, soldados traumatizados no hospital gritam por causa dos barulhos. Em uma catedral de Notre Dame lotada, uma missa é assistida por soldados com baionetas penduradas nos cintos. Depois que a missa acaba, um homem à paisana permanece na igreja. Ele está lá para confessar que matou outro homem.

While the crowd celebrates the first anniversary of the Armistice in 1919 with parades, shell-shocked soldiers in the hospital scream with the noises they hear. In a crowded Notre Dame cathedral, a mass is attended by soldiers with their bayonets hanging from their belts. After the mass is over, a man in civilian clothes remains in the church. He is there to confess that he killed another man.


O homem, Paul Renard (Phillips Holmes), era um músico antes da guerra, e nas trincheiras ele matou um soldado alemão. O soldado levava consigo uma carta, pronta para ser enviada, e nela Paul descobriu o nome da vítima, Walter, e seu endereço – e que o pobre homem também amava música. Embora o padre diga a Paul que ele estava apenas cumprindo seu dever, ele não consegue ficar em paz. Entretanto, na igreja Paul decide ir até a Alemanha em busca do perdão da família do homem que ele matou.

The man, Paul Renard (Phillips Holmes), was a musician before the war, and in the trenches he killed a German soldier. The soldier had a letter with himself, ready to be sent, and so Paul learned the victim's name, Walter, and his address – and that the poor man also loved music. Although the priest tells Paul he was only doing his duty, he can't find peace. However, in the church Paul decides to go to German and seek the forgiveness from the family of the man he killed.


O pai de Walter, Dr. Holderlin (Lionel Barrymore), é um médico. A noiva de Walter, Elsa (Nancy Carroll), vive com o doutor e com Frau Holderlin (Louise Carter), e é cobiçada pelo insistente Herr Schultz (Lucien Littlefield). A família ainda está de luto pela morte de Walter.

Walter's father, Dr. Holderlin (Lionel Barrymore), is a physician. Walter's fiancée, Elsa (Nancy Carroll), lives with Dr and Frau Holderlin (Louise Carter), and she is pursued by the insistent Herr Schultz (Lucien Littlefield). The family is still grieving Walter’s death.


O Dr. Holderlin é inicialmente hostil com Paul, porque ele não aceita ouvir nada de um francês. Entretanto, como Elsa viu Paul levando flores no túmulo de Walter, o Dr. Holderlin muda de tom, e Frau Holderlin recebe Paul na casa deles. Agora Paul é incapaz de dizer que matou Walter, e por isso deixa a família pensando que ele e Walter eram amigos.

Dr. Holderlin is hostile at first to Paul, because he wouldn’t accept to hear anything from a Frenchman. However, as Elsa saw Paul bringing flowers to Walter's grave, Dr. Holderlin's tone changes, and Frau Holderlin welcomes Paul to their house. Now Paul can't say he killed Walter, so he lets the family think he and Walter were friends.


Herr Shcultz vê Elsa e Paul conversando, e logo começa a espalhar o boato de que Paul pode ser um espião. Nacionalismo e xenofobia estavam em alta depois da guerra, e a Alemanha ressentia a derrota e a humilhação. A ideia de Herr Schultz encontra o contexto perfeito para se espalhar. E Lubitsch, um imigrante alemão, era o diretor perfeito para lidar com este assunto.

Herr Schultz sees Elsa and Paul talking, and soon he starts spreading the rumor that Paul may be a spy. Nationalism and xenophobia was on the rise after the war, and German resented the loss and the humiliation. Herr Schultz's idea finds the perfect context to spread. And Lubitsch, a German immigrant, was the perfect director to tackle this subject.


Eu senti que este filme tem mais um “toque de Rouben Mamoulian” – um termo pouco usado porque eu acabei de criá-lo – do que o “toque de Lubitsch”. Quando Paul e Elsa andam pelas ruas da pequena cidade e as pessoas saem nas portas e janelas para vê-los, continuamos a ver os dois na tela, mas ouvimos os sinos que indicam as portas se abrindo. Este uso ousado e experimental do som para simbolizar a curiosidade da população local é puro Mamoulian, um diretor hoje pouco lembrado que fez obras brilhantes enquanto experimentava e improvisava no final dos anos 20 e início dos anos 30. Como curiosidade, também em 1932 Mamoulian dirigiu um filme que era puro Lubitsch: “Ama-me Esta Noite”.
 
I felt this film has more of the “Rouben Mamoulian touch” – a little-used term because it has just been created by me – than the “Lubitsch touch”. When Paul and Elsa walk down the streets of the small town and people appear on doors and windows to see them, we keep seeing the two on the screen, but we hear the bells of the doors opening. This daring and experimental use of sound to symbolize the curiosity of the local people is pure Mamoulian, now a little remembered filmmaker who excelled while experimenting and improvising in the late 1920s and early 1930s. As a curious note, also in 1932 Mamoulian directed a film that was pure Lubitsch: “Love Me Tonight”.


Lubitsch havia trabalhado incansavelmente na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial tanto como ator quanto diretor. Ele fez várias comédias e dramas históricos no final da década de 1910, e por causa do sucesso que estes filmes fizeram nos EUA no começo dos anos 20 ele foi chamado por Mary Pickford para trabalhar em Hollywood. Lubitsch deixou a Alemanha em 1922 e nunca olhou para trás. Nos EUA, ele desenvolveu o “toque de Lubitsch”, um estilo cinematográfico cheio de sugestões sexuais, charme e bom gosto. Nada disso é encontrado em “Não Matarás”.

Lubitsch had been working steadily in German during World War I, both as an actor and director. He did several comedies and historical dramas in the late 1910s, and because of the success those films made in the US in the early 20s he was personally called by Mary Pickford to work in Hollywood. Lubitsch left Germany in 1922 and never looked back. In the US, he developed the “Lubitsch touch”, a refined filmmaking approach full of sexual innuendo, charm and good taste. We find nothing of this in “Broken Lullaby”.
 
Lubitsch
Há muitos símbolos importantes em “Não Matarás”. Um deles é o vestido feito de tecido francês que Elsa deseja comprar. É óbvio que o interesse dela no vestido espelha seu interesse por Paul, que também é um “produto” francês. Há ainda os paralelos entre as vidas de Paul e Walter, pois o Dr. Holderlin mantém o quarto de Walter trancado e há um violino lá, preservado no estojo, como se esperasse Walter voltar e tocar – e, sem nenhuma surpresa, Paul é também violinista.

There are many important symbols in “Broken Lullaby”. One of them is the dress made of French fabric that Elsa gets interested in buying. It’s obvious that her interest for the dress mirrors her interest for Paul, himself a French product. There is also a mirroring situation with Paul’s and Walter’s lives, as Dr. Holderlin keeps Walter’s bedroom locked and there is a violin there, preserved in the box, like waiting for Walter to come back and play – and, to no surprise, Paul is a violinist.


Lionel Barrymore está brilhante como sempre. Seu monólogo sobre os pais serem responsáveis pela morte dos jovens, porque “éramos velhos demais para lutar, mas não velhos demais para odiar”, resume a Primeira Guerra Mundial e nos causa arrepios. Mesmo assim, Barrymore diz muito mais sem palavras: é no seu olhar sem esperança e no seu andar vacilante que vemos que ele continua vivendo, mas com muito sofrimento.

Lionel Barrymore is brilliant as always. His monologue about the fathers being responsible for the youngsters' deaths, because “we were too old to fight, but not too old to hate”, summons the whole World War I and gives us chills. Yet, Barrymore says much more without words: it’s in his hopeless eyes and in his vacillating walk that we see that he keeps living, but with so much suffering.


Phillips Holmes está praticamente esquecido hoje, mas com “Não Matarás” podemos ver que ele tinha olhos tão luminosos quanto os de William Powell. Holmes faleceu em 1940, em um acidente de avião, logo após se alistar na Aeronáutica canadense. Nancy Carroll está perfeita no clímax. No filme também temos ZaSu Pitts como Fraulein Anna, a empregada da família Holderlin. O rosto de ZaSu está incrivelmente belo neste filme, mas ela tem pouco a fazer além de fofocar.

Phillips Holmes is nearly forgotten today, but by “The Broken Lullaby” we can see that he had eyes as luminous and William Powell's. Holmes died in 1940, in a plane crash, right after he had joined the Canadian Air Force. Nancy Carroll is perfect in the climax. Also in the film we have ZaSu Pitts as Fraulein Anna, the Holderlin's maid. ZaSu's face is incredibly beautiful in this film, but she has nothing much to do besides gossiping.


“Não Matarás” é mais um filme sobre o mundo pós-guerra que mostra que não houve heróis e vilões na Primeira Guerra Mundial: de alguma maneira, todos perderam. A guerra muda vidas dos modos mais íntimos e inimagináveis, e “Não Matarás” é uma obra-prima que lida com amor, morte e luto.

“The Broken Lullaby” is another film about the post-war world that shows how there weren’t heroes and villains in the First World War: in some sense, everybody lost. War changes lives in the most intimate and unimaginable ways, and “The Broken Lullaby” is a masterpiece that deals with love, death and grieving.

This is my contribution to the Fifth Annual Barrymore Trilogy blogathon, hosted by Crystal and Gabriela at In the Good Old Days of Classic Hollywood and Pale Writer.

Saturday, April 15, 2017

Conflito de Duas Almas / Golden Boy (1939)

Nós comumente pensamos – porque, fala sério, é mais fácil pensar desta maneira – que as pessoas podem ser colocadas em categorias. Assim, achamos que atletas não gostam de arte e que aqueles que trabalham com a cabeça não gostam de cuidar da aparência. Tudo isso é bem diferente da verdade, e a convivência – não exatamente pacífica – de interesses opostos na vida de um jovem é o tema principal de “Conflito de Duas Almas”.

We usually think – because, come on, it's easier to think this way – that people can be put in little stereotypical jars. This being, we think that athletes don't like arts and the ones who use their brains are not so good at physical activities. This is actually far from the truth, and the convivence – not exactly pacific – of opposing interests in a young man's life is the main theme in “Golden  Boy”.
Joe Bonaparte (William Holden) é um grande boxeador. Ele aprendeu o esporte em academias e nas ruas, longe de seu pai, e agora é uma promessa do esporte. Por que o pai de Joe não pode saber que o filho luta boxe? Porque o velho homem quer que o filho se torne um grande violinista – e este não é um sonho impossível, porque Joe também é muito bom com o violino.

Joe Bonaparte (William Holden) is a great boxer. He learned boxing in gyms and at the street, without his father's knowledge, and now is a promise of the sport. Why can't his father know? Because the old man's hope is to see his son becoming a great violinist – and this isn't an impossible dream, because Joe is also very good with the violin.
Mas Joe terá de tomar uma decisão – ou deixar que alguém a tome por ele. O entusiasmo da família e dos amigos quando ele toca violino o fazem ter motivação para praticar mais e mais. Por outro lado, se ele for um bom boxeador e ganhar várias partidas, ele ajudará seu empresário, Tom Broody (Adolphe Menjou), a se divorciar e se casar com Lorna Moon (Barbara Stanwyck).

But Joe has to make up his mind – or let someone else do it for him. His family's and friends' enthusiasm when he plays the violin make him practice more and more. On the other hand, if he is a good boxer who wins several matches, he'll help his manager, Tom Broody (Adolphe Menjou) to settle his divorce and marry his sweetheart Lorna Moon (Barbara Stanwyck).
Como fã de cinema clássico e de William Holden, você deve saber que ele só foi escalado para ser o protagonista aqui – no primeiro filme em que ele recebeu crédito – porque Barbara Stanwyck insistiu. Holden não está mal, mas não podemos negar que uma gama maior de emoções é exigida de Stanwyck.

As a fan of classic film and William Holden, you may know that he was cast as the lead here – the first film in which he was credited - by Stanwyck's insistence. Holden is not bad, but we can't deny that a lot more acting range is demanded from Stanwyck.
Holden é convincente como violinista, mas as tomadas longas na luta final não nos deixam vê-lo muito bem, e alguém pode até pensar que era um dublê que estava no ringue. A luta não é nem de perto tão emocionante quanto a melhor luta já filmada para um longa-metragem, em “Corpo e Alma” (1947). Uma curiosidade: John Garfield, o boxeador em “Corpo e Alma”, estava entre as opções para protagonizar “Conflito de Duas Almas”.

Holden is convincing as a violinist, but the long shots in the final fight don't let us see him very well, and one may even think it was a double in the rink. The fight is nowhere nearly as exciting as the best boxing match ever shot for a film, in “Body and Soul” (1947). One curious trivia: John Garfield, the boxer in “Body and Soul”, was considered briefly for the role in “Golden Boy”.
Eu fiquei animada ao descobrir que “Conflito de Duas Almas” foi dirigido por Rouben Mamoulian, um dos mais menosprezados diretores de todos os tempos, na minha opinião. Ele esbanjou criatividade na transição da era muda para a falada, quando fez ótimos filmes com pequenas experiências sonoras, como “Aplausos” (1929), “Ruas da Cidade” (1931) e “Ama-me esta noite” (1932), e também contou a história de uma personagem feminina forte em “Rainha Cristina”(1933).

I was excited to discover that “Golden Boy” was directed by Rouben Mamoulian, one of the most underrated directors ever, in my opinion. He was his most creative in the transition from the silent era to the talkies, when he made great movies with little sound experiences, like “Applause” (1929), “City Streets” (1931) and “Love Me Tonight” (1932), and also told the story of a fierce female character in “Queen Christina” (1933).
O torpe e vil código Hays tolheu sua criatividade, e em “Conflito de Duas Almas” ele se mostra seguro em relação ao seu trabalho, mas sem toques de mágica. O que é interessante sobre Mamoulian aqui é que ele havia sido escalado para dirigir “A Mulher faz o Homem” para a Columbia, enquanto Frank Capra se encarregaria de “Conflito de Duas Almas”. Foi Capra quem pediu para trocar de projeto com Mamoulian.

The pure evil Production Code cut his creativity short, and in “Golden Boy” he is sure of his job, but not exactly magical. What is interesting about Mamoulian here is that he was supposed to direct “Mr Smith Goes to Washington” for Columbia studios, while Frank Capra was supposed to direct “Golden Boy”. Capra was the one who asked to change projects with Mamoulian.
Mamoulian is on the left, with a light suit and wearing glasses
“Conflito de Duas Almas” é um bom filme, talvez um pouco longo demais e previsível. Mas, para Holden, era apenas o começo. O melhor ainda estava por vir...

“Golden  Boy” is a nice movie, maybe a little too long and predictable. But, for Holden, it was just the beginning. The best was yet to come...


This is my contribution to the 2nd Golden Boy Blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.

Wednesday, March 11, 2015

Meias de Seda / Silk Stockings (1957)

Quem poderia substituir Greta Garbo em sua obra-prima “Ninotchka”? Resposta: ninguém. A personagem, que vai da seriedade completa à entrega amorosa, é perfeita para Garbo. Mas e se Ninotchka se transformasse em um musical? Aí o número de opções crescia, mas o papel se tornava mais difícil. Felizmente, com sotaque e charme, Cyd Charisse foi incumbida de seguir os passos de Garbo – e se saiu muito bem.
O produtor de cinema Steve Canfield (Fred Astaire) conegue resolver todos os problemas que aparecem em seu caminho. Ele entra em ação mais uma vez quando o compositor de seu novo filme, o russo Boroff, é visitado por três camaradas (Peter Lorre, Jules Munshin e Joseph Buloff) que têm a missão de levar o compositor de volta à União Soviética. Com um bom argumento e uma canção, Canfield convence os três russos a ficar ali mesmo em Paris, pois a presença deles pode representar um grande avanço para a União Soviética no mundo das artes cinematográficas. Logo os três estão embriagados (literalmente) com os prazeres da capital francesa.
Para trazer de volta os três comissários e o compositor Boroff, a escolhida é a camarada Nina Yoschenko (Cyd Charisse), uma agente séria e objetiva, que quer apenas fazer seu trabalho e voltar para a Mãe Rússia, mas acaba se entregando aos encantos de Paris... e de Steve Canfield, claro. Ou melhor, este envolvimento só acontecerá se a estrela do filme, a narcisista e pouco esperta atriz / cantora / nadadora Peggy Dayton (Janis Paige), não interferir com seu ego enorme.
Veja os paralelos entre "Meias de Seda" e "Ninotchka": a personagem de Greta Garbo é aqui interpretada por Cyd Charisse, Fred Astaire repete o papel de Melvyn Douglas e a intrometida e rica Swana de Ina Claire fica a cargo de Janis Paige, com muito mais humor.
A Ninotchka de Greta Garbo se rende ao comprar um chapéu ridículo. A Ninotchka de Cyd Charisse se rende dançando com Fred. E que dança! Outro momento simbólico de sua metamorfose é o balé Meias de Seda, que conta apenas com Cyd flutuando por um grande quarto enquanto se livra de suas vestimentas sisudas e as troca por meias de seda e lingerie, tudo embalado por uma bela música instrumental.
Temos novamente várias críticas ao comunismo, só que feitas de maneira menos sutil que na versão de 1939. Entretanto, são críticas mais escrachadas. O humor de Lubitsch era aquele que nos deixava apenas com um leve sorriso delineado no rosto. O humor do remake de Mamoulian é aquele que usa rápidas frases de efeito para arrancar uma gargalhada dos espectadores atentos.
Além das canções, uma atração única e imperdível dos musicais é o espetáculo das cores. Como conta nos créditos, “Meias de Seda” é apresentado em CinemaScope e Metrocolor, e o filme faz piada com isso: Janis Paige e Fred Astaire cantam a importância da riqueza de cores e do som ultra-realista para atrair os espectadores: será que o roteiro e o elenco não importam mais? Até parece que o compositor Cole Porter estava prevendo o futuro do cinema de catástrofe / super-herói / entretenimento sem conteúdo.
Faria toda a diferença ver o filme nos cinemas, em 1957, com a tela enorme, o glorioso Technicolor, CinemaScope de tirar o fôlego e som estereofônico. A direção de Rouben Mamoulian é magistral, como sempre, embora ele não tivesse sido uma escolha popular feita pelo estúdio. Mamoulian trabalhava desde o final da década de 1920, era um mestre dos efeitos e... detesteva o CinemaScope. Uma vez disse: “[CinemaScope is] the worst shape ever devised”.
O filme tinha tudo para não dar certo: começando pelo contexto de animosidade extrema entre Estados Unidos e União Soviética, passando pela pouca esperança dos próprios produtores e desembocando nas várias incertezas do elenco. Cyd Charisse tinha um trabalho muito exigente a ser feito, Peter Lorre lutava com seu vício em medicamentos, Rouben Mamoulian fazia de tudo para não ultrapassar o orçamento e os prazos previstos, e Fred Astaire quis de Cole Porter músicas mais modernas. Mas nenhuma destas dificuldades transparece no filme: “Silk Stockings” é leve, alegre, adorável. É a fábrica de sonhos do cinema em seu apogeu.

This is my contribution to the CinemaScope blogathon, hosted by my pals Rich at Wide Screen World and Becky at Classic Becky's Brain Food.

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