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Friday, October 14, 2022
41 Giornate del Cinema Muto - 41st Pordenone Silent Film Festival
A melhor semana do ano veio… e já se foi. Esta semana é, obviamente, a semana em que o Festival de Cinema Mudo de Pordenone acontece. Este ano, a semana veio com notícias muito especiais: eu ganhei o prêmio do Collegium! Explicando: em 2020 eu fui uma das onze jovens pessoas escolhidas para o Collegium, um grupo de discussão dentro do festival. Todos nós tivemos que submeter um artigo documentando nossa participação e discutindo um ou mais filmes do festival. Eu escrevi sobre o insano “La Tempesta in un Cranio” e seus temas paralelos de doença mental, slapstick e estrelato. E meu artigo foi escolhido como o melhor de todos, empatado com o artigo escrito por meu amigo Travis. O artigo em breve estará no site do festival, por isso agora vou discutir os filmes exibidos na edição online de 2022 da Le Giornate del Cinema Muto.
Outro filme da Ruritania no programa foi “His Majesty The Barber” (1928), um filme sueco-alemão que nos apresenta a Nickolo (o ator chileno Enrique Rivero), um barbeiro que é na verdade rei de um reino chamado Tirania. Nickolo não sabe que é um rei, pois o segredo é bem guardado por seu avô, também barbeiro e amigo pessoal da rica senhora Sophie Svensson (Karin Swamströn), que quer casar sua neta Astrid (Brita Appelgren) com um homem rico. Isso não é o que você espera, pois o filme tem um plot twist incrível no final.
O reino de Lothen-Kunitz é onde a ação começa em “The Runaway Princess” (1929). A princesa Priscilla (Mady Christians) acaba de fazer 21 anos e isso significa que seu noivado com um príncipe de algum reino vizinho está para acontecer. Insatisfeita com a ideia de se casar com alguém que não conhece, Priscilla foge para Londres, onde ela se envolve com um grupo de falsários. Este filme tem poucas cartelas de títulos, algo que eu apreciei, mas é previsível.
O segundo tema era Norma Talmadge. No evento presencial, 15 dos filmes de Norma - mais três fragmentos de filmes - foram exibidos, enquanto na versão online três de seus filmes fizeram parte da mostra: o curta de 1912 “Mrs ‘Enry ‘Awkins” e dois longa-metragens. Em “Yes or No” (1920), Norma interprets dois papéis: a rica Margaret Vane, cujo marido está doente mas não conta para ela, e Minnie Berry, cujo marido é um operário que estuda à noite. Ambas as mulheres se sentem negligenciadas pelos maridos, e ambas são seduzidas por outros homens: a senhora Vane pelo bon-vivant Paul Derreck (Lowell Sherman) e a senhora Berry pelo seu inquilino Ted Leach (Gladden James). Essas mulheres dirão sim ou não para a tentação? Também no elenco está Natalie Talmadge - a futura esposa de Buster Keaton- como Emma, criada da senhora Vane e irmã de Minnie. Em “Yes or No” o papel duplo não é igual ao de “Sui Gradini del Trono”, no qual os sósias trocam de lugar, mas é uma boa técnica de qualquer maneira.
O segundo filme de Norma Talmadge exibido foi “The Lady”, dirigido por Frank Borzage. O filme começa com Polly Pearl, uma mulher de meia-idade (já interpretada por Talmadge), em sua taverna em Marselha. Lá ela reconta sua história de vida, primeiro como dançarina num teatro, ao que se segue um casamento com o rico Leonard St Aubyns (Wallace MacDonald), um casamento que só durou até a lua de mel. Sempre com o objetivo de ser uma dama, ela vai para a França, onde sofre um bocado. Os destaques deste drama lacrimoso foram a decoração de interiores de William Cameron Menzies e a atuação de Norma Talmadge, especialmente perto do final.
“Just Around the Corner” (1921) foi escrito para as telas e dirigido por Frances Marion. O filme conta a vida da família Birdsong: Ma (Margaret Seddon), Essie (Sigrid Holmquist) e Jimmie (Lewis Sargent, ótimo no papel). Essie é influenciada por uma má amiga, que a leva a mudar de trabalho e a apresenta a um golpista, Joe Ullman (Edward Phillips). A mãe se preocupa com um possível casamento entre Essie e um homem decente, por isso ela fica sempre à espera da noite em que Essie trará seu namorado para jantar em casa. Este filme foi restaurado graças à atuação conjunta da Biblioteca do Congresso dos EUA e o sempre excelente Eyefilmmuseum da Holanda, e a cópia exibida estava incrível.
As pessoas responsáveis por fazer o Código Hays ser respeitado ficariam malucas se tivessem que censurar o filme italiano “Profanazione”, de 1926. Estrelando Leda Gys, o filme conta a história de Giulia, uma mulher que, para pagar uma dívida, transa, contra sua vontade, com Roberto (de novo Alberto Capozzi), um homem que sempre a cobiçou. Giulia engravida e tem duas filhas, vive feliz por alguns anos, até que seu marido descobre que uma das meninas não é sua filha legítima.
Também teve espaço em Pordenone para documentários, tanto curtas quanto longa-metragens. Os curtas foram apresentados dentro da sessão da Ruritania e consistiam em newsreels mostrando os reis de Montenegro e da Eslovênia. Outro curta mostrava três festivais no Japão da década de 1910. O longa “Over Mountains, Over Valleys” (1929) não fez meu tipo, mas foi interessante ao mostrar principalmente crianças brincando em vilas da Eslováquia. Eu gostei muito das roupas das pessoas… e das ovelhas no começo. O diretor Karel Plicka realmente insere no filme traços etnográficos, fazendo dele um objeto muito curioso.
Na Giornate pude ver qual é o apelo de Ivan Mosjoukine, um querido dos Twitter os que tratam do cinema mudo. E, uau, que estrela! Ele é o protagonista de “Manolescu”, de 1929, interpretando um homem que se transforma em um trapaceiro, com a ajuda de sua amante, Cleo (Brigitte Helm). Quando ele é atingido na cabeça por um inimigo, ele conhece a adorável enfermeira Jeanette (Dita Parlo) e passa a viver um dilema amoroso. Curiosamente, como referência ao tema da Ruritania, o título do filme em inglês é “Manolescu, o Príncipe das Aventuras”.
Outro ator que pude conhecer melhor na Giornate foi Harrison Ford - não, não o Indiana Jones, mas um astro do cinema mudo com o mesmo nome. Em “Up in Mabel’s Room” (1926), Mabel (Marie Prevost) havia se divorciado do marido Garry (Ford) por causa de uma bobagem. Agora ela está determinada a se casar novamente com Garry, e uma festa numa mansão é a oportunidade perfeita para Mabel acabar com o noivado de Garry com Phyllis (Phyllis Haver) e tomar seu homem de volta. Duas coisas chamaram minha atenção neste filme: a trilha brilhante da Zerorchestra e o papel do mordomo Hawkins, interpretado por William Orlamond.
“O Grande Amor de uma Pequena Dançarina” (1924, título traduzido do original alemão) foi uma pérola. A animação feita com marionetes é a única sobrevivente do estúdio Piccolo-Film, e é o que chamamos de um “filme órfão”: não foi dirigido ou protagonizado por pessoas famosas, por isso não é o tipo de filme que chama atenção suficiente para ser restaurado e exibido. Também conhecido pelo maravilhoso título com trocadilho “The Cabinet of Dr Larifari”, este foi meu filme favorito de toda a Giornate, mesmo ele terminado com o deus ex-machina que eu mais detesto. Todo o resto foi perfeito: o trabalho com as marionetes, a atmosfera, a cor da cópia, a trilha sonora… Bem, se eu estivesse no Collegium este ano, escreveria meu artigo sobre este filme!
Obviamente, seguindo a Giornate online e também vendo o que estava acontecendo presencialmente na Itália gera uma tristeza. Eu amaria ter visto “The Unknown” (1927), com meu ator favorito do cinema mudo, Lon Chaney, e dez minutos extras que eram desconhecidos do público. Eu amaria ter visto o programa especial das Nasty Women, porque eu recentemente entrevistei as curadoras desta sessão e foi uma entrevista fantástica. E, o desejo mais óbvio, eu amaria ter estado lá no dia do aniversário de Buster Keaton para receber meu prêmio no palco do Teatro Verdi.
Todos nós que amamos cinema mudo sabemos o quanto
desta arte está perdido: na verdade, o diretor da Giornate, Jay Weissberg, em
uma das introduções, disse que 96% de todos os filmes feitos no Japão antes de
1945 estão perdidos! Mesmo assim, há tanto para ser descoberto - muito nos
arquivos, precisando de restauração - e eu sempre me alegro de acompanhar a
Giornate e descobrir tanta coisa. Pordenone é parte da minha história desde
2020, quando eles precisaram mudar para o ambiente online, e hoje estou feliz
por ser também parte da história de Pordenone. Vejo vocês ano que vem,
Pordenone - quem sabe presencialmente?
Wednesday, September 28, 2022
As Finanças do Grão-Duque (1924) / The Finances of the Grand Duke (1924)
Quantas
obras-primas podem ser feitas numa vida? E quantas obras-primas podem ser
feitas por alguém cuja carreira durou apenas 12 anos, produzindo 21 filmes? Este
alguém é Friedrich Wilhelm Murnau, ou F.W. Murnau. Suas três obras-primas mais
conhecidas são “Nosferatu” (1922), “A Última Gargalhada” (1924) e “Aurora”
(1927), com uma possível obra-prima no atualmente perdido “Os Quatro Diabos”
(1928). Trabalhando sem parar, Murnau fez outros filmes, não tão perfeitos
quanto suas obras-primas, mas filmes que merecem ser vistos de qualquer maneira
- devemos nos lembrar de que apenas 12 dos filmes de Murnau estão atualmente disponíveis.
No mesmo ano em que Murnau fez “A Última Gargalhada”, ele fez outro filme
ambicioso, “As Finanças do Grão-Duque”.
How many masterpieces can
be made in a lifetime? And how many masterpieces can be made by someone whose
career lasted for only 12 years and 21 films? This someone is Friedrich Wilhelm
Murnau, or F.W. Murnau. His three best known masterpieces are “Nosferatu”
(1922), “The Last Laugh” (1924) and “Sunrise” (1931), with a possible
masterpiece in the currently lost “4 Devils” (1928). Working steadily, Murnau
delivered other movies to the world, not as perfect as his masterpieces, but
movies that deserved to be seen anyway - we should be reminded that only 12 of
Murnau’s films are currently available. The same year Murnau made “The Last
Laugh”, he made another ambitious film, “The Finances of the Grand Duke”.
As
coisas não vão bem para Ramon XII, o Grão-Duque de Abacco (Harry Liedtke). Ele
tem uma dívida enorme para com Marcowitz (Guido Herzfeld) e precisa pagar tudo
em três dias, ou o Grão-Ducado de Abacco não mais pertencerá a ele. Uma solução
cai do céu com uma carta da Princesa Olga da Rússia (Mady Christians), que
deseja se casar com o Grão-Duque apesar das circunstâncias financeiras.
Things are not going well
for Ramon XII, the Grand Duke of Abacco (Harry Liedtke). He has an enormous debt
with Marcowitz (Guido Herzfeld) and needs to pay everything in three days, or
the Grand Dukedom of Abacco will no longer belong to the Grand Duke. A solution
falls from heaven as a letter from Princess Olga of Russia (Mady Christians),
who wants to marry the Grand Duke despite his financial situation.
Mas há muito
mais. O homem de negócios Bekker (Hermann Vallentin) está interessado em
comprar Hermosa Point, parte do território de Abacco, para explorar as reservas
de enxofre. O Grão-Duque não aceita a proposta de cinco milhões de Bekker em
troca de Hermosa Point. Incapaz de ouvir um “não” como resposta, Bekker
descobre quatro desajustados e se oferece para patrocinar o golpe que eles
querem dar no Grã-Duque. Mais personagens aparecem, como o aventureiro Philipp Collins
(Alfred Abel), que terá um papel de destaque na história.
But there is much more. Businessman Bekker (Hermann Vallentin) is interested in buying Hermosa Point, part of Abacco’s territory, to explore the sulfur reservations. The Grand Duke doesn’t accept Bekker’s five million in exchange of Hermosa Point. Unable to hear “no” as an answer, Bekker finds four misfits and offers to fund their coup against the Grand Duke. More characters appear, like the adventurer Philipp Collins (Alfred Abel), who will have a role in the story.
Os 77 minutos de projeção são divididos em seis capítulos. A pessoa responsável pelo roteiro é ninguém menos que Thea von Harbou,
então já casada com Fritz Lang. É curioso notar que Von Harbou escolhe Marcowitz
- um homem com sobrenome judeu - como a fonte primária de problemas para o
Grão-Duque. Todos nós sabemos que Von Harbou não fugiu da Alemanha com a ascensão
do nazismo e era inclusive simpática ao partido. É sempre “interessante”
observar pedacinhos de antissemitismo em seu trabalho anterior a 1933.
The 77 minutes of the film
are divided in six chapters. The person responsible for the script is none
other than Thea von Harbou, then already Fritz Lang’s wife. It’s curious to
notice that Von Harbou chooses Marcowitz - a man with a Jewish last name - as
the first source of problems for the Grand Duke. We all know that Von Harbou
didn’t leave Germany with the rise of the Nazis and was even
sympathetic to the party. It’s always “interesting” to notice bits of anti-Semitism
in her early work.
Alguns rostos familiares do
cinema mudo alemão, como Alfred Abel, que interpreta Philipp Collins, aparecem
aqui e ali. Outro rosto familiar é mais difícil de distinguir: Max Schreck, que
interpretou o papel-título em “Nosferatu”, é um dos revolucionários. O
personagem de Schreck é simplesmente chamado de “o sinistro”.
Some familiar faces of
German silent film, like Alfred Abel, who plays Philipp Collins, pop up here and
there. Another familiar face is harder to distinguish: Max Schreck, who played
the title role in “Nosferatu”, is one of the insurrectionists. Schreck’s
character is simply named “the sinister one”.
A história é muito complexa, com
muitos personagens e situações entrelaçadas, por vezes fica um pouco complicado
seguir o andamento dos fatos. Felizmente,
no começo de cada capítulo há uma descrição da ação, algo que ajuda muito. Vale
mencionar que a história não foi inventada pot Thea von Harbou: “As Finanças do
Grão-Duque” foi baseado num livro de Frank Heller, escritor sueco.
The story is very complex,
with many characters and intertwined situations, and sometimes it becomes a bit
hard to follow. Luckily, in the beginning of each chapter there is a
description of the action, something that comes in handy. It’s worth mentioning
that the story wasn’t invented by Thea von Harbou: “The Finances of the Grand
Duke” was based in a book by Frank Heller, a Swedish writer.
Algumas fontes dizem que este
filme é uma comédia - aliás, a única comédia de Murnau. Pode não ser um filme
cheio d humor, pois “As Finanças do Grão-Duque” é mais uma farça, dependendo de
identidades falsas que só são reveladas no último minuto. Há muito absurdo non filme,
mas ele não deixa de ser agradável e divertido. Vendo mais um dos bons filmes
de Murnau, continuamos esperando e tendo esperança de que mais filmes dele
sejam encontrados e redescobertos pelas plateias modernas.
Some sources say that this film is a comedy
- Murnau’s only comedy, by the way. It may not be very humorous, as “The
Finances of the Grand Duke” is more of a farce, relying heavily on fake
identities not revealed until the last minute. There is a lot of absurd
in the movie, but it is enjoyable and entertaining. As we watch another of
Murnau’s good movies, we keep waiting and hoping that more of his movies are
found and rediscovered by modern audiences.
Monday, September 26, 2022
Cabaret (1972)
Você sabe quando uma
flor aparece no meio do concreto? O mesmo pode acontecer com as artes: no meio
do caos, às vezes a arte - arte bem feita, até mesmo obras-primas - floresce. E
então as pessoas são felizes e livres... até que a tragédia acontece. Isso
aconteceu na República de Weimar (1918-1933), uma época que viu o
Expressionismo Alemão e o Kammerspiel no cinema, a cultura dos cabarés e a
liberdade de ser quem você realmente é. O perigo estava se aproximando, mesmo
assim: incapazes de verem os outros felizes, os nazistas surgiram e se
espalharam, prontos para recobrar o controle da vida das pessoas em nome da “moral”.
Sim, esta é uma lição que devemos aprender - para cada conquista de grupos
minoritários haverá uma reação das pessoas que não suportam ver seus
privilégios sendo retirados - mas é
também algo mais para prestarmos atenção: a arte espetacular feita sobre estes
raros períodos de liberdade. Um destes filmes espetaculares está completando 50
anos este ano: “Cabaret”, de Bob Fosse.
Do you know when a flower
appears in the middle of concrete? The same can happen to the arts: in the
middle of chaos, sometimes art – good art, even great art – flourishes. And
then people are happy, and free... until tragedy strikes. This happened in the
Weimar Republic (1918-1933), a time that saw the German Expressionism and the
Kammerspiel in cinema, the culture of cabarets and the freedom of being who you
truly were. The danger was looming, nevertheless: unable to see others being
happy, Nazis appeared and spread, ready to reclaim control of people's lives
over the excuse of “morality”. Yes, this is a lesson from us to learn - for
every conquest of minority groups there will be a reaction from people who can’t
stand seeing their privileges being taken away - but it’s also something else
to look out for: great art made about these rare periods of freedom. One of
those great movies is turning 50 this year: Bob Fosse’s “Cabaret”.
Sally Bowles (Liza
Minnelli) é uma dançarina no Kit Kat Club, um cabaré que apresenta alguns
números elaborados e outros nem tão elaborados. Sally fica amiga do acadêmico e
professor de inglês Brian (Michael York), que vai morar na mesma pensão em que
Sally mora. Sally também fica conhecendo uma das alunas de Brian, a judia
Natalia Landauer (Marisa Berenson). Natalia está apaixonada por Fritz (Fritz
Wepper), um judeu que mente que é protestante.
Sally Bowles (Liza Minnelli) is a dancer at the Kit Kat Club, a cabaret for some elaborate numbers and some not-so-elaborate ones as well. Sally befriends the academic and English teacher Brian (Michael York), who comes to live in the same boarding house as she does. Sally also gets to know one of Brian’s students, Jewish Natalia Landauer (Marisa Berenson). Natalia is in love with Fritz (Fritz Wepper), a Jew who lies saying he’s a Protestant.
Um dia na lavanderia, enquanto tenta s comunicar usando seu pequeno
conhecimento do alemão, Sally recebe ajuda de Maximilian (Helmut Griem), um homem
muito rico - e casado. Em vez de um triângulo amoroso, Sally, Brian e
Maximilian rapidamente se transformam em um trio. O nazismo está à espreita
enquanto eles vivem, amam e se divertem, mas Sally tem problemas mais importantes
para resolver.
One day at the laundry,
while trying to communicate using her weak German, Sally is helped by
Maximilian (Helmut Griem), a very rich - and married - man. Instead of a love
triangle, quickly Sally, Brian and Maximilian become a trio. Nazism is lurking
while they live, love and laugh, but Sally has more important problems.
Sally quer ser uma atriz na Alemanha - como Lya de Putti, ela diz. O cinema alemão estava indo muito bem nos anos 1920 e 1930. O país fez filmes incríveis e exportou diretores - como F.W. Murnau - e atores - como Emil Jannings, o primeiríssimo ganhador do Oscar de Melhor Ator, e a própria Lya de Putti, inspiração de Sally - para Hollywood. Isso significa que Sally tinha razão em se inspirar em atores alemães da época e tinha uma chance de alcançar seu sonho de se tornar uma grande estrela.
Sally wants to be an actress in Germany - like Lya
de Putti, she says. German cinema was doing very well in the 1920s and early 1930s.
Ao passarem
perto do corpo de um homem assassinado pelos nazistas, um motorista diz: “deixe
que eles se livrem dos comunistas, depois nós podemos controlá-los”. Quando
Brian pergunta quem são “nós”, o motorista responde “a Alemanha, é claro”. Como
ele estava errado - e como estão erradas algumas pessoas ainda hoje! Para
manter uma sociedade tolerante, é preciso ter tolerância zero com a intolerância.
Discurso de ódio deve ser eliminado no começo, para que não se torne ataques de
ódio. Se você não pode destruir
ativamente a intolerância, você ainda pode se opor em silêncio - como um senhor
de idade que permanece sentado quando um menino nazista canta “Tomorrow Belongs
to Me” - ou, o que é mais esperto, ir embora como Brian e Maximilian fazem.
While passing by the
body of a man murdered by Nazis, a chauffeur says: “let them get rid of the
communists, later we can control them”. When Brian asks who’s “we”, the
chauffeur says “Germany, of course”. How wrong he was then - and how wrong are
some people now! To maintain a tolerant society, we must have zero tolerance
for intolerance. Hate speech must be stopped in the beginning, so it won’t
become hate acts. If you can’t actively destroy intolerance, you can silently
oppose - like the older man who keeps seated when a Nazi boy starts singing
“Tomorrow Belongs to Me” - or, which is wiser, flee like Brian and Maximilian
do.
Os números musicais acontecem
dentro do cabaré e Sally é a grande estrela, mas não podemos nos esquecer de
mencionar a performance de Joel Grey como o Mestre de Cerimônias. O vencedor do
Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, Grey já havia ganhado um prêmio Tony por interpretar
o Mestre de Cerimônias na Broadway, onde “Cabaret” teve mais de mil apresentações
entre 1966 e 1967.
The musical numbers
happen inside of the cabaret and Sally is the big star, but we must not forget
to mention Joel Grey’s performance as the Master of Ceremonies.
O filme foi rodado em locação na Berlim Ocidental, usando muitos dos cenários usados anteriormente em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (1971). Sally Bowles foi inspirada por uma cantora de cabaré e aspirante a estrela de cinema real - mas não muito talentosa: Jean Ross. Jean foi membro do partido Comunista em Berlim e se tornou correspondente na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).
The movie was filmed on location in West Berlin, in
many of the same sets used for “Willy Wonka & the Chocolate Factory”
(1971). Sally Bowles was inspired by a real - yet not very talented - cabaret
singer and movie star-wannabe, Jean Ross. Jean was a member of the Communist
party in Berlin and became a correspondent in the Spanish Civil War (1936-1939).
Eu tenho uma
confissão a fazer: eu nunca tinha assistido a “Cabaret”. Gostei muito do filme,
mas não amei. É um bom “slice of life”, e Liza é realmente mágica como Sally -
um Oscar merecido! As músicas são tão icônicas que eu já as conhecia e pude
cantar junto. “Cabaret” é mais que um filme: é uma experiência cinematográfica.
Das boas.
I have a confession to make: I had never watched
“Cabaret” before. I really liked
it, but didn’t love it. It’s a good “slice of life” movie, and Liza is indeed
magical as Sally - well deserved Oscar win! The songs are so iconic that I
already knew all of them beforehand and could sing along.
This is my contribution
to the Fifth Broadway Bound blogathon, hosted by Rebecca at Taking Up Room.
Saturday, September 24, 2022
As Aventuras Cinematográficas de Huckleberry Finn
The Cinematic Adventures
of Huckleberry Finn
De acordo com o IMDb, a
novela de Mark Twain “As Aventuras de Huckleberry Finn” já foi adaptada para o
cinema e a TV mais de 20 vezes, começando com “Huck and Tom” – com Jack
Pickford como Tom Sawyer – em 1918. Eu escolhi assistir e resenhar três destas
adaptações, todas feitas antes de 1940, e comparar com o livro, que eu li há
alguns anos. Por isso este post também é por si só, uma aventura – literária e
cinematográfica.
According to IMDb, Mark
Twain’ novel “The Adventures of Huckleberry Finn” has been adapted to movies
and TV shows, so far, more than 20 times, starting with “Huck and Tom” – that
had Jack Pickford as Tom Sawyer – in 1918. I chose to watch and review three of
those adaptations, all made before 1940, and compare with the book that I have
read a few years ago. That’s why this post is, in itself, an adventure – a
literary and cinematographic adventure, that is.
O livro, publicado em
1884, conta as muitas aventuras de Huckleberry Finn, camarada de Tom Sawyer,
junto ao escravo em fuga Jim ao longo do rio Mississippi. Antes que a aventura
comece, Huck é sequestrado pelo pai, um alcoólatra, que quer o dinheiro que
Huck ganhou no livro anterior. Todas as versões que eu vi seguem esta história.
The book, published in 1884, tells the many
adventures of Huckleberry Finn, Tom Sawyer’s comrade, alongside the runaway
slave Jim through the Mississippi River. Before the adventures start, Huck is
kidnapped by his alcoholic father, who wants the money Huck got in the previous
book. All versions I’ve watched follow this plot.
Encontrei no Internet Archive apenas a primeira
metade da versão de 1920, um filme dirigido por William Desmond Taylor que se
destaca por ter sido a primeira adaptação do livro solo para o cinema. Aqui,
Huck é interpretado por Lewis Sargent, Tom por Gordon Griffith e Jim por George
Reed. Esta primeira metade mostra como Huck foi sequestrado por seu pai
alcoólatra e como escapou do cativeiro, e termina quando ele encontra Jim, que
havia sido vendido para um homem mau e também escapou. Um ponto importante é
que a senhora Watson maltrata Jim, se transformando ela própria em um tipo de
vilã.
I could find on the Internet Archive only the
first half of the 1920 version, a film directed by William Desmond Taylor that
was important for being the very first adaptation exclusively of the novel to
the big screen. Huck here is played by Lewis Sargent, Tom by Gordon Griffith
and Jim by George Reed. This first half shows how Huck was kidnapped by his
alcoholic father and escaped captivity, and it ends when he meets Jim, who had been
sold to a bad man and also escaped. Something that calls the attention is how
harsh Mrs Watson treats Jim, becoming a villainess in her own right.
A versão de 1931 da Paramount, intitulada no
Brasil “Mocidade Feliz”, tem Jackie Coogan como Tom Sawyer, Junior Durkin como
Huck e Clarence Muse como Jim. Dirigida por Norman Taurog, esta versão toma um
bom tempo mostrando as desventuras de Huck na escola antes do sequestro. Jim e
Tom resgatam Huck e os três partem para viver aventuras – afinal, não dava para
desperdiçar o poder do nome de Jackie Coogan, ainda um grande astro 10 anos
após ser descoberto por Chaplin em “O Garoto”. Coogan, Durkin e a maioria do
elenco repetem os papéis que interpretaram em “Aventuras de Tom Sawyer” em
1930. Já que Tom é parte da aventura, muitas mudanças foram feitas na história
do livro, e apenas uma história é contada: dois homens que dizem ser um Duque e
um Rei fingem ser os tios estrangeiros de duas garotas órfãs. Mesmo assim, esta
versão conta com um bom elenco, com Coogan, Durkin (que tragicamente morreu
poucos anos depois em um acidente de carro), Jane Darwell e Eugene Pallette.
The 1931 version, from Paramount Pictures, has
Jackie Coogan as Tom Sawyer, Junior Durkin as Huck and Clarence Muse as Jim.
Directed by Norman Taurog, this version takes a good time showing us Huck’s
misadventures at school before his kidnapping. Jim and Tom rescue Huck and the
three go on to live adventures - after all, you can’t waste Jackie Coogan’s
star power, still strong 10 years after his discovery in Chaplin’s “The Kid”.
Coogan, Durkin and most of the cast are repeating the roles they played in “Tom
Sawyer” in 1930. Since Tom is part of the whole adventure, a lot of changes
were made from the book, and only one story is told: two men who say they are a
Duke and a King pose as the foreign uncles for two orphaned girls.
Nevertheless, this version brings a good cast, with Coogan, Durkin (who
tragically died only a few years later in a car crash), Jane Darwell and Eugene
Pallette.
E em 1939 a MGM tinha o astro perfeito para ser o
protagonista de “As Aventuras de Huck”: Mickey Rooney. Com Rex Ingram como Jim
e nada de Tom Sawyer à vista, Rooney é brilhante como o menino-herói. Nesta
versão, Huck não é sequestrado pelo pai, mas aceita ir com ele pois Huck está
prestes a desapontar a viúva Douglass (Elizabeth Risdon) e a senhorita Wtason
(Clara Blandick), que estavam tomando conta dele. Quando Huck deixa o pai, Jim
é falsamente acusado de assassinar o garoto, e os dois descem o Mississippi,
até que encontram o Rei e o Duque, que primeiro fazem um show e depois fingem
ser os tios das órfãs. Este filme tem algumas escolhas estranhas – se vistas
com os olhos de hoje – como mostrar como algo positivo o fato de Huck fumar
cachimbo e todo um discurso de Huck sobre Jim ser escravo porque foi esse o
destino dado a ele por Deus. Há também dois momentos em que Mickey Rooney se
veste de menina.
And in 1939 MGM had the perfect star to be the
lead of “The Adventures of Huckleberry Finn”: Mickey Rooney. With Rex Ingram as
Jim and no Tom Sawyer in sight, Rooney is outstanding as the boy-hero. In this
version, Huck isn’t kidnapped by his father, but agrees to go with him as he’s
about to disappoint the Widow Douglass (Elizabeth Risdon) and Miss Watson
(Clara Blandick), who had been taking care of him. When Huck escapes his
father, Jim is falsely accused of murdering the boy, and the two go down the
Mississippi, until they meet the King and the Duke, who first put on a show and
later impersonate the orphans’ uncles. This movie has some odd choices – as
seen nowadays – like showing Huck smoking a pipe as something nice and a whole
speech by Huck about Jim being a slave because this was what God intended for
him. There are also two moments in which Mickey Rooney dresses in drag.
Houve uma adaptação da história para o programa de
TV Climax em 1955, na qual Jim foi completamente apagado. E então, no final dos
anos 50, um cão azul andarilho que cantava Querida Clementina foi criado, e
batizado de Dom Pixote – Huckleberry Hound no original. William Hanna e Joseph
Barbera quase batizaram Zé Colmeia de Huckleberry Bear, mas mudaram de ideia no
último minuto. Além do estilo de vida aventureiro, Dom Pixote tem pouco em
comum com Huckleberry Finn.
There was an adaptation of the story for the TV
show Climax in 1955, in which Jim was completely erased. And then, in the late
1950s, a blue dog wandering and singing Oh My Darling Clementine was created,
and baptized Huckleberry Hound. William Hanna and Joseph Barbera almosted
baptized Yogi Bear as Huckleberry Bear, but changed their minds in the last
minute. Other than his lifestyle, Huckleberry Hound has little in common with
Huckleberry Finn.
E então outras adaptações foram feitas. Houve uma
em 1960 dirigida por Michael Curtiz (abaixo), com Buster Keaton em um pequeno papel. J.
Lee Thompson dirigiu uma versão em 1974 para a tela grande e no ano seguinte uma adaptação foi feita
para a TV, com Ron Howard como Huck. A versão mais recente da história é um
curta-metragem de 2020, mas uma nova adaptação para o cinema já está em
pré-produção!
And then other adaptations were made. There was
one in 1960 directed by Michael Curtiz (below), with Buster Keaton in a small role. J.
Lee Thompson directed a version in 1974 for the big screen and the next year a
version was made for the small screen, with Ron Howard as Huck. The most recent
version of the story is a short film from 2020 and there is another adaptation
in the works!
O relacionamento e a camaradagem entre Huck e Jim
é uma das coisas mais importantes no livro, e foi traduzida para as telas de
maneiras diferentes. Não houve momentos suficientes de Huck-e-Jim no fragmento
de 1920 para que eu pudesse ver como os dois personagens interagiam. Na versão
de 1931, a presença de Tom Sawyer por todo o filme eclipsou a relacão de Jim e
Huck. Há uma verdadeira amizade retratada no filme de 1939, mesmo que o roteiro
reforce que Jim não é uma pessoa muito esperta, sendo inclusive infantil
algumas vezes.
The rapport and the camaraderie between Huck and
Jim is one of the most important things in the book, and it was translated to
the screen in different ways. There wasn’t enough of Huck-and-Jim moments in
the 1920 fragment for us to see how the two characters interacted. In the 1931
version, the presence of Tom Sawyer all through the movie eclipsed Jim and
Huck’s relationship. There is a true friendship portrayed in the 1939 film,
even though they reinforce that Jim is a not-so-bright person, even childish at
times.
Eu entendo que “As Aventuras de Huckleberry Finn”
é um clássico norte-americano e leitura obrigatória em muitas escolas - mesmo o livro tendo sido envolvido em
polêmicas e até mesmo banido em alguns lugares! Eu li o livro já adulta,
tentando agigantar meus horizontes quando o assunto é literatura mundial. Eu
gostei muito do livro e agora, dando o veredicto sobre as duas adaptações e
meia que vi, tenho que dizer que a versão de 1939 com Mickey Rooney é a melhor
delas. E a MGM faz magia novamente!
I understand that “The Adventures of Huckleberry Finn” is an American classic and mandatory reading in many schools – even though the book has been involved in polemics and even banned in some places! I read the novel when I was already an adult, broadening my understanding of world literature. I really enjoyed the novel and now, giving the verdict about the two-and-a-half adataptations I watched, I have to say that the 1939 version with Mickey Rooney is the best of them. MGM does it again, folks!
This is my contribution to the Classic Literature in Film blogathon, hosted by Paul at Silver Screen Classics.






































