} Crítica Retrô

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Thursday, January 17, 2013

Quem foi o melhor cantor do cinema?

Duas vozes potentes, dois intérpretes carismáticos que conquistaram o cinema, o rádio e a televisão. Ambos ganharam Oscars, fizeram muito sucesso, tiveram vidas pessoais dignas de interesse e, com algum esforço, é até possível reconhecer que os olhos azuis conferiam alguma semelhança física entre os dois. Frank Sinatra e Bing Crosby foram os maiores cantores que também invadiram as telas do cinema. Mas qual seria o melhor? 

Vida pessoal: Harry Lillis Crosby nasceu em 1903 e faleceu em 1977. Era o quarto de sete irmãos. Foi casado duas vezes e teve sete filhos. Enviuvou aos 49 anos e casou-se com a também cantora Kathryn Grant. Dois de seus filhos do primeiro casamento cometeram suicídio. Os outros dois morreram de causas mais naturais. Apenas os três do segundo casamento ainda estão vivos.
Um minuto de silêncio pelos frutos do primeiro casamento
Francis Albert Sinatra nasceu em 1915 e faleceu em 1998. Era filho único. Foi casado quatro vezes e teve três filhos, todos com a primeira esposa. Suas cônjuges incluem Ava Gardner e Mia Farrow. Seu filho Frank Sinatra Jr já faleceu, as filhas Nancy e Tina continuam vivas.

Carreira: Bing começou no cinema em 1930 e nos anos seguintes fez uma série de curtas em que aparecia apenas cantando. Só em 1933 fez seu primeiro personagem que não se chamava Bing. Sua filmografia no IMDb conta 86 títulos.
Frank apareceu nas telas pela primeira vez em 1941, ao lado da “Tommy Dorsey Orchestra”. Só em 1944 fez um personagem que não se chamasse Frank. Sua filmografia é menor, com 63 títulos como ator.

Prêmios: Bing ganhou o Oscar de Melhor Ator em 1946, por “O Bom Pastor / Going my Way”. Foi escolhido o ator mais popular por cinco anos consecutivos. Assim como Sinatra, tem um Cecil B. DeMille Award e três estrelas na Calçada da Fama. Além de suas duas músicas mais famosas, outras duas canções que ele cantou ganharam o Oscar: “Sweet Leilani” e “In the cool, cool, cool of the evening”.
Frank ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1954, por “A um passo da eternidade / From here to eternity”. Três músicas cantadas por ele em filmes também ganharam o Oscar de Melhor Canção Original: “Three Coins in the Fountain”, “All the way” e “High Hopes”. Também foi vencedor de um Emmy, três Globos de Ouro e dezenas de outras honras.
Um programa para chamar de seu: “The Bing Crosby Show” teve uma temporada, contabilizando 27 episódios de meia hora. Ele contava a história de um casal com duas filhas adolescentes e um amigo que há tempos vivia na casa deles.

“The Frank Sinatra Show” surgiu primeiro em 1950, durando duas temporadas com episódios de 60 minutos em que esquetes e apresentações musicais eram mostrados. Em 1957, Frank fez uma nova tentativa em outra emissora. Também com 60 minutos de duração, essa nova série, com o mesmo nome, mesclava episódios dramáticos com episódios de variedades.
Greatest Hits: Bing é mais conhecido pela música de Natal “White Christmas”, que vendeu cerca de 100 milhões de cópias ao redor do mundo. Sua segunda música mais famosa talvez seja “Swinging on a Star”.
Frank é a voz que imortalizou “My Way”. Outra música fortemente relacionada a ele é “Strangers in the Night”.

Filantropia: A fama pode mexer com as pessoas de uma maneira boa. Bing começou seu trabalho filantrópico em 1937, com um campeonato de golfe cujos lucros seriam revertidos em ajuda para atletas. Sua caridade se estendeu para atletas universitários, escoteiros, bandeirantes e até a Cruz Vermelha. Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou pesado para ajudar seu país.
A atividade favorita de Sinatra era ajudar crianças carentes, mas ao longo da carreira ele contribuiu com mais de um bilhão de dólares para a saúde, ciência e educação em diversos países. Também sempre ajudou amigos com problemas. Pagou anonimamente pelo funeral de Bela Lugosi, que estava falido.

Reconhecimento: Quando Bing se casou pela primeira vez, em 1930, sua esposa Dixie Lee era mais famosa que ele e uma manchete chegou a estampar: “Conhecida estrela da Fox se casa com Bing Covery”. Dezoito anos depois, ele foi escolhido o homem mais admirado do mundo. Durante a carreira, seus filmes venderam mais de um bilhão de ingressos e Bing fez cerca de quatro mil apresentações no rádio.
Sorvete do Bing
Se as adolescentes da década de 1960 viveram a Beatlemania, as da década de 1940 tiveram a Sinatramania. Embora seu sucesso tenha caído um pouco ao final dos anos 40, Frank é um dos mais conhecidos showmen do século XX. Apelidado simplesmente de “A Voz”, também era pintor e inclusive foi responsável pela capa de um de seus álbuns. Inspirou uma série de produtos, inclusive uma boneca Barbie. 
Os encontros: Bing e Frank fizeram juntos o divertido filme “Robin Hood de Chicago / Robin and the Seven Hoods” (1964), um musical que satirizava os filmes de gângsteres, já fora de moda na época. Oito anos antes, eles disputaram o amor de Grace Kelly em “Alta Sociedade”. Também apareceram juntos na TV e gravaram um disco de Natal.

Apesar da suposta rivalidade que foi criada pela mídia envolvendo os dois artistas, Frank e Bing eram bons amigos. Em 1943, quando Sinatra estava começando, Bing enviou-lhe uma carta com vários conselhos (o conteúdo, em ingês, pode ser lido aqui), e anos depois disse: “Frank é um desses cantores que aparecem uma vez na vida. Mas por que tinha que ser justo durante a minha vida?”. 
Qual deles é seu favorito? Ou seria seu cantor de cinema preferido Maurice Chevalier? Yves Montand? Howard Keel? Mario Lanza? Carlos Gardel? Al Jolson?...
This post is part of the “Best of the best Blogathon”, hosted by A Potpourri of Vestiges.
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Friday, January 11, 2013

Amores de Estudante (1927) / College (1927)

No ano em que o cinema falado nascia, Buster Keaton foi para a faculdade. Isso não quer dizer que o ator de 32 anos desejava obter um diploma universitário porque já sabia que o som iria causar danos ao cinema mudo, mas sim que o enredo de mais uma de suas comédias brilhantes se passa em uma universidade.

When talkie films appeared, Buster Keaton wwnt to college. This doesn't mean that the 32-year-old actor wanted to complete a major because he knew the sound would cause damage to his career – this means that the story of another of his brilliant comedies is set in a college campus.


O jovem Ronald (Keaton) está saindo do Ensino Médio e não escapa de passar vergonha nem na formatura. Após ter um problema com seu guarda-chuva, ele fica perto de um aquecedor e sua roupa encolhe, atrapalhando seu adorável discurso nerd – com o qual eu concordo –  sobre como os livros são mais importantes que os esportes. Ao virar motivo de piada de todos, inclusive de Mary (Anne Cornwall), garota por quem ele está apaixonado, Ronald decide mudar seus planos. Ele vai para a mesma faculdade de Mary, trabalha para pagar os estudos e tenta virar atleta. Tudo sem sucesso, mas com muito humor.

Young Ronald (Keaton) is finishing high school and goes through one last shameful moment during his graduation. After going through problems with his umbrella, he sits near a heater and his clothes shrink, making it difficult for him to end his lovely nerd speech – a speech I agree with – saying that books are more important than sports.When evrybody laughs at him, including his crush Mary (Anne Cornwall), Ronald decides to change his plans. He enrolls in the same college as Mary, works to pay for his studies and tries to become an athlete. Everything is done without a chance of succeeding, but with a lot of good humor. 


Ronald não tem nenhuma habilidade que não seja intelectual. Muitas vezes sua inteligência e êxito nos estudos são citados, mas isso não faz com que ele fique mais de um dia em um emprego. No primeiro, como balconista de um bar, ele se atrapalha ao fazer malabarismos para preparar um refresco, e ainda tenta impressionar Mary, sem deixá-la saber que ele é funcionário do local. O outro emprego é como garçom num restaurante onde só trabalham negros. Para conseguir ser contratado, ele pinta o rosto e as mãos e, obviamente, essa sua estratégia não vai dar certo durante muito tempo.

All of Ronald's skills are intelectual. His intelligence and good grades are often cited, but they are not enough for him to keep a job longer than one day. In his first job, as a bar clerk, he has trouble mixing the drinks and trying to impress Mary, without letting her know he works there. His other job is as a waiter in a restaurant with only black employees. To be hired, he paints his face and his hands, and this strategy obviously proves to be innefective.


Nos esportes Ronald também é um desastre. Ele tenta de tudo dentro da universidade: futebol americano, beisebol, corrida, lançamento de dardo e de disco, salto em altura e com vara. Surpreendo-me por eu própria saber os nomes de todos esses esportes e ser capaz de identificá-los na tela! Só quando Ronald conta sobre seus sentimentos para o “deão” (espécie de reitor) da universidade, interpretado pelo baixinho Snitz Edward, é que ele encontra, a conselho do próprio deão, um esporte perfeito: o remo.

Ronald also fails at sports. He tries everything at college: football, baseball, running, dart and discus throwing, jumping. I even get surprise when I realize I know the names of all these sports and I can identify them at the screen! Only when Ronald shares his true feelings with the college dean, played by shorty Snitz Edward, he finds the perfect sport, suggested by the dean himself: rowing.


Um efeito especial muito interessante é o slow motion presente na cena em que Buster é jogado para cima por seus colegas de faculdade e, em posse de um guarda-chuva, demora a cair. Enquanto está no ar, ele observa uma senhora gorda, de camisola, pela janela.

One very interesting special effect is the slow motion we have when Buster is launched up by his college mates and, because he has an umbrella, he falls slowly. While he is in the air, he observes by a window a fat woman wearing a negligée.


Sigo o estereótipo de que nerds não são bons em esportes. Educação física sempre foi, para mim, uma bobagem, uma chatice e uma tortura. Por isso me identifiquei em parte com a personagem de Keaton neste filme. Com certeza defendo os livros ao invés de elogiar os esportes e felizmente nunca tive de virar esportista para impressionar alguém. Isso, inclusive, me lembra do episódio da série The Big Bang Theory, “The Rothman Desintegration”, em que, quando os físicos Sheldon (Jim Parsons) e Kripke (John Ross Bowie) são perguntados em que atividade eles são igualmente ruins, ambos respondem “esportes”.

I am one of those stereotyped nerds who suck at sports. Physical education was always a silly and boring torture to me. That's why I felt an identification with Keaton's character in this film. I'll always defend books and downplay the sports and luckily, I never had to become an athlete to impress someone. This situation even reminds me of one episode from The Big Bang Theory, “The Rothman Desintegration” in which physicists Sheldon (Jim Parsons) and Kripke (John Ross Bowie) are asked in which activities they are not good at, and they quickly answer “sports”.


Além do próprio Keaton, outro nome que me chamou a atenção nos créditos foi o de Florence Turner, a “Vitagraph Girl”. Logo que os estúdios de cinema nasceram, seus donos não creditavam os astros do filme, mas os ligavam a cada estúdio. Assim surgiu a primeiríssima estrela, a “Biograph Girl”, cujo nome verdadeiro era Florence Lawrence. Turner foi a resposta da Vitagraph e teve uma carreira interessante no cinema mudo, inclusive produzindo e escrevendo alguns curtas. Aqui, um de seus últimos trabalhos, ela aparece por pouco tempo como a mãe zelosa de Ronald. Curiosamente, Florence era apenas 10 anos mais velha que Buster Keaton.

Besides Keaton himself, another name that called my attention in the opening credits was Florence Turner's, the “Vitagraph Girl”. When film studios first appeared, its owners didn't give credits to the movie stars, but they linked the star to the studio. That's how the very first movie star appeared: the “Biograph Girl”, whose real name was Florence Lawrence. Turner was Vitagraph's response to Biograph, and she had an interesting career in silent cinema, both as an actress, writer and producer. In “College”, one of her last movies, she appears briefly as Ronald's zealous mother. Curiosity: Florence was only 10 years older than Buster Keaton.




Anos mais tarde, Keaton confessaria duas coisas sobre esta produção: James W. Horne, creditado como diretor juntamente com Buster, pouco esforço teve durante a realização da película. A segunda revelação foi que Buster usou um dublê para a cena, perto do final, em que ele salta com a vara para dentro de uma janela, em um dos raros momentos em que o comediante não fez ele mesmo uma de suas acrobacias perigosas.

Years later, Keaton would make two confessions about this production: James W. Horne, credited as co-director, had little to do during the shooting. The second confession was that Keaton used a body double for the scene near the end in which he uses a pole vault to enter a room by the window. This is one of the rare moments when Keaton himself didn't perform one of his dangerous stunts.


Com intertítulos divertidos e um final curioso, “Amores de Estudante” em muito se parece com “O Calouro”, filmado dois anos antes e protagonizado por Harol Lloyd. Feito como um veículo que agradasse ao público para compensar o fracasso do hoje cultuado “A General”, o filme apostou na moda colegial da época, mas foi outro fracasso para Keaton. Neste penúltimo filme antes de “cometer o maior erro de sua vida” e ir para a MGM, Keaton mostra, mais do que nunca, seus dotes atléticos. E também como os nerds são legais desde 1920. 

With funny intertitles and a curious ending, “College” is a lot like “The Freshman”, made two years before by Harold Lloyd. Made as a movie that would draw a lot of public to compensate the commercial failure that was the now cult “The General”, this film used the 1920's college fever, but it was another failure for Buster. In this penultimate film before making what he called “the biggest mistake of my life” - that was going to MGM – Keaton shows all his athleticism. And he also shows that nerds are cool since 1920.

Saturday, January 5, 2013

Desenho Retrô: A Turma da Gatolândia

Antes dos longa-metragens épicos, antes dos filmes de Hitchcock e Orson Welles, antes dos musicais, antes dos filmes mudos, eu assistia a desenhos antigos. Era por volta de 2003 e eu já tinha uma quedinha por tudo que era velho. E o canal Boomerang veio a calhar, pois exibia os desenhos animados clássicos da época da minha mãe, ou seja, da excelente safra Hanna-Barbera. E lembro com clareza que durante a semana, na faixa das duas horas, eu assistia com entusiasmo a uma singela produção com o simpático nome “A Turma da Gatolândia”. O que eu só fiquei sabendo agora é que no original o nome era “Cattanooga Cats”, ainda mais psicodélico.
Nem sei ao certo por que eu gostava da Turma da Gatolândia. Olhando com minhas opiniões atuais, creio que houve uma atração por todo aquele visual psicodélico dos anos 1960, que era o retrato de uma época. Devo acrescentar, claro, a parte lúdica, porque um desenho divertido atrai toda criança e eu, apesar de ter uma inclinação pelo passado, sempre gostei de me divertir.  
Antes da Turma da Gatolândia os talentosos William Hanna e Joseph Barbera já haviam se aventurado com um grupo de animais cantores: a banda Banana Splits, composta por um beagle, um gorila, um leão e um elefante mudo (?!). Quatro pobres atores tinham de se fantasiar para dar vida a esse estranho conjunto. Um ano depois da criação dos Banana Splits, Hanna e Barbera criaram a banda de gatos, desta vez composta apenas por personagens de desenho animado.
Os episódios de uma hora de duração apresentavam várias atrações. Obviamente, a principal era a aventura dos gatos Country, Conceição (Kitty Jo no original), Groove, Figura (originalmente Scoots) e de Fanzoca (Chessie nos EUA), uma ávida caçadora de autógrafos. Apesar de eles serem as estrelas do show, apenas nove histórias foram produzidas com a turma. O resto da hora era preenchido por outros desenhos, como “É o Lobo / It’s the Wolf”, que ganhou série própria com 22 episódios de meia hora. O Lobo Bobo, aliás, se mostrou a personagem mais carismática da série, uma vez que sobreviveu mais seis anos em outra série animada, “Ho-Ho Límpicos / Laff-a-Lympics”. E sim, eu acompanhei todos esses desenhos.
Além do lobo, havia também o desenho “Juca Bala e Zé Bolha / Motormouse and Autocat”, respectivamente um gato e um rato que levavam as perseguições de Tom & Jerry à modernidade, uma vez que o gato, de carro, perseguia o rato, de moto. A Turma da Gatolândia ficava completa com “A volta ao mundo em 79 dias”, paródia do livro de Júlio Verne. No entanto, o ponto alto do show era o clipe da Turma da Gatolândia, com direito a efeitos psicodélicos e músicas originais com o ritmo do momento.

A Turma da Gatolândia, infelizmente, não fez sucesso na televisão e ficou no ar por apenas duas temporadas. Nem o disco oriundo do programa, com as animadas músicas felinas, conseguiu salvar a Turma da Gatolândia. Mesmo assim, o show foi reprisado várias vezes em diversos países e hoje é um desenho cult relembrado com nostalgia por seus fãs.

Friday, December 28, 2012

Os pequenos tesouros de 2012

E chegamos ao último post do ano. Foi um ano um pouco mais calmo no blog que ano passado: 64 postagens, contra 75 de 2011. De fato, foram um ou dois artigos por semana, ao contrário de um ano que teve até três assuntos comentados em menos de sete dias. Engana-se quem pensa que isso significou menos trabalho para mim: em 2012 me engajei no lançamento de mais um livro e somei à minha coluna quinzenal no Leia Literatura uma coluna semanal no Antes que Ordinárias e outra mensal no Filmes e Games, além de uma participação interrompida no Red Apple Pin-Ups, que eu espero que volte com força total em 2013. E aproveito para agradecer a todos que apreciam meu blog e votaram por ele no Top Blog. Foi uma grata surpresa ficar entre o Top 100, o que mostra que eu estou no caminho certo!
Mas como Reveillon não é Dia de Ação de Graças, não vou ficar enumerando as coisas boas de 2012, mas sim relembrar, com a ajuda da fiel agenda em que anoto os filmes vistos, algumas produções maravilhosas. Alerto que deixo de lado excelentes escolhas como “Tarde Demais / The Heiress” (1948) e “A montanha dos sete abutres / Ace in the Hole” (1951) porque são filmes “óbvios”. Cito aqui algumas pérolas que, se eu não tivesse curiosidade e tempo livre, poderia ter deixado de assistir, uma vez que não são filmes essenciais ou muito comentados.
Onde eu anotei os filmes de 2012
Começo confessando que entre minhas resoluções de Ano Novo estava assistir a mais faroestes e filmes mudos. Não consegui matar dois coelhos com um tiro só e assistir a faroestes mudos, embora saiba que eles existam. Mesmo assim, creio que me saí bem: vi 17 filmes silenciosos, incluindo a restauração de “The White Shadow” (1924). Entre os filmes mudos, tenho de destacar “O último comando” (1928), uma maravilhosa produção com Emil Jannings, Evelyn Brent e William Powell sobre um velho comandante das tropas do czar que, após a Revolução Russa, vai trabalhar em Hollywood como extra e reencontra um homem que ele havia torturado e agora é diretor de cinema. Simplesmente um espetáculo comovente, que foi escolhido um dos 100 melhores filmes da história pela revista Time.
Os faroestes foram em maior número: 26. Preciso destacar “Nas Trilhas da Aventura / The Hallelujah Trail (1965), “El Dorado” (1966) e “O Rio da Aventura / The Big Sky” (1952). Como se não bastasse, vi quatro filmes com Sherlock Holmes no papel principal e três com 007.
Outro hábito que adquiri em 2012 foi assistir a filmes nacionais, contando com uma ajudinha da TV Justiça, que todas as sextas exibe a Sessão Cinemateca na faixa das 21 horas. Foi através dessa sessão que fiquei íntima de Oscarito e apreciei o talento de Grande Otelo. No entanto, o filme que mais me chamou a atenção foi “Na Senda do Crime” (1954), que em muito lembra o policial “Força do Mal”, feito seis anos antes e estrelado por John Garfield. Mais um filme nacional interessante, esse uma dica para os amantes de história, é “Rebelião em Vila Rica” (1957), que retrata um movimento estudantil muito semelhante à Inconfidência Mineira.
Alguns filmes de chorar de rir foram “Anáguas à Bordo / Operation Petticoat” (1959), “A corrida do século / The Great Race” (1965), “O Magnífico” (1973) e “O irmão mais esperto de Sherlock Holmes / The adventure of Sherlock Holmes’s Smarter Brother” (1975). Bergman me surpreendeu com sua curiosa comédia “Para não falar de todas essas mulheres” (1964) e Truffaut, com os adoráveis “O quarto verde” (1978) e “Domicílio Conjugal” (1973). Como nem tudo é diversão, vi também filmes de terror, como “A Múmia” (1932) e “O homem invisível” (1933), curiosos mas não muito assustadores.
Reconhece Claude Rains em "O Homem Invisível"?
As cinebiografias, que muito me agradam, estiveram presentes em títulos como “O segredo de Beethoven / Copying Beethoven” (2006), um tanto fantasiosa; “As aventuras de Omar Khayyam / The life, loves and adventures of Omar Khayyam” (1957) e “Tico-tico no fubá” (1952), sobre o compositor Zequinha de Abreu.      
2012 foi o ano em que eu passei a dar maior atenção a Barbara Stanwyck, Tyrone Power, Harold Lloyd, Jack Lemmon, Montgomery Clift, Claude Rains, James Mason e Lon Chaney. O ano em que conheci pessoas muito bacanas no Twitter, Tumblr e Facebook que, não importa há quanto tempo são fãs de cinema clássico, sempre têm um bom filme desconhecido a indicar. Ufa! 2012 foi um ano cheio de trabalho, bons filmes e bons momentos. 2013 já começará com novidades aqui no blog. Conto com vocês, leitores, para fazermos mais um ano inesquecível para a comunidade do cinema clássico. Aguardem! 

Wednesday, December 19, 2012

As três noites de Eva / The Lady Eve (1941)

Em 1941, aos 36 anos, Henry Fonda exibia sua melhor forma. De fato, ele nunca esteve tão bonito quanto neste filme. Não é de se espantar que várias mulheres estejam atrás dele, como Barbara Stanwyck narra, vendo a cena através do reflexo de um espelho. Apesar disso, apenas duas mulheres, que na verdade são uma só, duelam por seu amor nesta deliciosa comédia.
Charles Pike (Fonda) é um biólogo apelidado de “chopinho” (“hopsy” no original) devido aos negócios do pai, sócio de uma cervejaria e muito rico. Ele é um dos primeiros nerds do cinema, inteligente porém desajeitado. Assim, torna-se presa fácil para os golpistas “Colonel” Harry Harrington (Charles Coburn) e sua filha Jean (Stanwyck), que pretendem roubar o dinheiro dele no jogo de cartas. Ninguém esperava que ele se apaixonasse por Jean, mas quando Charles descobre quais eram as intenções dela, ele a abandona no navio e segue seu rumo.
Em uma festa na mansão dos Pike, Stanwyck reaparece, agora como Lady Eve Sidwich. Embora a semelhança com Jean faça Charles desconfiar, ela logo usa sua perspicácia para enganá-lo novamente, dizendo que ela e Jean são filhas do mesmo pai. Mais uma vez Charles se apaixona por ela, embora seu secretário Mugsy (William Demarest) tente impedir que eles se casem, usando sua frase de efeito: “é a mesma umazinha!” (“she’s the same dame!”).
Preston Sturges, um mestre da comédia romântica, escreveu o roteiro baseando-se em um conto de 19 páginas já existente nos arquivos da Paramount. Com muita esperteza, ele conseguiu inserir cenas e diálogos picantes demais para a época, sem contudo ter problemas com o Código Hays. Trabalhar com o diretor foi uma alegria para Barbara e Henry. Usando roupas extravagantes para ser facilmente encontrado no set de filmagem em meio à numerosa equipe técnica, Preston fazia de tudo para deixar seus colegas de trabalho à vontade.          
Charles está saindo da Amazônia com uma cobra rara. No navio é possível ver até cartazes escritos em português. Apesar disso, as cenas anteriores, que mostram Charles na floresta, foram gravadas em Los Angeles. Com ou sem floresta, o certo é que este filme foi um ponto de virada nas carreiras do belíssimo Henry e também de Barbara, uma atriz versátil que até então nunca havia feito uma comédia, apenas dramas e westerns. O filme ainda traz referências ao mito de Adão e Eva, incluindo a cobra e a maçã que aparecem junto aos créditos, numa adorável sequência animada.
Mas quais as diferenças entre Jean e Eve? Vejamos:

Jean Harrington:                                                                  
Estilo: cabelos soltos, roupas mais modernas, salto alto, blusa curta.
Esporte: jogar cartas.
Técnica de sedução: fazer o pretendente tropeçar sem querer, coçar a cabeça dele enquanto diz palavras doces e frases provocantes.
Por que Charles não ficaria com ela: é uma vigarista que vive de tirar dinheiro de milionários.

Lady Eve Sidwich:
Estilo: cabelo preso, roupas elegantes (como lindos vestidos longos desenhados especialmente por Edith Head), roupas de montaria.
Esporte: andar a cavalo.
Técnica de sedução: Simplesmente deixar os homens caírem de amor por ela. Literalmente.   
Por que Charles não ficaria com ela: teve muitos relacionamentos íntimos antes de se casar.

E você, ficaria com Jean ou Lady Eve? Ou com Barbara Stanwyck?

This is my entry for the Second Dueling Divas Blogathon, hosted by Lara at Backlots. Don’t forget to read the other entries and... 

Feliz Natal!

Wednesday, December 12, 2012

Dupla Dinâmica: Werner Herzog e Klaus Kinski


Alguns dos melhores filmes do cinema alemão surgiram através da colaboração entre o director Werner Herzog e o ator Klaus Kinski. Além de geniais e geniosos, eles formavam uma dupla literalmente explosiva. Para se ter uma ideia, durante as filmagens de “Aguirre – A cólera dos deuses” (1972), Herzog fez um acordo com uma tribo peruana para que Kinski fosse morto e teve de desfazer o trato apenas porque, quando a data do assassinato chegou, ainda faltavam cenas para gravar.
A morte encomendada de Kinski não foi o único fato curioso das filmagens de Aguirre: como o feitiço normalmente vira contra o feiticeiro, Werner esteve à beira da morte. Seu voo, o LANSA Flight 508, foi destruído após ser atingido por um raio. No entanto, o diretor havia desistido de embarcar no último minuto. Outra situação de perigo enfrentada por Herzog foi durante uma entrevista, poucos dias depois de ter ajudado Joaquin Phoenix com seu carro quebrado na estrada. Enquanto falava para a BBC, Herzog foi baleado, mas continuou a entrevista e mostrou seu ferimento, dizendo que a bala não era nada.    
Herzog foi excêntrico o bastante para prometer que, se o cineasta Errol Morris conseguisse terminar seu filme, ele comeria o próprio sapato. Com a estreia de “Gates of Heaven” em 1987, Werner cozinhou e comeu publicamente o calçado, dizendo que seu ato servia de estímulo àqueles que desejam levar um projeto adiante.
Seus filmes conseguem ser tão interessantes quanto sua vida nada comum. Ele costuma trabalhar com uma equipe fiel de produtores, editores e compositores que o acompanham em diversas produções. No campo da atuação, sua parceria com Klaus Kinski é a que merece mais destaque, rendendo cinco filmes e um documentário.    
Nascido na Polônia, Kinski participou da Segunda Guerra Mundial do lado alemão. Capturado pelos ingleses em 1945, desertou, mas foi recapturado e julgado. Segundo o próprio Klaus, ele conseguiu escapar de uma condenação de morte. Ficou prisioneiro dos ingleses mesmo depois do fim do conflito e, sabendo que os presos doentes seriam os primeiros a voltar para casa, tentou adoecer ficando nu, bebendo urina e comendo cigarros. Tudo isso foi em vão. Saudável, voltou para casa em 1946, e soube que seus pais haviam perecido na guerra. Seu pai, aliás, foi um cantor de ópera mal-sucedido, uma curiosa coincidência, pois em “Fitzcarraldo” (1982) Kinski interpreta um empresário maluco por ópera, que também é uma das paixões de Herzog.
Um ator de difícil convivência, porém talentoso e autodidata, Kinski apareceu em vários filmes a partir de 1948, incluindo os sucessos “Doutor Jivago / Doctor Zhivago” (1965) e “Por uns dólares a mais / For a feel dolars more” (1965). No entanto, foi sua parceria com Herzog, a partir de 1972, que lhe trouxe fama internacional. A história deles havia começado 17 anos antes, em Berlim, quando as famílias de Herzog e Kinski dividiram um apartamento com outras famílias. De colegas de quarto a colegas de profissão, foi um longo caminho.
As declarações de Herzog sobre o trabalho com Kinski são cheias de humor. Ele diz que todos seus cabelos brancos surgiram dos problemas que teve com o ator, uma besta que teve de ser domesticada, mas que ambos se respeitavam muito, embora tenham planejado o assassinato um do outro.
A autobiografia de Klaus Kinski, que saiu em 1986 com o título “All I Need is Love” é um tanto travessa. Herzog e Kinski se juntaram para escrever sobre a parceria e inventaram boa parte do conteúdo. O livro causou a ira de uma das filhas de Klaus, a também atriz Nastassja Kinski. Para piorar, uma editora mandou retirar de circulação o livro porque houve uma quebra de contrato. A autobiografia voltou a ser vendida no fim dos anos 90 sob o título “Kinski: Uncut”.
Klaus era 16 anos mais velho que Herzog e faleceu em 1990 de ataque cardíaco. Nove anos depois, o diretor prestou sua homenagem ao colaborador frequente, sem o qual algumas de suas obras mais significativas não seriam as mesmas: o documentário “Meu melhor inimigo / My best fiend” é sobre a relação dos dois. Herzog mostra um lado mais humano de Kinski e elogia como, apesar de ou mesmo devido ao seu temperamento explosivo, o ator conseguiu dar vida a alguns dos maiores anti-heróis do cinema alemão.  

Tuesday, December 4, 2012

Saratoga (1937)


A razão de “Saratoga” ter sido um dos maiores sucessos de bilheteria de 1937 foi a curiosidade mórbida tão comum aos seres humanos. Seu astro, Clark Gable, poderia ser um atrativo para as plateias, mas foi a morte da atriz Jean Harlow, com apenas 26 anos, no meio das filmagens, que atraiu multidões para ver como o filme foi terminado sem sua protagonista. Fora isso, trata-se de uma produção simpática sobre corridas de cavalo com um romance previsível e dois grandes nomes, um já consagrado, outro que ainda esperava seu auge: Lionel Barrymore e Walter Pidgeon.
Duke Bradley (Gable) conhece o pai (Jonathan Hale) e o avô (Barrymore) de Carol Clayton (Harlow) todos envolvidos com criação e corridas de cavalos. Quando o pai falece durante uma corrida, Bradley, que havia se tornado sócio da fazenda, pois o pai havia lhe dado parte das terras para pagar uma dívida, resolve esquecer o acordo, devolvendo tudo ao avô. Ele e Carol não se entendem, até porque ela está noiva de Hartley Madison (Pidgeon), que Bradley insiste em ofender. Seu plano é fazer Madison apostar cada vez mais nas corridas, indo contra as apostas de Carol e enriquecendo Bradley.
Os coadjuvantes têm um papel especial e se tornam mais relevantes devido à necessidade de compensar a falta da protagonista. Barrymore, em suas poucas cenas, está muito divertido. Una Merkel está especialmente cativante como Fritzi, amiga de longa data de Bradley cujo hilário marido é dono de uma empresa de cosméticos e alérgico a cavalos. Quem também está lá é Hattie McDaniel, que voltaria a trabalhar com Gable dois anos mais tarde em “E o vento levou / Gone with the Wind”. E por falar em filmes de 1939, aqui temos a oportunidade de ver lado a lado dois atores muito importantes de “O Mágico de Oz”: Margaret Hamilton, a bruxa má do oeste, e Frank Morgan, que interpretaria o próprio mágico. Em uma viagem de trem, ele faz questão de insultar a feiura da pobre moça, que diz usar seus cremes sem obter resultados.        
Pela metade do filme, não sei se por influência dos fatos que eu já conhecia, comecei a perceber uma Jean Harlow mais inchada e não tão bonita quando focalizada de frente, porém com um perfil inalterado. Interessante notar como o filme trata de doenças, pois em muitos momentos Carol está acamada ou precisa ser examinada por um médico. Na vida real, Jean sofreu uma nefrite aguda e seus rins pararam de funcionar. Supõe-se que a causa da doença tenha sido a escarlatina que ela contraiu aos 15 anos. Numa época antes de hemodiálise e transplante de rins, ela não teve salvação.
Quando o filme completa uma hora, podemos ver que Jean foi substituída.  Como nem todas as cenas são gravadas na sequência, ainda há um momento, em uma festa, em que é ela, e não uma sósia, que conversa com Barrymore. Nos demais momentos, tudo o que vemos é uma atriz loira (Mary Dees) com algo escondendo seu rosto: um binóculo, um chapéu. Muitas vezes ela é gravada de costas e dublada por alguém com um tom de voz parecido (Paula Winslowe) com o de Jean (aliás, adoro a voz da loura platinada). Com certeza o filme teve de ser modificado devido à sua morte, com a supressão de falas, dando um maior destaque a Gable. Detalhe: não há nenhum beijo durante o filme, nem sequer no final!
A ideia inicial da MGM era regravar todas as cenas de Jean Harlow com Jean Arthur ou Virginia Bruce, no entanto muitos fãs pediram que este último trabalho da loura platinada estreasse logo. Além dessa tragédia, outro problema que aconteceu nas filmagens, só que bem menos grave, foi um acidente com Lionel Barrymore, que tropeçou em um cabo e quebrou o quadril, ficando um bom tempo numa cadeira de rodas. Curiosamente, este filme era para ser estrelado por Gable e Carole Lombard, rainha das comédias que em 1939 se tornou esposa de Clark e faleceu tragicamente em 1942 em um acidente de avião. Este foi o sexto filme em que Jean contracenou com Gable, que a chamava carinhosamente de “irmãzinha”, e a química entre eles é visível. A morte de Jean Harlow foi um choque para a indústria do cinema e em especial para seus fãs. No entanto, a garota que aos 16 anos saiu de casa para se casar e cujo sonho era formar uma família se tornou, em sua curta vida, uma estrela memorável, adorada e adorável mesmo 75 anos após sua morte.  

Mais informações sobre a vida e morte de Jean Harlow podem ser encontradas aqui.

This is my entry for The Late Film Blogathon, hosted by Shadowplay, showing some of great people’s last films. Great morbid idea! 
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