} Crítica Retrô

Tradutor / Translator / Traductor / Übersetzer / Traduttore / Traducteur / 翻訳者 / переводчик

Friday, November 15, 2013

The Penalty (1920)

Quando vi a cinebiografia de Lon Chaney, "O Homem de Mil Faces" (1957), fiquei muito impressionada com a sequência, recriada com perfeição pelo ator James Cagney, em que Lon grava uma cena do filme “The Miracle Man”, de 1919. Neste filme, Lon se faz passar por um aleijado que é curado por um médium ou algo do tipo. Mas uma tragédia surge: o filme está perdido. Existem apenas alguns minutos de filmagem, e nesses minutos nem é Lon que mais brilha, mas sim o garotinho que é curado:

When I saw Lon Chaney's biopic, "The Man of a Throusand Faces" (1957), I was very impressed with a sequence, recreated with perfection by James Cagney, in which Lon records a scene from the film “The Miracle Man”, from 1919. In this film, Lon pretends he is a crippled man who is cured by a spiritualist. But a tragedy strikes: this film is lost. There are only a few minutes available, and in these minutes Lon isn't even the best in scene: the little boy who is cured has all the attention:


Triste com a impossibilidade de ver e escrever sobre “The Miracle Man”, escolhi um filme feito no ano seguinte, e tive uma boa surpresa. “The Penalty”, já adianto, é maravilhoso. E se eu queria um Lon Chaney aleijado, pelo menos isso eu consegui.

Saddened by the impossibility of writing about “The Miracle Man”, I chose a film released the following year, and I had a good surprise. “The Penalty”, I already say, is superb. And, if I wanted a crippled Lon Chaney, at least this I got.

Um garotinho, não creditado, sofre um acidente de carro. O médico, Dr. Ferris (Charles Clary), erroneamente amputa as duas pernas do menino na altura dos joelhos. A vida da criança está arruinada por um erro médico. O menino cresce e, por incrível que pareça, ele se torna Blizzard (Lon Chaney), uma mente maligna que, talvez por sua incapacidade de andar, deseja se vingar dominando a cidade de San Francisco. Em sua casa, ele emprega dezenas de moças em uma manufatura de chapéus e também cria seu plano maligno com a ajuda de alguns capangas.

A little boy, uncredited, is involved in a car crsah. Doctor Ferris (Charles Clary), cuts off the boy's legs by mistake. The child's life is ruined by a mistake. The boy grows up and, as odly as it may seem, he becomes Blizzard (Lon Chaney), an evil mind who, maybe because of he is unable to walks, wants revenge by dominating the city of San Francisco. At his house, he has dozens of girls making hats, and also creates his evil plan with the help of some minions.

Quem vai investigar os negócios de Blizzard é Rose (Ethel Grey Terry), enviada pelo policial Lichtenstein (Milton Ross). Infiltrada na manufatura, ela logo se torna a favorita de Blizzard e começa seu dilema: ela deve cumprir sua missão ou deixar a compaixão pelo criminoso falar mais alto?

The person who investigates Blizzard's business is Rose (Ethel Grey Terry), sent by the police officer Lichtenstein (Milton Ross). Working undercover in the small factory, she soon becomes Blizzard's favorite, and her dilemma starts: does she have to finish her job or let her compassion for the criminal win over it?

A outra moça da história é Barbara (Claire Adams, não creditada), aspirante a escultora e filha do doutor Ferris. Um informante de Blizzard descobre que ela está procurando um modelo para sua escultura com o sugestivo nome “Satã depois da queda”. Blizzard consegue o “emprego” e vai se aproximando de Barbara, intercalando conversas sobre arte com palavras doces. O doutor Ferris, agora um médico respeitado, conseguirá salvar a filha do homem que só pensa em vingança?

The other girl in the story is Barbara (Claire Adams, uncredited), a wannabe sculptor who is also Doctor Ferris's daughter. A man paid by Blizzard finds out that she is looking for a model for her sculpture suggestively named “Satan Afther the Fall”. Blizzard gets the “job” and becomes closer to Barbara, talking about art and saying nice things to her. Could Doctor Ferris, now a well-known physician, save his daughter from the man who only thinks about revenge?

A primeira coisa a se destacar é como Lon Chaney se torna um aleijado. Com próteses nos joelhos, apoiado em muletas, ele sobe e desce rampas, degraus e inclusive senta em uma cadeira. Tudo como se realmente tivesse sido amputado. Na verdade, Chaney usava uma complexa técnica de amarrar as duas pernas e encaixar as próteses. Ele só podia ficar dez minutos assim, antes que a dor se tornasse insuportável. A expressão maligna, misto de ódio e sofrimento, em parte veio dessa grande provação. E os resultados foram duradouros, para o bem e para o mal. Para o mal, porque Chaney machucou alguns nervos permanentemente (ainda que haja controvérsias sobre esses danos). E para o bem, porque o resultado foi tão realista que foi necessário acrescentar uma cena em que Lon aparece andando normalmente, para que o público ficasse convencido de que o ator não era aleijado. Hoje esta cena se perdeu, mas creio que o público moderno sabe que Chaney tinha as duas pernas.   

The first thing to notice is how Lon Chaney becomes his crippled character. With prostheses in his knees, leaning on crutches, he goes up and down ramps, stairs and even sits on a chair. Everything done like a real amputee. Actually, Chaney used a complex technique that involved tying his two legs together and fitting them in the protheses. He could only stay ten minutes in this postion before pain became unbearable. His evil expression, a mix of hate and suffering, came partly from this probation. And results were lasting, for good and bad. For bad, because Lon hurt some nerves permanently (although there are controversies about these damages). And for good, because the result was só realistic that they had to add an extra scene with Lon walking normally, to convince the public that he was not really handicapped. Today this scene is lost, but I believe the modern audiences know that Lon Chaney has two legs.

A reação de Blizzard, fazer parte do submundo do crime para se vingar do doutor Ferris e da sociedade em geral, pode até parecer exagerada, mas se olhada a fundo não é. Creio que pessoas que precisam amputar um membro sofrem até voltarem a ter uma vida normal. Mas Blizzard, além de perder as duas pernas, ainda ouve os médicos falando que a dupla amputação não era necessária, em uma cena que já imprime emoção logo no começo do filme. E devemos nos lembrar de que estamos na década de 1920, época em que ainda existia muito preconceito e “circos dos horrores” palpitavam em turnê pelo interior do país. Nada de acessibilidade, fisioterapia ou grupos de apoio a amputados: a única perspectiva de Blizzard era passar a vida trancado em casa.

Blizzard's reaction, becoming part of the underworld to seek revenge against Doctor Ferris and society as a whole, may even seem exaggerated but, looked closely, it is not. I believe that people who have to cut off a body part suffer a lot until they return to “normal life”. But Blizzard, besides losing his two legs, still hears the doctors saying that the double amputation wasn't necessary, in a scene that already adds emotion in the beginning of the film. And we must remember that these are the 1920s, a time when there was still a lot of prejudice and “freak shows” were on tour through the country. No accessibility, physical therapy or support groups for amputees: Blizzard's fate would be spending his life locked at home.

O filme surpreende a cada minuto. Por si só, o fato de haver tantos personagens em uma produção de 1920 é de se espantar, e o roteiro impede a confusão ao deixar cada personagem restrito a um ou dois ambientes. A mente de Blizzard, por sua vez, precisaria de um filme próprio para ser analisada. Uma de suas atividades favoritas é tocar piano, e para isso ele precisa de uma das funcionárias da manufatura para apertar os pedais. Ele é louco por música, e não será o último vilão do cinema com essa característica. E seu plano de dominação é incrível. Para não estragar a surpresa, digo apenas que envolve passagens secretas, um laboratório, bombas e desordem total. A sequência em que Blizzard explica seu plano, aliás, é detalhada e bem longa.

The film surprises us every single minute. The fact alone that there are so many characters

Foi com “The Penalty” que Lon ganhou prestígio no meio cinematográfico e se consolidou como um camaleão das telas. O homem que mais tarde seria o fantasma da ópera (e olhe que em “The Penalty” o personagem faz uma curiosa menção a queimaduras com ácido...) deu frescor a um filme que se mostra produto de sua época, mas que envelheceu bem graças a Lon Chaney.

It was with “The Penalty” that Lon earned prestige in Hollywood and consolidated his image as a chameleon of the screen. The man who later played the phantom of the opera (and take a note that in “The Penalty” his character mentions acid burnings...) gave life to a movie that is a product of its time, but one that aged well thanks to Lon Chaney.


"The Penalty" pode ser assistido no YouTube ou no Internet Archive.

"The Penalty" can be watched on YouTube or Internet Archive.

This is my contribution to the Chaney Blogathon, hosted by Fritzi at Movies,Silently and Jo at The Last Drive-In. A weekend of 1000 faces!


Saturday, November 9, 2013

Hank Worden: o pobre coitado da cadeira de balanço

Alguns atores e atrizes existem apenas para roubar a cena e um lugar em nossos corações. Eles não foram protagonistas ou indicados ao Oscar e seus nomes sequer figuram acima do título. Os filmes de John Ford estão cheios de exemplos deste tipo, pois o diretor contava com uma trupe poderosa de coadjuvantes, que incluía Harry Carey, Harry Carey Jr e a bela do cinema mudo Mae Marsh. Não importava se John Wayne estava atirando, bebendo em um saloon ou brigando com Maureen O’Hara em primeiro plano, esses coadjuvantes estavam lá para garantir comicidade. Hank Worden foi um deles. 
Norton Earl Worden nasceu em 23 de julho de 1901. Embora tenha estudado engenharia, ele se tornou um cowboy, tendo crescido nos ranchos de Montana. Foi montando em touros e cavalos que ele entrou no show business ao lado de Tex Ritter, que logo se tornou um famoso ator e cantor de música country. Hank continuou em Nova York dirigindo um táxi, mas foi junto aos cowboys que ele encontrou sua grande chance: conheceu Billie Burke (a Glinda de “O Mágico de Oz”) em um rancho e ela o ajudou a chegar em Hollywood. Quando a popularidade de Tex Ritter começava a cair no cinema, Hank começava a despontar.

Era 1952 e Howard Hawks dirigiu um filme que só pode ser chamado de western porque há índios. Kirk Douglas e Dewey Martin precisam levar um carregamento de madeira rio acima em “O Rio da Aventura / The Big Sky” e uma das pessoas que eles terão na equipe será o índio Pobre Coitado (Poordevil), sem dúvida a figura mais divertida do filme.
Desde 1939 Hank participava dos filmes de John Ford. Ele esteve em “No Tempo das Diligências / Stagecoach”, sem receber créditos, como extra. Mas seria em “Rastros de Ódio / The Searchers” (1956), considerada a obra-prima de John Ford, que ele brilharia. Mose Harper existe apenas para nos fazer rir. Fosse ele um bobo da corte ou coisa do gênero, o importante é que ele está ali para desviar a atenção do fato de que John Wayne está em uma missão homicida, guiado pelo ódio. E a única ambição de Mose é ter uma cadeira de balanço, algo tão simples em contrapartida à jornada de Wayne, tão complexa, destrutiva e que, quando terminada, não lhe dará conforto.  
Mas Hank era um homem ocupado: devido ao conflito de horários entre dois filmes, algumas cenas em que seu personagem aparece de costas em “Rastros de Ódio” tiveram de ser filmadas com um dublê. Além disso, Mose foi inspirado em uma figura real, Mad Mose, um famoso pistoleiro que era meio louco e adorava cadeiras de balanço!
Mais um filme de John Ford, mais um momento para Hank brilhar, ainda que rapidamente: “Quando um homem é homem / McLintock!” (1963), que eu considero o filme mais divertido do diretor. O nome de personagem de Hank é, ironicamente, Curly (o termo em inglês significa “cacheado”, e Hank é careca. Ele apaarece logo no começo, e também tem destaque no banho de lama que é o ponto alto da loucura do filme.
Embora ele tenha começado no cinema em meados dos anos 30, com o nome Heber Snow, que ele considerava “mais mórmon”, Hank fez trabalhos como extra esporadicamente, mesmo após conseguir certa popularidade e cair nas graças de Ford e Hawks. Só com Ford, foram 12 colaborações, entre filmes e televisão. Entretanto, seu grande amigo no meio cinematográfico era John Wayne, com quem fez 17 filmes e que, segundo Hank, foi a pessoa que lhe ensinara tudo o que ele sabia.
Hank, à esquerda, em "Forte Apache" (1948)
Em seus 216 trabalhos como ator, Hank foi creditado relativamente poucas vezes. Mesmo assim, sua imagem é inconfundível. Prestando bastante atenção, é possível encontrá-lo em “A Legião Branca / So Proudly We Hail” (1944), “Duelo ao Sol / Duel in the Sun” (1946), “Céu Amarelo” (1949), “Vendedor de Ilusões / The Music Man” (1962) e “Bravura Indômita / True Grit” (1969). Além de Mose no mais famoso western de John Ford, Hank se destacou também como o garçom da série Twin Peaks, seu último trabalho. Sempre inconfundível, Hank Worden ganhou popularidade, e é realmente uma alegria vê-lo em ação.


This is my contribution for the What a Character! Blogathon 2o13, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.


Thank ya, thank ya kindly for reading!

Sunday, November 3, 2013

Ted (1925)

Preciso confessar uma coisa: eu vi “Ted”, filme de 2012 sobre um urso de pelúcia pouco convencional. E gostei.
Mas eu gostaria mais ainda se Ted fosse um filme mudo. Como assim? Bem, eu posso sonhar, não é mesmo?

Ted (1925), o elenco

John Bennet (Mark Whalberg): Harold Lloyd
Lori Collins (Mila Kunis): Clara Bow
Tami-Lynn (Jessica Barth): Mabel Normand
Rex (Joel McHale): Lew Cody
Participação especial: Douglas Fairbanks
Ted: um urso de pelúcia, ora essa!

Já que o ano é 1925, durante a Lei Seca americana, o nosso ursinho politicamente incorreto estaria envolvido no comércio ilegal de bebida, o que causaria grandes problemas para seu dono, John. Seria impossível não sentir compaixão pelo sempre adorável Harold Lloyd, pressionado por um lado pela exigente namorada, interpretada pela linda Clara Bow, e por outro sentindo o peso de uma amizade de mais de uma década com seu ursinho.
A única moça do cinema mudo louca o suficiente para namorar um urso de pelúcia é Mabel Normand. Essa seria a volta de Mabel depois de grandes problemas na vida real, incluindo o escândalo sexual de Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, o assassinato de William Desmond Taylor e o caso em que o motorista de Mabel atirou em um magnata que fez um comentário maldoso sobre a atriz. Mostrando o mesmo frescor e jovialidade de seus tempos áureos na década de 1910, Mabel seria a companhia perfeita para noites selvagens com Ted.   
Lew Cody, que já havia trabalhado com Mabel no maior sucesso da moça, “Mickey” (1918), aqui seria o chefe que é apaixonado por Lori (Bow) e não vê como ela pode namorar um homem como John. Charmoso e divertidamente malvado, o personagem Rex é perfeito para fazer um contraste com o amável e simplório John. A experiência de Lew Cody em mais de dez anos no cinema seria também motivo de segurança para Clara Bow, que ainda estava para encontrar seu lugar ao sol na indústria do cinema. E uma nota da vida real adicionaria tempero no filme: se Tami-Lynn (Normand) e Rex não tem nada a ver no filme, fora das telas Mabel Normand e Lew Cody se casaram em 1926.
Além de estar no auge, Harold Lloyd seria perfeito para o papel principal que exigiria algumas cenas arriscadas, em especial quando Ted está encrencado. Ao mesmo tempo, Clara Bow, ainda antes do seu ápice em 1927, brilharia como Lori, pois mesmo aos 20 anos Clara já era um símbolo sexual da mesma maneira que Mila Kunis é hoje.
Mesmo em 1925 já havia várias técnicas de animação e efeitos especiais, e muitas poderiam ser usadas para dar vida ao urso de pelúcia Ted. Obviamente, ele não seria dublado, como o foi em 2012 por Seth MacFarlane, mas a ele caberiam os mais divertidos intertítulos e talvez até alguns problemas com a censura.
Quem viu Ted sabe que John e seu urso cresceram idolatrando Flash Gordon. Como aqui estamos na era do cinema mudo, o ídolo de Harol Lloyd e seu urso de pelúcia será ninguém mais, ninguém menos que Douglas Fairbanks, protagonista de muitas aventuras no início dos anos 1920. Para eles e certamente para milhões de espectadores da época, Doug era o herói e o exemplo a ser seguido. E tanta devoção fará com que Doug apareça para Harold e Ted em um momento crucial...
Com muitos momentos divertidos, charme e aventura, Ted teria tudo para conquistar as platéias de 1925 e os corações de todos os fãs do cinema mudo. Ou será que você ainda preferiria a versão de 2012? ; )
Ted cria problemas para Harold


This is my contribution to The Great Silent Recasting Blogathon, hosted by the amazing blog Carole & Co. 

Thursday, October 31, 2013

The Lodger: A Story of the London Fog (1927)

O cinema britânico não era realmente destaque nos primórdios da sétima arte e só foi ter relevância com Powell e Pressburger e David Lean nos anos 40, uma vez que todos os atores e atrizes que alcançavam sucesso na Inglaterra mais cedo ou mais tarde iam para Hollywood. Com Hitchcock não foi diferente, e mesmo seus primeiros filmes - um vislumbre do que o mestre do suspense ainda faria com nossos nervos- têm muito pouco do cinema inglês, mas diversas influências alemãs e soviéticas. E atenção: aqui Hitchcock já usa um par de algemas para criar tensão, o que aconteceria novamente em “Os 39 Degraus”, de 1935.


British cinema wasn't really outstanding in the silent era and got worldwide attention only with Powell and Pressburger and David Lean in the 1940s. This happened because almost all performers who achieved success in England sooner or later went to Hollywood. With Hitchcock this also happened, and even his first films – the ones that show us a little of how the Master of Suspense would still play with our nerves – have little from English cinema and more influences from German and Russia. And, attention: here in “The Lodger” Hitchcock already uses a pair of handcuffs to create tension, something that would happen again in “The 39 Steps” (1935).
O filme já começa com um assassinato, enquanto as luzes neon de um cabaré piscam, anunciando o show “Golden Curls”. A pobre vítima é apenas mais uma na lista do assassino que deixa um bilhete com um triângulo e o escrito “O Vingador” (“The Avenger”). Ele mata apenas mulheres loiras, e sempre às terças-feiras. Segundo uma testemunha, seu rosto não foi visto porque ele anda com um cachecol tampando a boca e o nariz. E é exatamente assim que chega a uma casa de família um homem (Ivor Novello) que deseja alugar um quarto. Para a situação ficar ainda mais crítica, a jovem Daisy (June), filha dos donos da casa, é loira e tem um homem apaixonado atrás dela: o policial Joe Chandler (Malcolm Keen), que investiga o caso do Vingador.


The film already starts with a murder, while the neon lights of a cabare glow, announcing the show “Golden Curls”. The poor victim is only another one in the list of the murder who leaves in the crime scene a message with a triangle and the signature “The Avenger”. He only kills blonde women, and always on Tuesdays. According to a witness, his face can't be seen because he always wears a scarf around his mouth and neck. And it's exactly like this that a man (Ivor Novello) arrives at a house wanting to rent a room. To make the situation even worse, the young Daisy (June), daughter of the couple who own the house, is blonde and has a man in love with her: policeman Joe Chandler (Malcolm Keen), responsible for the Avenger case.
A primeira a desconfiar do inquilino é a dona da casa, a senhora Bunting (Marie Ault). O apogeu da excelente interpretação de Marie, com expressões faciais impagáveis, é a cena em que ela está sozinha em casa de noite e vê o hóspede sair. É terça-feira e ele leva uma maleta muito suspeita. Ela aproveita para vasculhar o quarto dele e a tensão cresce conforme vemos que ele está voltando para casa. Ela vai encontrar a senhora Bunting em seu quarto? Vai matá-la? Ou ela vai descobrir algo incriminador?


The first one to be afraid of the new lodger is the housewife, Mrs Bunting (Marie Ault). The highest poin in Marie's performance, in which she makes wonderful facial expressions, is the scene in which she is home alone at night and sees the lodger leaving. It's Tuesday and he carries a very suspicious suitcase. She decides to look for something incriminating in his bedroom and tension goes up as we see he's coming back. Will he find Mrs Bunting in his bedroom? Will he kill her? Will she find something?
Outro ponto alto da interpretação de Marie Ault é quando Daisy ganha um vestido do inquilino e a mãe, já desconfiada, estampa uma expressão de medo e preocupação no rosto.

Another point worth mentioning in Marie Ault's performance is the scene in which the lodger gives Daisy a new dress and her mother, already distrustful, shows all her fear and worries in her facial expression.

São dois os grandes impedimentos para a solução do crime: a imprensa, sensacionalista desde a primeira cena, e o povo, curioso e desordenado. Ao mesmo tempo surpresos e enojados pelo banho de sangue que o Vingador inicia, o povo se deixa levar por suas paixões e pela curiosidade mórbida, amontoando-se em cenas do crime e inclusive iniciando uma tentativa de linchamento descontrolada e feroz.


There are two things preventing the crime from being solved: the press, that shows sensacionalism since the first scene, and the people, curious and chaotic. At the same time surprised and disgusted by the blood bath that the Avenger begins, the people is taken by passion and morbid curiosity and gather around the crime scene – and even start a chaotic and wild lynching attempt.
Este é um filme de muitas “primeiras vezes” para Hitchcock. Ele próprio afirmou que considera este seu primeiro filme real de suspense. É a primeira vez que ele tem uma protagonista loira: as mocinhas de “The Pleasure Garden” (Virginia Valli e Carmelita Geraghty), “The Mountain Eagle” (Nita Naldi) e “The White Shadow” (Betty Compson) eram todas morenas. E é também o filme em que ele faz sua primeira ponta, participação, tratada no meio cinematográfico com o nome “cameo”. E aqui Hitch não tem um, mais dois cameos, aparecendo ao todo em quatro momentos! O original, que foi o começo de todos os outros, acontece bem no início do filme. Hitchcock está sentando em uma mesa de escritório, com as costas para a câmera, e toma conta da tela. Reza a lenda que o extra que deveria fazer aquela cena não apareceu, e para não ter de adiar a filmagem, Hitch o substituiu. O segundo cameo, no qual Hitchcock aparece em três breves cenas entrecortadas, é no final do filme, no clímax em meio à multidão. Hitch usa uma boina ou algo similar na cabeça.  


This film has many “first times” for Hitchcock. The director himself said that he considered “The Lodger” his first real thriller. It's the first time he has a blonde lading lady: the leads in “The Pleasure Garden” (Virginia Valli and Carmelita Geraghty), “The Mountain Eagle” (Nita Naldi) and “The White Shadow” (Betty Compson) were all brunettes.It's also the film in which he has his first cameo. Here, Hitchcock doesn't have one, but two cameos, appearing in total in four moments! The original, the cameo that started the thread, happens in the begigging of the film. Hitchcock is seating in a desk, with his back to the camera, and he is all that appears on the screen. According to the legend, the extra who would make that scene didn't show up, and in order to not delay the shooting, Hitchcock himself replaced him. The second cameo, in which Hitchcock appears in three brief edited scenes, is in the end of the film, in the climax with the crowd. Hitchcock can be recognized by the beret he wears in his head.
Os títulos muito bem desenhados e a montagem ficaram por conta de Ivor Montagu, inglês fundador da Sociedade Cinematográfica de Londres (London Film Society) e grande amigo de Eisenstein. Após o estúdio criticar o filme, Hitch levou a cópia até Ivor, que fez as modificações necessárias para criar a primeira obra-prima hitchcockiana. Foi com Ivor Montagu que Hitchcock aprendeu a importância da edição, técnica que ele usaria com maestria em seus filmes posteriores, e a parceria entre os dois continuou durante a década de 1930, com Montagu co-produzindo muitos dos filmes de Hitchcock.


The very beautiful titles and the editing were the job of Ivor Montagu, an Englishman who founded the Lodon Film Society and was good friends with Eisenstein. After the studio criticized the film, Hitch took the copy to Montagu, who made the necessary changes to make the first hitchcockian masterpiece. Hitchcock learned with Ivor Montagu the importance of editing, a technique he would use with wisdom in his other movies. The partnership between the two went on during the 1930s, and Montagu co-produced several of Hitchcock's films.
Ivor Novello era o equivalente a Rodolfo Valentino na Inglaterra. Entretanto, além de atuar, Ivor era também dramaturgo e compositor! Depois de alcançar a fama com músicas de ânimo compostas durante a Primeira Guerra, Ivor teve em “The Lodger” seu momento de maior brilho no cinema, tanto é que estrelou o remake do filme em 1932. Também em 1932 ele deu uma valiosa contribuição à selva de Hollywood escrevendo alguns diálogos para o primeiro filme de Tarzan na era sonora. Ele trabalhou novamente com Hitchcock em “Downhill”, de 1927, filme inspirado em uma peça escrita pelo próprio Ivor. Um personagem baseado no ator aparece em “Assassinato em Gosford Park / Gosford Park” (2001) e muitas músicas compostas por ele fazem parte da trilha sonora.


Ivor Novello was like the Rudolph Valentino of England. Besides acting, he was also a playwriter and songwriter! After he had success with cheer-infused songs written duting World War I, Ivor had in “The Lodger” his brightest moment on film, and he even starred in the 1932 remake. In 1932 he also contributed to the Hollywood jungle by writingsome dialogs for the first Tarzan sound film. He worked again with Hitchcock in “Downhill” (1927), a film based on a play written by Ivor himself. A character based on him appears in “Gosford Park” (2001), and several of his songs are part of the film's soundtrack.
The Lodger” pode ser encontrado no Brasil com os títulos “O Hóspede”, “O Inquilino” e “O Pensionista”. O filme foi baseado no livro da autora Marie Belloc Lowndes. O livro tem um final dúbio, e Hitchcock queria também deixar no ar a pergunta: seria o hóspede realmente o Vingador? Entretanto, os estúdios o pressionaram para que fosse dado um desfecho definitivo para a história. O filme, depois de tantas modificações, foi um sucesso na Inglaterra, mas foi atacado sumariamente pelos críticos americanos, onde o hóspede ganhou o nome de Jonathan Drew. Além da segunda versão com Novello, a história foi adaptada para o cinema novamente em 1944 (com Laird Cregar), 1953 (com Jack Palance) e 2009 (com Alfred Molina). Muitas foram também as versões da história para o rádio, que podem ser escutadas na Wikipedia.


“The Lodger” can be found under many different titles in Brazil. The film was based on a book by Marie Bellocs Lowndes. The book has a dubious ending, and Hitchcock also wanted to leave unanswered the question: was the lodger really the Avenger? However, the studios made a pressure for him to give a definitive ending to the story. The film, after so many changes, was a success in England, but was severely attacked by American critics – in the US the lodger was named Jonathan Drew. Besides the second version with Novello, the story was remade in 1944 (with Laird Cregar), 1953 (with Jack Palance) and 2009 (with Alfred Molina). There were many radio versions to the story, and they can be heard at Wikipedia
Várias versões na internet, incluindo no Internet Archive, possuem 70 minutos de projeção. No entanto, a cópia restaurada da British Film Institute tem 90 minutos e imagens de excelente qualidade. Esta versão de 90 minutos pode ser encontrada AQUI.


Several versions on the internet, including the one at Internet Archive, are 70 minutos long. However, the restored copy by the British Film Institute is 90 minutes long and a sharp image. This longer version can be found HERE.


This is my contribution to the Hitchcock Halloween, hosted by the great Lara at Backlots. Trick or treat!

Thursday, October 24, 2013

A Mosca da Cabeça Branca (1958) / The Fly (1958)

Antes de se tornar o rei dos filmes de terror na década de 1950, tendo como rival apenas Christopher Lee em sua parceria com Peter Cushing, Vincent Price foi coadjuvante em produções como “O Fio da Navalha” (1946) e “Os Três Mosqueteiros” (1948). Ninguém nessa época pensaria que aquele homem de voz imponente se tornaria um ícone do horror.

Before he became the king of terror in the 1950s, having as a rival only Christopher Lee in his partnership with Peter Cushing, Vincent Price was a supporting player in movies like “The Razor's Edge” (1946) and “The Three Musketeers” (1948). Nobody at that time would imagine that this man with an imponent voice would become a horror icon.


A Mosca da Cabeça Branca” pode parecer, à primeira vista, apenas mais um filme de terror para impressionar multidões no Halloween, mas em poucos minutos ele se torna uma caixinha de surpresas. Primeiro, Vincent Price não é nenhuma criatura sobrenatural ou sequer o vilão da história: ele é um dos envolvidos, embora não diretamente, no drama que se desenrola quando sua cunhada Helene (Patricia Owens) é acusada de matar o marido Andre (David Hedison, aqui creditado como Al Hedison). A cabeça de Andre foi esmagada em uma das máquinas da fundição da família Delambre, e Helene tem um álibi simplesmente inacreditável: ela diz que o marido pediu que ela o matasse.

“The Fly” may look, at first, like any other horror film made to impress the crowds on Halloween, but in a few minutes it becomes a box full of surprises. First, because Vincent Price is no supernatural creature, not evn the villain: he is one of the people involved, although not directly, in the drama that begins when his sister-in-law Helene (Patricia Owens) is accused of killing her husband Andre (David Hedison, here credited as Al Hedison). Andre's head was smashed in one of the family's fundition machines, and Helene has an alibi that is hard to believe: she says her husband asked her to kill him.


Muitos problemas surgem, incluindo debates sobre o futuro do filho do casal, Philippe (Charles Herbert) e a sanidade mental de Helene, até que ela conta a François (Vincent Price) que uma das experiências do marido tivera consequências catastróficas. Andre inventou uma máquina de teletransporte e, depois de muitos testes, incluindo um no qual o pobre gato Dandelo ficou perdido para sempre no limbo, Andre decidiu que ele seria o próximo a ser teletransportado. Isso significaria um avanço imenso na ciência se uma mosca intrometida não entrasse na máquina junto com Andre: as matérias dos corpos de homem e mosca, depois de suspensas por alguns segundos, se reuniram e se misturaram. Andre ficou com cabeça e braço de mosca.

A lot of problems arise, including debates about the future of the couple's son, Philippe (Charles Herbert) and Helene1s mental sanity, until the moment she tells François (Vincent Price) that one of her husband's inventions had catastrophic consequences. Andre invented a teletransportation machine and, after a lot of tests, including one in which the poor cat Dandelo was forever lost to limbo, Andre decided that he would be next to be teletransported. This would mean a huge scientific discovery if a nosy fly hadn't entered the machine with Andre: the atoms of their bodies, after being suspended for a few seconds, got mixed up. Andre ended up with the head and the arm of a fly.


Não há nada de terrivelmente assustador no filme, mas há suspense a todo momento. É impossível não ter compaixão por Helene, que todos consideram louca. Vários momentos são dignos de prender o fôlego, em especial quando Philippe caça uma mosca no quintal e depois conta que ela tinha uma cabeça branca. Começa assim a busca pela outra metade de Andre Delambre, que poderá ser perdida para sempre ou encontrada e exibida como uma aberração. A fotografia a cores mostra bem o contraste entre o laboratório escuro e sombrio, em especial depois do insucesso da experiência, com o resto da casa, clara e arejada. A beleza de Patricia Owens faz contraponto à destruição causada pelo terrível segredo que ela guarda e mesmo Hedison, um ator bonito, dispensou o dublê e se submeteu à pesada maquiagem e fantasia de mosca. Detalhe: o espanto de Helene, a esposa, é real, porque a atriz tinha medo de insetos e não lhe foi permitido ver a fantasia que Hedison usaria antes de rodar a cena.

There is nothing terribly scary in the film, but there is suspense all the time. We feel sorry for Helene, considered crazy by everybody. Several moments are breathtaking, in particular one: when Philippe hunts a fly in the backyard, and later syas it had a white head. This is the beginning of the search for Andre Delambre's other half, that can be lost forever or found and exhibited as a freak. The color photography is great to show the contrat between the dar and somber laboratory, in special after the experience fails, and the rest of the house, clear and full of life. Patricia Owens's beauty contrasts with the destruction caused by the terrible secret she keeps and even Hedison, a handsome actor, dispensed the work of a double and used himself the heavy make-up and fly costum. A detail: Helene's reaction is real, because Patricia Owens was afraid of insects and she wasn't allowed to see the custom Hedison would wear beforehand.


Quando chegou a hora de ver o contraponto do doutor, ou seja, a mosca com cabeça humana, uma miniatura animada foi usada. Isso acontece no clímax do filme e, apesar da seriedade que o momento exigia, Vincent Price e Herbert Marshall, que interpreta o inspetor Charas, sempre gargalhavam ao olhar para a miniatura. Ao pedir socorro, a pequena mosca gerou uma das mais poderosas frases do cinema de terror, mas ao mesmo tempo desagradou David Hedison. O protagonista ficou furioso ao perceber que sua voz havia sido modificada digitalmente para a cena. Mesmo com tantos detalhes curiosos, a cena é excelente. 

When time came for us all to see the doctor's counterpart, that is, the fly with the human head, an animated miniature was used. This happens in the climax of the film and, even though the moment was serious, Vincent Price and Herbert Marshall, who plays inspecto Charas, always laughed when they looked at the miniature. When it asks for help, the little fly generated one of the most powerful quotes of horror cinema, but it also made David Hedison bitter. The leading man got mad when he realized his voice had been digitally modified for the scene. Even with so many curious details, the scene is excellent.


O filme foi baseado em um conto publicado na revista Playboy em 1957, escrito por George Langelaan e adaptado para as telas pelo iniciante James Clavell, que mais tarde seria o roteirista e diretor de “Ao Mestre, Com Carinho / To Sir, With Love” (1968). O sucesso do filme de terror foi imediato, entretanto o diretor Kurt Neumann não viu a estreia de sua melhor criação, pois faleceu semanas antes. Duas sequências se seguiram: “O Monstro de Mil Olhos / Return of the Fly” (1959), novamente com Vincent Price, filmado em preto e branco e focando na jornada também destrutiva de Philippe Delambre, herdeiro da máquina e das ideias de teletransporte; e “A Maldição da Mosca / Curse of the Fly” (1965), com personagens diferentes do original. Um remake foi feito em 1986, com Geena Davis, Jeff Goldblum e um roteiro modificado. 

The film was based on a short story published at Playboy magazine in 1957, written by George Langelaan and adapted for the screen by newcomer James Clavell, who later would be the screenwriter and director of “To Sir, With Love” (1968). The success of the horror movie was imediate, but director Kurt Neumann didn't see the opening of his finest creation, because he passed away a few weeks before the film opened. Two sequels followed: “Return of the Fly” (1959), again with Vincent Price, shot in black and white and focusing on Philippe Delambre, the heir and enthusiast of the teletransportation machine; and “Curse of the Fly” (1965), with different characters. A remake was amde in 1986, with Geena Davis, Jeff Goldblum and a different story.


Modesto no orçamento, com um laboratório construído de entulho das Forças Armadas, “A Mosca da Cabeça Branca” foi um estrondoso sucesso de público e crítica, se tornou clássico Cult e um marco na carreira do sempre assustador Vincent Price.

With a modest budget and a lab built with trash from the Armed Forces, “The Fly” was a huge success with both moviegoers and film critics, became a cult classic and was a milestone in the career of the always scary Vincent Price.

Um sapo em um filme sobre moscas? NÃO!!!!
A frog in a film about flies? Oh, no!

This is my contribution for the Vincent Price Blogathon, hosted by the Nitrate Diva and honoring a master of horror.


Saturday, October 12, 2013

Dublar ou não dublar: eis a questão

Todos que se aventuram a ver um filme feito em idioma estrangeiro estão frente a um desafio. Para nós brasileiros, esta prática é mais que normal, pois o cinema do exterior domina o cenário cultural. Surge logo uma dúvida capaz de gerar calorosos debates entre cinéfilos, críticos e pseudointelectuais da arte cinematográfica: o filme deve ser exibido legendado ou dublado? A dublagem acaba com as características que fazem de cada filme único? A dublagem piora o filme? Deve ser evitada como se fosse o capeta?
Querendo ou não, temos que admitir que conhecemos o cinema dublado. Os primeiros filmes, as animações da infância, vimos todos dublados. Conhecemos as vozes de Salsicha e Scooby Doo, Pernalonga e Patolino, Ben 10 ou qualquer outro personagem em português, e certamente estranharemos se tomarmos contato com a dublagem original. Estamos acostumados com o esperto gato Manda-Chuva sendo dublado por Lima Duarte!
Lima não dublou o filme, mas a foto ficou boa
Para quem conhece o idioma original a fundo, mesmo a legenda deixa a desejar. De fato, alguns jogos de palavras, como os muitos que davam graça aos filmes dos irmãos Marx, são intraduzíveis. “Who’s On First?”, talvez o esquete mais famoso de Abbott e Costello, deixa de ser engraçado fora do inglês. Quem vê um filme em inglês com legendas apreende muito do que também não foi propriamente traduzido. Mas com idiomas desconhecidos a história é outra: se eu for ver um filme em mandarim, terei de aceitar passivamente o que a legenda ou a dublagem contam, mesmo que elas estejam erradas, pois não entendo nada da língua.
Um grande problema para os fãs de filmes clássicos é que as dublagens não são recentes. Foi esse o motivo que me impedia de ver “I Love Lucy” nas férias de 2009: eu simplesmente não conseguia entender as falas dubladas dos personagens com o chiado que vinha junto com a trilha sonora. Alguns musicais, como “Gigi”, ficam com o som baixo durante os diálogos e no momento das canções ele aumenta assustadoramente. Outro problema é que nem sempre o tradutor ou o dublador têm conhecimento suficiente sobre cinema para perceber quando um detalhe é fundamental, por exemplo, um personagem que fica com a voz mais aguda em um momento crítico ou um efeito sonoro que não pode desaparecer.
Hoje está na moda chamar artistas para dublar filmes de animação, tanto no Brasil quanto no exterior. Nem todos têm o treinamento formal que a profissão exige, o que é alcançado através de cursos específicos de dublagem, geralmente oferecidos por oficinas e escolas de atuação. Embora nem sempre a escolha do ator “combine” com o personagem animado, devo confessar que muitos trocadilhos e gírias estão sendo bem traduzidas nos últimos tempos.
E, quando se fala da tradução que marcou nossa infância, é impossível esquecer Herbert Richers. A morte dele, em 2009, gerou grande comoção e foi o início do fim de seu grande estúdio. Amigo de Walt Disney e produtor de filmes nos estúdios Atlântida, ele foi um pioneiro com seu estúdio, que fechou as portas em 2010. Outro estúdio importante da dublagem brasileira foi o Álamo, fundado pelo inglês Michael Stoll, um dos vários estrangeiros contratados pelo estúdio Vera Cruz no início dos anos 50. Depois de trabalhar na distribuição de filmes, ele criou o Álamo em 1972. Ambos os estúdios foram responsáveis pelas dublagens de centenas de filmes, séries e desenhos que fizeram parte de nossa infância e adolescência.
O grande Orlando Drummond
Outra questão, não dos filmes infantis, é a tradução de “fuck”, às vezes tão presente em alguns diálogos (Tarantino, estou pensando em você). Nem sempre aparecem nas legendas, tampouco nas dublagens, um equivalente em nossa língua. Em um ou outro caso, como “Antes que o diabo saiba que você está morto”, último filme de Sidney Lumet, realizado em 2007, tive inclusive que ver sem som, pois não aguentei o excesso da palavrinha nos diálogos. Na legenda ela não aparecia com tanta frequência.

Chega, afinal, a hora de dar minha opinião: prefiro ver filmes legendados. Com isso posso reconhecer expressões que aprendi em inglês ou espanhol ou simplesmente apreciar a cadência do francês ou do italiano e a força do alemão e do russo. Entretanto, não havendo outra possibilidade, não descarto ver um filme dublado. O que não vale é rejeitar um filme dublado. Isso é rejeitar cultura. 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...