} Crítica Retrô: Akira Kurosawa

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Wednesday, January 4, 2017

Resoluções cinematográficas 2016 – Resultados

2016 film resolutions - Results

Se as resoluções cinematográficas de 2015 só foram completadas nos primeiros dias de 2016, as de 2016 foram cumpridas a tempo – ainda que aos 45 do segundo tempo. Sim, deixei mais uma vez a maioria dos filmes para ver em dezembro, e precisei correr para terminar a lista no dia 31. Mas tive gratas surpresas, com filmes proféticos, ainda atuais e alguns que já entraram na minha lista de favoritos de todos os tempos. Vamos a um resumo de cada um deles:

The 2015 film resolutions were only completed in the first days of 2016, but the ones from 2016 were completed in time – in the last minute, to be fair. Yes, once again I left most films to be seen in December, and I had to hurry to end the list on the 31st. But I had good surprises, with prophetical films, some very modern ones, and the ones that already entered my list of all-time favorites. Let's discover a little bit about them:

The Doll (1919): Este adorável filme com Ossi Oswalda, dirigido por Ernst Lubitsch, conta a história de um homem rico e mimado que decide se casar com uma boneca para parar de ser importunado por pretendentes. O problema é que a boneca que ele escolhe é na verdade feita de carne e osso. Difícil de entender? Leia a crítica completa AQUI.

Die Puppe (1919): This lovely film with Ossi Oswalda, directed by Ernst Lubitsch, tells the story of a rich and spoiled young man who decides to marry a doll to stop being harassed by women. The issue is that the doll he chooses is actually made of flesh and bone. Sounds complicated? Read the review HERE.
A ópera dos pobres (1931): Drama, musical e um pouquinho de comédia se misturam para contar a história de Mackie Navalha (Rudolf Forster), um bandido comum que se casa com a filha do dono de uma rede de mendicância em Londres.

The Threepenny opera (1931): Drama, musical and a little bit of comedy are put together to tell the story of Mackie Messer (Rudolf Forster), a common criminal who marries the daughter of an owner of a begging business in London.
Três… Ainda é Bom (1932): Ann Dvorak está aqui quase – quase – tão boa quanto em “Scarface”. Acima de tudo, este pre-Code curtinho é uma lição para as mulheres que pensam em buscar a felicidade for a do casamento. Crítica completa AQUI.

Three on a Match (1932): Ann Dvorak is here almost – almost – as good as she was in “Scarface”. Above all, this short pre-Code is a cautionary tale about women who think about seeking happiness outside the sacred institution of marriage. Full review HERE.
Stella Dallas, Mãe Redentora (1937): Barbara Stanwyck prova que uma mãe é capaz de fazer tudo, tudo mesmo, para ver sua filha feliz – mesmo que a filha não agradeça à mãe pelos sacrifícios. Veja com lencinhos ao alcance.

Stella Dallas (1937): Barbara Stanwyck proves thst a mother can do anything, anything at all, to see her daughter happy – even if the daughter doesn't appreciate the sacrifices her mother makes. Watch it with tissues near you.
A Bela e a Fera (1946): Na versão de Jean Cocteau, Bela (Josette Day) tem até irmãs malvadas e um proto-Gaston, mas o destaque fica por conta do mágico e quase assustador castelo da Fera (Jean Marais). Um filme esteticamente perfeito. 

La Belle et La Bête (1946): In Jean Cocteau's version, Belle (Josete Day) has even evil sisters and a proto-Gaston after her, but pay attention to the magic and nearly scaring Beast's (Jean Marais) castle. It's an aesthetically perfect movie.
Neste Mundo e no Outro (1946): Às vezes o mensageiro da morte erra, e não leva quem deveria. Mas e quando o amor entra em cena antes que o erro seja consertado? Leia a crítica desta maravilhosa película, uma das melhores que vi em 2016, AQUI.

A Matter of Life and Death (1946): Sometimes the grim reaper makes a mistake, and the one about to be dead ends up living. But hat if love blossoms before the mistake is erased? Read the review of this wonderful film, one of the best I've seen in 2016, HERE.
Rififi (1955): O grande filme de crime francês foi dirigido por Jules Dassin, que também atua como Cesare, com um orçamento minúsculo. Você já deve imaginar que a moral do filme é que o crime não compensa, mas mesmo assim ficará boquiaberto com a tensa e longa sequência de roubo, durante a qual nenhum ruído é ouvido na tela.

Rififi (1955): The great French heist film was directed by Jules Dassin, who also plays Cesare, with a tiny budget. You must already imagine that the moral of the story is that crime does not pay, but you'll still be speechless with the tense and long heist sequence – totally silent 20 minutes.
Galante e Sanguinário(1957): Um western tenso, de luta contra o relógio à exemplo de “Matar ou Morrer” (1952). Glenn Ford, em um papel diferente do habitual, e Van Heflin são bandido e mocinho, um esperando para ser libertado por sua gangue, outro em busca de uma recompensa.

3:10 to Yuma (1957): A tense western, about a race against time just like in “High Noon” (1952). Glenn Ford, playing againsy type, and Van Heflin are outlaw and good guy, one waiting to be rescued by his gang, the other working to collect a reward.
A Fortaleza Escondida (1958): O filme que pode ter retirado “Rashomon” (1950) da condição de meu filme favorito de Kurosawa. Dois covardes se juntam a um general (Toshiro Mifune) para resgatar uma princesa e levá-la em segurança até as terras de um clã aliado. Parece familiar? Sim, este filme influenciou – e muito – George Lucas ao criar “Star Wars” (1977).

The Hidden Fortress (1958): The film that may have taken “Rashomon” (1950) away from the top of my favorite Kurosawa's film list. Two cowards and a general (Toshiro Mifune) go to rescue a princess and tke her safely until an alied clan's territory. Does it sound familiar? Yes, this film was a big – huge – influence to George when he created Star Wars (1977).
Sob o Domínio do Mal (1962): Lutas políticas, fraudes, lavagem cerebral, trauma. 55 anos depois, os temas de “Sob o Domínio do Mal” estão mais atuais do que nunca. Frank Sinatra estrela como o ex-combatente que descobre que seu antigo chefe foi hipnotizado e está sendo usado para eleger seu padrasto presidente. Isso soa familiar, não?

The Manchurian Candidate (1962): Poilitical disputes, brain washing, trauma. 55 years later, the themes in “The Manchurian Candidate” are more modern than ever. Frank Sinatra stars as the former soldier who finds out that his old boss was hipnotized and is being used to help elect his stepfather president. This sounds familar, doesn't it?
Jules e Jim: Uma mulher para Dois (1962): Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) são melhores amigos de nacionalidades diferentes às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Como se isso não bastasse, eles conhecem Catherine (Jeanne Moreau), uma mulher livre e contestadora que mexerá com a cabeça e o coração de ambos.

Jules et Jim (1962): Jules (Oskar Werner) and Jim (Henri Serre) are best friends from different countries and the First World War is about to begin. As if  it was not enough, they meet Catherine (Jeanne Moreau), a free and outspoken woman who will enter both their minds and hearts.
THX 1138 (1971): A ficção científica pode, às vezes, nos dar uma percepção do futuro ou mesmo do presente que deixam um gosto amargo na boca. O futuro monocromático e hiper-controlado mostrado em THX 1138 é horrível de ser visto, e a busca do personagem principal por liberdade é inspiradora, em especial no momento em que vivemos.

THX 1138 (1971): Science fiction can, sometimes, give us a bitter perception of the future or even the present. The one-color, über-controlled future shown in THX 1138 is difficult to be seen, and the main character's search for liberty is inspiring, especially considering the moment we live in.

Thursday, January 28, 2016

Resoluções cinematográficas 2016

As resoluções cinematográficas de 2015 foram cumpridas com sucesso total! Assim sendo, como eu finalmente encontrei um tipo de resolução de Ano Novo que consigo cumprir, farei em 2016 uma nova listinha de clássicos que nunca vi, mas verei até 31 de dezembro. São eles:

The Doll / Die Puppe (1919)
A ópera dos pobres / The Threepenny opera (1931)
Três… Ainda é Bom / Three on a Match (1933)
Stella Dallas (1937)
A Bela e a Fera / La Belle et La Bête (1946)
Neste Mundo e no Outro / A Matter of Life and Death (1946)
Rififi (1955)
Galante e Sanguinário / 3:10 to Yuma (1957)
A Fortaleza Escondida / The Hidden Fortress (1958)
Sob o Domínio do Mal / The Manchurian Candidate (1962)
Jules e Jim (1962)
THX 1138 (1971)


Escolhi apenas 12 filmes, e não 15 como fiz ano passado, porque confesso que tive que me apressar para ver todos antes do final do ano. Doze parece ser o número ideal para a lista. Também pretendo melhorar meu espanhol através de filmes, o que representa mais um desafio cinematográfico. Agora, vamos começar a cumprir a resolução?

Thursday, November 19, 2015

Pai e Filha / Late Spring (1949)

Meu primeiro contato com o cinema de Yasujirô Ozu foi através do livro “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, que uma amiga me emprestou. Logo antes de me entregar o livro, ela me alertou sobre a complexidade dele e me pediu para que eu lhe dissesse minha opinião quando eu terminasse. O desafio estava lançado. Quem era Ozu, e como sua obra cinematográfica poderia dialogar com uma obra literária? Estava na hora de descobrir mais um mestre do cinema japonês.

Ao contrário de Kurosawa, não encontramos aqui imagens de um Japão antigo, com histórias heróicas e predominantemente masculinas. O cinema de Ozu é o cinema do Japão moderno, com mulheres ao mesmo tempo sorridentes e tímidas (este tipo de filme sobre as vidas dos japoneses modernos de classe média recebe o nome de shomingeki). É um cinema minimalista e tradicional. Ozu prefere lidar com as relações familiares e amorosas, que muitas vezes soam alienígenas para nós ocidentais.

Noriko (Setsuko Hara) vive com o pai Shukichi Somiya (Chishû Ryû), um professor viúvo. As amigas e familiares de Noriko acreditam que já está na hora de ela se casar, mas Noriko não quer deixar o pai sozinho. A situação parece estar prestes a mudar quando ela começa a sair com o assistente do pai, mas ele é um moço comprometido. Restará a solução óbvia para Noriko: um casamento arranjado. Mas será essa a opção de Noriko?

Pai e Filha / Late Spring” jamais passaria no teste de Bechdel. Sim, uma das protagonistas é uma mulher, mas o principal assunto das mulheres neste filme é a necessidade do casamento. O pai de Noriko chega a falar que ter um filho é muito melhor do que ter uma filha!


Numa visão feminista, hedonista, e talvez até mesmo egoísta, do mundo, outra fala de Shukichi chama a atenção: falando sobre um casamento arranjado, ele convence a filha de que a felicidade conjugal não será imediata – e talvez demore cinco ou dez anos até que o casal seja realmente feliz junto. Estamos em 2015, vivendo numa sociedade que prega o mindfulness (evolução óbvia do carpe diem). Ora, se devemos nos concentrar no momento presente e aproveitá-lo, como o pai dá à filha o conselho de aceitar um presente triste em troca de um futuro mais promissor? É um conflito de culturas e de gerações.

O Japão logo após a Segunda Guerra Mundial tem uma população com memórias frescas do conflito – e das dificuldades causadas por ele. Mas tem também um grande anúncio da Coca-Cola na estrada por onde Noriko passa de bicicleta. O filme foi feito durante a ocupação do Japão por tropas aliadas, o que significa que uma censura muito parecida com o Código Hays foi aplicada ao roteiro de Ozu. Houve alguma tentativa de ocidentalização do roteiro, pois os censores não gostaram dos temas de casamento arranjado e visita ao túmulo dos antepassados em Tóquio. Ozu foi mais firme e, além da Coca-Cola, o único vestígio mais ocidental no filme é a citação de Gary Cooper.

A música é digna de um filme ambientado na Era Medieval – ou talvez de um conto de fadas. As marcas registradas de Ozu estão todas lá: a câmera quase parada, a presença de momentos apenas com objetos em cena, sem atores, o brilho da atriz Setsuko Hara. Setsuko foi como a diva de Ozu. Kurosawa tinha Mifune. Yasujirô Ozu tinha Setsuko Hara, estrela do cinema japonês que passou dos papéis de heroína trágica para os de virginal criatura pelas mãos de Ozu.

A vida de Ozu não foi fácil, e boa parte dela aparece em “Pai e Filha / Late Spring”. Os papéis, entretanto, estão invertidos: Ozu viveu sempre com a mãe, e jamais se casou. Talvez seja Noriko seu alter-ego em certa medida. E, voltando a “A Elegância do Ouriço”, o que temos novamente é uma mulher de meia-idade, viúva, de vida ordinária e interesses extraordinários: um espelho de Shukichi Somiya!

Pai e Filha / Late Spring” foi minha porta de entrada para o fascinante cinema de Ozu. Apesar das diferenças culturais e do choque inicial quando conhecemos as tradições aparentemente tão arcaicas das famílias japonesas, o filme é tocante e muito bonito visualmente. E, o mais importante: mostra que há todo um mundo a ser descoberto quando nos abrimos para o maravilhoso cinema asiático.

This is my contribution to the Criterion Blogathon, hosted by Kristina at Speakeasy, Ruth at Silver Screenings and Aaron at Criterion Blues

Wednesday, August 8, 2012

Dupla Dinâmica: Akira Kurosawa e Toshiro Mifune

Algumas colaborações entre ator / atriz e diretor são memoráveis. No cinema clássico japonês o mais conhecido ator talvez seja Toshiro Mifune, chinês de nascimento e fotógrafo na Segunda Guerra Mundial, que teve uma parceria rica e fascinante com o diretor Akira Kurosawa.
Kurosawa visitava o Toho Studio, o maior estúdio de cinema do Japão na época, quando viu um moço interpretando uma cena com grande vigor. Na verdade, Akira havia sido aconselhado a ir ver um jovem talento da companhia, e este era Toshiro. O ator não conseguiu o papel para o qual fazia o teste, mas conseguiu a profunda admiração de Kurosawa. Começava aí uma parceria que renderia 16 filmes, alguns dos melhores do cinema japonês. E não pensem que Kurosawa ajudou Toshiro apenas na carreira: foi ele também que ajudou a convencer a família de Sachiko Yoshimine a aceitar o casamento dela com o ator.
Ele e Kurosawa ajudaram a colocar o Japão no mapa cinematográfico mundial, da mesma maneira que Kenji Mizoguchi fez. Mifune, aliás, trabalhou com Mizoguchi em 1952. Voltando a Kurosawa, os dois fizeram juntos o filme “Rashomon”, que rendeu um prêmio honorário equivalente ao Melhor Filme de Língua Estrangeira, categoria que só seria criada quatro anos depois. Mesmo assim, o filme não chegou aos cinemas americanos. Coube a outra produção da dupla a honra de ser o primeiro filme japonês a ser exibido nos Estados Unidos: “Os Sete Samurais”, que ainda assim estreou com dois anos de atraso.  
Se hoje nós temos uma visão bem clara do que é e como age um samurai, devemos muito às interpretações de Toshiro Mifune. O guerreiro hábil, sábio e com atitudes nobres se contrapunha ao homem com poucas aptidões sociais, como acontece em “Yojimbo” (1960). Mais tarde o jeito durão desses personagens seria copiado por Clint Eastwood, que inclusive alcançou fama mundial em “Por um punhado de dólares / A Fistful of Dollars” (1964), remake western de “Yojimbo”.
Sua carreira não foi feita só de samurais. Em 1955 ele interpretou um homem com o dobro de sua idade num filme que tinha tudo a ver com a época: “I Live in Fear” conta a história de um homem que, apavorado pelos efeitos da radiação, decide se mudar para o Brasil (!!), onde o ar é fresco, mas sua família considera a ideia dele uma grande loucura. Também teve destaque em outros dramas e noirs, como “Stray Dog” (1949), em que interpreta um policial em busca de sua arma roubada, e “Drunken Angel” (1948), em que vive um mafioso.
Foi o filme “Red Beard” (1966) que estremeceu as relações entre ator e diretor. A produção demorou dois anos para ficar pronta e, durante esse tempo, Toshiro não pôde trabalhar porque o filme exigia que ele não fizesse a barba, e passou por uma pequena dificuldade financeira, solucionada ao receber os lucros da produção. A partir daí, Kurosawa alternou sucessos e fracassos, enquanto Mifune fez filmes no exterior e participou da minissérie “Shogun”, aumentando ainda mais sua fama.
A colaboração dos dois, além de produzir obras-primas, foi também essencial para um dos maiores sucessos do cinema. Em 1958 eles fizeram “The Hidden Fortress”, uma epopeia de busca que envolvia uma princesa, um protetor e alguns coadjuvantes, a mesma premissa de “Star Wars”. Nunca o cinema japonês foi tão pop. 

This post is part of the Summer Under the Stars blogathon, hosted by Sittin’ on a Backyard Fence and ScribeHard on Film.

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