A razão de “Saratoga”
ter sido um dos maiores sucessos de bilheteria de 1937 foi a curiosidade
mórbida tão comum aos seres humanos. Seu astro, Clark Gable, poderia ser um
atrativo para as plateias, mas foi a morte da atriz Jean Harlow, com apenas 26
anos, no meio das filmagens, que atraiu multidões para ver como o filme foi
terminado sem sua protagonista. Fora isso, trata-se de uma produção simpática
sobre corridas de cavalo com um romance previsível e dois grandes nomes, um já
consagrado, outro que ainda esperava seu auge: Lionel Barrymore e Walter
Pidgeon.
Duke Bradley (Gable)
conhece o pai (Jonathan Hale) e o avô (Barrymore) de Carol Clayton (Harlow)
todos envolvidos com criação e corridas de cavalos. Quando o pai falece durante
uma corrida, Bradley, que havia se tornado sócio da fazenda, pois o pai havia
lhe dado parte das terras para pagar uma dívida, resolve esquecer o acordo,
devolvendo tudo ao avô. Ele e Carol não se entendem, até porque ela está noiva
de Hartley Madison (Pidgeon), que Bradley insiste em ofender. Seu plano é fazer
Madison apostar cada vez mais nas corridas, indo contra as apostas de Carol e
enriquecendo Bradley.
Os coadjuvantes têm
um papel especial e se tornam mais relevantes devido à necessidade de compensar
a falta da protagonista. Barrymore, em suas poucas cenas, está muito divertido.
Una Merkel está especialmente cativante como Fritzi, amiga de longa data de
Bradley cujo hilário marido é dono de uma empresa de cosméticos e alérgico a
cavalos. Quem também está lá é Hattie McDaniel, que voltaria a trabalhar com
Gable dois anos mais tarde em “E o vento levou / Gone with the Wind”. E por
falar em filmes de 1939, aqui temos a oportunidade de ver lado a lado dois
atores muito importantes de “O Mágico de Oz”: Margaret Hamilton, a bruxa má do
oeste, e Frank Morgan, que interpretaria o próprio mágico. Em uma viagem de
trem, ele faz questão de insultar a feiura da pobre moça, que diz usar seus
cremes sem obter resultados.
Pela metade do filme,
não sei se por influência dos fatos que eu já conhecia, comecei a perceber uma
Jean Harlow mais inchada e não tão bonita quando focalizada de frente, porém
com um perfil inalterado. Interessante notar como o filme trata de doenças,
pois em muitos momentos Carol está acamada ou precisa ser examinada por um
médico. Na vida real, Jean sofreu uma nefrite aguda e seus rins pararam de
funcionar. Supõe-se que a causa da doença tenha sido a escarlatina que ela
contraiu aos 15 anos. Numa época antes de hemodiálise e transplante de rins,
ela não teve salvação.
Quando o filme
completa uma hora, podemos ver que Jean foi substituída. Como nem todas as cenas são gravadas na
sequência, ainda há um momento, em uma festa, em que é ela, e não uma sósia,
que conversa com Barrymore. Nos demais momentos, tudo o que vemos é uma atriz
loira (Mary Dees) com algo escondendo seu rosto: um binóculo, um chapéu. Muitas
vezes ela é gravada de costas e dublada por alguém com um tom de voz parecido
(Paula Winslowe) com o de Jean (aliás, adoro a voz da loura platinada). Com
certeza o filme teve de ser modificado devido à sua morte, com a supressão de
falas, dando um maior destaque a Gable. Detalhe: não há nenhum beijo durante o
filme, nem sequer no final!
A ideia inicial da
MGM era regravar todas as cenas de Jean Harlow com Jean Arthur ou Virginia
Bruce, no entanto muitos fãs pediram que este último trabalho da loura
platinada estreasse logo. Além dessa tragédia, outro problema que aconteceu nas
filmagens, só que bem menos grave, foi um acidente com Lionel Barrymore, que
tropeçou em um cabo e quebrou o quadril, ficando um bom tempo numa cadeira de
rodas. Curiosamente, este filme era para ser estrelado por Gable e Carole
Lombard, rainha das comédias que em 1939 se tornou esposa de Clark e faleceu
tragicamente em 1942 em um acidente de avião. Este foi o sexto filme em que
Jean contracenou com Gable, que a chamava carinhosamente de “irmãzinha”, e a
química entre eles é visível. A morte de Jean Harlow foi um choque para a indústria
do cinema e em especial para seus fãs. No entanto, a garota que aos 16 anos saiu
de casa para se casar e cujo sonho era formar uma família se tornou, em sua
curta vida, uma estrela memorável, adorada e adorável mesmo 75 anos após sua
morte.
Mais informações sobre
a vida e morte de Jean Harlow podem ser encontradas aqui.
This is my entry for The Late Film Blogathon, hosted by Shadowplay, showing some of great people’s
last films. Great morbid idea!

