} Crítica Retrô

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Wednesday, June 24, 2015

A Dama de Xangai (1947) / The Lady from Shanghai (1947)

Era a noite de Natal de 2009. A única fonte de luz na sala escura era a tela da televisão. Foi então que eu vi um filme que me marcou profundamente, cujos diálogos e imagens continuam vivos, perfeitos, em minha mente, mesmo eu nunca mais tendo visto o filme novamente. Que obra me causou tamanha impressão? Aquela que considero a obra-prima de Orson Welles, o cineasta que foi de menino prodígio a maldito em uma só encarnação: “A Dama de Xangai”, de 1947.

It was Christmas night, 2009. The only source of light in the dark room was the TV screen. It was then that I watched a film that touched me deeply, whose dialogues and images remain alive, perfect, in my mind, even though I never rewatched it. Which movie caused this to me? The one I consider to be Orson Welles’ masterpiece - Welles, the filmmaker who went from prodigious child to maudit in a single incarnation - : “The Lady from Shanghai”, from 1947.

Em um podcast presente no curso “Investigating Film Noir”, o professor Richard L. Edwards e seu convidado chamam 1947 de “o ano do suicídio no cinema”. Não, nenhum artista / diretor se matou naquele ano, felizmente. O argumento é que o ano já começou com um personagem inesquecível que imagina como seria o mundo sem ele em “A Felicidade não se Compra”, e os cadáveres se amontoam em outras tantas produções do ano – em especial em filmes noir como “A Dama de Xangai”.

In a podcast that was parto f the online course “Investigating Film Noir”, professor Richard Edwards and his guest call 1947 “the year of suicide at the movies”. No, no artist / director committed suicide that year, thankfully. The explanation is that the year already started with an unforgettable character imagining how the world without him would be in “It’s a Wonderful Life”, and the corpses keep appearing in other movies released that year - especially in noirs like “The Lady from Shanghai”.

Além de dirigir, roteirizar e produzir o filme, Orson Welles interpreta o protagonista Michael O'Hara. Ele é um irlandês à procura de emprego que acaba contratado pelo advogado manco Arthur Bannister (Everett Sloane), após Michael salvar a jovem esposa de Arthur, Elsa (Rita Hayworth), de um assalto. A partir daí, uma trama de assassinato e luxúria se desenrola.

Besides directing, producing and writing the screenplay, Orson Welles plays the lead Michael O’Hara. He is an Irishman looking for a job who ends up being hired by the lawyer with a limp Arthur Bannister (Everett Sloane), after Michael saves Arthur’s young wife Elsa (Rita Hayworth) from a robbery. From then on, a plot full of lust and murder starts.

Uma das minhas cenas favoritas no filme cita o Brasil, e eu fiquei em êxtase quando isso aconteceu. É raro uma citação séria e profunda sobre este país tropical e caliente, mas encontramos isso no filme graças a um episódio interessante da história: em 1942, Orson Welles passou um tempo no Brasil filmando um documentário, “It's All True”, que nunca ficou pronto. Ele esteve em Fortaleza, e de lá tirou uma anedota perfeita para “A Dama de Xangai”. A anedota gira em torno de dezenas de tubarões que enlouquecem e começam a comer uns aos outros. Fascinante e premonitório.

One of my favorite scenes in the film mentions Brazil, and I was ecstactic when I saw it. It’s rare to see Brazil mentioned in a serious and deep way, but we find it in this movie thanks to an interesting episode in flm history: in 1942, Orson Welles spent some time in Brazil shooting a documentary, “It’s All True”, that was never finished. He went to Fortaleza, where he got a perfect story for “The Lady from Shanghai”. The story is about dozens of sharks that go mad and start eating each other. Fascinating and prescient.

Outra cena inesquecível envolve Arthur Bannister em um julgamento... usando ele mesmo como testemunha. Aqui não importam os argumentos, as perguntas, os diálogos: a cena existe apenas para mostrar a confusão deliciosa da justiça no mundo do filme noir (e, por que não?, no mundo real também) e é a situação ridícula ao extremo (sequer o juiz parecia interessado no caso).

Another unforgettable scene involves Arthur Bannister in a trial… calling himself as a witness. Here there is no importance given to the arguments, the questions, the dialogues: the scene exists simply to show the delicious mess that is justice in the world of film noir (and why not? In the real world as well) and it is ridiculous to the extreme (even the judge seemed nor interested in the case).

Mas a cena mais memorável ainda é a do clímax, que acontece em uma sala de espelhos em um circo itinerante. A fotografia da sequência é de tirar o fôlego, e em muitos momentos chama mais atenção que a própria ação. Os personagens se confundem e se multiplicam na sala de espelhos, formando um quebra-cabeça tão fascinante quanto a trama do filme (Welles se inspirou em “O Gabinete do Doutor Caligari”, 1920, para criar o cenário, e contou com ajuda do especialista em efeitos especiais Lawrence W. Butler, que trabalhou em “O Ladrão de Bagdá”, de 1940). O que estraga um pouco a cena (e eu só percebi após rever a cena múltiplas vezes) é a trilha sonora assustadora e pesada que começa quando tiros são disparados. A sequência teria ficado melhor sem música, apenas com o som dos tiros, e Orson Welles concordava com isso: o ator / diretor ficou furioso com a trilha sonora escolhida para a cena!

But the most memorable scene is the climax, in a fun house from a travelling show. The photography in the sequence is breathtaking and in many moments it calls more attention than the action itself. The characters multiply in the mirror room, creating a puzzle as fascinating as the plot of the film (Welles was inspired by “The Cabinet of Dr Caligari”, 1920, to create the set, and was helped by the special effects expert Lawrence W. Butler, who worked in “The Thief of Bagdad”, from 1940). What ruins the scene a little (and I only realized it after multiple viewings of the scene) is the heavy and scary soundtrack that begins the moment the first guns are shot. The sequence would have been better without music, only with the sound of the gunshots, and Orson Welles agreed with thay: the actor / director got mad at the soundtrack chosen for the scene!

A Dama de Xangai” é um filme de Orson Welles. Isso significa que a filmagem foi conturbada (com direito a alugar o iate de um sempre bêbado Errol Flynn no México), o filme ficou longo demais (155 minutos no corte de Welles), o estúdio fez muitas alterações na sala de edição e as plateias americanas não gostaram muito do resultado, enquanto os europeus adoraram. Mas, sendo um filme de Welles, pode esperar que, ainda mutilado, tenha indícios de obra-prima. Ao final, “A Dama de Xangai” se transformou nisto: uma soma de cenas memoráveis em um filme noir que, apesar de tudo, não deixa de ser brilhante.

The Lady from Shanghai” is a film by Orson Welles. This means that the shooting was complicated (in Mexico they even rented the yacht belonging to a permanently drunk Errol Flynn), the film was too long (155 minutes in Welles’ cut), the studio made many changes at the editing room and the American audience didn’t like it very much, while the Europeans loved it. But, being a film by Welles, you can always expect that, even mutilated, it contains traces of a masterpiece. In the end, “The Lady from Shanghai” became this: a sum of memorable scenes in a film noir that, despite it all, can be considered brilliant.


This is my contribution to the “…And Scene!” Blogathon, hosted by Sister Celluloid! And Cut!

Thursday, June 18, 2015

Beija-me, idiota / Kiss me, stupid (1964)

No dia de Natal de 1964 estreava o filme mais ousado de Billy Wilder. O diretor desafiava os limites do Código de Decência e questionava até onde alguém iria em busca do sucesso. Em uma trama digna de Norma Desmond, os protagonistas são interioranos nada simplórios que buscam sucesso a qualquer preço. No final, nada saiu como Wilder queria. Mas isso não significa que o filme não é esplêndido...
Orville J. Spooner (Ray Walston) é um professor de piano e compositor da pequena cidade de Climax, nos arredores de Las Vegas. Um bocado obsessivo, ele morre de ciúmes da esposa, Zelda (Felicia Farr) e acredita que todos estão conspirando para que ela o traia. O único homem de quem ele não suspeita é Barney Millsap (Cliff Osmond), frentista que é seu amigo e escreve a letra para as músicas que Orville compõe. E é Barney que atende um cliente famoso no posto de gasolina: o cantor Dino (Dean Martin), de passagem rápida pela cidade. Vendo que essa é a grande chance da dupla, Barney estraga o carro de Dino de propósito, obrigando-o a ficar na cidade por uma noite, na casa de Orville.
O problema é que Dino é um conhecido mulherengo. Não querendo desperdiçar sua grande chance, mas também sem querer perder a esposa, Orville arma um plano para fazer Zelda passar a noite fora. Para saciar a loucura de Dino, Barney decide trazer a garçonete Polly “a Pistola” (Kim Novak) e apresentá-la como esposa de Orville. Ufa! Um plano que tem tudo para dar errado.
Billy Wilder havia idealizado o filme com um elenco diferente: Jack Lemmon como Orville, mas Lemmon tinha outros compromissos. Adicione a isso outra mudança de última hora: Peter Sellers havia sido escalado para o papel principal, mas sofreu um ataque cardíaco no meio das filmagens. Ele foi afastado e Ray Walston ficou com o papel. Mas quem é Ray Walston? Esquecido hoje, Walston era, em 1964, um ator de 50 anos que protagonizava a série de TV “Meu Marciano Favorito”, e que teve um pequeno mas memorável papel em “Se Meu Apartamento Falasse / The Apartment” (1960).
O Orville de Ray Walston é um personagem interessante, cujo maior trunfo é fazer os espectadores se perguntarem: “por que Zelda quis se casar com este homem feio e ciumento?”. Tal pergunta jamais seria feita se Jack Lemmon fosse o protagonista, pois mesmo louco de ciúmes Lemmon tem um encanto pueril. Por isso, apesar de Orville ser o centro da ação, são as atrizes da troca que têm as melhores interpretações. Felicia Farr, esposa de Jack Lemmon na vida real, tem em “Beija-me, Idiota” um dos melhores papéis da carreira (sendo o outro em “Galante e Sanguinário / 3:10 to Yuma”, 1957) e mostra seu talento através de uma mudança repentina em Zelda. E Kim Novak, como Polly, nunca esteve tão provocante em tela. E é um estilo diferente do provocante de “Vertigo”: Polly é sexy e vulgar, mas uma gripe terrível a faz fanhosa e atrapalhada. Ela aceita se passar por Zelda por causa do dinheiro, mas nem por isso se prostituiria para Dino. Mais tarde, Wilder definiu Novak como uma atriz que combinava as qualidades de Monroe e Dietrich. O contraste e as semelhanças entre Polly e Zelda são dignas de serem exploradas mais a fundo.
Dean Martin dá vida a uma paródia de si mesmo (o carro sabotado pela dupla é de fato o carro de Martin, e Dino era o apelido real de Dean Martin, e até hoje fãs se referem a ele assim) e inclusive se deixa filmar em um concerto em Las Vegas para a cena que abre o filme. Sendo um filme sobre música (bem lá no fundo, é verdade), as canções teriam de ser memoráveis – fossem elas muito boas ou muito ruins. É impossível não rir com a bizarrice de “I’m a Poached Egg”, decorar o refrão de “Sophia” e se sentir mais leve com a adorável “All the Livelong Day”. São três canções dos irmãos Gershwin, que emplacam sucessos inéditos mesmo 26 anos após a morte de George. Wilder tirou Ira Gershwin da aposentadoria e o letrista se comprometeu a colocar letras em melodias inacabadas ou nunca utilizadas de seu irmão George. Outro ídolo dos musicais também teve uma pequena participação: Gene Kelly, grande amigo de Wilder, estava visitando o estúdio quando foi convidado para coreografar uma pequena dança entre Orville e Polly, que acontece perto do final.

Atenção para a surpresa: “Beija-me, idiota” é remake de um filme italiano de 1952, “Esposa por uma Noite”, estrelado por Gina Lollobrigida. “Remake” talvez não seja a palavra correta, pois há apenas duas coisas em comum entre os filmes: o fato de o protagonista ser um compositor interesseiro e o tema da infidelidade ser tratado com humor.
Wilder sabia que seu filme teria problemas com a censura. O questionamento principal, ainda que tratado comicamente, era: é válido vender a sua mulher (ainda que ela seja uma impostora), a si mesmo e a sua honra para conseguir sucesso? Preparado para lutar por seu filme, Wilder viu “Beija-me, idiota” ser aprovado sem problemas pelo Production Code Administration, que já não ligava muito para a tal decência que os filmes deveriam ter. Mas quem barrou a película foi a Legião de Decência (que muito criticou “Quanto mais quente melhor / Some like it hot”), e, em parte graças a essa condenação (que obrigou algumas cenas a serem refilmadas), o filme foi um fracasso de bilheteria. O público ainda não estava preparado para este lado de Billy Wilder.
O filme fracassou nos Estados Unidos, mas foi aplaudido pelos mais perspicazes europeus. As comédias de Wilder jamais foram filmes alegres, porque sempre trataram do ridículo da vida real. O público de 1964 não gostou de se identificar com personagens moralmente ambíguos, pois “Beija-me, idiota”, é completamente verossímil. Wilder, acusado de destruir a família tradicional, mais tarde atribuiu o fracasso à uma falta de polimento em todos os aspectos do filme. Não se culpe, Sr. Wilder: sabemos que você só estava muito à frente do seu tempo.

Mais informações sobre a produção do filme podem ser encontradas no imenso livro “Billy Wilder – Vida e Época de uma Cineasta”, de Ed Sikov.

This is my contribution to the Second Annual Billy Wilder Blogathon, hosted by Cuban-Irish duo Aurora at Citizen Screen and Kellee at Outspoken & Freckled .



Wednesday, June 10, 2015

Mulher de Verdade / The Palm Beach Story (1942)

No que você pensa quando pensa em férias? Folga, descanso, diversão, praia? Pois bem, se existe um filme que combina perfeitamente com férias na praia, é “Mulher de Verdade / The Palm Beach Story”, uma deliciosa screwball comedy de Preston Sturges, o mesmo gênio que levou para as telas “As Três Noites de Eva / The Lady Eve” em 1941.
A sequência inicial é uma das melhores da história do cinema. Porque sequer o casamento de Gerry (Claudette Colbert) e Tom (Joel McCrea) começou do modo convencional. Conforme passam os créditos, vemos a excitação do noivo, a fuga da noiva trancada em um armário (??), os dois sustos que a empregada leva e finalmente o casamento, tudo no frenético ritmo das comédias do cinema mudo. Cinco anos se passam, e eles não estão vivendo felizes para sempre. Tudo recomeça quando o casal está para ser despejado, mas Gerry recebe a ajuda inusitada de um velho rico e surdo, o Rei das Salsichas (“Wienie King”, interpretado por Robert Dudley), que lhe dá mais do que o suficiente para pagar o aluguel e se divertir um pouco.
Mas isso foi demais para Tom. Ele briga com a esposa e, mesmo depois de se beijarem e tudo parecer bem de novo, Gerry decide que está atrapalhando o marido e resolve se separar. A conselho de um taxista, em vez de ir buscar os papéis do divórcio em Reno, ela parte para Palm Beach.
No trem, ela conhece o rico J.D. Hackensacker (Rudy Vallee, interpretando um personagem que poderia ter sido batizado por Groucho Marx) e ele compra roupas novas para ela, já que as roupas de Gerry haviam ficado em um vagão cheio de homens bêbados. E logo J.D. está apaixonado, e ele leva Gerry para Palm Beach em seu iate. Lá eles encontram a irmã dele, a Princesa Centimilla, ou melhor, Maud (Mary Astor), que está com seu novo namorado, o estrangeiro bobo Totó (Sig Arno). E ela abandona Totó quando conhece Tom, que é apresentado como o irmão de Gerry, e não o marido dela.
Sim, esta é provavelmente a sinopse mais confusa de todos os tempos. Porque Preston Sturges não brincava em serviço. O filme tem apenas 83 minutos, mas é acelerado, frenético, até mesmo vertiginoso. E ainda assim temos a sensação de que ele poderia durar mais, muito mais. É uma screwball comedy da melhor qualidade, com Claudette Colbert sedutora (em um papel concebido para Carole Lombard), Joel McCrea adorável e confuso, dois excelentes coadjuvantes cômicos que roubam a cena (Totó e o Sr. Hinch) e a deliciosa personagem de Mary Astor, falante, desmiolada e muito, muito divertida.
E ainda houve alguns problemas neste filme quase perfeito: Mary Astor teve dificuldade de se adaptar ao estilo perfeccionista de comédia que Sturges queria, mas isso nunca fica aparente no filme pronto.
Preston Sturges mergulha no mundo dos ricos e excêntricos com conhecimento de causa. Sua segunda esposa foi Eleanor Hutton, uma moça rica que fugiu para se casar com Preston em 1930. Durante dois anos ele frequentou o curioso mundo dos milionários (incluindo Palm Beach), até que Eleanor pediu a anulação do casamento em 1932, pois Preston ainda não havia se divorciado da primeira esposa quando se casou com Eleanor.
A praia de Palm Beach sequer é vista no filme, mas o porto e o iate são dois importantes cenários – embora percam muito comparados com os interiores maravilhosamente decorados. Mas os cenários não são a atração principal: com uma ação rápida e falas divertidas, há pouco tempo para se prestar atenção nos detalhes.
Embora Claudette Colbert esteja bem, Joel McCrea fica um pouco apagado, e com certeza seria completamente engolido se a protagonista feminina fosse interpretada pela brilhante Carole Lombard. O destaque fica para Sig Arno, que arranca risadas a cada cena, e a surpreendente Mary Astor, brilhando como nunca na comédia.
Depois de 83 minutos que passam muito, muito rápido, ficamos com vontade de ver mais. Imagine se a história de Gerry e Tom tivesse uma continuação (a Hollywood moderna não perderia tempo)! Mas Preston Sturges, roteirista, diretor e produtor, decidiu terminar no auge, com uma sequência final ainda mais engraçada que a inicial... e mais deliciosa que qualquer festa na praia.

This is my contribution to the Beach Party Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Kristina at Speakeasy. Aloha! 

Sunday, May 31, 2015

Estudando cinema (escandinavo) sem sair de casa

Eu uso qualquer desculpa para ver mais filmes. Se for possível ver muitos filmes, aprender um bocado e ainda conseguir um certificado (com honras!!!) de uma universidade internacional, pode ter certeza de que eu aproveitarei a chance. E de fato fiz isso, através do curso Scandinavian Film & TV, oferecido pela Universidade de Copenhagen no portal Coursera. E eu não poderia ter ficado mais feliz com o resultado.

Logo no começo pude aprender mais sobre meu período favorito: o cinema mudo dos países escandinavos (Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca). Os primeiros filmes foram apresentados nestes países em 1896 e o cinema mudo dinamarquês e sueco tinham grande destaque na década de 1910... até a UFA, produtora e distribuidora alemã, monopolizar o mercado europeu.
Os grandes mestres escandinavos mereciam um tópico só deles, e por isso estudamos Carl Theodor Dreyer (cujo nome aprendi a pronunciar com um sotaque autêntico) e Ingmar Bergman separadamente. Na vez de Dreyer, pude me encantar com seu primeiro longa-metragem, o fantástico “O Presidente” de 1919. Bergman e eu somos velhos conhecidos! Tanto Dreyer quanto Bergman filmavam as chamadas “chamber plays”: histórias que se passavam em cenários restritos (muitas vezes até desérticos) e com poucos personagens. É o drama psicológico à moda sueca.
Você tem medo de filmes antigos? Quer saber mais sobre Lars Von Trier e sua “Ninfomaníaca”? Não se preocupe: boa parte do curso é dedicada à nova onda de bons filmes dinamarqueses, incluindo ganhadores do Oscar, mulheres diretoras e o homem que hoje é Hannibal Lecter na TV. Há também tópicos como a “New Wave escandinava” e o polêmico e curioso Dogma 95 (manual de regras para ser levado a sério ou apenas uma jogada de marketing para atrair atenção para o cinema escandinavo?).
Algo muito interessante e curioso neste curso é que cada tópico tem um professor diferente (quando eu fiz o curso, em 2014, eram 10 temas em 10 semanas. Em 2015 o curso foi oferecido novamente com os mesmos 10 temas, mas condensados em cinco semanas). É como assistir semanalmente a pequenas lições com palestrantes distintos. Essa foi a primeira e única vez que isso aconteceu em um curso online que eu fiz até agora.
O curso acabou e eu consegui um certificado (com honras!!!) e ainda aumentei minha lista de filmes que quero ver (Asta Nielsen dos anos 1910, você é a próxima). Para conseguir o certificado, foi necessário fazer alguns teste fáceis de múltipla escolha e dois textos, um sobre o filme “A Palavra / Ordet”, de Dreyer, e outro sobre as causas do recente sucesso de séries de TV escandinavas em outros países.
Claro que nem todo mundo queria receber um certificado. É também possível se matricular e ver as lições apenas de um tema que mais lhe interesse.  E é esse caráter democrático que mais me fascina nos cursos online de cinema.

Por falar nisso, em 1º de junho começa o cursoInto the Darkness: Investigating Film Noir”. O canal TCM apoia o curso e, além de mim, dezenas de amigos meus da internet vão fazer o curso. E aí, nos encontramos na sala de aula?

Friday, May 15, 2015

O Grande Desfile / The Big Parade (1925)

 O ano era 2011. O oitavo episódio da quarta temporada de The Big Bang Theory, “The 21-Second Excitation”, trazia nossos nerds favoritos, encabeçados pelo grande, poderoso e incrível Sheldon, em uma ida ao cinema para ver a versão restaurada de “Os Caçadores da Arca Perdida / Raiders of the Lost Ark”, com incríveis 21 segundos de filmagem nunca vistos. Este era um dos poucos episódios de The Big Bang Theory com o qual eu não havia me identificado. Até agora.

The year was 2011. The eighth episode of season four of The Big Bang Theory,”The 21-Second Excitation”, brought our favorite nerds, including the mighty Sheldon, in a trip to the movies to see the restored version of “Raiders of the Lost Ark”, with amazing 21 seconds of never-before-seen footage. This was one of the few The Big Bang Theory episodes with which I had not feel an identification. Until now.


É muito difícil escolher meu filme mudo favorito, mas com certeza “O Grande Desfile / The Big Parade” (1925) está entre os cinco primeiros. Fiquei loucamente emocionada quando o vi pela primeira vez, em janeiro de 2014. Logo depois o escolhi para alguns prêmios importantes em meu Oscar pessoal de 1925. E, quando descobri que a versão restaurada do filme, com trinta minutos a mais de projeção, seria lançada em DVD no Brasil, não tive dúvidas: comprei o box (que veio com outros cinco filmes, mas o mais importante é “O Grande Desfile”).


It’s very hard for me to choose my favorite silent movie, but for sure “The Big Parade” (1925) is among the TOP 5. I was crazily moved the first time I saw it, on January 2014. Right after this, I chose it to receive some important prizes on my personal 1925 Oscars. And, when I discovered that the restored version of the film, with extra 30 minutes of footage, was going to be on DVD in Brazil, I had no doubts: I bought the box (that came with five other films, but the most important is “The Big Parade”).


O ano é 1917 e os Estados Unidos acabam de entrar na Grande Guerra! O jovem herdeiro Jim (John Gilbert) se alista no exército em um momento de loucura juvenil, e sua partida para lutar na França coloca a mãe em desespero, deixa o pai muito orgulhoso e satisfaz a vaidade da namorada de Jim, Justyn (Claire Adams). Ah, o que a música “Over There” é capaz de fazer! George M. Cohan sabia das coisas! Mas a vida no exército não é fácil! Apesar das dificuldades, Jim está feliz ao lado dos novos amigos, Slim (Karl Dane), um operário, e Bull (Tom O'Brien), um barman. Só a guerra poderia unir três pessoas tão diferentes.

The year is 1917 and the USA just entered the Great War! Young heir Jim (John Gilbert) joins the army in a moment of youthful craze, and his departure to fight in France leaves his mother desperated, his father proud and fullfils his girlfriend Justyn's (Claire Adams) vain wish. Oh, what can the song “Over There” do! George M. Cohan knew a thing or two! But life at the army isn't easy! Even though he faces difficulties, Jim is happy with his new friends, Slim (Karl Dane), a construction worker, and Bull (Tom O'Brien), a barman. Only the war could unite those three very different people.


E só a guerra faria Jim conhecer uma linda garota francesa, Melisande (Renée Adorée), que vive em uma aldeia perto do campo de treinamento de Jim. Apesar de não falarem a mesma língua, eles se entendem com gestos singelos, como quando Jim ensina Melisande a mascar chiclete. A cena é mais divertida que a dança de Gene Kelly quando ele percebe estar apaixonado em “Cantando na Chuva / Singin' in the Rain” (1952) e ao mesmo tempo com mais sensualidade e romance que a troca de cigarros acesos por Paul Henreid em “A Estranha Passageira / Now, Voyager” (1942).

And only the war would make Jim meet an adorable French girl, Melisande (Renée Adorée), who lives in a village near Jim's training camp. Even though they don't speak the same language, they understand each other with sweet gestures, like when Jim teaches Melisande how to chew gum. The scene is more fun than the scene with Gene Kelly dancing when he realizes he's in love in “Singin' in the Rain” (1952) and at the same time is sexier and more romantic than the exchange of cigarettes in “Now, Voyager” (1942).


Quais as diferenças entre a versão já conhecida e a restaurada, que estreou no TCM Film Festival de 2013? Poucas. Poucas mesmo. Primeiro, a versão restaurada tem as cenas noturnas em tons de azul ou bege, enquanto na versão normal está tudo em preto e branco. As imagens também são mais nítidas, perfeitas e praticamente em alta definição.

What are the differences between the known version and the restored one, presented at the 2013 TCM  Film Festival? A few. Very few. First, the restored version has night scenes with tinting and toning, while in the normal version everything is in black and white. The images are also clearer, perfect, almost in high definition.


E é isso que ganhamos com os trinta minutos extras de filme: mais imagens, e imagens mais nítidas. A versão normal teve origem em uma cópia do filme com som sincronizado, feita em 1931, enquanto a restaurada veio da versão original. Vale dizer que o filme é projetado a uma velocidade menor, as imagens da versão restaurada passam mais vagarosamente por nós que as da versão normal, talvez para que seja possível prestarmos atenção em todos os detalhes. Há cenas inéditas reveladoras, como na restauração de “Metropolis”? Não. Vivi milhões de dèja vú vendo a versão restaurada, e a única cena da qual não me lembrava muito bem era da reunião / sarau na casa de Melisande.

And this is what we get with the extra thirty minutes: more images, and clearer images. The normal version was originated in a copy with synchronized sound, made in 1931, while the restored one came from the original version. We must say that the film is projected at a slower speed, the images of the restored version go through us slower than in the normal version, maybe so that we can pay attention to all details. Are there new, vital scenes, like in the “Metropolis” restoration? No. I lived millions of déja vú watching the restored version, and the only scene I didn't remember was the one with the reunion at Melisande's house.



Por que este é um dos meus filmes mudos prediletos? Junto com os outros filmes silenciosos que eu amo loucamente (“A Caixa de Pandora”, “A Última Ordem / The Last Command”, “Ben-Hur”, “Metropolis”...), “O Grande Desfile” é arrebatador. Foi arrebatador em 1925, chegando a ficar dois anos em cartaz em um cinema, e permanece arrebatador em 2015. Foi inovador ao não glorificar a guerra de modo algum, e continua poderoso em suas cenas mais emocionantes (o autor da história foi co-autor de “What Price Glory?” e, claro, veterano de guerra). John Gilbert, Renée Adorée e Karl Dane não viveriam para ver a Segunda Guerra. John Gilbert amou fazer este filme. Eu preciso concordar: ele nunca esteve mais belo, mais tocante ou mais à vontade nas telas.


Why is this one of my favorite silent films? With other silents that I love a lot (“Pandora's Box”, “The Last Command”, “Ben-Hur”, “Metropolis”...), “The Big Parade” is ravishing. It was ravishing in 1925, when it spent two whole years being shown in a movie theater, and it is ravishing in 2015. It was innovative as it never glorified the war, and it's still powerful in its most moving scenes (the author of the story was the co-author of “What Price Glory?” and, of course, a war veteran). John Gilbert, Renée Adorée and Karl Dane wouldn't live to the World War II. John Gilbert loved doing this film. I have to agree: he never was so handsome, touching or at ease in a film.



Há algo de belo na destruição que a guerra traz e o filme mostra. Há algo de muito belo na trilha sonora composta por Carl Davis em 1988. É um daqueles filmes que, quando acaba, eu levanto e aplaudo, sem ter vergonha de ser vista, sem me importar com o fato de que todos os envolvidos com a filmagem já estão mortos. É o tipo de filme que, assim que acaba, quero voltar ao começo e ver de novo, e de novo, e de novo. É o tipo de filme que eu compro em DVD com prazer, seja pelo realismo de suas imagens, por 21 segundos ou por 30 minutos a mais da indelével magia do cinema.

There is something beautiful in the destruction war brings and the film shows. There is something very beautiful in the soundtrackcomposed by Carl Davis in 1988. This is one of those films that, when it ends, I stand up and cheer, not ashamed of being seen, not caring if all the ones involved in making the film are already dead. It's the kind of film that, as soon as it ends, I want to go back to the beginning and watch again, and again, and again. It's the kind of film whose DVD I buy with pleasure, no matter if it is for the realism of its images, for 21 seconds or for 30 extra minutes of the amazing film magic.

This post is part of the My Favorite Classic Movie blogathon, in honor of the first National Classic Movie Day (May 16th). The blogathon is hosted by Rick at Classic Film an TV Cafe.



Um livreto sobre o filme pode ser encontrado AQUI.

A booklet about the film can be found HERE.

Tuesday, May 12, 2015

Fritz Lang e a ficção científica

O cineasta mais criativo do cinema mudo, a quem devemos toda a estética inventiva dos filmes, foi Georges Méliès. Ele foi o pai da arte cinematográfica como um todo e da ficção científica em particular, com sua “Viagem à Lua” em 1902. O outro pai da ficção científica durante a era muda foi Fritz Lang. Depois da saga dos Nibelungos, ele presenteou o mundo com os dois mais influentes filmes de ficção científica da história.
Metropolis” poderia ser uma história de amor, mas não é. Poderia ser sobre um conflito de gerações, mas não é. Poderia ser apenas mais uma distopia. Mas não é. “Metropolis” é uma mistura de todos estes temas com a maior beleza possível. Em um futuro distante para Lang, mas não tão distante para nós, Freder Fredersen (Gustav Fröhlich), o filho do chefe de Metropolis, vive com todos os privilégios que sua classe de garotos mimados tem. O lugar de diversão de Freder lembra muito a imagem que sempre foi pintada do Monte Olimpo, com a adição dos moços / heróis / atletas praticando esportes vestindo roupas incrivelmente brancas. Freder toma contato com a realidade dos trabalhadores de Metropolis quando Maria (Brigitte Helm) invade o tal clube de recreação e mostra para as crianças pobres que os ricos são seus irmãos.


Freder vai atrás de Maria, e vê a moça pregar para os pobres e cansados trabalhadores sobre a vinda de um mediador que resolverá os problemas entre os pensadores e os operários. Ao mesmo tempo, o pai de Freder, Joh “Alfred Abel), está possesso com a influência de Maria, e persuade o cientista Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) a modelar seu robô para que ele fique parecido com Maria e possa ser usado para causar discórdia na Metropolis. É uma mistura inebriante de ficção científica e épico bíblico.
Metropolis” nos arrebata em menos de dez minutos. Em um piscar de olhos já estamos hipnotizados pelos cenários suntuosos, criados com muita ilusão de óptica (alguns cenários eram apenas miniaturas, e espelhos eram usados para dar a impressão de que eram prédios enormes com pessoas ao redor, através do inovador “processo Schüfftan”) e técnicas de stop motion.
Este link traz mais informações sobre os bastidores

A Mulher na Lua” conta a história de (adivinha?) uma viagem à Lua em que uma mulher é uma das tripulantes da missão. Esta mulher é a bela Friede (Gerda Maurus), que acaba de ficar noiva de Windegger (Gustav von Wangenhein), mas por quem Wolf Helius (Willy Fritsch), melhor amigo de Windegger, também era apaixonado. Quem propôs a expedição foi o maluco professor Manfeldt (Klaus Pohl), que acredita que o subsolo da Lua contém ouro – muito ouro. Manfeldt foi humilhado por seus colegas da universidade, mas Helius acredita nele.

A Mulher na Lua” acerta em algumas previsões, como os foguetes que têm de abandonar partes de sua estrutura após a decolagem, e a imensa pressão que os tripulantes do foguete teriam de aguentar ao sair da Terra (nada de traje de astronauta! Mas eles compensam a gravidade zero de uma maneira bem criativa). E há inclusive uma imagem sensacional da Terra vista do espaço (Yuri Gagarin ainda não tinha falado que a Terra era azul, mas isso não foi problema porque o filme era em preto e branco).


O grande problema de “A Mulher na Lua” é que o prólogo, que reúne todos os personagens que partem rumo à Lua e explica suas relações, poderia durar quinze minutos, mas se estende por uma hora e vinte minutos! Mas, a partir daí, é mágica pura, com cenas que até hoje nunca foram superadas em grandeza nos filmes de ficção científica.


Durante décadas o público só teve acesso a uma versão truncada de “Metropolis”, com 90 minutos de duração (que H.G. Wells disse ser “o filme mais bobo que já vi”). Em 2008 tudo mudou: a versão (quase) original do filme foi encontrada na cinemateca de Buenos Aires e restaurada. Hoje podemos ver toda a glória dos 150 minutos de projeção, em que nada é simplista, em que a história de amor fica em segundo plano, em que há profunda ligação entre os temas diametralmente opostos. “Metropolis” é um filme mais poderoso, mais incrível do que se imaginava. É uma obra-prima completa, parida pelo casal Thea von Harbou e Fritz Lang.
Você gostaria que outros filmes mudos fossem redescobertos, restaurados e devolvidos à sua glória original, assim como “Metropolis”? Pois você pode ajudar! Clique no link abaixo para doar para o National Film Preservation Association e garantir a restauração de “Cupid in Quarantine” (1918), que depois de restaurado será disponibilizado para ser visto online!

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