} Crítica Retrô: Levada da Breca

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Wednesday, January 16, 2019

Quando Elas Teimam (1938) / The Mad Miss Manton (1938)


Todo gênero cinematográfico tem algumas pérolas bem conhecidas e algumas joias escondidas. E todo gênero tem também muitos filmes irregulares, pedras brutas que só precisariam de um pouco mais de polimento para se tornarem joias. “Quando elas Teimam” entra na segunda categoria. Assim como “Levada da Breca”, também de 1938, trata-se de uma comédia amalucada cuja protagonista é uma herdeira doidinha. E o filme tem também um enredo de mistério, assim como “A Ceia dos Acusados” (1934). Uma mistura curiosa, não?

Every genre has a few well-known gems and a few hidden gems. And every genre also has a lot of irregular films that needed just a little more polishing to become gems. “The Mad Miss Manton” falls in the second category. Just like “Bringing Up Baby”, also from 1938, it is a screwball comedy whose main character is a zany heiress. And it has a mystery plot, just like “The Thin Man” (1934). An odd mix, isn’t it?


Depois de uma festa à fantasia, a herdeira Melsa Manton (Barbara Stanwyck) decide levar seus cachorros para passear mesmo sendo tarde da noite. Ela está em um beco quando vê um homem saindo de uma casa que está para alugar. Ela entra na casa e encontra um homem morto lá dentro, e junto com ele uma joia. Ela chama a polícia, mas como ela é conhecida por pregar peças, ninguém acredita nela – até porque a polícia não encontra nenhum corpo na casa.

After a costume party, heiress Melsa Manton (Barbara Stanwyck) decides to walk her dogs late at night. She is in an alley when she sees a man running out of a house that is up for rent. She enters the house and finds a dead man inside, together with a beautiful jewel. She calls the police, but since she is a well-known prankster, nobody believes her – even more when the police find no dead man.


No dia seguinte ela vira assunto de um artigo de jornal escrito por Peter Ames (Henry Fonda), que a ridiculariza e critica seu grupo de herdeiras que gostam de pregar peças para chamar a atenção para a caridade. Ela fica muito brava com ele e decide investigar o caso com a ajuda de suas amigas ricas. Quando elas encontram um segundo corpo, Peter e a polícia se envolvem também na investigação, mas as garotas querem solucionar o mistério sem a ajuda deles.
  
The following day she is the subject of a newspaper article written by Peter Ames (Henry Fonda), ridiculing her and her group of heiresses / pranksters who like to call the attention for charity. She gets mad at him and decides to investigate the case alongside her rich girl friends. As they find a second body, Peter and the police also enter the investigation, but the girls want to solve the mystery without their help.


É interessante notar que, em “Quando Elas Teimam”, o homem é quem se apaixona primeiro. Depois de dois encontros peculiares, Peter diz que está começando a gostar de Melsa, e logo ele afirma que vai se casar com ela. Ele então se torna um jornalista correndo atrás de uma garota, e não de um furo de reportagem, enquanto a garota passa a maior parte do tempo relutante em relação às investidas dele.

It’s interesting to notice that, in “The Mad Miss Manton”, the man is the first one to fall in love. After a couple of crazy meetings, Peter says he’s starting to like Melsa, and soon he says he’ll marry her. He then becomes a journalist running after a girl, not a scoop, while the girl spends most of the time reluctant to let him woo her.


Melsa e as outras garotas são as principais investigadoras, deixando a polícia para trás em questão de esperteza e rapidez. As garotas são inteligentes, engraçadas, às vezes covardes e sempre vestidas com os melhores vestidos de noite. É como se Nora Charles tivesse chamado suas amigas da alta sociedade para resolver crimes em vez de deixar Nick fazer isso.

Melsa and the other girls are the lead investigators, leaving the police behind in both wisdom and quickness. The girls are clever, funny, sometimes coward and always dressed with the best evening gowns. It is as if Nora Charles had called her high society friends to solve crimes instead of letting Nick do it.


Interpretando Hilda, a empregada, está Hattie McDaniel – creditada como “McDaniels”. Hilda trabalha para Melsa e não suporta mais o comportamento excêntrico da patroa. Sim, Hilda é o estereótipo da empregada sem cultura, mas uma empregada furiosa que normalmente reclama de seu trabalho e das ordens que recebe – como a ordem de jogar água na cara de Henry Fonda se ele aparecer na porta do apartamento de Melsa.

We have, as Hilda the maid, Hattie McDaniel – billed as “McDaniels”. Hilda works for Melsa and can’t take her antics anymore. Yes, Hilda is the uncultured mammy stereotype, but an angry mammy that is often complaining about her job and the orders she receives – like to throw water at Henry Fonda’s face if he appears in Melsa’s door.


Aliás, podemos falar em como Henry Fonda era fofo no final dos anos 30 e começo dos anos 40? Em “Quando Elas Teimam” ele não alcança o mesmo nível de fofura de “As Três Noites de Eva” (1941), porque seu Peter não é um personagem fofo e desprotegido, mesmo tendo, em determinado momento, sido feito de refém pelas garotas.

By the way, can we talk how cute Henry Fonda was in the later 1930s and early 1940s? In “The Mad Miss Manton” he doesn’t achieve the same level of cuteness as in “The Lady Eve” (1941), because his Peter Ames is not a cute clueless character, even if he is, in a particular moment, a gentleman in distress as the girls keep him hostage.


Mesmo assim, com todos estes ótimos ingredientes, há algo faltando – ou talvez algo sobrando – em “Quando Elas Teimam”. O timing cômico é problemático, e eu pude perceber que estava perdendo algumas piadas que eram contadas enquanto eu ainda estava rindo da última piada. A mistura de comédia e mistério, entretanto, é boa, e o diretor de fotografia Nicholas Musuraca já mostra seu talento para trabalhar com contraste, talento que seria explorado mais tarde no filme noir. Só é uma pena que o diretor Leigh Jason não tenha um toque de Midas como o de Prestonb Sturges!

Yet, with all those great ingredients, there is something missing – or rather something in excess – in “The Mad Miss Manton”. The comedic timing is problematic, and I could tell I was missing some jokes that were being told while I was till laughing from the last joke. The mix of comedy and mystery is good, though, and cinematographer Nicholas Musuraca already shows the talents for contrast he would later explore in film noir. It’s just a pity that director Leigh Jason didn’t have the same Midas touch and Preston Sturges!


“Quando Elas Teimam” é uma produção da RKO. O filme deveria ser estrelado por Katharine Hepburn, mas ela o recusou, pois havia acabado de fazer “Levada da Breca” – um filme que foi, na época, um fracasso de bilheteria. Stanwyck herdou o papel, e Fonda foi pego emprestado do pequeno estúdio Walter Wanger Productions. Fonda detestou fazer o filme, e mais tarde disse “Eu estava tão bravo com esse filme – eu estava ressentido”.

“The Mad Miss Manton” is an RKO production. It was supposed to star Katharine Hepburn, but she refused, having just finished “Bringing Up Baby” – a film that was, then, a box-office failure. Stanwyck inherited the role, and Fonda was borrowed from the small Walter Wanger Productions studio. Fonda just hated doing the film, and later said “I was so mad on this picture – I resented it”.


Fofo e interessante, mas não perfeito, “Quando Elas Teimam” bebe da fonte de “A Ceia dos Acusados” e “Levada da Breca” e acaba sendo inferior a ambos. Barbara Stanwyck é a estrela e faz a personagem mais interessante e, ao lado de suas amigas, herdeiras da Park Avenue, pregadoras de peças / detetives, ele é vivaz e esperta. E quem não gostaria de ver garotas da alta sociedade solucionando crimes?

Cute and interesting, but not perfect, “The Mad Miss Manton” drinks from both “The Thin Man” and “Bringing Up Baby” and ends up being inferior to both. Barbara Stanwyck is the clear star and most interesting character, and, alongside her Park Avenue Pranksters / detectives, she is vivacious and smart. And who wouldn’t want to see eight society girls solving crimes?

 This is my contribution to the Second Remembering Barbara Stanwyck Blogathon, hosted by Crystal and Maddy at In the Good Old Days of Classic Hollywood and Maddy Loves Her Classic Films.

Friday, February 7, 2014

10 motivos para gostar de cinema clássico

1- A beleza era... diferente: Não era necessariamente natural. Garbo e Rita Hayworth, por exemplo, tiveram de se submeter a várias transformações para se tornarem as divas que conhecemos. Eram cirurgias plásticas primitivas, muitas vezes dolorosas, mas que moldaram os rostos e as carreiras de muitas estrelas. E se há uma coisa que não podemos negar, é que a Golden Age está cheia de belas mulheres (e homens!).
2- A importância dos detalhes: Cada pessoa gosta de prestar atenção em uma coisa enquanto vê um filme. Eu noto o fluir da história, e outros notam os detalhes: os figurinos, os cenários, os penteados. Homens e mulheres se vestiam melhor naquela época, e a moda de décadas atrás ainda pode ser encontrada desfilando nas ruas. E o que falar dos cenários nos épicos e musicais? Cada detalhe era pensado milimetricamente no cinema clássico.
3- Uma nova percepção da história: Quem gosta de filmes antigos normalmente gosta de história. Ou seja, não é uma daquelas pessoas que pensa que a avó vivia nos tempos dos dinossauros. Aos olhos da história, filmes feitos 80 anos atrás são bastante recentes. E com eles você aprende que o mundo não era tão primitivo no início do século passado. É só observar o grau de técnica das filmagens e efeitos especiais em filmes de 1920 ou 1930.
4- Você fica mais esperto: Bons diretores e roteiristas vivem fazendo referências aos clássicos. Conhecê-los faz você entender a piada em Os Simpsons e Modern Family. Mostra que Brian De Palma retirou a sequência do tiroteio na escadaria em “Os Intocáveis / The Untouchables” (1987) de um filme soviético de 1925. E não te deixa pensar que “Shrek Para Sempre” foi super criativo ao mostrar como seria o mundo sem Shrek: a ideia é do clássico mais amado, “A Felicidade não se Compra / It’s a Wonderful Life” (1946).
5- As músicas, ah, as músicas!: Esqueça os refrões idiotas de hoje: músicas com conteúdo podem ser encontradas nos musicais de antigamente. As valsas, operetas, melodias de jazz e fox trot eram cantadas por artistas de verdade, às vezes sem treinamento formal algum, mas com vozes extraordinárias. Ainda há gente boa cantando hoje? Sim, mas as canções do Great American Songbook estão lá no passado, prontas para dialogar com nossas almas.
6- Nada se cria, tudo se copia: Não há novos gêneros no cinema. Tudo o que nós vemos hoje foi criado há mais de 80 anos. Dramas, comédias, musicais, sci-fi, terror, biografia. A gênese de todos os tipos de filmes, de clichês e de técnicas pode ser encontrada na Golden Age. Com a onda dos remakes, então, a originalidade caiu a quase zero. Sabe “A Guerra dos Mundos”, com Tom Cruise? É remake de um filme de 1953, que, por sinal, é bem melhor.
7- Sutileza é tudo: Devo dizer que a sociedade de 50 anos atrás era um pouco retrógrada (assim como, espero, nossa sociedade atual será considerada ultrapassada daqui a 50 anos), e a censura dominou Hollywood de 1934 a 1965, aproximadamente. Com certeza alguns bons filmes deixaram de ser feitos, mas vários assuntos conseguiram ser abordados graças à perspicácia e insistência de roteiristas e diretores, que mascaravam os diálogos e as cenas, passando, assim, com folga pelos idiotas censores.
8- Like fine wine...: Some films just get better with time. É difícil para uma crítica de cinema falar isso, mas os críticos muitas vezes são bestas sem visão. Um espectador de 1938 poderia ler uma crítica negativa de “Levada da Breca / Bringin’ Up Baby” e não iria ver o filme. Assim, perderia uma comédia deliciosa. Algumas produções são à frente de seu tempo, e são necessárias décadas para que alguém aponte a genialidade delas. Vê-las é olhar para o passado sabendo mais que todos que viram o filme na estreia, podendo, assim, apreciá-las melhor. 
9- Ars gratia artis: O lema da MGM, em latim, significa “a arte saúda os artistas”. Nada mais correto que isso, porque os filmes não seriam nada sem atores inigualáveis (que deveriam servir de exemplo para qualquer aspirante), diretores, roteiristas, figurinistas, compositores... Todas essas funções eram diferentes décadas atrás. Havia gente ruim na indústria? Com certeza! Mas, para que tantas obras-primas tenham sido realizadas, tenha a certeza de que equipes talentosíssimas estavam trabalhando nos bastidores.

10- Você estará na companhia de pessoas incríveis: Como eu. Brincadeirinha! Mas é grande a chance de conhecer gente bacana nessa fandom. Na escola, eu nunca conseguia falar sobre os meus filmes favoritos com a galera fútil. Quando eu descobri, na internet, que há pessoas com as mesmas preferências, foi um momento lindo. Porque não são pessoas que se preocupam com futilidades, com popularidade, com pegação. Tirando um ou outro chato saudosista ou um pseudo-cinéfilo, o resto da comunidade é só alegria. Prepare-se para fazer novos melhores amigos!

Thursday, June 2, 2011

Um privilegiado de quatro patas

Muitos fãs sonham em chegar perto de seus ídolos. Muitos sonham em se tornar também ídolos para outros fãs (não no estilo Eve Harrington em “A Malvada”, 1950, espero). Nem todos conseguem. Por outro lado, enquanto os humanos se decepcionam com o sonho de fama e fortuna, muitos animais chegam ao topo do Olimpo cinematográfico, protagonizando diversos filmes de sucesso e contracenando com as maiores estrelas de sua época.

Many fans dream about getting near their idols. Many fans dream about also becoming idols to other fans (not in Eve Harrington style, I hope). Not all of them succeed. On the other hand, while humans get disappointed with the shattered dreams of fame and fortune, many animals reach the top of the cinematographic Olympus. They are leads in many successful films and share the screen with some of the biggest stars of their time.
Skippy foi um deles. Se os anos 20 tiveram Rin-Tin-tin e os 40 contaram com Lassie, os anos 30 viram esse cãozinho se tornar superestrela. Talvez eu esteja exagerando, mas quando Skippy aparecia, ele roubava a cena.

Skippy was one of those lucky animal stars. If the 1920s had Rin-Tin-Tin and the 1940s had Lassie, the 1930s saw this little dog becoming a superstar. Mybe I’m exaggerating, but when Skippy showed up, he was a scene-stealer.
Não se sabe ao certo se Skippy nasceu em 1931 ou 1932. O fox terrier de pelo crespo esteve presente em famosas produções como os dois primeiros filmes da série The Thin Man (A Ceia dos Acusados e A Comédia dos Acusados), Cupido é moleque teimoso (1937) e Levada da Breca (1938).  Ele se aposentou em 1939, não sem antes lançar tendência: assim como a collie Lassie na década seguinte, na década de 1930 espalhou-se uma febre de fox terrier: todos queriam ter um cãozinho como Skippy.

We can’t know exactly when Skippy was Born – either 1931 or 1932 have appeared as birth dates. The Wire Fox Terrier was in famous films like the first two of The Thin Man series (The Thin Man and After the Thin Man), “The Awful Truth” (1937) and “Bringing Up Baby” (1938). He retired in 1939, but had already become fashionable: just like the Border Collie Lassie did in the following decade, in the 1930s Skippy originated a Fox Terrier fever. Everybody wanted to have a dog like Skippy.
Muitas vezes Skippy chegou a ser creditado com o resto do elenco, como em “A Ceia dos Acusados”, feito na época em que na abertura imagens das estrelas eram mostradas acompanhadas de seus respectivos nomes.  E não é para menos: em uma série de momentos ele rouba a cena e sua fofura desvia todos os olhares para ele.

In many occasions Skippy was credited alongside the rest of the cast, like in “After the Thin Man” (1936), made in a time when the opening credits had photos of the stars and their names. And Skippy deserves the star treatment: in many moments he steals the scene with his cuteness.
Em “Cupido é Moleque Teimoso”, por exemplo, atendendo pelo nome do Mr Smith, é motivo de uma briga judicial do casal recém-divorciado e sem filhos.

In “The Awful Truth”, for instance, he is called Mr Smith and is in the center of a legal battle of a just-divorced childless couple.


Em “Levada da Breca”, o cão George esconde o osso de dinossauro procurado por Cary Grant.

In “Bringing Up Baby”, the dog George hides the dinosaur bone that is pursued by Cary Grant.

Mesmo tendo mordido Myrna Loy, ele é digno de menção como um animal privilegiado. Não apenas porque ganhava de 200 a 250 dólares por semana, mas principalmente porque contracenou com estrelas de tamanha magnitude – mesmo sem ter consciência disso.

Even though having bitten Myrna Loy, Skippy is still worth being called a lucky animal, not only because he earned from 200 to 250 dollars a week, but because he acted alongside such wonderful stars – even we wasn’t aware of what acting was. 
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