} Crítica Retrô: Janet Gaynor

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Thursday, November 7, 2019

A Águia Azul (1926) / The Blue Eagle (1926)


Há filmes mudos de todos os tamanhos e durações. Além disso, não é regra que, quando um diretor começa a fazer longas-metragens, ele pare de fazer filmes mais curtos. Veja John Ford, por exemplo. Ford começou como diretor em 1917 e, em 1926, ele já havia dirigido dezenas de filmes, incluindo o impressionante épico “O Cavalo de Ferro”, de 1924, que tem mais de duas horas de duração. Ford não teve vergonha de voltar a fazer filmes menores e mais intimistas, e foi exatamente isso que ele fez em 1926 com “A Águia Azul”.

Silent film comes in all shapes and sizes. Furthermore, it’s not a rule that, once a director graduates to feature films, he never comes back to shorter films. Take John Ford, for instance. Ford started directing movies in 1917 and, in 1926, he had already directed dozens of films, including the impressive epic “The Iron Horse”, from 1924, that is over two hours long. Ford wasn’t ashamed to go back to more intimate films, made in a smaller scale, and this was exactly what he did in 1926 with “The Blue Eagle”.


George Darcy (George O'Brien, completamente lambuzado com óleo para parecer que está suando) e Big Tim Ryan (William Russell, igualmente lambuzado com óleo) estão servindo no mesmo navio na Primeira Guerra Mundial, mas eles são rivais na cidade natal. Juntos na guerra, eles vivenciam as batalhas, a adrenalina e a perda de companheiros. Mas assim que a guerra acaba, a velha rivalidade ressurge.

George Darcy (George O’Brien, completely covered in oil to look like he’s sweating) and Big Tim Ryan (William Russell, equally covered in oil) are shipmates during World War I, but back at home they’re rivals. Together at war, they experience the battles, the adrenaline and the loss of shipmates. But once the war is over, the old grudge comes back.


Darcy e Ryan vivem perto das docas, em um bairro pobre dominado por gangues rivais, algo que também pode ser visto em “Anjos de Cara Suja” (1938) e “Sindicato de Ladrões” (1954). Darcy e Ryan pertencem a gangues rivais – Darcy aos Terriers e Ryan aos Rats – e ambos estão apaixonados pela mesma mulher, Rose Kelly (Janet Gaynor), filha do policial Sargento Kelly (Lew Short). No bairro deles, problemas com drogas estão crescendo, e o Padre Joe (Robert Edeson), também ex-marinheiro, decide pedir para Darcy e Ryan ajudarem a polícia a prender os traficantes.

Darcy and Ryan are from the waterfront – a rather poor neighborhood dominated by rival gangs, something that can be seen in films like “Angels with Dirty Faces” (1938) and “On the Waterfront” (1954). Darcy and Ryan belong to rival gangs – Darcy’s Terriers and Ryan’s Rats – and they both are in love with the same woman, Rose Kelly (Janet Gaynor), daughter of police Sergeant Kelly (Lew Short). In their neighborhood, problems with drugs are on the rise, and Father Joe (Robert Edeson), also a former Marine, decides to ask both Darcy and Ryan to help the police arrest the smugglers.


Num mundo em que traficantes têm um SUBMARINO e gangues são formadas apenas para intimidar parte de um bairro, é de se esperar que haja uma mistura de gêneros, algumas subtramas que não vão a lugar algum – qual a importância dos irmãos gêmeos de Rose na narrativa? - e conclusões rápidas. Afinal, “A Águia Azul” tem menos de uma hora de duração!

In a world where drug dealers have a SUBMARINE and gangs are formed only to intimidate part of a neighborhood, it's expected a mix of genres, a few subplots that go nowhere – what is the use of Rose's twin brothers in the narrative? - and quick conclusions. After all, “The Blue Eagle” is less than one hour long!


George O'Brien foi um galã popular na década de 1920 e estrela de faroestes nos anos 30, e seu filme mais famoso é a obra-prima “Aurora” (2927), também com Janet Gaynor. Foi através do filme “O Cavalo de Ferro” de Ford que O'Brien alcançou o estrelato – embora ele desejasse, quando chegou em Hollywood, ser operador de câmera!

George O'Brien was a popular leading man in the 1920s and western star in the 1930s, and his most famous film is the masterpiece “Sunrise” (1927), also with Janet Gaynor. It was through Ford's “The Iron Horse” that O'Brien achieved stardom – although his only wish when he went to Hollywood was to become a cameraman!


As aventuras anteriores de George O'Brien ajudaram-no muito em “A Águia Azul”: ele serviu na Marinha norte-americana durante a Primeira Guerra Mundial, e foi condecorado por bravura, e depois da guerra ele se tornou campeão de boxe. Ele se alistou novamente na Marinha durante a Segunda Guerra. O título do filme “A Águia Azul” vem do fato de os marinheiros norte-americanos serem conhecidos como “águias azuis”. George O'Brien tinha orgulho de seu serviço na Marinha e deste filme em particular porque, mais tarde, lhe foi perguntado que filme ele queria que fosse exibido em uma mostra retrospectiva de sua carreira, e ele escolheu “A Águia Azul”.

George O'Brien's previous life adventures helped him a lot in “The Blue Eagle”: he had been in the US Navy during World War I, and was decorated for bravery, and after the war he became a boxing champion. He re-enlisted in the Navy during World War II. The title of the film “The Blue Eagle” comes from the fact that the US Marines are often referred to as Blue Eagles. George O'Brien was fond of his time at the Navy and of this film in particular because, later in his life, he was asked which film he wanted to see showed in a career retrospective festival honoring him, and he chose “The Blue Eagle”.


John Ford também teve uma ligação íntima com a Marinha, mas apenas depois de fazer “A Águia Azul”. Durante a Segunda Guerra Mundial, Ford trabalhou com a Marinha fazendo documentários de guerra. Um destes documentários é “A Batalha de Midway” (1942), ganhador de um Oscar. Ford foi uma testemunha ocular do Dia D em 1944, mas a maioria das imagens que ele filmou do Dia D foi considerada forte demais para ser exibida para o público.

John Ford also had a close link with the Navy, but only after making “The Blue Eagle”. During World War II, Ford worked with the Navy Department doing war documentaries. One of these documentaries is “The Battle of Midway” (1942), that won an Oscar. Ford was an eyewitness of the D-Day in 1944, but most of his footage shot on D-Day was considered too gruesome to be released to the public.


Janet Gaynor também fez outro filme com John Ford em 1926, “A Folha do Trevo”. Este é mais um pequeno filme que mistura comédia, drama e esporte – desta vez, corrida de cavalos. Com Janet Gaynor em um papel mais substancial e também um pouco de racismo, “A Folha do Trevo” é considerado o primeiro filme de John Ford que se passa na Irlanda.

Janet Gaynor also appeared in another John Ford film from 1926, “The Shamrock Handicap”. This is another small scale film that mixes drama, romance and sports – this time, it’s horse race. With Janet Gaynor in a more substantial role and also a bit of racism, “The Shamrock Handicap” is considered  the first John Ford film set in Ireland.
 
The Shamrock Handicap
Dois personagens muito importantes – aqueles que convencem Darcy e Ryan a declararem uma trégua – são o irmão deficiente de Darcy, Limpy (Philip Ford, sobrinho de John Ford), e o amigo bobão de Ryan, Dizzy (David Butler). Tanto Ford quanto Butler tiveram carreiras curtas como atores e mais tarde se tornaram prolíficos diretores.

Two very important characters – the ones that convince Darcy and Ryan to declare a truce – are Darcy’s handicapped brother, aptly named Limpy (Philip Ford, John Ford’s nephew), and Ryan’s good and dumb friend Dizzy (David Butler). Both Ford and Butler had brief careers as actors and later became prolific directors.


“A Águia Azul” tem atrativos para todos os públicos: romance, ação na guerra, drama urbano, um pouco de humor e até uma luta de boxe. Além disso, amantes de belos cenários, prestem atenção às luzes da cidade quando os personagens estão no cais. Infelizmente, as cenas com as batalhas navais ainda estão perdidas, o que torna o filme menos emocionante de ver hoje do que foi quando estreou. Mesmo assim, o filme nos traz o mais próximo que temos de um filme de gângster de John Ford, e por isso já merece ser visto.

The Blue Eagle” has something for everyone in the audience: romance, war action, urban drama, a bit of humor and even a boxing match. Also, lovers of beautiful scenery, pay attention to the city lights when the characters are on the waterfront. Unfortunately, the scenes with the sea battles are currently lost, which makes the film less exciting to see today than when it was originally released. Nevertheless, it brings the closest we have from a John Ford gangster picture, and for this alone it is worth a watch.

This is my contribution to the Send in the Marines blogathon, hosted by Gill and J-Dub at RealWeegieMidget Reviews and Dubsism.


Thursday, October 25, 2018

Estrela Ditosa (1929) / Lucky Star (1929)


A Primeira Guerra Mundial é um período fantástico para ser estudado – e uma experiência terrível para ser vivida. Muitos soldados que sobreviveram voltaram para casa desfigurados ou permanentemente incapacitados. “Estrela Ditosa” conta a história de um destes soldados – e também é provavelmente o único filme da história a ter uma briga entre duas pessoas no topo de um poste de telefonia.

World War I is a fascinating period to be studied - and a horrible experience to have been lived. Many of the soldiers who came back returned permanently disabled or disfigured. “Lucky Star” is a story of one of these soldiers - and also probably the only film ever to have two people fighting while hanging up in a telephone line post.


Em uma área rural pobre vivem Mary e Tim. Mary (Janet Gaynor) é uma garota que precisa cuidar dos irmãos mais novos e ainda ajudar a mãe com as tarefas da fazenda. Tim (Chares Farrell) trabalha consertando postes de telefonia, e com ele trabalha o preguiçoso Martin Wrenn (Guinn Williams). Mary e Tim se conhecem quando ela entrega dois galões de leite para os rapazes, e enquanto ela está lá tentando arrancar cinco centavos a mais de Wrenn, Tim ouve a notícia de que foi declarada guerra.

In a poor rural area live Mary and Tim. Mary (Janet Gaynor) is a girl who has to take care of her younger siblings and also help her mom with the duties in the farm. Tim (Charles Farrell) works repairing telephone posts, and his coworker is the lazy Martin Wrenn (Guinn Williams). Mary and Tim meet when she delivers two gallons of milk to the boys, and while she is in there trying to get an extra nickel from Wrenn, Tim hears the news that war has been declared.


O primeiro encontro deles não foi muito agradável. Quando Tim percebe que Mary estava mentindo sobre não receber os cinco centavos de Wrenn, ele dá uma surra nela, e a deixa possessa. Mesmo assim, ela sente falta dele e dos outros homens quando eles vão para a França. Ela escreve para Tim e Wrenn, mas é mais educada com Wrenn. Mesmo na guerra, Wrenn não mudou: ele não está interessado em seu dever cívico, mas sim em conhecer moças francesas. O contraste é claro quando temos cortes rápidos entre Wrenn, dirigindo um caminhão para encontrar mulheres, e Tim, usando um vagão movido a cavalo para levar sopa para  os soldados nas trincheiras.

Their first encounter is not that pleasant. When Tim realizes Mary was lying about not receiving Wrenn’s nickel, he spanks her, and this drives her crazy. Nevertheless, she misses him and the other guys when they leave to France. She writes to both Tim and Wrenn, but is more polite to the later. Even in war, Wrenn hasn’t changed: he is not interested in his civic duty, but in seeing French girls. The contrast is clear when we have quick cuts between Wrenn, driving a truck to see the ladies, and Tim, using a wagon propelled by a horse to take soup to the soldiers in the trenches.


Depois de um ano a França e outro ano no hospital, Tim volta para casa em uma cadeira de rodas. Mary se surpreende ao vê-lo assim, e fica mais surpresa ainda ao ver como ele já se adaptou à cadeira de rodas – ele gira, vai para todo canto dentro de casa e até dá marcha à ré. Mary começa a visitá-lo sempre, animada para ver as coisas que ele está inventando. Tim primeiro quer protegê-la e zoá-la, como se faz com uma irmãzinha, mas depois ele percebe que está apaixonado por ela.

After a year in France and another year in the hospital, Tim comes home in a wheelchair. Mary is surprised to see him like that, and even more surprised by how skilled he already is with the wheelchair - doing loops, going everywhere inside his house and even moving backwards. Mary starts going to his house often, excited to see the things he is doing as an inventor. Tim first wants to both protect and tease her, as if she was a younger sister, but then he realizes he is in love with her.


E Wreen ainda não aprendeu nada. Ele foi expulso do exército, mas ainda usa seu uniforme – pior, ele diz à mãe de Mary que foi promovido de sargento a major. Ele usa o uniforme e promessas falsas de casamento para enganar garotas, e escolheu Mary como a próxima vítima.

And Wrenn still hasn’t learned a thing. He was expelled from the Army, but still wears the uniform – worse, he tells Mary’s mother that he has been promoted from a Sergeant to a Major. He uses the uniform and fake wedding promises to get girls, and he has chosen Mary as his next victim.


Tim se entristece porque se sente solitário. Ele fica em casa 24 horas por dia porque não há acessibilidade do lado de fora. As coisas ficam ainda piores quando começa a nevar – algo que é um desafio para as pessoas em cadeiras de rodas ainda hoje. Logo após a Primeira Guerra Mundial, as cadeiras de rodas eram só cadeiras modificadas, e fica claro que o modelo usado por Tim se popularizou a partir de 1880, por causa da roda traseira. É prática, sim, mas não é suficiente para promover a socialização, como o filme mostra.

Tim is sad because he is lonely. He is in his house 24/7 because there is no accessibility at all outside. Things get even worse when it starts snowing – something that is still a challenge for people in wheelchairs today. Right after World War I, the wheelchairs were just modified chairs, and it’s clear that the model Tim has was common from the 1880s onward, because of the rear wheel. Practical, yes, but not enough to promote the socialization, as the film shows.


Tim não quer que as pessoas tenham pena dele. E esta é a primeira coisa que precisamos saber ao lidar com deficientes: eles não querem pena. Tratá-los de maneira diferente, especial, é mais um insulto que um favor. Eles não querem privilégios. Eles querem ser tratados como seres humanos, com algumas necessidades especiais. Mesmo que o termo “necessidades especiais” não seja bem aceito, é a verdade: alguém como Tim, em uma cadeira de rodas, precisa de algumas mudanças no local em que vivem para que possam viver normalmente. Estas mudanças são pequenas, coisas que podem ser feitas facilmente e que beneficiam a todos, porque conviver com pessoas diferentes é enriquecedor para todos.

Tim doesn’t want people to pity him. And this is the first thing we should know as we deal with the disabled: they don’t want pity. Treating them in a different way, in a special way, is more of an insult than a favor. They don’t want privileges. They want to be treated as human beings, but with a few special needs. Although the term “special needs” is not very cherished, it is the truth: someone like Tim, in a wheelchair, needs some special changes in the place they live in order to live normally. Those special changes are small changes, things that can be done and help everybody, because socializing with different people is enriching for everybody.


Além de termos Tim convivendo com a deficiência, temos Mary vivendo em uma família abusiva. Ela é explorada pela mãe (Hedwiga Reicher) e apanha com frequência. A mãe também detesta Tim e o chama de “aleijado”. Ela só está interessada nos presentes que Wrenn traz e nas falsas promessas dele de dinheiro para a família se Mary se casar com ele.

Besides having Tim facing disability, we have Mary living in an abusive household. She is exploited by her mother (Hedwiga Reicher), and beaten by her. Her mother also dislikes Tim and calls him a “cripple”. She is only interested in the gifts Wrenn brings and his empty promises of money for the family if Mary marries him.


Charles Farrell era um ator muito bonito, mas hoje está quase esquecido. Em “Estrela Ditosa”, ele mostra que também era excelente ator. Seus esforços com as muletas me lembraram da atuação de Lon Chaney, ao mesmo tempo difícil de ver e hipnotizante. Obviamente, para que o roteiro funcione, o progresso de Tim é muito rápido, mas “Estrela Ditosa” foi feito para ganhar dinheiro em cima da química da dupla Farrell e Gaynor, e não para dar esperança para as pessoas que se tornaram deficientes após a guerra.

Charles Farrell was a very handsome leading man, even though forgotten today. In “Lucky Star”, he shows he also could act. His efforts to use crutches reminded me of Lon Chaney’s acting, at the same time painful to watch and hypnotizing. Of course, for the film’s sake Tim’s progress is too quick, but Lucky Star was made to capitalize on the duo’s screen chemistry, and not in order to give hope to people who became disabled after the war.


A direção de arte é hipnotizante desde o primeiro segundo de projeção. As casas podem ser pobres, mas são construídas de maneira estilizada, e criam um contraste interessante com as montanhas e o céu ao fundo. Borzage fez alguns filmes visualmente maravilhosos nos anos 20 e 30 – eu particularmente aprecio o subestimado “Liliom”, de 1930. “Estrela Ditosa” é mais um desses belos filmes.

The art direction is mesmerizing since the very first second of the film. The houses may be poor, but they are built in a stylized way, and make an interesting contrast with the mountains and the sky in the background. Borzage made some visually beautiful films in the 1920s and 1930s - I particularly like the underrated “Liliom”, from 1930. “Lucky Star” is another one in this list of beautiful films.


A “Estrela Ditosa” que conhecemos hoje não é a versão original entregue pelo mestre Frank Borzage. De acordo com resenhas de 1929, o filme era parcialmente falado, com efeitos sonoros e diálogos perto do final. Entretanto, “Estrela Ditosa” foi considerado perdido durante muitas décadas. Felizmente, uma cópia foi encontrada em um arquivo da Holanda, e os intertítulos foram reconstruídos através de pesquisa e com ajuda do roteiro original. Uma nova trilha sonora foi composta, mas infelizmente a trilha original com diálogos ainda não foi encontrada.

The “Lucky Star” we have now is not the original one delivered by master director Frank Borzage. According to reviews from 1929, the film was a part-talkie with sound effects and dialogues near the end. However, “Lucky Star” was considered completely lost for many decades. Luckily, a print was found in the Netherlands Film Archive, and the intertitles were reconstructed from research using the original screenplay. A new soundtrack was composed, but unfortunately the original soundtrack with dialogue is yet to be found.


“Estrela Ditosa” é uma das 12 colaborações entre Charles Farrell e Janet Gaynor. Eles eram tão convincentes como um casal que vários presentes chegavam todas as semanas aos estúdios da Fox para o “aniversário de casamento” deles. Obviamente, eles não eram casados. E obviamente, um homem em uma cadeira de rodas não consegue se recuperar com aquela rapidez. Mas “Estrela Ditosa” é um destes filmes em que devemos suspender o senso muito crítico para apreciá-lo por completo. É belo, romântico e nos dá esperança. Ditosos somos nós!

“Lucky Star” is one of 12 collaborations between Charles Farrell and Janet Gaynor. They were so convincing as a couple that several gifts arrived every week to the Fox Studios lot for their “wedding anniversary”. Of course, they were not married. And of course, a man in a wheelchair can’t recover that quickly. But “Lucky Star” is one of those films that we must stop being too critical to enjoy. It’s beautiful, romantic and gives us hope. Lucky us!

This is my contribution to the 2nd Disability in Film blogathon, hosted by Crystal and Robin at In the Good Old Days of Classic Hollywood and Pop Culture Reverie.


Saturday, April 9, 2016

Variações sobre um mesmo tema: Papai Pernilongo / Daddy-Long-Legs (1919, 1931 e 1955)

Depois de “Star Wars: O Despertar da Força / Star Wars: The Force Awakens” (2015) e do teaser de “Rogue One” (2016), ficamos nos perguntando: precisamos de mais heroínas no cinema? Sim, claro! Mas colocar mulheres no comando não é novidade no cinema, mas sim a retomada de uma realidade da era do cinema mudo e, claro, de algumas obras inesquecíveis da literatura mundial.
Jerusha 'Judy' Abbott (Mary Pickford / Janet Gaynor) é uma garota esperta e decidida que vive em um orfanato (na versão de Leslie Caron, o nome da personagem é Julie). Ela defende seus amigos mais novos e os anima. A inteligência de Julie chama a atenção do milionário Jervis (ou Jarvis, dependendo da versão) Pendetlon (Mahlon Hamilton / Warner Baxter / Fred Astaire), que decide apadrinhá-la, pagando os estudos dela na faculdade. A única coisa que Jervis pede em troca é que Judy lhe escreva contando como vão os estudos. A menina cumpre com o combinado, endereçando as cartas ao “Papai Pernilongo” (Daddy-Long-Legs), pois a característica mais marcante do tutor são suas longas pernas. Perto de terminar a faculdade, Judy conhece Jervis e se encanta com ele, mas tem de lidar também com seu pretendente, Jimmy McBride (Marshall Neillan / John Arledge / Kelly Brown).
Um pernilongo à esquerda e uma aranha Daddy-Long-Legs à direita
Daddy-Long-Legs”, o livro, foi publicado originalmente em 1912. Há um pequeno prólogo narrativo, e o resto da história se desenrola à nossa frente através das cartas que Judy escreve para seu tutor. A autora, Jean Webster, era sobrinha-neta de Mark Twain, se interessava pelos direitos das mulheres e viajou por muitos países. Em 1914 a história foi adaptada para o teatro e protagonizada por Ruth Chatterton. Em 1916, Jean Webster faleceu, aos 39 anos, devido a complicações no parto.
Daddy-Long-Legs” é leitura obrigatória em muitas escolas norte-americanas. Para os jovens de hoje que tomam contato com a obra a principal dúvida é: a relação entre Judy e Jervis é ou não pedofilia? No começo do livro, Judy tem 17 anos. Em 1919, Mary Pickford tinha 27 anos; em 1931, Janet Gaynor tinha 25 e em 1955, Leslie Caron tinha 24 anos. Jervis Pendetlon teria 20 anos a mais que Judy, portanto, sua idade seria 37. Em 1919, Mahlon Hamilton tinha 39 anos; em 1931, Warner Baxter tinha 42 anos e em 1955 Fred Astaire tinha 56 anos.
A diferença de idade pode ou não ser um tabu. Sempre foi comum que os homens mais velhos se casassem com mulheres mais novas (e no caso de Judy uma abordagem psicológica poderia até argumentar que ela procura em Jervis a figura paterna que nunca teve). Apenas nas últimas décadas foi possível ver casais formados por mulheres mais velhas e homens mais jovens. E o cinema imitava esta realidade.
No cinema, infelizmente até hoje, as mulheres começam a carreira com vinte anos ou menos, atingem o auge por volta dos trinta e aos quarenta já não são mais consideradas para papéis de destaque. Os homens começam a ter sucesso aos 30 e atingem o auge aos 40 ou 50 – e a morte é o limite. As atrizes parecem ter um “prazo de validade”, o que é ridículo, enquanto para os atores, uma vez galãs, sempre galãs.
Assim como sua estrela, o filme de 1919 é adorável. As travessuras da jovem Judy são mostradas com ótimos truques de câmera (incluindo aí a intrincada “visão dupla”) e também um perfeito uso de cartas manuscritas mostradas de vez em quando na tela. Há elegância nos intertítulos e composições, além de muitas metáforas. Mary Pickford foi também roteirista e produtora desta versão.
Na versão de 1931, Judy é a mais velha garota do orfanato, com uma imaginação fértil e muita vontade de tornar a vida das outras crianças menos difícil. Jervis é um homem jovial, que prefere jogar futebol com os meninos do orfanato a participar de reuniões chatas de benfeitoria, e a ideia de mandar Judy para a faculdade não vem dele, mas de uma benfeitora. Aqui está a mais ridícula chefe do orfanato, e também algumas insinuações por parte de Jervis. Janet Gaynor e Warner Baxter, àquela altura, já haviam ganhado um Oscar cada e estão muito bem juntos.
O Jervis de Fred Astaire é um homem muito moderno em uma família conservadora (no livro, Jervis é mostrado como a ovelha negra da família porque era socialista. OMG!). Ele vê a jovem órfã francesa Julie e, encantado com ela, decide adotá-la. Como isso não é possível, ele se contenta em enviá-la para fazer faculdade nos Estados Unidos. Anos depois, e muitas cartas depois, ele a reencontra e eles, obviamente, dançam até um final feliz, começando com o “Sluefoot”, passando por “Something’s Gotta Give” e terminando em um longuíssimo balé de celebração de Carnaval.
Há ainda mais versões da história para o cinema. Em 1935, muitas liberdades foram tomadas em “A Pequena Órfã / Curly Top”, filme estrelando Shirley Temple. Mas Shirley não interpreta o papel equivalente a Judy: este cabe a Rochelle Hudson. As personagens de Shirley e Rochelle são irmãs órfãs que são adotadas por um tutor misterioso, interpretado por John Boles. Além desta, há adaptações feitas na Holanda e na Coreia, além de um anime.
Mary, Janet e Leslie foram escolhidas para protagonizar a história por serem angelicais, mas também capazes de demonstrar força e coragem. Em 1955 o foco da história passou de Judy para Jervis, com modificações importantes. As versões de 1919 e 1931 são muito semelhantes e graciosas, mas a versão muda tem mais sucesso em transportar o romance epistolar para as telas, sem retirar a inteligência e determinação de Judy Abbott.

O Veredicto: As três versões são muito boas. Mas, se você precisar escolher apenas uma, veja o filme de 1919 com Mary Pickford.


This is my contribution to the Beyond the Cover Blogathon, hosted by Beth at Now Voyaging and Kristina at Speakeasy. Happy reading!

Monday, September 7, 2015

Nada é Sagrado / Nothing Sacred (1937)

Em 1927, William A. Wellman dirigiu “Asas”, famoso por ter sido o primeiro ganhador da história do Oscar de Melhor Filme. Dez anos depois, Wellman trabalhava para David O. Selznick, que tinha ambições multicoloridas naquele ano de 1937. Foi o ano em que a parceria Wellman/Selznick rendeu dois filmes: “Nasce uma Estrela / A Star is Born” (meu filme favorito de todos os tempos) e “Nada é Sagrado / Nothing Sacred”. Enquanto o primeiro é um drama, o segundo é uma das melhores screwball comedies de todos os tempos. E, bônus: em glorioso Technicolor!

In 1927, William A. Wellman directed “Wings”, a film famous because it was the frist ever to win the Best Picture award at the Oscars. Ten years later, Wellman worked for David O. Selznick, who had colorful ambitions for the year of 1937. It was the year in which the Wellman/Selznick partnership originated two movies: “A Star is Born” (my favorite film of all time) and “Nothing Sacred”. While the first one is a drama, the later one is one of the best screwball comedies ever made. And with a bonus: it is in glorious Technicolor!
Wally Cook (Fredric March) é um jornalista que não averiguou bem suas fontes e acabou levando um falso sultão a um grande jantar. Como punição, ele passa a trabalhar na sessão de obituários, mas não por muito tempo: Wally sabe fazer boas reportagens, de “interesse humano”, e convence seu chefe a deixá-lo voltar à ativa para cobrir um caso de contaminação por rádio.

Wally Cook (Fredric March) is a journalist who hasn’t checked his sources and took a fake sultan to a dinner party. As a reprimand, he is sent to the obituaries section, but not for long: Wally knows how to identifies good news and top report things of “human interest”, and that’s how he convinces his boss to send him to cover a case of radium contamination.
Apesar da pouca simpatia dos habitantes da pequena cidade de Warsaw, Wally por fim encontra Hazel Flagg (Carole Lombard), a moça que tem pouco tempo de vida por causa da contaminação. Ele a convence a ir para Nova York, mas há segundas intenções: enquanto Hazel quer se divertir, Wally e a equipe do jornal pensam em explorar o drama dela a qualquer custo. Entretanto, a própria Hazel e o médico excêntrico que a acompanha, o doutor Enoch Downer (Charles Winninger), guardam um segredo.

Although he is not met with niceness by the population of the little town of Warsaw, he eventually finds Hazel Flagg (Carole Lombard), the lady who has little time to live because she was contaminated. He convinces her to go to New York, but with second intentions: while Hazel wants to have fun, Wally and the newspaper team want to explore her drama to the most. However, Hazel and the doctor who is travelling with her, doctor Enoch Downer (Charles Winninger), are keeping a secret.
Carole Lombard está, como sempre, ótima. Como Hazel, ela fala rápido, age despretensiosamente e tem expressões faciais impagáveis, melhor ainda captadas em Technicolor. Seu papel havia sido pensado para Janet Gaynor, que contracenara com March em “Nasce uma Estrela / A Star is Born”, obtendo muito sucesso. Apesar do grande talento de Janet, é inegável que não havia melhor escolha que Carole. “Nada é Sagrado / Nothing Sacred” pode não chegar ao nível de maestria de outros filmes da atriz, como “Irene, a Teimosa / My Man Godfrey” (1936), mas está quase lá.

Carole Lombard is great, as always. As Hazel, she is a fast talker who acts carelessly and has amazing facil expressions – that look even better in Technicolor. Her role was intended to be played by Janet Gaynor, who acted alongside Fredric Marc in “A Star is Born” with great success. Even though Janet was talented, we can’t deny that Carole was the best choice. “Nothing Sacred” may not be as good as her other films, like “My Man Godfrey” (1936), but it is in her TOP 5.
Talvez se William Powell interpretasse o jornalista Wally Cook (e eu consigo visualizá-lo perfeitamente no papel) o filme seria ainda melhor. Mas ele não deixa de ser bom, e deve isso a Carole e ao roteirista Ben Hecht. Hecht recebeu das mãos de Val Lewton, então um jovem subordinado de Selznick, um conto de James H. Street e decidiu adaptá-lo para o cinema. Hecht criou um personagem para John Barrymore, seu grande amigo, mas Selznick se recusou a trabalhar com o ator, então nos últimos anos de sua carreira e de sua batalha com o alcoolismo. Hecht abandonou o projeto (embora ainda receba crédito), Selznick fez algumas mudanças no roteiro, os dois fizeram as pazes e trabalharam em mais filmes juntos.

Maybe, if William Powell had played Wally Cook (and I can perfectly envision him in the role), the film would have been even better. But it is a nice movie, thanks to Carole and screenwriter Ben Hecht. Hecht received from Val Lewton, then a Selznick subordinate, a short story written by James H. Street and decided to adapt it to the screen. Hecht wrote the character to John Barrymore, his good friend, but Selznick refused to work with the actor, who was then in the last years of his career and figtning alcoholism. Hecht abandoned the projet (even though he received credit in the movie), Selznick made some changes in the script, the two became friends again and worked togheter in many other films.
É impossível agradar a todos / You can't please them all
Mas precisamos falar sobre o subestimado diretor William A. Wellman. Em minha opinião, Wellman merece um lugar entre os melhores diretores de todos os tempos, junto com Hitchcock, Fellini, Truffaut, Leo McCarey e W.S. Van Dyke. Mas, assim como os dois últimos, Wellman não se tornou um auteur. Wellman não tinha uma marca registrada, não trabalhava com um só gênero ou só um grupo de atores, mas dominava as técnicas de sua arte. Basta uma cena do filme para percebermos isso: quando Wally e Hazel estão andando pelas ruas de Warsaw, eles ficam um longo momento com os rostos encobertos por um tronco de árvore. Como todas as tomadas dos filmes são planejadas, não se trata de um erro, mas sim de um truque de Wellman: filmar uma cena com bom enquadramento é fácil, difícil é filmar uma cena que esconda o rosto dos protagonistas – que estão eles mesmos escondendo suas verdadeiras intenções – de um jeito tão íntimo e revelador.

But we really need to talk about underrated director William A. Wellman. In my opinion, Wellman deserves to be cited among the best directors of all times, next to Hitchcock, Fellini, Truffaut, Leo McCary and W.S. Van Dyke. But, just like the two last ones, Wellman didn’t become an auteur. Wellman didn’t have a registered mark, didn’t work in only one genre or with a small group of actors, but he knew all about the film techniques. In one scene we can realize his status as a master: when Wally and Hazel are walking by the streets of Warsaw, they stay a long while with their faces covered by a tree trunk. Since all the film shots are planned, it is not a mistake, but a trick by Wellman: to shoot a scene with a good framing is easy, but it is difficult to shoot a scene in which the leads’ faces are hidden – because the leads are, themselves, hiding their true intentions – in such an intimate and revealing way.

Em Technicolor, Carole Lombard nunca esteve tão bonita – nem tão frágil. É doloroso pensar que a comédia trata de uma moça destinada a morrer jovem, quando sabemos que o destino de Carole foi a morte em um acidente aéreo em 1942, quando ela tinha apenas 33 anos. Mas esqueçamos por um momento a vida e vamos nos concentrar na arte: porque só Carole Lombard (com uma ajudinha de Wellman, que foi inclusive colocado em uma camisa-de-força em uma brincadeira da atriz) poderia fazer um filme tão delicioso quanto este.

In Technicolor, Carole Lombard never looked so beautiful – or so fragile. It’s painful to think that the comedy is about a woman who is going to die young, when we know that Carole died in a plane crash in 1942, when she was only 33. But let’s forget real life for a moment and pay attention to fiction: because only Carole Lombard (with a little help from William Wellman, who was even put in a straightjacket by Carole in a prank) could make such a delightful film. 
Carole está DESMAIADA / Carole has FAINTED

Nada é Sagrado / Nothing Sacred” (1937) está disponível no YouTube e no Internet Archive. Aproveite!

“Nothing Sacred” (1937) is available on YouTube and Internet Archive. Enjoy!

This is my contribution to the William Wellman Blogathon, hosted by Liz at Now Voyaging.


Friday, February 11, 2011

Preparação para o Oscar – O pioneiro

Alô, cinéfilos de plantão! Estamos a poucos dias de conhecer os felizardos ganhadores do prêmio mais cobiçado do cinema. Mas nem sempre foi assim. Quando a premiação surgiu, era apenas chamada de “prêmio de mérito”. Mais do que isso: as primeiras estatuetas foram entregues em cinco minutos e não houve nem emoção: os vencedores tinham sido anunciados três meses antes do evento. Houve até um prêmio que hoje soa meio bizarro: Melhor Entretitulagem (nos filmes mudos, narração e diálogos aparecaim nos entrertítulos), que só durou aquele ano e foi para Joseph Farnham.Veja mais algumas curiosidades:


Primeiro Oscar de Melhor Filme:
Na primeira cerimônia não houve prêmio de Melhor Filme: foram dois: Produção (Asas) e Produção Artística e Notável (Aurora). No entanto, numa convenção posterior, Asas se tornou oficialmente o primeiro ganhador do prêmio devido às revisões nas regras do Oscar. E Adivinhe qual filme ainda é assistido e glorificado até hoje?


Primeiro Melhor Ator (protagonista): 
Emil Jannings (um conhecido simpatizante do Nazismo e, depois, publicitário da causa) ficou com o primeiro Oscar de Melhor ator por The Last Command (dirigido Josef von Sternberg, o queridinho da Marlene Dietrich).O ator tinha de voltar à Europa antes da cerimônia, por isso sua premiação foi adiantada, o que faz dele e primeiríssimo a receber o Oscar.


Primeira Melhor Atriz:
Janet Gaynor pode se gabar de ser a primeira Melhor Atriz, mas ganhou por seu árduo trabalho em 3 filmes: Aurora, sétimo Céu e Anjo das Ruas. Na foto, ela está com Frank Borzage, ganhador como Melhor Diretor - Drama. Janet disse na cerimônia : "se eu posso fazer isso, qualquer uma pode". Obrigada, Janet, por alimentar minhas esperanças! :)


Primeira Celebração e Apresentador:
A primeiríssima cerimônia de entrega do Oscar aconteceu em 16 de maio de 1929 no Hotel Roosevelt e o anfitrião foi Douglas Fairbanks (OK, o hotel era dele). Foi uma pequena reunião de 270 pessoas.


Isso é tudo, pessoal! Esperem por mais fatos curiosos sobre o Oscar!
Lê ^_^
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