} Crítica Retrô: George O'Brien

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Sunday, June 12, 2022

A Arca de Noé (1928) / Noah’s Ark (1928)

 

Às vezes temos uma grata surpresa com um filme ou alguns filmes. Isso acontece quando um filme épico, cuja narrativa é ambientada no passado, mostra paralelos com o presente. Este é o caso do magnífico “Os Dez Mandamentos” de DeMille de 1923 - melhor que o remake sonoro de 1956, na minha opinião. Nele, há a história de Moisés seguida por uma história sobre os perigos de não se seguir os Dez Mandamentos neste mundo moderno e louco. Outro filme mudo que é um épico religioso mas faz comparações com o presente é “A Arca de Noé” (1928).  

Sometimes we’re pleasantly surprised by a movie or a couple of movies. This happens to me when an epic film, whose story is set in the past, shows parallels to the present. This is the case of DeMille’s magnificent “The Ten Commandments” from 1923 - better than the 1956 sound remake, in my opinion. In it, there is the Moses story followed by a story about the dangers of not following the Ten Commandments even in this modern, crazy world. Another silent movie that is a religious epic but draws comparisons with the present is “Noah’s Ark” (1928).

Nos primeiros minutos de projeção, as cartelas de texto, retiradas diretamente da Bíblia, nos contam sobre a construção da Torre de Babel e a adoração do Bezerro de Ouro. Corta para os tempos modernos, e as pessoas ainda estão adorando o dinheiro em bolsas de valores - lembre-se, este filme foi feito um ano antes da quebra da bolsa de Wall Street em 1929. Mas a história moderna que veremos começa antes, em 1914.

In the first minutes of projection, the title cards, taken directly from the Bible, tell us about the building of the Tower of Babel and the worship of the Golden Calf. Cut to modern times, and people are still worshipping money in stock markets - remember, this movie was made one year before the 1929 crash of Wall Street. But the modern story we’re following starts earlier, in 1914.

Um grupo de pessoas muito diferentes está viajando no Expresso do Oriente. Um pastor (Paul McAllister) está lendo a Bíblia na viagem e chama a atenção das pessoas ao seu redor. Todos zombam dele, dizendo que Deus não existe. De repente, um raio atinge e destrói uma ponte, causando um acidente com o trem. Muitos descrentes morrem no local, mas o norte-americano Travis (George O’Brien) e seu amigo Al (Guinn Williams) sobrevivem e ajudam uma garota alemã chamada Marie (Dolores Costello) a encontrar abrigo numa taverna.

A group of very different people is travelling aboard the Orient Express. A Minister (Paul McAllister) is reading the Bible while travelling and calls the attention of people around him. Everybody mocks him, saying there is no God. Suddenly, a thunder strikes and destroys a bridge, causing an accident with the train. Many non-believers die on the spot, but the American Travis (George O’Brien) and his friend Al (Guinn Williams) survive and help a German girl named Marie (Dolores Costello) to reach shelter in a tavern.

A guerra é declarada naquela noite, e Marie tem de fugir do local por ser alemã. Durante algum tempo, Al, Travis e Marie vivem felizes em Paris, intocados pela guerra. Quando os EUA declaram guerra, Al decide se alistar e Travis o segue, mesmo não querendo lutar contra os alemães por causa de Marie. Marie, que é artista, se junta a um grupo para entreter as tropas. Adivinha quem mais está neste grupo? Myrna Loy!  

War is declared that night, and Marie has to flee the place because she’s German. For a while, Al, Travis and Marie live happily in Paris, untouched by the war. When the United States declares war, Al decides to enlist and Travis follows him, even though he didn’t want to fight the Germans because of Marie. When the two boys are gone, Marie, who is an artist, joins a group to entertain the troops. Guess who else is there in the group? Myrna Loy!

E quando a arca de Noé entra na história, você deve estar se perguntando. Com quase 60 minutos de projeção, quando os personagens estão em uma situação muito difícil, nosso velho amigo pastor conta a velha história e diz que a guerra, assim como o dilúvio, veio para exterminar o ódio e o mal no mundo - se ele soubesse que uma guerra ainda pior estava para acontecer! A história bíblica então se desenrola em frente aos nossos olhos, com os mesmos atores da história principal interpretando os papéis, por exemplo: Paul McAllister como Noé, George O’Brien como Japheth, filho de Noé, e Dolores Costello como Miriam, criada de Noé e apaixonada por Japheth.

And when does Noah’s Ark enter the story, you might be asking. At almost the 60 minute mark, when the characters are in a very difficult situation, our old friend the Minister tells the ages-old story and says that the war, like the flood, came to end hate and wickedness in the world - if only he knew a worse war was coming! The Biblical story then unfolds in front of our eyes, with the same actors from the main story playing the parts, for instance: Paul McAllister as Noah, George O’Brien as Japheth, Noah’s son, and Dolores Costello as Miriam, Noah’s handmaid in love with Japheth.

“A Arca de Noé” é um destes curiosos filmes parcialmente falados que estrearam pouco depois de “O Cantor de Jazz” (1927). Há efeitos sonoros, canções e até mesmo alguns diálogos no filme. Como você deve imaginar, isso acontece porque o filme foi planejado como uma produção silenciosa, mas o cinema falado surgiu e houve uma mudança de planos. Com 135 minutos em sua estreia, “A Arca de Noé” sofreu diversos cortes, com muitas sequências com diálogos que não funcionavam bem sendo cortadas, e agora a única versão disponível tem 105 minutos de duração.

“Noah’s Ark” is one of those odd part-talkies released a little while after “The Jazz Singer” (1927). There are sound effects, songs and even some spoken dialogue in the film. As you might have imagined, this happens because the movie was planned to be a silent production, but sound came and the plans changed. Running 135 minutes in its release, “Noah’s Ark” suffered several cuts, with many talking sequences that didn’t work well being cut, and now the only version available is 105 minutes long.

As estrelas deste filme parcialmente falado tiveram experiências variadas com o cinema sonoro. Dolores Costello fez apenas alguns filmes falados, porque ela se casou com John Barrymore no mesmo ano em que “A Arca de Noé” foi feito. Eles se divorciaram em 1935, quando Dolores voltou para o cinema para fazer mais nove filmes antes de se aposentar definitivamente. George O’Brien, mais conhecido hoje como o protagonista de “Aurora” (1927), teve uma longa carreira na era sonora, se aposentando apenas em 1964.

The stars of this part-talkie had varied experiences with sound films. Dolores Costello made only a handful of them, because she got married to John Barrymore the same year “Noah’s Ark” was made. They divorced in 1935, when Dolores went back to cinema to make nine more movies before retiring for good. George O’Brien, better known today as the lead of “Sunrise” (1927), had a long career in the sound era, retiring only in 1964.

Noah Beery, que interpreta dois papéis vilanescos, trabalhava no cinema desde 1913 e fez uma boa transição para o falado, trabalhando em todo tipo de filme até sua morte em 1946. Paul McAllister teve em “A Arca de Noé” seu melhor papel, e trabalhou quase sempre sem receber crédito na era sonora. Louise Fazenda, que tem um pequeno papel neste filme, trabalhou também nos filmes falados, mas não com o mesmo sucesso que teve no cinema mudo. Dito isto, podemos afirmar que a pessoa mais bem-sucedida nos filmes sonoros que também esteve neste filme foi Myrna Loy, que tem duas falas aqui mas que se tornou uma das mais amadas estrelas na década seguinte.

Noah Beery, who plays two villainous roles, had been working in movies since 1913 and transitioned well to talkies, working in all kinds of movies until his death in 1946. Paul McAllister had in “Noah’s Ark” his best role, and worked almost always uncredited in the sound era. Lousie Fazenda, who has a small role in this movie, worked in the sound era as well, but not with the same success she had in silents. That being said, we can affirm that the most successful person in the sound era who was also in this movie was Myrna Loy, who has a couple of lines here but went on to become one of the most beloved actresses of the following decade.

Noah Beery

Assim como a maioria dos épicos da Era de Ouro de Hollywood, “A Arca de Noé” foi muito caro. Na parte da história bíblica, há grandes multidões de pecadores, cenários imensos e até um grande livro escrito com fogo. Obviamente, a sequência do dilúvio é o ápice, e também a parte mais comentada do filme. Várias fontes dizem que três figurantes se afogaram filmando a cena, um teve que amputar a perna e quase uma dúzia quebrou costelas e sofreu outros traumas. A quantidade de água utilizada foi cerca da mesma quantidade de uma piscina olímpica.

Like most epic films from the Golden Age of Hollywood, “Noah’s Ark” was very expensive. In the Biblical story part, there are big crowds of sinners, huge sets and even a massive book written with fire. Of course, the flood sequence is the highlight, and also the most talked about part of the movie. Various sources say that three extras drowned while filming the scene, one had to have his leg amputated and almost a dozen suffered broken ribs and other injuries. The amount of water used is said to be the same of an Olympic-sized swimming pool.

Há uma sequência silenciosa muito poderosa com o exército norte-americano marchando através de Paris. Marie assiste o desfile e podemos sentir seu desconforto, afinal, aqueles homens estavam indo matar o povo dela. Travis, animado no começo, olha em volta e vê um soldado sem uma perna e mulheres em luto pela perda de seus filhos e maridos na guerra. Quando ele vê Al, Travis decide se juntar também ao exército, deixando para trás Marie de coração partido. Ao se juntar ao desfile, Travis pergunta “Para onde vamos?” e recebe como resposta “Quem sabe ou se importa?”.  

There is a very powerful silent sequence featuring the North American army marching through Paris. Marie watches the parade and we can feel her discomfort, after all, those men are about to kill her people. Travis, excited at first, looks around and sees a soldier without a leg and women mourning the loss of their sons and husbands in the war. When he sees Al, Travis decides to join the army as well, leaving behind a broken-hearted Marie. As Travis joins the parade, he asks “Where to?” and receives as an answer “Who knows or cares?”.

Além do desastre criado por Deus, o grande dilúvio, “A Arca de Noé” fala de desastres criados pelo homem que são igualmente prejudiciais. Obviamente, a guerra é o maior desastre feito pelo homem, mas há também a adoração de falsos deuses. Quando o filme compara o dilúvio divino com a guerra, ele cria um precedente muito perigoso: ele chama a guerra de vontade de Deus, praticamente inocentando os líderes mundiais que começaram a guerra ou mesmo dizendo que eles estavam seguindo as ordens de Deus. Este é um discurso extremamente nocivo que o filme infelizmente apoia.

Besides the God-made disaster of the great flood, “Noah’s Ark” talks about man-made disasters that are as harmful. Of course, the war is the biggest man-made disaster, but there is also the worshipping of fake gods. When the movie compares the divine flood with the war, it creates a very dangerous precedent: it calls the war a will of God, practically saying that the world leaders who started the war were innocent or were simply following God’s orders. This is an extremely dangerous discourse that the film unfortunately backs up.

“A Arca de Noé” foi o primeiro trabalho de Darryl F. Zanuck como produtor e, tendo apenas 26 anos de idade, ele prometeu “fazer o maior filme já feito”. Seu grande filme foi um fracasso de bilheteria e também não agradou aos críticos. Entretanto, não é um filme ruim. Considerada a primeira produção notável dirigida por Michael Curtiz em Hollywood, “A Arca de Noé” é uma surpresa agradável que mistura - embora com resultados estranhos - o passado e o presente de uma maneira quase única.

“Noah’s Ark” was Darryl F. Zanuck’s first assignment as a producer and, being only 26 years old, he promised to “make the greatest picture ever made”. His great film was a box-office failure and didn’t please the critics either. However, it’s not a bad film. Considered to be the first notable production directed in Hollywood by Michael Curtiz, “Noah’s Ark” is a pleasant surprise that mixes - although with odd results - the past and the present in an almost unique way.

This is my contribution to the Second Disaster blogathon, hosted by Dubsism and Pale Writer.    

Thursday, November 7, 2019

A Águia Azul (1926) / The Blue Eagle (1926)


Há filmes mudos de todos os tamanhos e durações. Além disso, não é regra que, quando um diretor começa a fazer longas-metragens, ele pare de fazer filmes mais curtos. Veja John Ford, por exemplo. Ford começou como diretor em 1917 e, em 1926, ele já havia dirigido dezenas de filmes, incluindo o impressionante épico “O Cavalo de Ferro”, de 1924, que tem mais de duas horas de duração. Ford não teve vergonha de voltar a fazer filmes menores e mais intimistas, e foi exatamente isso que ele fez em 1926 com “A Águia Azul”.

Silent film comes in all shapes and sizes. Furthermore, it’s not a rule that, once a director graduates to feature films, he never comes back to shorter films. Take John Ford, for instance. Ford started directing movies in 1917 and, in 1926, he had already directed dozens of films, including the impressive epic “The Iron Horse”, from 1924, that is over two hours long. Ford wasn’t ashamed to go back to more intimate films, made in a smaller scale, and this was exactly what he did in 1926 with “The Blue Eagle”.


George Darcy (George O'Brien, completamente lambuzado com óleo para parecer que está suando) e Big Tim Ryan (William Russell, igualmente lambuzado com óleo) estão servindo no mesmo navio na Primeira Guerra Mundial, mas eles são rivais na cidade natal. Juntos na guerra, eles vivenciam as batalhas, a adrenalina e a perda de companheiros. Mas assim que a guerra acaba, a velha rivalidade ressurge.

George Darcy (George O’Brien, completely covered in oil to look like he’s sweating) and Big Tim Ryan (William Russell, equally covered in oil) are shipmates during World War I, but back at home they’re rivals. Together at war, they experience the battles, the adrenaline and the loss of shipmates. But once the war is over, the old grudge comes back.


Darcy e Ryan vivem perto das docas, em um bairro pobre dominado por gangues rivais, algo que também pode ser visto em “Anjos de Cara Suja” (1938) e “Sindicato de Ladrões” (1954). Darcy e Ryan pertencem a gangues rivais – Darcy aos Terriers e Ryan aos Rats – e ambos estão apaixonados pela mesma mulher, Rose Kelly (Janet Gaynor), filha do policial Sargento Kelly (Lew Short). No bairro deles, problemas com drogas estão crescendo, e o Padre Joe (Robert Edeson), também ex-marinheiro, decide pedir para Darcy e Ryan ajudarem a polícia a prender os traficantes.

Darcy and Ryan are from the waterfront – a rather poor neighborhood dominated by rival gangs, something that can be seen in films like “Angels with Dirty Faces” (1938) and “On the Waterfront” (1954). Darcy and Ryan belong to rival gangs – Darcy’s Terriers and Ryan’s Rats – and they both are in love with the same woman, Rose Kelly (Janet Gaynor), daughter of police Sergeant Kelly (Lew Short). In their neighborhood, problems with drugs are on the rise, and Father Joe (Robert Edeson), also a former Marine, decides to ask both Darcy and Ryan to help the police arrest the smugglers.


Num mundo em que traficantes têm um SUBMARINO e gangues são formadas apenas para intimidar parte de um bairro, é de se esperar que haja uma mistura de gêneros, algumas subtramas que não vão a lugar algum – qual a importância dos irmãos gêmeos de Rose na narrativa? - e conclusões rápidas. Afinal, “A Águia Azul” tem menos de uma hora de duração!

In a world where drug dealers have a SUBMARINE and gangs are formed only to intimidate part of a neighborhood, it's expected a mix of genres, a few subplots that go nowhere – what is the use of Rose's twin brothers in the narrative? - and quick conclusions. After all, “The Blue Eagle” is less than one hour long!


George O'Brien foi um galã popular na década de 1920 e estrela de faroestes nos anos 30, e seu filme mais famoso é a obra-prima “Aurora” (2927), também com Janet Gaynor. Foi através do filme “O Cavalo de Ferro” de Ford que O'Brien alcançou o estrelato – embora ele desejasse, quando chegou em Hollywood, ser operador de câmera!

George O'Brien was a popular leading man in the 1920s and western star in the 1930s, and his most famous film is the masterpiece “Sunrise” (1927), also with Janet Gaynor. It was through Ford's “The Iron Horse” that O'Brien achieved stardom – although his only wish when he went to Hollywood was to become a cameraman!


As aventuras anteriores de George O'Brien ajudaram-no muito em “A Águia Azul”: ele serviu na Marinha norte-americana durante a Primeira Guerra Mundial, e foi condecorado por bravura, e depois da guerra ele se tornou campeão de boxe. Ele se alistou novamente na Marinha durante a Segunda Guerra. O título do filme “A Águia Azul” vem do fato de os marinheiros norte-americanos serem conhecidos como “águias azuis”. George O'Brien tinha orgulho de seu serviço na Marinha e deste filme em particular porque, mais tarde, lhe foi perguntado que filme ele queria que fosse exibido em uma mostra retrospectiva de sua carreira, e ele escolheu “A Águia Azul”.

George O'Brien's previous life adventures helped him a lot in “The Blue Eagle”: he had been in the US Navy during World War I, and was decorated for bravery, and after the war he became a boxing champion. He re-enlisted in the Navy during World War II. The title of the film “The Blue Eagle” comes from the fact that the US Marines are often referred to as Blue Eagles. George O'Brien was fond of his time at the Navy and of this film in particular because, later in his life, he was asked which film he wanted to see showed in a career retrospective festival honoring him, and he chose “The Blue Eagle”.


John Ford também teve uma ligação íntima com a Marinha, mas apenas depois de fazer “A Águia Azul”. Durante a Segunda Guerra Mundial, Ford trabalhou com a Marinha fazendo documentários de guerra. Um destes documentários é “A Batalha de Midway” (1942), ganhador de um Oscar. Ford foi uma testemunha ocular do Dia D em 1944, mas a maioria das imagens que ele filmou do Dia D foi considerada forte demais para ser exibida para o público.

John Ford also had a close link with the Navy, but only after making “The Blue Eagle”. During World War II, Ford worked with the Navy Department doing war documentaries. One of these documentaries is “The Battle of Midway” (1942), that won an Oscar. Ford was an eyewitness of the D-Day in 1944, but most of his footage shot on D-Day was considered too gruesome to be released to the public.


Janet Gaynor também fez outro filme com John Ford em 1926, “A Folha do Trevo”. Este é mais um pequeno filme que mistura comédia, drama e esporte – desta vez, corrida de cavalos. Com Janet Gaynor em um papel mais substancial e também um pouco de racismo, “A Folha do Trevo” é considerado o primeiro filme de John Ford que se passa na Irlanda.

Janet Gaynor also appeared in another John Ford film from 1926, “The Shamrock Handicap”. This is another small scale film that mixes drama, romance and sports – this time, it’s horse race. With Janet Gaynor in a more substantial role and also a bit of racism, “The Shamrock Handicap” is considered  the first John Ford film set in Ireland.
 
The Shamrock Handicap
Dois personagens muito importantes – aqueles que convencem Darcy e Ryan a declararem uma trégua – são o irmão deficiente de Darcy, Limpy (Philip Ford, sobrinho de John Ford), e o amigo bobão de Ryan, Dizzy (David Butler). Tanto Ford quanto Butler tiveram carreiras curtas como atores e mais tarde se tornaram prolíficos diretores.

Two very important characters – the ones that convince Darcy and Ryan to declare a truce – are Darcy’s handicapped brother, aptly named Limpy (Philip Ford, John Ford’s nephew), and Ryan’s good and dumb friend Dizzy (David Butler). Both Ford and Butler had brief careers as actors and later became prolific directors.


“A Águia Azul” tem atrativos para todos os públicos: romance, ação na guerra, drama urbano, um pouco de humor e até uma luta de boxe. Além disso, amantes de belos cenários, prestem atenção às luzes da cidade quando os personagens estão no cais. Infelizmente, as cenas com as batalhas navais ainda estão perdidas, o que torna o filme menos emocionante de ver hoje do que foi quando estreou. Mesmo assim, o filme nos traz o mais próximo que temos de um filme de gângster de John Ford, e por isso já merece ser visto.

“The Blue Eagle” has something for everyone in the audience: romance, war action, urban drama, a bit of humor and even a boxing match. Also, lovers of beautiful scenery, pay attention to the city lights when the characters are on the waterfront. Unfortunately, the scenes with the sea battles are currently lost, which makes the film less exciting to see today than when it was originally released. Nevertheless, it brings the closest we have from a John Ford gangster picture, and for this alone it is worth a watch.

This is my contribution to the Send in the Marines blogathon, hosted by Gill and J-Dub at RealWeegieMidget Reviews and Dubsism.


Tuesday, July 8, 2014

O Cavalo de Ferro / The Iron Horse (1924)

Em 1924, John Ford já havia feito 51 filmes como diretor, entre curtas e longas-metragens, e tinha mais 42 créditos como ator (sob o nome Jack Ford). Foi aí que a Fox resolveu contratá-lo para dirigir “O Cavalo de Ferro”, que seria a resposta do estúdio para o sucesso da Paramount “Os Bandeirantes / The Covered Wagon” de 1923. Quinze anos antes de tirar seu maior astro, John Wayne, dos filmes B, o próprio Ford teve esta grande experiência que o colocou, definitivamente, na lista dos grandes diretores.

David Brandon Sr (James Gordon) é um visionário. Ele imagina que um dia as ferrovias irão ligar o país de costa a costa, o que faz com que ele vire motivo de piada para os vizinhos. Mas seu amigo Abe (Charles Edward Bull) concorda com ele. Determinado a ver seu sonho virar realidade, David vai para o Oeste com seu filho pequeno, Davy (Winston Miller). Eles estão cheios de esperança, até que uma tribo hostil os ataca e mata David Sr. O pequeno Davy nunca mais se esquecerá do assassino, um homem com apenas dois dedos em uma das mãos.

O ano agora é 1862. O amigo esperançoso de David Sr é na verdade Abraham Lincoln, o presidente americano, e quer começar a construção de duas grandes ferrovias no Oeste. Milhares de trabalhadores se deslocam para lá, entre eles diversos chineses. Quem também precisa se mudar é a família Marsh, incluindo Thomas (Will Walling), o vizinho cético do começo do filme, e Miriam (Madge Bellamy), a namoradinha de infância de Davy. O problema é que Miriam não agüentou esperar a volta de Davy e ficou noiva do engenheiro inescrupuloso Peter Jesson (Cyril Chadwick). E Davy, onde está? Bem, cavalgando pelas planícies, ele é atacado por alguns índios, pula de seu cavalo e se esconde justamente na cabine do trem em que Miriam está!

Vemos aqui alguns dos elementos que apareceriam mais tarde nos filmes de John Ford: grandes tomadas ao ar livre (de “No tempo das diligências / Stagecoach”, 1939), lutas entre brancos e índios (“Forte Apache”, 1948), uma boiada que deve ser transportada (tema principal de “Rio vermelho”, 1948), a presença de figuras históricas como Lincoln e Buffalo Bill (“A mocidade de Lincoln / Young Mr Lincoln”, 1939), a filmagem em locação no Monument Valley (“Legião Invencível / She wore a yellow ribbon”, 1949) e uma boa briga no saloon, presente em qualquer western que se preze. E, é claro, uma dose impensável, mas bem-vinda, de humor.

Mas mais interessante que observar o que já ia se delineando da persona de Ford como diretor é ver que ele está aqui muito mais próximo de D. W. Griffith ou Cecil B. DeMille que de si mesmo no futuro. O filme chega a ser exagerado em sua duração (mais de duas horas), e conta uma história cheia de reviravoltas, tanto é que o espectador distraído ou desacostumado ao grau de atenção que o cinema mudo exige pode perder algum detalhe, como a identidade do homem de dois dedos (dica: é o homem que sempre fica com a mão no bolso).
Griffith: You dirty newcomer! Five years ago I would be the one doing this picture!
You'll see, you are too smal for a career in the movies!
Ford: I am BIG! It's YOUR pictures that got small!

George O’Brien era um ilustre desconhecido em 1924. Ele havia sido campeão de boxe na marinha durante a Primeira Guerra, e depois foi extra, dublê e assistente de câmera em Hollywood. O Davy interpretado por George é o personagem mais carismático do filme e o homem mais bonito do Oeste. É para ele que torcemos, embora Davy esteja, comparativamente, em poucas cenas. É a ferrovia a protagonista da história, isso ninguém pode negar.

Quando perguntaram para Orson Welles quais eram seus três diretores favoritos, ele respondeu: “John Ford, John Ford e... John Ford”. Para falar a verdade, Welles viu “Stagecoach” vezes antes de estrear na RKO com sua obra-prima “Cidadão Kane” (1941). A estreia do pupilo Welles acabou sendo mais brilhante que a do mestre Ford, até porque “O Cavalo de Ferro” estava longe de ser a primeira película de John Ford, então com 31 anos. E, curiosamente, em 1941, Welles perdeu o Oscar de Melhor Diretor exatamente para John Ford.

Talvez os westerns mudos percam um pouco da magia do gênero: nada de sons de tiroteios, de estouros da boiada, de trompetes anunciando a chegada da cavalaria, nem sequer o som do apito do trem, elemento tão importante neste filme (seria fantástico se ele terminasse com um apito autêntico). Apesar de ser uma obra ainda crua do diretor, ela nos dá o raro privilégio de ver o talento de John Ford em formação.

This is my contribution to The John Ford blogathon, hosted by Krell Laboratories and Bemused and Nonplussed. Bang, bang!!



P.S.: Jean Arthur aparece como extra, sendo creditada no IMDb como "repórter". Provavelmente ela está na cena com o presidente Lincoln ou na cena final. Se vocÊ souber exatamente onde Jean aparece, escreva nos comentários! :)
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