} Crítica Retrô: Walter Huston

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Sunday, October 31, 2021

O Homem que Vendeu a Alma (1941) / All That Money Can Buy (1941) (aka The Devil and Daniel Webster)

 

Bernard Herrmann é considerado um dos melhores compositores da história do cinema. Tendo trabalhado como compositor em 90 filmes – alguns deles feitos após sua morte usando sua música – é surpreendente que ele tenha sido indicado ao Oscar apenas cinco vezes – nenhuma delas por trabalhos nos filmes de seus colaborador constante, Alfred Hitchcock – e tenha ganhado apenas uma estatueta, em seu primeiro ano em Hollywood. O filme que deu a Herrmann seu único Oscar é “O Homem que Vendeu a Alma”.

Bernard Herrmann is considered one of the best composers in film history. Having worked as a composer in 90 titles – some of them movies made after his death that use his music – it’s a surprise to learn that Herrmann was nominated for the Oscar only five times – none of them for movies by his constant collaborator, Alfred Hitchcock – and won only once, in his very first year in Hollywood. The movie that gave Herrmann his sole Oscar is “All That Money Can Buy”, sometimes seen under the title “The Devil and Daniel Webster”.

É uma história que aconteceu há muito tempo, mas que poderia acontecer em qualquer momento, em qualquer lugar, com qualquer um – até mesmo com você, querido espectador. O fazendeiro Jabez Stone (James Craig) vem sofrendo com uma maré de azar. Ele está se sentindo tão mal que diz em voz alta que estaria disposto a fazer um pacto com o diabo em troca de melhorias. O diabo o escuta, aparece sob a forma de Mr Scratch (Walter Huston) e Jabez vende sua alma em troca de sete anos de prosperidade. Instantaneamente, Jabez enriquece e começa a comprar roupas e chapéus para sua esposa Mary (Anne Shirley) e sua mãe (Jane Darwell). E não demora muito para que ele deixe de frequentar a igreja para jogar cartas com os novos amigos.

It’s a story that happened a long time ago, but one that could happen anytime, anywhere, to anybody – even to you, dear viewer. Farmer Jabez Stone (James Craig) has been having a lot of bad luck lately. He’s feeling so unlucky and miserable that he says out loud that he’d be willing to make a pact with the devil to see things improving. The devil hears, appears in the form of Mr Scratch (Walter Huston) and Jabez sells his soul in exchange of seven years of good luck. Instantly, Jabez becomes rich and starts buying dresses and hats for his wife Mary (Anne Shirley) and his mother (Jane Darwell). And it doesn’t take long until he starts not going to church and instead playing cards with his new friends.

Mas quem diabos é Daniel Webster? Daniel Webster (Edward Arnold) é um político de Massachusetts que leva jeito com as palavras. Um dia, logo depois de Jabez fazer o pacto com o diabo, Daniel Webster visita a cidade vizinha à fazenda dele e se torna amigo de Jabez. Mary troca cartas com Daniel Webster e até mesmo dá ao seu filho o nome de Daniel. Mary então chama Daniel Webster para ajudar quando Jabez se torna arrogante e muito ambicioso, e Daniel Webster terá de usar suas palavras contra o diabo.

But who the hell is Daniel Webster? Daniel Webster (Edward Arnold) is a politician from Massachusetts who has a talent for words. One day, right after Jabez makes the pact with the devil, Daniel Webster visits the town near his farm and befriends him. Mary corresponds with Daniel Webster frquently, and even names her son Daniel after the politician. Mary then calls Daniel Webster to interfere when Jabez becomes arrogant and overly ambitious, and Daniel Webster will have to use his words against the devil.

Uma das muitas tentações que Jabez terá de enfrentar tem um belo rosto: é Belle (Simone Simon), sua nova empregada. O papel mais lembrado de Simone é como a protagonista de “Sangue de Pantera” (1942), um filme para o qual Bernard Herrmann fez arranjos para uma música, sem receber crédito. Simone Simon foi escalada para “Sangue de Pantera” depois que o produtor Val Lewton viu sua performance como a tentadora diabólica em “O Homem que Vendeu a Alma”.

One of the many temptations that Jabez will have to face has the prettiest face: Belle (Simone Simon), his new maid. Simon’s best remembered role is as the lead of “Cat People” (1942), a film in which Bernard Herrmann worked as an arranger for one song, for which he didn’t receive credit. Simone Simon was cast in “Cat People” after producer Val Lewton saw her turn as the devil’s temptress in “The Devil and Daniel Webster”.

A trilha sonora é excelente. Em determinado momento, há melodias idílicas que fazem a vida no campo soar como um paraíso, e no minuto seguinte há notas macabras. Há também momentos tensos e fantásticos marcados pela música, e há também algumas canções folclóricas. Tudo isso levou à vitória histórica de Herrmann na categoria Melhor Trilha Sonora Original, uma vitória mais que merecida. O que pode ter ajudado é que Herrmann já estava familiarizado com a história, pois compôs a trilha sonora para a adaptação de “O Homem que Vendeu a Alma” para o rádio em 1938.

The soundtrack is amazing. At one point, there are idyllic melodies that make life in the country sound like a paradise, and in the next minute there is a macabre tune. There are also tense moments and fantastic moments marked by music, and there are some folk tunes as well. All this led to Herrmann’s historical win in the Original Music Score category, a win that was very much deserved. What might have helped was that Herrmann was no strange to the story, as he had composed the soundtrack for the radio adaptation of “The Devil and Daniel Webster” in 1938.

Assim como o primeiro filme de Herrmann – “Cidadão Kane” – “O Homem que Vendeu a Alma” foi feito pelos estúdios RKO. Foi o primeiro filme que o diretor William Dieterle fez servindo também como produtor, e era a adaptação de um conto publicado em 1936 e adaptado para os palcos em 1939. Dieterle fez muitas experiências com o filme – um filme que herdou parte da quipe que trabalhou em “Cidadão Kane” – e a produção ficou acima do orçamento, o que se mostrou um problema.

Like Herrmann’s first film – “Citizen Kane” – “The Devil and Daniel Webster” was made by RKO studios. It was the first movie director William Dieterle made also as a producer, and it was the adaptation of a short story published in 1936 and then adapted to the stage in 1939. Dieterle experimented a lot with this film – a film that inherited part of the crew that worked in “Citizen Kane” – and the production ran over budget, which became a problem.

O Homem que Vendeu a Alma” é um filme de fantasia, mas tem alguns efeitos de iluminação interessantes – muitos deles parecem não ter sido feitos de propósito – que evocam o noir. Outro filme de fantasia com iluminação noir – e também com música composta por Bernard Herrmann! - é “O Fantasma Apaixonado” (1947).

The Devil and Daniel Webster” is a fantasy movie, but it has some interesting lighting effects – many of them seem made not on purpose – that evoke a noir feeling. Another fantasy movie with noir lighting – and also with music composed by Bernard Herrmann! - is “The Ghost and Mrs Muir” (1947).

O Homem que Vendeu a Alma” não é o primeiro filme a contar a história de alguém que vendeu sua alma ao diabo. Talvez a versão mais famosa de tal história seja Fausto, filmado em 1926 na Alemanha por F.W. Murnau. Numa curiosa coincidência, William Dieterle teve um papel de destaque neste filme como Valentin, que é morto por Fausto. “O Homem que Vendeu a Alma” também não foi o último filme a ter um julgamento com criaturas do outro mundo para decidir o destino de um homem: uma trama semelhante pode ser encontrada no magnífico filme britânico “Neste Mundo e no Outro” (1946).

The Devil and Daniel Webster” is not the first movie to tell the story of someone who sold his soul to the devil. Perhaps the most famous version of such a story is Faust, filmed in 1926 in Germany by F.W. Murnau. In a curious coincidence, William Dieterle had a major role in this film as Valentin, who is killed by Faust. “The Devil and Daniel Webster” is also not the last movie to have a hearing with otherwordly creatures to decide a man’s fate: a similar plot is found in the superb British film “A Matter of Life and Death” (1946).

Você deve estar se perguntando, e aqui está a resposta: sim, existiu um político chamado Daniel Webster em Massachusetts. Ele foi um dos mais famosos advogados do século XIX e foi candidato na eleição presidencial de 1836, que ele perdeu – mas provavelmente não porque não aceitou fazer um pacto com o diabo.

You might be wondering, so here is the answer: yes, there was a real politician called Daniel Webster from Massachusetts. He was one of the most famous lawyers of the 19th century and was a candidate in the 1836 presidential election, which he lost – but probably not because he refused to make a deal with the devil.

O Homem que Vendeu a Alma” foi um sucesso de crítica mas um fracasso de bilheteria. É mais que uma curiosidade, mais que o filme que deu a Bernard Herrmann o único Oscar de uma carreira brilhante. Quase tão bom quanto “Neste Mundo e no Outro”, este filme adapta a lenda de Fausto ao folclore norte-americano e acrescenta à história mágica e, por mais estranho que pareça, patriotismo. É realmente um filme único.

The Devil and Daniel Webster” was a critical success but a box-office failure. It’s more than a curiosity as it gave Bernard Herrmann the sole Oscar in an outstanding career. Almost as good as “A Matter of Life and Death”, this film adapts the Faust legend to American folklore and infuses the story with magic and, as oddly as it may sound, patriotism. It’s truly an unique gem.

This is my contribution to the Bernard Herrmann blogathon, hosted by The Classic Movie Muse.

Wednesday, April 17, 2019

A Fera da Cidade (1932) e a gênese da femme fatale

The Beast of the City (1932) and the genesis of the femme fatale

Podemos traçar as origens de muitos traços dos filmes noir para mais de uma década antes que o primeiro “noir verdadeiro” – “O Falcão Maltês”, de 1941 – chegasse aos cinemas. Muitas escolhas de fotografia usadas no noir vêm do Expressionismo Alemão dos anos 1920, por exemplo. Mas e quanto aos personagens do noir? De onde vêm os detetives durões e as femme fatales? Nosso foco hoje serão as mulheres más do noir e do proto-noir.

We can trace the origins of many film noir traits back to over a decade before the first “true noir” – aka “The Maltese Falcon”, 1941 – hit the screens. Many cinematography choices used in noir date from the German Expressionism from the 1920s, for instance. But what about the noir characters? Where do hard-boiled detectives and femme fatales come from? Our focus today will be only the evil dames of noir and proto-noir.


As origens das femme fatales do noir podem ser encontradas nas vamps dos filmes mudos. Em Hollywood, algumas das vamps mais icônicas foram Theda Bara em diversos filmes e Nita Naldi em “Os Dez Mandamentos”, de 1923. Nos anos 30, considerando o começo do cinema falado, o período pre-Code e o período com o Código Hays já em vigor, houve um período nebuloso para as mulheres más. Foi um momento em que a vamp se metamorfoseava e se transformava na femme fatale – e houve mais mulheres independentes nas telas do que nos 70 anos seguintes.

The origins of the noir femme fatales can be found in the silent film vamps. In Hollywood, some of the most iconic vamps were Theda Bara in many of her films and Nita Naldi in “The Ten Commandments”, from 1923. In the 1930s, considering beginning of the sound era, the pre-Code period and the Code period per se, there was a nebulous time for bad women. It was a moment when the vamp was metamorphosing into the femme fatale – and there were more independent women on screen than there would be for the next 70 years or so.
 
Nita Naldi in "The Ten Commandments"
“A Fera da Cidade” começa com uma mensagem que parece uma provocação da MGM para os estúdios Warner. A mensagem é sobre como a sociedade deve parar de glorificar gângsteres e começar a glorificar os policiais que perseguem estes gângsteres. Assim que a mensagem acaba, descobrimos que ela foi dita pelo então presidente Herbert Hoover.

“The Beast of the City” starts with a message that sounds like a provocation MGM is making to the Warner studios. The message is about how society should stop glorificating gangsters and start glorificating the policemen who fight those gangsters. As the message ends, we find out it was uttered by the then president Herbert Hoover.
 
Via PreCode.com
O capitão Jim ‘Fitz’ Fitzpatrick (Walter Huston) e seu time estão investigando o enforcamento de quatro pessoas. Jim já tem um suspeito: o famoso malfeitor Sam Belmonte (Jean Hersholt). No escritório de Belmonte, Jim vê Daisy (Jean Harlow) pela primeira vez, mas não dá atenção a ela.

Captain Jim 'Fitz' Fitzpatrick (Walter Huston) and his team are investigating the hanging of four people. Jim has one suspect already: well-known wrongdoer Sam Belmonte (Jean Hersholt). At Belmonte's office, Jim sees Daisy (Jean Harlow) for the first time, but doesn’t pay attention to her.


A próxima vez que nós e a polícia vemos Daisy, ela é uma suspeita esperando para ser reconhecida pela vítima de um acidente de carro. O policial Ed Fitzpatrick (Wallace Ford), irmão de Jim, se interessa por ela, mesmo estando claro que ela não teve nada a ver com o acidente. Ela, entretanto, já esteve presa por seis meses e, ao sair da sala de interrogatório, ela desrespeita um policial que fala com ela.

The next time we and the police see Daisy, she is held as a suspect waiting to be recognized by a victim of a road accident. Policeman Ed Fitzpatrick (Wallace Ford), Jim's brother, gets interested in her, even though it's clear she had nothing to do with the road accident. She, however, had already been in jail for six months, and as she leaves the police station room, she shows no respect for the policeman who talks to her.


Ed segue Daisy até o apartamento dela e fala com a moça. Quando eles estão entrando no imóvel, há um breve momento com as sombras de ambos emolduradas pela sombra da porta – um frame que é puro noir. Dentro do apartamento, eles bebem cerveja, - Ed fica muito bêbado – Daisy dança e eles se beijam.

Ed follows Daisy to her apartment and talks to her. As they're entering the place, there is a brief moment with only their shadows framed by the shadow of the door – a moment that is pure noir. Inside the apartment, they drink beer, – Ed gets so drunk – Daisy dances and they kiss.


Enquanto isso, Jim e sua família – esposa, filhas gêmeas e filho mais novo interpretado por Mickey Rooney – têm de se mudar porque ele foi transferido para outra estação. Sua reação rápida ao roubo de um banco, além de deixá-lo ferido, leva-o a ser nomeado Chefe de Polícia. Ed, por outro lado, fica chateado porque Jim se recusa a promovê-lo a tenente.

Meanwhile, Jim and his family – wife, twin daughters and young son played by Mickey Rooney – have to move as he is transferred to another station. His quick response to a bank robbery leaves him wounded, but gives him the status of Chief of Police. Ed, on the other hand, gets sour because Jim refuses to promote him to lieutenant.


Daisy, querendo mais poder e dinheiro, pergunta a Ed sobre a promoção sem parar. Vendo que nada vai acontecer, ela apresenta Ed a Sam Belmonte, e convence Ed a investir seu dinheiro com o gângster. Ao mesmo tempo, Jim manda Ed para uma importante missão de escolta de um caminhão de dinheiro, mas Ed conta tudo sobre a missão a Daisy, que por sua vez conta os detalhes para outro gângster, sócio de Belmonte, Cholo (J. Carrol Naish) – e então convence Ed a se juntar ao crime.

Daisy, wanting money and power, asks Ed all the time about when he will be promoted. Seeing that nothing is going to happen, she introduces Ed to Sam Belmonte, and convinces Ed to invest his money with the gangster. At the same time, Jim sends Ed in an important mission to escort a truck full of money, but Ed spills the beans about the mission to Daisy, who in her turn tells everything to another gangster, Belmonte's partner Cholo (J. Carrol Naish) – and then she convinces Ed to take part in the crime.


Se considerarmos que uma femme fatale é qualquer personagem feminina que é muito independente, interessada em riqueza e faz algum mal a um protagonista do gênero masculino, podemos encontrar mais femme fatales em filmes proto-noir do que era de se esperar. Por exemplo, a personagem Marie Woods de Glenda Farrell em “O Fugitivo” (1932) pode ser considerada uma femme fatale, enquanto a Gwen Allen de Jean Harlow em “Inimigo Público” (1931) não pode, porque Marie prejudica o protagonista, mas Gwen não.

If we consider a femme fatale any female character that is very independent, interested in riches and does any harm to a male protagonist, we can find more femme fatales in proto-noir films than expected. For instance, Glenda Farrell's Marie Wood in “I was a Fugitive from a Chain Gang” (1932) can be considered a femme fatale, while Jean Harlow’s Gwen Allen in “The Public Enemy” (1931) can’t, because Marie harms the lead, but Gwen doesn’t.


Se Jean Harlow tivesse vivido mais tempo, eu duvido que ela interpretaria muitas femme fatales. Nos últimos dois anos de sua vida e carreira, ela explorou mais seu lado cômico, e com sucesso. Eu acredito que ela teria seguido o caminho da comédia e se tornado uma rainha do screwball comedy, com poucas incursões por papéis mais dramáticos.

If Jean Harlow had lived longer, I doubt she would play many femme fatales. In the last two years of her career and life, she explored more her comedienne side, and with success. I believe she would have followed the funny path and became a screwball queen, with a few incursions into more dramatic roles.


Não há dúvidas de que a Daisy de Jean Harlow é uma femme fatale no ótimo e duro proto-noir “A Fera da Cidade” – um filme que passei a conhecer quando ele foi citado no livro “Cine Negro”, de Alain Silver e James Ursini. O esquema dela traz desgraça a muitas pessoas, pois há várias mortes no confronto final – incluindo a dela própria. Daisy foi uma femme fatale cujos atos foram fatais para ela mesma. E haveria algo pior do que isso?

There is no doubt Jean Harlow's Daisy is a femme fatale in the great and raw proto-noir “The Beast of the City” – a film I first heard about when it was mentioned in the book “Cine Negro”, by Alain Silver and James Ursini. Her scheme disgraces many lives, as in the final confrontation there are a lot of deaths – including her own. Daisy was a femme fatale whose acts were fatal to herself. And could there be anything worse than that?

This is my contribution to the Femme / Homme Fatales of Film Noir blogathon, hosted by the Classic Movie Blog Association.


Saturday, February 4, 2017

É de família: os Huston / It runs in the family: the Hustons

Algumas famílias têm tradições estranhas. Os Huston, por exemplo, têm três gerações de ganhadores do Oscar (um recorde apenas igualado pela família Coppola). E tudo começou com um imigrante canadense.

Some families have weird traditions. Others have golden traditions. The Hustons, for instance, have three generations of Oscar winners (a record only shared with the Coppolas). And it all started with a Canadian immigrant.


Walter Thomas Huston nasceu em Toronto, Canadá, em 1883. Ele estudou engenharia, mas sua verdadeira paixão era a atuação. Mesmo assim, em 1904, quando ele se casou com a jornalista Rhea Gore, ele decidiu se dedicar apenas à engenharia. Sua carreira como engenheiro durou quase cinco anos, até que um erro de Walter ao consertar um reservatório quase deixou uma cidade debaixo d’água. Em 1909, ele se divorciou de Rhea e passou a apenas atuar.

Walter Thomas Huston was born in Toronto, Canada, in 1883. He studied engineering, but his passion was acting. Yet, in 1904, when he got married to journalist Rhea Gore, he dedicated himself only to engineering. His career as an engineer lasted nearly five years, until a mistake made by Walter in a town’s reservoir nearly caused a flood. In 1909, he divorced Rhea and became a full-time actor.


Ele precisaria de mais de uma década para encontrar sucesso na Broadway. Walter estava também entre os atores de teatro que foram para Hollywood com a popularização do cinema falado. Huston fez seu primeiro filme em 1929.

He would need more than a decade to find success on Broadway. Walter was also among the stage actors who went to Hollywood when talkies came. Huston debuted in movies in 1929. 


No ano seguinte ele interpretou o mais amado presidente norte-americano, Abraham Lincoln, no filme homônimo dirigido por D.W. Griffith. Walter mais uma vez interpretaria um ícone estadunidense em 1943, quando ele fez o papel do Tio Sam em “O Ataque a Pearl Harbor”, um filme de propaganda feito durante a Segunda Guerra Mundial.

The following year he played the most beloved American president, Abraham Lincoln, in the homonym film directed by D.W. Griffith. Walter would once again play an American icon in 1943, when he portrayed Uncle Sam in “December 7th: The Movie”, a film to boost the country’s moral during WWII.


Walter fazia sucesso nas telas no começo dos anos 30 quando seu único filho, o futuro diretor John Huston, se envolveu em um acidente automobilístico. John estava dirigindo bêbado e acabou atropelando e matando a atriz e bailarina brasileira de 23 anos Diva Tosca. Diva era casada com o ator brasileiro Raul Roulien (o cara que sugeriu colocar Fred Astaire e Ginger Rogers para dançarem juntos pela primeira vez!), que tinha uma carreira de sucesso no cinema e na música... até que os Huston cruzaram seu caminho. Raul processou o motorista bêbado que fez dele um viúvo, mas o poderoso e superprotetor Walter Huston quis proteger seu filho e usou sua influência para que o júri inocentasse John. Mesmo assim, ele pagou uma indenização ao pobre Raul. Por causa deste pequeno escândalo, Raul Roulien não conseguiu mais trabalho em Hollywood e voltou para o Brasil, onde morreu em 2000.

Walter was enjoying screen success in the early 1930s when his only son, future director John Huston, got involved in a car accident. John was drunk and ended up hitting and killing 23-year-old Brazilian actress and ballerina Diva Tosca. Diva was married to Brazilian actor Raul Roulien (aka the man who put together Fred Astaire and Ginger Rogers), who had been enjoying a career in film and music… until the Hustons got in his way. Raul sued the drunk driver who made him a widow, but powerful and overprotective Walter Huston protected his son and bribed the jury to make John be proclaimed innocent, but paid an amount of money to grieving Roulien. Because of the small scandal, Raul Roulien couldn’t find work in Hollywood anymore and went back to Brazil, where he died in 2000.   

Diva Tosca / Young John Huston
Raul Roulien
Naquela época John tinha vinte e poucos anos, já havia aparecido em minúsculos papéis no cinema e estava então escrevendo diálogos e roteiros. Seu grande salto para a fama viria quando ele adaptou e dirigiu “O Falcão Maltês” em 1941. Ele dirigiu muitos outros filmes inesquecíveis em sua carreira, e viveu uma vida conturbada, se casando cinco vezes e tendo cinco filhos.

By then John Huston was in his 20s, and had already done bit parts and was writing scenarios and dialogues. His big break would come when he adapted and directed “The Maltese Falcon” in 1941. He directed many unforgettable films and lived an erratic life, marrying five times and having five kids.

Walter and John
Anjelica Huston, filha de John, nasceu quando ele estava no Congo Belga filmando “Uma Aventura na África” (1952). Ela fecha a trindade de ganhadores do Oscar na família. Anjelica ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “A Honra do Poderoso Prizzi” (1984), filme dirigido por seu pai. John ganhou dois Oscars por “O Tesouro de Sierra Madre” (1948): Melhor Diretor e Roteiro Adaptado. Este mesmo filme deu a Walter Huston seu único Oscar, de Melhor Ator Coadjuvante.

John’s daughter Anjelica Huston was born when he was in the Belgian Congo shooting “The African Queen” (1952). She closes the trinity of Oscar winners in the family. Anjelica won the Oscar as a Supporting Actress for “Prizzi’s Honor” (1984), directed by her father. John won two Oscars for “The Treasure of Sierra Madre” (1948): best Director and Adapted Screenplay. This same movie gave Walter Huston his only actor, for a Supporting Role.

John and Anjelica
O filho mais velho de John, Tony Huston, já escreveu roteiros para o cinema. Tony é pai do ator Jack Huston, que protagonizou o muito criticado remake de Ben-Hur de 2016. Danny, também filho de John, é um ator que já participou de vários filmes, entre eles “Grandes Olhos” (2014).

John’s oldest son, Tony Huston, did some writing for the screen. Tony is the father of actor Jack Huston, who starred in the much criticized 2016 version of Ben-Hur. John’s son Danny is also an actor, and appeared in such films as “Big Eyes” (2014).

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Entre todos os Huston, Walter é meu favorito. Ele é ótimo mesmo em papéis pequenos e emocionalmente exigentes, como em “A Canção da Vitória” (1942). Mas seu melhor trabalho é, em minha opinião, como o protagonista de “Fogo de Outono” (1936). Para os Huston, tudo começou com Walter.

Of all the Hustons, Walter is my favorite. He is great in small but heavily emotional roles, like in “Yankee Doodle Dandy” (1942). But his best work is, in my opinion, as the lead in “Dodsworth” (1936). For the Hustons, everything started with Walter.

This is my contribution to the 2017 O Canada Blogathon, hosted by Ruth and Kristina at Silver Screenings and Speakeasy.

Wednesday, February 20, 2013

Uma personalidade, vários intérpretes: Abraham Lincoln

O décimo sexto presidente dos Estados Unidos teve de enfrentar tempos tempestuosos durante a Guerra Civil Americana e também graças aos debates sobre a abolição da escravatura. Hoje ele é um dos mais populares ex-presidentes e com certeza o que foi assunto de mais filmes. Em seu discurso no SAG (Screen Actors Guild) Awards, prêmio do sindicato dos atores, Daniel Day-Lewis ponderou que, uma vez que foi um ator, John Wilkes Booth, que matou Lincoln, muitos outros atores se esforçaram para dar novamente vida a ele, mesmo como personagem fictício.
O primeiro filme sonoro de D. W. Griffith foi justamente uma cinebiografia de Lincoln. Com menos de uma hora e meia, nem parece parte da obra do exagerado diretor. A vida de Lincoln é contada inteira e com muitas licenças poéticas. Coube a Walter Huston, pai do diretor John Huston e avô de Anjelica Huston, interpretar o presidente. Algumas cenas de Huston foram editadas e inseridas nove anos mais tarde no filme “Land of Liberty”, uma colagem de cenas de vários filmes que, juntas, contavam a história dos Estados Unidos.
Com belas costeletas, Henry Fonda interpretou Abraham em “A mocidade de Lincoln / Young Mr. Lincoln”, de 1939. Neste filme é focado apenas o período em que ele era um advogado em início de carreira, na cidade de Springfield. Lá ele aceita defender dois irmãos acusados de matar um homem durante uma briga. A perfeição e perspicácia da interpretação de Fonda é tanta que o jornal The Guardian afirmou que o Lincoln de Day-Lewis seria uma continuação perfeita do Abraham de Fonda. Outra performance elogiada foi a de Raymond Massey em “O Libertador / Abe Lincoln in Illinois”, de 1940.  
O irmão mais velho de John Ford, Francis, ele próprio um prolífico ator e diretor, aparece em “A mocidade de Lincoln” como Sam Boone. Abraham já havia aparecido brevemente em dois outros filmes de John Ford, “The Iron Horse” (1925) e “O prisioneiro da ilha dos tubarões” (1936), mas em nenhum John deixou seu irmão interpretar o presidente, embora Francis tenha dado vida a Lincoln em sete filmes entre 1912 e 1913. Outro campeão no quesito “interpretar Abraham” foi Ralph Ince, recriando o papel nove vezes na era muda. Parece que interpretar múltiplas vezes o presidente é uma sina, pois isso aconteceu também com Benjamin Chapin (14 vezes, em todos os seus créditos como ator, sendo ele diretor, produtor e roteirista de alguns desses filmes) e George A. Billings (cinco vezes), só para citar atores do cinema mudo.  
Às vezes os holofotes não estão totalmente em Lincoln, e ele se contenta em fazer apenas uma participação especial em alguns filmes. Em “O nascimento de uma nação” (1915), por exemplo, ele é interpretado por Joseph Henabery. Ironicamente, quem interpreta o assassino John Wilkes Booth neste filme é Raoul Walsh, que depois se tornaria diretor, e que era amigo do irmão mais velho de Booth, Edwin. Em 1935, Shirley Temple teve o prazer de se sentar no colo do presidente, interpretado por Frank McGlynn, em “A pequena rebelde / The littlest rebel”.
Mesmo sem aparecer, Lincoln é citado em outra infinidade de filmes. Quem assistiu a “Anna e o rei do Sião” (1946) com certeza se lembra de que o rei (Rex Harrison) envia uma carta a Lincoln oferecendo-lhe um casal de elefantes que, depois de procriarem, ajudariam o presidente a vencer a guerra civil.
Muitas minisséries e programas de televisão que contavam fatos históricos apresentaram Lincoln. Em “Norte e Sul” (1985 – 1986), minissérie com grandes atores, o presidente é interpretado por Hal Holbrook. Antes dele, Gregory Peck interpretou Lincoln e, anos depois, Tom Hanks também o encarnaria na televisão.
Gregory Peck em "The Blue and the Gray"
São muitas performances e abordagens diferentes para analisar. Afinal, no IMDb constam mais de 300 filmes e produções de TV com o personagem Abraham Lincoln. Talvez, como homem e político, Lincoln seja uma figura tão fascinante ao ponto de histórias sobre ele nunca se esgotarem, afinal, ele já foi até caçador de vampiros. Mesmo assim, a explicação romântica de Daniel Day-Lewis é plausível e bastante cinematográfica, não?

This is my second contribution to the 31 Days of Oscar Blogathon, hosted by Aurora, Kellee and Paula at Citizen Screen, Outspoken and Freckled and Paula’s Cinema Club.


Thursday, June 7, 2012

Made in Canada: Canadenses no Cinema – Parte 1

Canadá e Estados Unidos são grandes parceiros comerciais. Se por um lado o país mais ao Norte importa muitos produtos ds EUA, há um fluxo inverso no mundo das artes: foram várias as estrelas exportadas para o vizinho mais ao Sul.
Florence Lawrence: A primeiríssima estrela do cinema americano era canadense. Mais conhecida como “Biograph Girl”, Florence foi a protagonista das primeiras produções de Griffith. Ela também inventou o sistema em que atores e diretores podem ver o resultado das filmagens e então corrigir o que estiver errado. Após a fundação de Hollywood, ela desistiu da carreira por não querer ir para a costa da Califórnia.

Mary Pickford: A namoradinha (estrangeira) da América foi, sem dúvida, a maior celebridade do cinema mudo. Pequena, de cabelos cacheados e ar angelical, fez mais de 250 filmes. No entanto, atraiu mais atenção por seu casamento com o astro Douglas Fairbanks e por ter sido a segunda ganhadora do Oscar de Melhor Atriz. Seus irmãos Lottie e Jack também trabalharam em filmes mudos, morrendo respectivamente em 1936 e 1933.

Mack Sennett: Ele foi o fundador dos Estúdios Keystone, responsável por lançar estrelas como Mabel Normand e Gloria Swanson. Fez parte de divertidas comédias na época do cinema mudo, produzindo mais de 1100 filmes, estrelando em 362 e dirigindo 322.
Warner Brothers: Os quatro canadenses mudaram a história do cinema com o filme “O Cantor de Jazz”, mas começaram como distribuidores do filme “O grande roubo do trem”, de 1903. Sam Warner faleceu pouco antes da estreia do revolucionário filme falado, deixando seus irmãos Jack, Harvey e Albert envoltos em brigas.

Fay Wray: Dona de um dos gritos mais famosos da sétima arte, começou no cinema aos 16 anos, em produções mudas. Fez alguns filmes de terror, até ser escalada como substituta de Jean Harlow em King Kong (1933). Nos anos 50 participou do seriado Perry Manson ao lado de outro canadense, Raymond Burr.

Ruby Keeler: Ela fez vários musicais bem-sucedidos e psicodélicos sob a direção de Busby Berkeley na década de 1930. Seu primeiro marido foi o cantor Al Jolson, protagonista do revolucionário “O Cantor de Jazz” de 1927. Ela deixou o cinema em 1940 e só retornou à Broadway nos anos 70.
Deanna Durbin: Cantora clássica e uma estrela adolescente, Deanna encerrou a carreira aos 27 anos. Seu primeiro trabalho foi em um curta ao lado de Judy Garland.

Ann Rutherford: Ann interpretou a irmã caçula da família O’Hara em “E o vento levou”, preenchendo a vaga que ficou disponível após Judy Garland ser chamada para fazer “O mágico de Oz”. Ann também estrelou diversos filmes da série Andy Hardy, ao lado de Mickey Rooney.

Lorne Greene: Ele fez carreira na televisão, ficando famoso ao interpretar o patriarca Ben Cartwright durante 14 anos na série Bonanza. Mas Lorne também gravou discos no estilo country, que foram outro grande sucesso em sua carreira.

Walter Huston: O patriarca da família Huston, pai de John e avô de Anjelica, se dividiu entre o cinema e o teatro com sucesso. Ele ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1949, tendo sido dirigido por seu filho John em “O Tesouro de Sierra Madre”. A festa foi generalizada na cerimônia, pois John ganhou como Melhor Diretor.

Hume Cronyn: Mais conhecido por suas participações nos filmes de Hitchcock “Sombra de uma Dúvida” e “Um barco e nove destinos”, também colaorou nos roteiros de “Festim Diabólico” e “Sob o signo de Capricórnio”. Embora pouco lembrado, este ator foi também boxeador, marido de Jessica Tandy, apareceu na lista negra durante a histeria comunista e teve um asteroide batizado com seu nome. 
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