} Crítica Retrô: Douglas Fairbanks

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Saturday, November 19, 2022

Phil-for-Short (1919) e outros adolescentes do cinema mudo

 

Phil-for-Short (1919) and other silent film teenagers

Era uma vez uma garota chamada Damophilia – ou Phil, seu apelido. Ela foi batizada em homenagem a um poema de Safo, uma vez que seu pai era um grande conhecedor de cultura e literatura gregas. Phil era uma garota muito ativa, trabalhando na fazenda usando roupas de menino, sem se preocupar com a opinião dos outros. Quando seu amado pai falece, o mundo de Phil vira de cabeça para baixo. Uma garota no final da adolescência, Phil é interpretada, no filme de 1919, por uma atriz de 31 anos, Evelyn Greeley – e essa está longe de ser a única personagem adolescente interpretada por adultos na era o cinema mudo.

Once upon a time, there was a girl named Damophilia – or Phil, for short. She was named after a poem by Sappho because her father was a connoisseur of the Greek culture and literature. Phil was a very active girl, working on the farm wearing boy’s clothes and not caring for other people’s opinions. When her devoted father passes away, Phil’s word goes upside down. A girl in the late teens, Phil is played, in the 1919 movie, by a 31-year-old actress, Evelyn Greeley – and this was not the only teen character to be played by an adult in the silent movie era.

Antes de explorar “Phil-for-Short” e outros adolescentes do cinema mudo, precisamos sabem quem exatamente pode ser chamado de adolescente. A Organização Mundial da Saúde diz que a adolescência vai dos 10 aos 19 anos. Na maioria das sociedades, a adolescência é um período ambíguo entre a infância e a idade adulta, com os adolescentes navegando mares de mudanças e aprendendo com as experiências. Mas não foi sempre assim: podemos até mesmo dizer que “adolescente” e “adolescência” foram invenções do século passado.

Before we dig into “Phil-for-Short” and other silent screen teens, we need to know who exactly can be called a teenager. The World Health Organization says that adolescence happens between ages 10 and 19. In most societies, adolescence is an ambiguous period between childhood and the adult age, with teens navigating lots of changes and learning along the process. But it wasn’t always like that: we can even say that “teenager” and “adolescence” were invented in the last century.

De acordo com um artigo do Saturday Evening Post, a palavra “adolescente” existia desde o começo do século XX, mas raramente era usada. Cinquenta anos antes, pessoas jovens, e até mesmo crianças, eram empregadas em fábricas, algo que foi depois considerado inapropriado e a educação se tornou obrigatória. Escolas de ensino médio apareceram e se desenvolveram como um lugar em que adolescentes poderiam se organizar e, até certo ponto, viver sem muita supervisão dos adultos. Dito isto, podemos afirmar que “juventude” é um termo melhor para descrever uma categoria que englobava adolescentes e jovens na era do cinema mudo. Agora vejamos como a juventude era retratada nas telas.

According to an article from the Saturday Evening Post, the world “teen-ager” existed since the beginning of the 20th century, but it was hardly ever used. Fifty years before, young people, and even children, were sent to work in factories, something that was later deemed inappropriate and education became mandatory. High schools appeared and developed as a place where teenagers could organize and, to an extent, live without much adult supervision. That being said, we can affirm that “youth” is a better term to describe a category that encompassed teenagers and young adults in the silent film era. Now let’s see how “youth” was portrayed on screen.

Em filmes como “American Aristocracy” (1916), jovens eram o foco, mas eram jovens adultos e não adolescentes. Neste filme em particular, como ele fez antes e faria depois, Douglas Fairbanks – com 33 anos quando o filme foi lançado – interpreta um jovem que é o modelo da aristocracia norte-americana: ousado, vistoso e bonito. Seu carro é um objeto importante na história, assim como os carros foram importantes para os adolescentes ganharem independência.

In films like “American Aristocracy” (1916), young people were the focus, but these were young adults and not teens. In this particular movie, as he did before and would do after, Douglas Fairbanks – 33 when the movie was released – plays a young fellow who is the role model of American aristocracy: bold, dashing and handsome. His car is an important asset in the story, as cars were important to give young people independence.

Agora que mencionamos Fairbanks, precisamos também mencionar Mary Pickford, a atriz mais popular da década de 1910. Quando adolescente, antes de entrar na indústria do cinema, Mary Pickford era uma atriz de teatro na Broadway. No cinema, Mary teve muito sucesso interpretando crianças perspicazes – mesmo tendo vinte e tantos anos na época – mas ela também interpretou adolescentes ousadas em filmes como “The Little American” e “A Romance of the Redwoods”, ambos de 1917.

Now that we mentioned Fairbanks, we must also mention Mary Pickford, the most popular female film star of the 1910s. As a teenager, before she entered the movie business, Mary Pickford was a stage actress appearing on Broadway. On film, Mary had a lot of success playing resourceful kids – despite being in her late 20s at the time – but she also played bold teens in movies such as “The Little American” and “A Romance of the Redwoods”, both from 1917.

Depois de falar de Mary, podemos voltar a “Phil-for-Short” e falar da protagonista Evelyn Greeley. O nome pode não significar nada para você, mas Greeley foi uma atriz de sucesso na era muda. Nascida na Áustria em 1888, ela migrou para Chicago com a família aos nove anos e, em 1914, aos 26, entrou para o cinema com pequenos papéis para os estúdios Essanay. Entre 1915 e 1922, ela fez 30 filmes, muitos deles para a World Film Corporation, incluindo “Phil-for-Short”.

After talking about Mary, we can go back to “Phil-for-Short” and talk about the lead Evelyn Greeley. The name may not mean anything to you, but Greeley was a prominent silent film actress. Born in Austria in 1888, she migrated in Chicago with her family when she was nine and in 1914, aged 26, entered the movie business working in small roles for Essanay. From 1915 to 1922, she appeared in 30 films, many of them for the World Film Corporation, including “Phil-for-Short”.

Depois que o pai de Damophilia morre em “Phil-for-Short”, todas as pessoas resolvem dar palpite na vida da garota: ela precisa parar de ser tão moleca e deve se casar! Infeliz com sua nova vida, Phil foge e, vestida de homem, decide fingir ser professora assistente para fazer com que um professor universitário, conhecido misógino que sabe tudo sobre a Grécia, mude de ideia em relação às mulheres. O que acontece a seguir é bem previsível.

After Damophilia’s father dies in “Phil-for-Short”, people everywhere believe they have a say in the girl’s life: she must stop being such a tomboy and she must marry! Unhappy with her new life, Phil runs away and, fully dressed as a boy, decides to pose as an assistant professor in order to make a college professor, a well-known misogynist who knows all about Greece, change his mind about women. What happens next is pretty predictable.

Não havia uma categoria de “cinema adolescente” na era do cinema mudo. Havia ou estrelas mirins – como Jackie Coogan, Baby Peggy e, até certo ponto, Mary Pickford – ou estrelas que agradavam aos jovens – como Fairbanks no começo de sua carreira. Com exemplos como “Phil-for-Short”, podemos dizer que definitivamente havia filmes sendo feitos com foco no público jovem – um público que moldou o cinema e cresceu com a nova arte.

There wasn’t a “teenager movie” category in the silent movie era. There were either child stars – such as Jackie Coogan, Baby Peggy and, to an extent, Mary Pickford – or stars who appealed to the young folks – such as Fairbanks in the beginning of his career. With examples such as “Phil-for-Short”, we can say that there were definitely movies made targeting the young audience – an audience that shaped cinema as it grew with the new art.

 

This is my contribution to the Fake Teenager Festivus, hosted by Rebecca at Taking Up Room.


Monday, October 18, 2021

Sete Anos de Azar (1921) / Seven Years Bad Luck (1921)

 

Você é supersticioso? Devo confessar que sou um pouquinho supersticiosa - não gosto muito do número sete, por exemplo. Pessoas muito supersticiosas são uma inspiração para o cinema desde a era muda: o IMDb lista mais de mil filmes com a palavra-chave “superstição”. Alguns destes filmes são comédias sobre o quão absurdo é ser supersticioso, que é o caso de “Sete Anos de Azar”, de Max Linder.

Are you superstitious? I must confess that I’m a bit superstitious - I don’t really like the number seven, for instance. Very superstitious people have been a big inspiration for films since the silent era: IMDb lists over one thousand movies with the keyword “superstition”. Some of these films are comedies about the absurdity of being too superstitious, which is the case of Max Linder’s “Seven Years Bad Luck”.

Praticamente todo mundo conhece a superstição que diz respeito a quebrar um espelho e ter sete anos de azar. No filme, Max (Max Linder) é um homem que está prestes a se casar. Sua criada e mordomo quebram seu espelho e o substituem, mas Max quebra o espelho e fica apreensivo com o mau presságio.

Practically everybody knows the superstition about breaking a mirror and this bringing you seven years bad luck. In the movie, Max (Max Linder) is a man about to be married. His maid and butler break his mirror and replace it, but Max breaks it again and gets nervous because of the bad omen.

De início, a superstição mostra-se verdadeira, pois Max briga com sua noiva Betty (Alta Allen) e vai para o campo, criando uma oportunidade para que seu melhor amigo (F.B. Crayne) roube sua garota. Max é roubado antes de pegar um trem, e isso leva a várias estripulias numa estação de trem, no zoológico e na cadeia - e há até uma sequência de sonho!

Initially the superstition proves to be true, as Max has a fight with his fiancée Betty (Alta Allen) and goes to the countryside, creating an opportunity for his best friend (F.B. Crayne) to steal his fiancée. Max is robbed before he gets in the train, and this leads to various shenanigans in a train station, a zoo and a jail - and there is even a dream sequence!

Design de cartelas de títulos era uma arte, e isto pode ser visto em “Sete Anos de Azar”: sempre que um personagem fala ao telefone, a cartela de texto tem as palavras emolduradas por linhas telefônicas. É algo simples mas muito eficiente que adiciona charme ao filme.

Title card design was an art, and this can be seen in “Seven Years Bad Luck”: whenever a character was talking on the phone, the title card has the words framed by drawings of phone lines. It’s something simple yet very effective that adds charm to the movie.

No comecinho do filme há a famosa cena cômica do espelho, mais tarde feita pelos irmãos Marx e também por Lucille Ball. A origem da cena dos espelhos é a peça “My Friend from India”, de 1894. Max Linder tentou filmar esta cena já em 1911, mas a dupla alemã dos irmãos Schwartz ameaçou processá-lo por copiar o show deles. Eles de fato processaram Max quando “Sete Anos de Azar” estreou, mas o caso nunca foi julgado.

In the very beginning of the movie there is the famous mirror comedy routine, done later by the Marx brothers and also by Lucille Ball. The origin of the mirror routine is the play “My Friend from India”, first staged in 1894. Max Linder tried to add this routine to a film as early as 1911, but the German duo Schwartz Brothers threatened to sue him for copying their act. They did sue Max when “Seven Years Bad Luck” was released, but the case never made it to the court.

Max Linder pode ser considerado o primeiro astro internacional do cinema. Ele fez seu primeiro filme em 1905 e em 1912 era o atos mais bem pago do mundo, conhecido por todo o globo graças ao seu personagem Max, um homem elegante. Havia um star system rudimentar construído ao redor de Max já em 1909. Desde 1908 ele também dirigia e escrevia alguns de seus filmes. Linder teve duas fases da carreira nos EUA: da primeira vez ele fez três curtas-metragens para a Essanay entre 1916 e 1917, e nesta segunda vez ele fez três longas-metragens que foram mal recebidos na época, mas que hoje são considerados clássicos da comédia.

Max Linder can be considered the first international movie star. He made his first movie in 1905 and in 1912 was the highest paid actor in the world, recognized all over the globe thanks to his character Max, a dapper man. There was a rudimentary star system built around him as early as 1909. Since 1908 he also directed and wrote some of his movies. Linder had two phases of filmmaking in the US: the first time he did three shorts for Essanay between 1916 and 1917, and in this second time he made three features that were poorly received at the time, but are now considered comedy classics.

Outra comédia muda sobre superstição é “O Supersticioso” (1919), estrelando Douglas Fairbanks como Daniel Boone Brown, um homem muito supersticioso que se torna vítima de um psiquiatra do mal. Este filme é famoso por outra cena curiosa: a do quarto que gira, que seria repetida por Fred Astaire em 1951.

Another silent comedy about superstition is “When the Clouds Roll By” (1919), starring Douglas Fairbanks as Daniel Boone Brown, a very superstitious man who becomes the victim of an evil psychiatrist. This film is famous for another visual routine: the one of a revolving bedroom, that would be done again by Fred Astaire in 1951.

Como dito anteriormente, “Sete Anos de Azar” teve um mau desempenho nas bilheterias mas foi elogiado pelos críticos na época da estreia. Com apenas 62 minutos, tem muitos momentos cômicos, dignos de gargalhada. É também uma introdução perfeita ao gênio Max Linder, que merece mais reconhecimento - afinal, o primeiro astro internacional do cinema não pode simplesmente desaparecer. Seria muito azar se Max fosse esquecido.

As stated, “Seven Years Bad Luck” did poorly at the box-office but was praised by critics when it was released. At only 62 minutes, it packs plenty of comic, laugh-out-loud moments. It’s also a perfect introduction to the genius of Max Linder, who deserves to be more recognized - after all, the first international movie star can’t simply disappear. It’d be the worst luck if Max was forgotten.

This is my contribution to the Laughter is the Best Medicine blogathon, hosted by the Classic Movie Blog Association.

Sunday, June 9, 2019

O Maluco (1921) / The Nut (1921)

Ou: por que fiquei maluca por Douglas Fairbanks em “O Maluco” (1921)

Or: why I'm nuts for Douglas Fairbanks in “The Nut” (1921)

No começo dos anos 20, a maioria das frequentadoras das salas de cinema estava apaixonada por Douglas Fairbanks. Elas tinham bom gosto: Doug era bonito, alto, moreno, com um sorriso charmoso e um porte atlético que era sempre explorado nas telas. Por isso seria uma grande surpresa vê-lo em um filme de 1921 interpretando um inventor nerd – e foi uma surpresa muito agradável.

In the early 1920s, most female moviegoers were in love with Douglas Fairbanks. They had good taste: Doug was handsome, tall, with a dark complexion, a charming smile and he always showed his athleticism on screen. So it would come as a huge surprise to see him in a 1921 film playing a nerdy inventor - and it was a very pleasant surprise.


Charlie (Fairbanks) é um inventor. Ele está apaixonado por Estrell (Marguerite De La Motte). Estrell trabalha por uma causa: ela recebe crianças pobres em casa durante uma hora todos os dias, porque ela acredita que casas refinadas irradiam ideias refinadas, por isso as crianças terão mais oportunidades na vida se passarem algum tempo em lugares refinados.

Charlie (Fairbanks) is an inventor. He is love with Estrell (Marguerite De La Motte). Estrell works for a cause: she receives a few poor children in her house one hour every day, because she thinks refined houses irradiate refined ideals, so those kids will have more opportunities when they grow up because they spent time in nice places.


Além de Charlie, outro homem está interessado em Estrell: o apostador Philip (William Lowery). Philip é tão mau que seu telefonista é o diabo em pessoa – e isso não é uma metáfora! Estrell, Charlie e Philip se encontram em uma festa que Charlie organiza para que Estrell possa discursar sobre a sua causa. Embora ela consiga alguns voluntários, uma invenção de Charlie sai do controle e isso acaba atrapalhando a festa.

Besides Charlie, Estrell has another suitor: the gambler Philip (William Lowery). Philip is so bad his telephone operator is the devil himself - and this is not a metaphor! Estrell, Charlie and Philip meet at a party Charlie throws so Estrell can spread the word about her cause. Although she gets some new volunteers, Charlie’s invention gets out of control and this spoils the party.


Toda a confusão leva Charlie para a cadeia. Lá, ele é colocado na mesma cela que um criminoso conhecido como Gentleman George (Gerald Pring). George, entretanto, se apresenta como um membro da rica família Vanderbrook – e Charlie acredita que ele tem uma chance de fazer com que Estrell o perdoe se ele conseguir espalhar a teoria dela entre os milionários.

All the confusion leads Charlie to jail. There, he is put in the same cell as a crook known as Gentleman George (Gerald Pring). George, however, introduces himself as a member of the rich Vanderbrook family – and Charlie thinks he has a chance to win Estrell back if he spreads her theory among millionaires.


Charlie fará qualquer coisa para ver Estrell feliz. Enquanto isso, Philip se aproxima dela interessado apenas em um caso rápido e isso desagrada à amante dele a exótica Claudine (Barbara La Marr). Algumas confusões com o Vanderbrook real e o filho dele vão acontecer nesta história sobre criatividade e adoração – e Doug até fará alguns saltos!

Charlie will do anything to see Estrell happy. Meanwhile, Philip gets close to her only interested in a quick affair, and this displeases his lover, the exotic Claudine (Barbara La Marr). A few confusions with the real Vanderbrook and his son will also happen in this tale of creativity and adoration - and Doug even manages to do some jumps!


Sim, Charlie é bonito, alto, moreno, com um sorriso charmoso e um corpo atlético. Mas o que realmente o faz se destacar é como ele trata Estrell. Ele acredita nela e quer que a teoria dela seja um sucesso – muito embora ela seja bem estranha. Em tempos como os nossos, de mansplaining e manterrupting, é raro ver um homem apoiando as ideias de uma mulher. Isso devia ser algo muito mais raro na década de 1920. Ter alguém que lhe estimule e que fique feliz quando você alcança seus objetivos é algo tão raro que esse apoio pode ser mais valioso e atraente que qualquer característica física.

Yes, Charlie is handsome, tall, with a dark complexion, a charming smile and an athletic body. But what makes him really stand out is how he treats Estrell. He believes her and wants to see her theory be successful - even though it sounds very, very odd. In times like today, full of mansplaining and manterrupting, it’s rare to see a man support a woman’s ideas. It must have been even rarer in the 1920s. To have someone who stimulates you and cheers when you achieve your goals is something so rare that this support can be more valuable and attractive than any physical trait.


Em 1915, Douglas Fairbanks fez uma comédia chamada “The Lamb” - foi seu primeiríssimo filme. Em 1920, quando o remake foi feito, Doug, agora produtor de suas próprias películas, indicou Buster Keaton para seu papel, um galã sério que foi interpretado com maestria por Keaton em "O Pesado". Em uma troca curiosa, posso visualizar Keaton perfeitamente como o protagonista de “O Maluco”. Como “O Maluco” tem muita comédia – e às vezes comédia física – Buster seria uma escolha perfeita. Além disso, ele poderia fazer a sequência inicial muito bem, pois Buster também se divertiu com algumas maravilhas modernas no curta-metragem “O Espantalho” (1920).

In 1915, Douglas Fairbanks did a comedy film called “The Lamb” - it was his very first film. In 1920, when this film was remade, Doug, already producing his own films, suggested Buster Keaton for his role, a straight lead that he played very well in "The Saphead". In a curious change, I can perfectly envision Buster as the lead in “The Nut”. Since “The Nut” has a lot of comedy – and sometimes relies on physical comedy – Buster would be a perfect choice. Furthermore, he could have played the opening sequence with the inventions very well, because Buster also had a good time with modern marvels in the short “The Scarecrow” (1920).


Marguerite De La Motte, que já havia trabalhado com Fairbanks em outros filmes como “A Marca do Zorro” (1920), era a melhor amiga da outra atriz de destaque do filme, Barbara La Marr. A atriz e roteirista La Marr, que também trabalhou com Fairbanks em “Os Três Mosqueteiros” (1921), tem o pequeno papel de uma vamp ciumenta em “O Maluco” - ela é um protótipo de femme fatale. La Marr faleceu tragicamente em 1926, aos 29 anos, vítima de tuberculose.

Marguerite De La Motte, who had worked with Fairbanks in other films such as “The Mark of Zorro” (1920), was best friends with the other important actress in the film, Barbara La Marr. Actress and writer La Marr, who also had worked with Fairbanks in “The Three Musketeers” (1921), has a small role of a jealous vamp in “The Nut” - a femme fatale prototype. La Marr tragically passed away in 1926, at 29, from tuberculosis.

Marguerite de la Motte
Barbara La Marr / William Lowery 

Eu gargalhei em muitas cenas de “O Maluco”. Não apenas as ações eram engraçadas, mas também as cartelas de texto. Houve, no entanto, alguns momentos quando Charlie estava tentando reconquistar Estrell em que as ações pareciam fora do lugar – eu me pergunto se o editor fez escolhas incomuns ou se há alguns fragmentos faltando.

I laughed out loud in many scenes in “The Nut”. Not only the actions were funny, but also the title cards. There were, however, some moments when Charlie was trying to get Estrell back in which the actions looked out of place – I wonder if the editor made unusual choices or if there are fragments missing.


Uma das muitas cartelas de textos hilárias diz: “Talvez a necessidade seja a mãe de todas as invenções – mas o pai delas é um maluco”. Infelizmente, nós vemos todas essas invenções nos primeiros minutos. Eu estava esperando mais criações loucas, mas, com a evolução da história, Charlie teve de mostrar sua criatividade de outras maneiras – por exemplo, usando sua malsucedida máquina de incenso para criar a impressão de que um boneco de cera era um homem de verdade fumando.

One of the many hilarious title cards says: “Maybe necessity is the mother of all inventions – but the father of these is a nut.” Unfortunately, we see all those inventions in the first few minutes. I was expecting more zany creations, but as the story went on, Charlie had to show his creativity in other ways – for instance, using his failed incense machine to make a waxwork look like a real man smoking.


O Maluco” nos mostra que nerds também podiam ser heróis românticos muito antes de se tornar bacana ser nerd. O filme também mostrou que nem todas as mulheres precisam de um homem para salvá-las quando elas estão em perigo: algumas só precisam de alguém para apoiá-las. E “O Maluco” também mostrou que Fairbanks pode ter se tornado uma superestrela com seus filmes de capa e espada, mas foi com comédias modernas que ele começou – e ele se saía muito bem nelas.

The Nut” shows us that nerds could also be romantic heroes way before being nerd became cool. It also showed us that not all girls need a man to save them when they're in danger: some girls just need someone to show support. And “The Nut” also showed that Fairbanks may have became a superstar with his swashbuckler roles, but it was in modern-day comedies that he started and also excelled.

O Maluco” está disponível, sem legendas, no YouTube e Internet Archive.

The Nut” is available on YouTube and Internet Archive.

This is my contribution to the Reel Infatuation blogathon, hosted by Ruth and Maedez at Silver Screenings and Font and Frock.


Tuesday, February 19, 2019

O Pesado (1920) / The Saphead (1920)


Uma peça da Broadway chamada “The New Henrietta” permitiu que dois dos maiores atores do cinema mudo renovassem suas carreiras. Depois de estrelar a peça na Broadway em 1915, Douglas Fairbanks era a escolha óbvia para protagonizar a adaptação para o cinema, “The Lamb” (1915) - seu primeiro filme. Quando um remake foi feito em 1920, Fairbanks, já um ídolo das telas, recomendou que Buster Keaton fizesse seu papel. E “O Pesado” (1920) foi o primeiro longa-metragem de Keaton.

A Broadway play called “The New Henrietta” allowed two of the biggest silent actors to do new things with their careers. Having starred the play on Broadway in 1915, Douglas Fairbanks was the obvious choice to star the film adaptation, “The Lamb” (1915) - his first film. When the film was remade in 1920, Fairbanks, already an established screen idol, recommended Buster Keaton for his role. And “The Saphead” (1920) was Keaton’s first feature film.


Os créditos não podiam ser mais fofos. Os perfis dos atores aparecem em pequenas janelas ovais, semelhantes a camafeus, então se movem e desaparecem, até aparecer o maior dos camafeus com o perfil de Buster. Nosso Buster é Bertie Van Alstyne, o filho do ricaço Nick de Wall Street (William H. Crane). O pai dele pode ser um magnata, mas a única preocupação de Bertie é conquistar uma garota adotada por seu pai, Agnes (Beulah Booker). A outra filha de Nick é Rose (Carol Holloway), casada com Mark Turner (Irving Cummings). Mark tem um grande problema: sua amante, Henrietta, tem vários cartas de amor para incriminá-lo.

The credits couldn’t be cuter. The actors’ profiles appear in little oval windows, like cameos, become animated and fade, until the biggest cameo, that has Buster. Our Buster is Bertie Van Alstyne, the son of the rich Nick of the Street, Wall Street of course (William H. Crane). His father may be a mogul, but Bertie’s only affliction is conquering his father’s protégé, Agnes (Beulah Booker). Nick’s other child is Rose (Carol Holloway), married to Mark Turner (Irving Cummings). Mark has a huge problem: his lover, Henrietta, has a lot of incriminatory love letters.


Bertie leu um manual para conquistar a mulher moderna, e por isso decide que precisa de reputação de bad boy, que fuma e joga, quando ele não consegue encontrar Agnes na estação de trem - porque ele foi à estação errada - ele decide sair com os amigos e ir até um cassino ilegal. Agnes fica com a impressão de que ele passa as noites com garotas, o que a entristece, porque ela também é apaixonada por Bertie.

Bertie has been reading a manual to win the modern lady, and wants to build a bad boy reputation, by gambling and smoking. When he can’t meet Agnes at the train station - because he went to the wrong station - he decides to go out with friends and go to an illegal gambling palace. Agnes gets the impression that he spends nights with other girls and becomes heartbroken, because she, too, loves Bertie.


Quando as coisas com Agnes parecem se acertar, Bertie é expulso de casa pelo pai, que não gostou de ver o filho envolvido no escândalo do cassino clandestino. Nick dá a seu filho parcos um milhão de dólares para que ele sobreviva até encontrar um emprego. Bertie estabelece sua nova residência no Hotel Ritz e passa a ser investidor na Bolsa de Valores - e quem poderia imaginar que os membros da Bolsa eram tão infantis? Enquanto isso, Mark está disposto a fazer qualquer coisa para não deixar a verdade sobre sua relação com Henrietta vir à tona. Para piorar as coisas, Nick passa a vender as ações de uma mina de ouro também chamada Henrietta.

When things with Agnes seem to be settled, Bertie is expelled from home by his father, who didn’t like Bertie involved in the scandal of the clandestine casino. Nick gives son only a million dollars so he can survive until he gets a job. Bertie establishes his new residence at the Ritz and becomes a stock broker - and who could have imagined that Stock Exchange members were so childish? Meanwhile, Mark is willing to do anything to not let the truth about his relationship with Henrietta surface. To make things worse, Nick starts handling the stock papers of a gold mine also called Henrietta.


Em “O Pesado” não há a mesma quantidade de comédia física a que um fã de Buster Keaton está acostumado. Claro, Buster cai da escada uma vez e dá uma cambalhota, mas é só isso. Pode não haver muito slapstick, mas mesmo assim a comédia em “O Pesado” é muito boa. Isso se deve ao cérebro perspicaz por trás do roteiro: June Mathis. June foi uma roteirista autodidata que se tornou a primeira executiva da história de Hollywood quando ela se tornou chefe do departamento de roteiros da Metro em 1918. June também foi responsável por lançar a carreira de Rodolfo Valentino. Ela faleceu em 1927, aos 40 anos, de ataque cardíaco, e foi enterrada ao lado de Valentino, que havia morrido no ano anterior.

There is not in “The Saphead” the common amount of physical comedy that a Keaton fan is used to. Sure, Keaton falls down the stairs once and does one somersault, but that’s it. There may not be so much slapstick, but the comedy in “The Saphead” is very good nonetheless. This is because of a witty mind behind the screenplay: June Mathis. June was a self-taught screenwriter who became the first female film executive in Hollywood when she became the head of the scenario department at Metro in 1918. June was also responsible for launching Rudolph Valentino’s career. She passed away in 1927, aged 40, from a heart attack, and was interred next to Valentino, who died the prior year.

June Mathis
O nome Irving Cummings soa familiar para você? Para mim ele certamente soou: nos anos 30 e 40, Cummings dirigiu diversos filmes na Fox, como “A Pequena Órfã” (1935) com Shirley Temple, “A vida de Alexander Graham Bell” (1939) e “Serenata Tropical” (1940). Cummings começou a dirigir em 1921, e foi indicado ao Oscar por “No Velho Arizona” (1928).

Is the name Irving Cummings familiar to you? He was certainly familiar to me: in the 1930s and 40s, Cummings directed several movies at Fox, like Shirley Temple’s “Curly Top” (1935), “The Story of Alexander Graham Bell” (1939) and “Down Argentine Way” (1940). Cummings started directing in 1921, and was nominated for an Oscar for “In Old Arizona” (1928).
 
Irving Cummings
O diretor de “O Pesado” é Herbert Blaché, o marido de Alice Guy. Ele e Alice fundaram a companhia Solax Film Co. em 1910. Em dezembro de 1919 os estúdios da companhia pegaram fogo, e Alice dirigiu seu último filme em 1920. Herbert, que trabalhava mais como produtor, passou a trabalhar mais como diretor a partir de então. Ele e Alice se divorciaram em 1922.

The director of “The Saphead” is Herbert Blaché, Alice Guy’s husband. He and Alice founded the Solax Film Co. in 1910. In December 1919 the Solax Studios caught fire, and Alice directed her last movies in 1920. Herbert, who had been working more as producer, started directing more from then on. He and Alice divorced in 1922.


Eu amei a decoração dos intertítulos. Desenhar intertítulos era uma arte - não nos esqueçamos de que Hitchcock começou no cinema nessa função. As figuras nos intertítulos não são espirituosas, mas escolhas óbvias, e mesmo assim elas adicionam charme a um filme já charmoso.

I loved how some title cards were decorated. Writing title cards was an art in itself - let’s not forget that Hitchcock started in movies by doing exactly that. The figures in the intertitles are more obvious than clever, bot they add a charming touch to an already charming movie.


Fairbanks pode não ter feito “O Pesado”, mas sua ausência não foi uma grande perda. Como Bertie, Buster Keaton é fofo, simpático e nós torcemos por ele. Não nos esqueçamos de que tanto Fairbanks quanto Keaton eram homens bastante atléticos - pensando assim, podemos concluir que eles não eram tão diferentes no final das contas.

Fairbanks didn’t do “The Saphead”, but his absence was not a big loss. As Bertie, Buster Keaton is cute, sympathetic and we root for him. Let’s not forget that both Fairbanks and Keaton were very athletic men - thinking like this, we can conclude that they weren’t so different after all.


Mesmo se você não conhece nada da Bolsa de Valores - assim como eu - você pode se divertir muito com “O Pesado”. O público de 1920 com certeza se divertiu: o filme foi um sucesso de bilheteria e Buster passou a ter seu nome no topo dos créditos a partir de então. “O Pesado” é diferente de tudo o que você já viu de Buster, e é também um marco em sua incrível carreira.

Even if you know nothing of the stock market - like me - you can enjoy immensely “The Saphead”. The 1920’s audiences sure did: the film was a box-office hit and Buster started receiving top billing from then on. “The Saphead” is different from everything you’ve seen Buster in, and it also was a milestone in his amazing career.

This is my contribution to the Fifth Annual Buster Keaton blogathon, hosted by Lea at Silent-ology.


Sunday, November 8, 2015

O Pirata Negro (1926) / The Black Pirate (1926)

Johnny Depp, como o Capitão Jack Sparrow. Errol Flynn. Tyrone Power. Basil Rathbone. Capitão Gancho. E, antes de todos eles, Douglas Fairbanks. O espadachim original das telas modelou todos os seus sucessores: corajoso, atlético, bonito e muito dedicado à sua donzela favorita. Desde que se tornou uma superestrela, Fairbanks sonhava em levar para o alto-mar uma história de vingança, aventura e romance. E ele não poderia tê-lo feito de melhor maneira.
Durante os primeiros três minutos, você tem a apresentação básica do elenco e equipe, e algumas telas com escritos sobre a época em que piratas infestavam os mares – é, afinal, um filme mudo. Mas as primeiras imagens trazem consigo uma imensa surpresa: é um filme COLORIDO. E com cores mais belas e realistas que muitos filmes criados em computador que vemos por aí. É como se estivéssemos entrando em uma pintura - dos grandes mestres, é claro.
Os piratas sanguinários estão saqueando um navio, e pretendem não deixar testemunhas do crime. Depois que todos os passageiros são acorrentados, a pólvora do navio é espalhada e o fogo é aceso. Fugindo com pressa nos pequenos barcos de resgate, os piratas e as riquezas já estão longe quando o navio explode. Mas dois homens sobrevivem: Douglas Fairbanks, de túnica verde e braços musculosos, e o pai, já velho e fraco, que morre nos braços de Doug pouco depois de chegar à praia.
Doug promete vingar a morte do pai, e para sua sorte os piratas atracam na ilha para enterrar um tesouro. A estratégia para vencê-los é juntar-se a eles, e Doug mostra suas habilidades com a espada lutando contra o homem mais forte do bando. A próxima prova é sequestrar um navio mercante sozinho. Como ele consegue, sem a ajuda de nenhum outro homem? Porque ele é Douglas Fairbanks. E também porque ele é muito esperto.
No navio capturado estava a princesa Isobel (Billie Dove) e, para salvar a bela moça e também a pobre tripulação, Doug sugere que peçam um resgate pela princesa, o que é aceito por todos, em especial pelo chefe do bando, Mac Tavish (Donald Crisp, com um braço só). Quem não fica nem um pouco satisfeito com a história do resgate é o sempre invejoso Pirata Tenente (Sam De Grasse), que já havia ganhado a posse da princesa em um sorteio.
Douglas Fairbanks é, obviamente, a estrela do filme, e as melhores cenas envolvem suas múltiplas acrobacias e muita, muita habilidade corporal. Há também ótimos momentos com Donald Crisp, que se mostra um pirata divertido e de bom coração. Crisp era até então associado a papéis de vilões, como em “Lírio Partido / Broken Blossoms” (1919) e “O Filho do Zorro / Don Q Son of Zorro” (1925). Crisp também tinha uma carreira prolífica como diretor e, como já havia dirigido Fairbanks em “Don Q”, Crisp começou “O Pirata Negro” atrás das câmeras. Após um desentendimento com Fairbanks, Crisp foi substituído pelo diretor Albert Parker e ficou na película apenas como ator.
De Grasse, Crisp e Fairbanks
Desde o sucesso de “Zorro” (1920), Fairbanks já pensava em fazer um filme sobre piratas – mas tinha de ser em cores, e nem um pouco artificial. Ele esperou a tecnologia dos filmes totalmente coloridos ser testada em “The Toll of the Sea” (1922), “The Glorious Adventure” e “The Wanderer of the Wasteland” (ambos de 1924). Também escolheu os tons certos, de modo que a cor fosse um elemento complementar, e jamais se tornasse mais atrativa que o enredo. A história, aliás, foi escrita por Fairbanks (creditado sob o pseudônimo “Elton Thomas”).
Billie Dove tem como única função ser uma bela donzela em perigo. Ela cumpre bem este papel, mas não tem sequer a honra de beijar nosso herói no final: na cena do beijo apaixonado, que inclusive deixa cansado Donald Crisp, Fairbanks não está beijando Billie Dove, mas sim sua esposa Mary Pickford, vestida como a princesa Isobel!
Mary Pickford
Apesar de alguns problemas técnicos (eram necessárias duas películas coloridas, uma colada sobre a outra, para atingir os tons desejados, o que confundiu alguns projecionistas), “O Pirata Negro” foi um imenso sucesso de bilheteria. O retorno financeiro é digno de ser comemorado, mas o filme conseguiu algo muito mais importante: simples, belo e emocionante, mantém o espectador completamente envolvido com a trama. Nada mal para um filme com quase noventa anos, não?
O Pirata Negro” pode ser visto no YouTube (versão estendida de 94 minutos).
This is my contribution to the Swashaton - A blogathon of Swashbuckling Adventure, hosted by mighty Fritzi at Movies, Silently.
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