} Crítica Retrô

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Friday, June 1, 2012

Aves sem ninho / Sparrows (1926)

Sim, cinéfilos, Mary Pickford está na moda! Depois de uma boa surpresa na temporada de premiações com a consagração de “O Artista”, em que Jean Dujardin interpreta um alter-ego de Douglas Fairbanks, marido de Pickford, foi a vez de um frenesi tomar conta devido à necessidade de preservação e patrocínio do Mary Pickford Institute. Infelizmente, nem a mobilização generalizada dos fãs impediu que os estúdios dessa pequena notável fossem demolidos, mas este triste fato serviu para unir os admiradores da mocinha que inventou Hollywood e atrair a atenção para essa importante personalidade, que em breve ganhará uma cinebiografia.

Yes, cinephiles, Mary Pickford is in vogue! After a good surprise during awards season with a plethora of prizes going to “The Artist”, in which Juan Dujardin plays a Douglas Fairbanks (Mary's husband) alter-ego; what followed was a frenzy to preserve and support the Mary Pickford Institute. Unfortunately, the fans getting together wasn't enough and the building where Mary's studio was located was demolished. But this sad fact helped to unite Mary's admirers, and to attract attention for her important contribution to the film world.

Quando “Aves sem Ninho” foi feito, Mary tinha uma sólida carreira de mais de 15 anos no cinema e 34 anos de idade. Mesmo assim, ela interpreta uma garota bem mais nova, mas que tem de amadurecer para cuidar das crianças que chegam a uma fazenda, onde são submetidas a trabalhos forçados. O dono do local, o malvado e manco Sr. Grimes (Gustave Von Seyffertitz), além de explorar a mão-de-obra infantil, vez ou outra ameaça jogar uma criança para que afunde no pântano. O que vai mudar tudo é o arriscado negócio que ele fez: combinar o sequestro de uma criança, a filha do rico Dennis Wayne (Roy Stewart), que fica sob os cuidados de Molly, que, assim como outras personagens de Mary, é sofredora, porém decidida e corajosa. Ela não hesita em enfrentar Ambrose (‘Spec’ O’Donnell), o mimado e glutão filho dos “patrões”.

When “Sparrows” was made, Mary was 34 years old and had a solid career in film, that had been going for over 15 years. However, she was a playing a much younger girl who has to become mature to take care of the children who arrive in a hard labor farm. The owner of the place, the evil and limping Mr Grimes (Gustav Von Seyffertitiz), besides exploiting child labor, sometimes threatens to trow a child in the swamp. What will change everything is a risky business Mr Grimes has made: he set up the kidnapping of the heir of wealthy Dennis Wayne (Roy Stewart). The kidnapped little girl is overseen by Molly (Pickford), a suffering, but courageous character. She doesn't think twice to fight Ambrose ('Spec' O'Donnell), the fat and spoiled boss' son.


Como não podia deixar de ser, mais este filme mudo está cheio de belas imagens, começando pelos grandes e expressivos olhos de Mary. Uma das mais belas, em minha opinião, é quando todas as crianças colocam suas mãos nos vãos da madeira do celeiro para acenar, dizendo adeus ao recém-vendido Splutters. Mas, sem dúvida, a mais pungente é a da morte de um bebê, quando Jesus aparece para buscá-lo dos braços de Molly. É impossível não fazer uma ligação com uma cena de mesmo conteúdo feita por Lillian Gish em 1920 no filme “Inocente Pecadora”. Certamente o evento em si é mais bonito no filme de Mary, mas não há dúvida que Lillian é mais tristemente convincente quando se trata de crianças moribundas.

This silent film has a lot of beautiful images, like many other do, starting with Mary's big and expressive eyes.In my opinion, one of the more beautiful images involves all the children with their hands in the porthole of the barn, saying goodbye to Splutters, who has been sold. But, without a doubt, the most harrowing of them all involves the death of a baby, and in this scene Jesus appears to take the child from Molly's arms. We have to make here a connection with a similar scene starred by Lillian Gish in “Way Down East” (1920). Certainly the scene is more beautifully shot in Mary's movie, but there is no doubt that Lillian is more saddening and convincing around dying children.

A religião é parte importante do enredo, pois o tempo todo Molly e as crianças rezam para que sua situação melhore. Vários trechos da Bíblia são citados e até o próprio título tem explicação religiosa: Deus vigia toda ave que cai do ninho.

Religion is an important part of the plot, because all the time Molly and the children pray for their situation to get better Several parts of the Bible are cited and even the title itself has a religious explanation: God watches every single sparrow that falls from the nest.
Os intertítulos, que em minha opinião até facilitam que um espectador estrangeiro veja os filmes mudos americanos, contém várias expressões e palavras diferentes do que conhecemos e estudamos quando estamos aprendendo inglês. Como uma língua viva, o inglês está sempre se modificando, e isso fica claro quando lemos na tela “pertaters” ao invés de “potatoes”, “yer” no lugar de “you” ou “your”, “git” onde deveria estar “get”, entre outros. Há menos intertítulos na segunda metade da película, para dar lugar à ação. Logo após o clímax da fuga no pântano, há uma caçada envolvendo barcos e uma longa conversa, que parecem desnecessários e apenas desaceleram o filme, baixando quaisquer níveis de adrenalina que restavam no espectador. 

The intertitles are something that, in my opinion, make it easier for foreigners to watch an American silent movie. But this one has intertitles with several expressions and words we don’t learn when we learn to speak English. As a living language, English is in constant evolution, and it can be observed when we read “pertaters” instead of “potatoes”, “yer” instead of “you”, “git” instead of “get”, and so on. There are fewer intertitles in the second half of the movie, because there is more action. Right after the climatic escape from the swamp, there is a hunt involving boats and a long conversation, two kind of unnecessary things that only slow down the movie and the adrenaline levels.   


William Beaudine, diretor de filmes B (a exemplo de “Jesse James encontra a filha de Frankenstein” e “Billy the Kid contra Drácula”) que vez ou outra aparecia creditado como William X. Crowley, nem pôde aproveitar o sucesso do filme, pois brigou com Mary Pickford no set, abandonando a filmagem e deixando seu assistente Tom MacNamara completá-la. Mary e William, que tinham a mesma idade, nunca mais trabalharam juntos. Outra história dos bastidores tem a ver com os crocodilos, uma vez que há controvérsias em relação ao uso de animais vivos no set. Mary dizia que os animais eram verdadeiros, e ela discutiu com o diretor por este insistir que ela fizesse a cena carregando um bebê de verdade e não um boneco. No entanto, o fotógrafo envolvido na gravação afirma que não foi usado nenhum crocodilo verdadeiro, o que fica evidente quando vemos o filme com bastante atenção. Mesmo assim, a realidade da cena impressiona.

William Beaudine, B-movie director (he was behind such films as “Jesse James meets Frankenstein’s Daughter” and “Billy the Kid versus Dracula”) was sometimes credited as William X. Crowley. He couldn’t even enjoy the success of this movie, because of a big fight with Mary Pickford at the set. After the fight, William left the movie and his assistant Tom McNamara finished it. Mary and William, who had the same age, never worked together again. Another backstage story involves crocodiles, and there are controversies about using live animals in the set. Mary said that there were real animals, and she argued with Beaudine when he insisted that she shot a scene carrying a real baby among the animals, and not a doll. However, the film photographer says that no real crocodiles were used, and it becomes evident when we watch closely. No matter what, the scene still looks very convincing. 


O fato de haver crianças neste filme torna-o mais dramático e até mesmo chama mais a atenção das novas plateias. Claro que uma das crianças atrasa vez ou outra a fuga do pântano. Sem dúvida o destaque infantil é a fofa Mary Louise Miller, a garotinha sequestrada. Pickford, na época casada com Fairbanks e sem filhos, mostrou interesse em adotar a pequena, o que os pais da atriz mirim de apenas dois anos recusaram. Em seu terceiro casamento, com Charles ‘Buddy’ Rogers, Mary Pickford acabaria adotando um casal de filhos.

The fact that the film is focused on children makes it more dramatic and can even attract a young audience. Without a doubt the outstanding child actress in the cast is cutie Mary Louise Miller, the little girl who is kidnapped. Pickford, at the time married to Fairbanks and childless, showed interest in adopting the two-year-old girl, but her parents refused the offer. During her third marriage, with Charles ‘Buddy’ Rogers, Mary adopted a boy and a girl.  

Duas Marys
Depois que completou trinta anos, Mary Pickford decidiu abandonar o estilo “menininha”, o que desagradou os fãs. Por isso ela voltou à velha persona cinematográfica para este filme de despedida, considerado um dos melhores de sua carreira e que sobreviveu muito bem ao tempo. Depois de “Sparrows”, Mary faria mais um filme mudo e conquistaria o Oscar com seu primeiro filme falado, “Coquette”, de 1929. Ela se aposentou aos 41 anos e viveu em sua mansão Pickfair até a morte, em 1979.

Since turning 30, Mary Pickford abandoned the “little girl” style, and fans weren’t happy. That’s why she returned to her old film persona to this final performance, considered one of the best of her career, and also one that stood the test of time. After “Sparrows”, Mary would do only one more silent and win the Oscar for her first talkie, “Coquette”, from 1929. Mary retired at 41 and lived at Pickfair until dying in 1979.

This post is part of the Mary Pickford Bogathon, hosted by KC at Classic Movies. Check out this cool banner and the whole event:

Thursday, May 24, 2012

Um dia nas corridas / A day at the races (1937)

Como um cavalo pode ajudar a salvar um sanatório? Ganhando uma importante corrida. E se os envolvidos nessa corrida forem um trio tão maluco quanto os divertidos irmãos Marx?

How can a horse save an asylum? By winning an important race. And what happens if the ones involved in the race are as zany as the three Marx brothers?


O médico veterinário Hugo Z. Hackenbush (Groucho Marx) é chamado para trabalhar como médico psiquiatra (!) no sanatório de Judy (Maureen O’Sullivan), que está à beira da falência. Na instituição o caso mais grave é o da senhora Emily Upjohn (Margaret Dumont), uma rica mulher que aparentemente não sofre de doença alguma. E é esse o problema: ela quer que os médicos encontrem algo errado nela e Judy também deseja que isso aconteça, ou vai perder sua mais rica paciente. O namorado de Judy, o cantor Gil (Allan Jones) é dono do cavalo Hi-Hat, que se torna a grande esperança quando surge uma corrida com um bom prêmio. Stuffy (Harpo Marx) será o jóquei.

Veterinarian Hugo Z. Hackenbush (Groucho Marx) is hired to be a psychiatrist (!) at Judy's (Maureen O'Sullivan) asylum, a place about to be closed. There, the worst case is Mrs Emily Upjohn (Margaret Dumont), a rich woman who apparently has no disease at all. And that's the problem: she WANTS  the doctors to find something wrong with her, and so does Judy, or the richest patient in the asylum will go away. Judy's boyfriend, Gil (Allan Jones), owns the horse Hit-Hat, the one who becomes their only hope when a race with a big prize is announced. Stuffy (Harpo Marx) will be the jockey.
Este segundo filme dos irmãos na MGM repete uma tendência vista no primeiro: a inserção de um romance e números musicais em meio à anarquia dos irmãos. A saída de Zeppo do grupo deixou espaço para que fosse inserido um personagem menos maluco, papel aqui de Allan Jones, que também atuou e cantou em “Uma noite na ópera” e “Show Boat” (1936).

This is the second film the brothers did at MGM, and it has one thing in common with the first: there are a romantic subplot and musical numbers mixed with the brothers' anarchy. Zeppo left the group and left a space for a not-so-crazy character. Here the normal one is played by Allan Jones, who also acted and sang in “A Night at the Opera” and “Show Boat” (1936).
Mesmo antes de “Uma noite na ópera” (1935) chegar aos cinemas, os roteiristas da MGM já estavam trabalhando neste filme. Depois de serem escritos 18 roteiros, finalmente o produtor Irving G. Thalberg permitiu que a produção começasse. Mas, duas semanas depois, ele faleceu aos 37 anos, causando caos no estúdio e selando o destino dos Irmãos Marx, que eram como protegidos dele. Groucho chegou a afirmar que com a morte de Irving ele perdeu a vontade de fazer filmes. 

Even before “A Night at the Opera” (1935) premiered, the MGM screenwriters were working on this film. Eighteen screenplays were refused, until finally Irving Thalberg approved one and let pre-production start. But, two weeks later, Irving died suddenly at age 37. Chaos spread in MGM and the Marx brothers' fate became darker, since they were Irving's protegées. Groucho even said the, with Irving's death, he lost the will of making movies. 
A corrida de cavalos é o clímax do filme, e uma longa e divertida sequência se passa no jóquei clube: quando Chico passa uma mensagem em código para Groucho, de modo a ajudá-lo a ganhar dinheiro apostando nas corridas. No entanto, quem fica um pouco mais rico ao longo da cena é Chico, que vende vários livros para Groucho decifrar o código que ele havia lhe dado.

The horserace is the film's climax, and a long, funny sequence happens in the jockey club: it's when Chico sends a coded message to Groucho tobhelp him to earn money betting on the races. However, who really gets richer as the scene develops is Chico, who sells several books só Groucho can decipher the code Chico gave him in the start. 
Meu favorito entre os irmãos sempre será Groucho, que tem excelentes momentos e frases hilárias. Com um raciocínio que me causa inveja, ele sempre pensa numa resposta para sair das mais complicadas situações. E olhe que o estúdio teve de enfrentar uma dessas situações: no início da produção, o nome da personagem de Groucho era Dr. Quackenbush. No entanto, havia 37 veradeiros doutores Quackenbush que podiam processar a MGM, que teve de mudar o nome da personagem. Groucho acabou por gostar da mudança, tanto que até assinava cartas como Hugo Z. Hackenbush de vez em quando.

My favorite brother is Groucho, who has excellent moments and hilarious lines. With a quick, envy-inducing train of thoughts, he always has the perfect comeback for any complicated situation. And the studio itself had to face one complicated situation: when pre-production began, Groucho's character was named Dr. Quackenbush. However, there were 37 real doctors named Quackenbush who could sue MGM, so the studio had to change the character's name. Groucho liked the change so much that every now and then he signed his letters as Hugo Z. Hackenbush.  
No filme há bons momentos de Chico e Harpo, em especial durante o grande concerto de Gil, em que eles fazem uma grande confusão. Numa das melhores cenas cômico-musicais, Harpo vai destruindo um piano até transformá-lo em uma harpa. A MGM, berço dos maiores musicais do cinema, inclui números musicais longos no filme. O segundo deles conta com uma multidão de negros, incluindo a então desconhecida Dorothy Dandrige. Anos depois, esta sequência foi cortada para a exibição do filme na televisão, devido ao racismo.

In the film there are good moments with Chico and Harpo, in special during Gil's big concerto, in which they make a huge mess. In one of the best comic/musical scenes, Harpo destroys a piano and transforms it in a harp. MGM, home of the biggest film musicals, included several singing and dancing routines in the movie. The second of them has a crowd of black people, including then-unknown Dorothy Dandrige. Years later, this sequence was dut when the film was shown on TV, because it was considered too racist.
É o mais longo filme dos irmãos Marx, embora não chegue nem às duas horas de duração. Foi também a única produção deles a receber uma indicação ao Oscar, de Direção de Dança, sendo que 1938 foi o último ano em que existiu esta categoria. E para completar as honras, foi o filme dos irmãos que arrecadou mais dinheiro da bilheteria: quatro milhões de dólares.

This is the longest of the Marx brothers' movie, even thought it's not two hours long. It was also their only film to receive an Oscar nomination,in the Dance Direction category, one that was extinct after 1938. And, to add to the records, this was the Marx film with the highest box-office: four million dollars. 
Provando o que Chico disse no filme anterior, de que não há cláusula de sanidade (“There ain’t no sanity clause!”) também no cinema, os irmãos fazem mais uma comédia inspirada e divertidíssima, terminando o filme com uma frase que logo se tornaria antológica na história cinematográfica: “Tomorrow is another day.”.

Proving what Chico had said in the previous movie, that “There ain't no sanity clause” - the film had no sanity at all, and in it the brothers do another fun and inspired comedy, ending the movie with a quote that soon would become über-famous in film history: “Tomorrow is another day”.

This entry is part of the very first Horseathon, hosted by the lovely Page at My Love of Old Hollywood

Sunday, May 20, 2012

Uma personalidade clássica

Baseado em um post da Brandie do blog True Classics

Desvendar a personalidade de uma pessoa é coisa que só Freud explica? E definir sua própria personalidade, é algo fácil? Que tal contar mais um pouco sobre você comparando-se com vários personagens de flmes clássicos? Vamos tentar?

Rita Hayworth, porque me inspiro nela para arrumar meu cabelo (P.S.: nem sempre dá certo).

Tess Harding (Katharine Hepburn em “A Mulher do dia / Woman of the Year”, de 1942), porque levo meu trabalho muito a sério, seja ele qual for, e defendo meus valores e ideais, chegando mesmo a ser muito teimosa (além disso, também me comportaria igual a ela na cozinha). Para saber mais das habilidades culinárias de Tess, assistam a esse vídeo a partir dos 35 segundos.

Ninotchcka (Greta Garbo em “Ninotchcka”, de 1939), porque aparento ser mais séria do que realmente sou.

Jo Stockton (Audrey Hepburn em “Cinderela em Paris / Funny Face”, de 1957), porque sou apaixonada por livros e adoraria trabalhar em uma livraria, ainda mais se um dia Fred Astaire aparecesse por lá.

Ann Newton (Edna May Wonacott em “Sombra de uma dúvida / Shadow of a doubt”, de 1943), porque sou apaixonada por livros desde pequena. Além diso, sou meio chatinha com questões intelectuais, em especial regras da gramática. E devo confessar que achei Ann meio irritante quando vi o filme.

Não é clássico, mas...

Sheldon Cooper (Jim Parsons na série “The Big Bang Theory”), porque sou nerd e tenho orgulho disso. Em alguns episódios me vi retratada, como naquele em que Sheldon tenta perder o medo de dirigir.  
P.S.: Mas eu nunca usaria este chapéu
Qual seria sua personalidade clássica, amigo leitor?

Monday, May 14, 2012

Hitchcock, cinema mudo, perda & restauração

Vez ou outra uma boa notícia relativa ao cinema antigo causa frisson nos cinéfilos de plantão. Pode ser um festival, um clássico a ser exibido na tela grande ou um novo lançamento em DVD, mas sem dúvida uma das maiores alegrias do amante do cinema é saber que um filme considerado perdido foi encontrado. Isso aconteceu há pouco tempo, com a descoberta da versão completa de “Metropolis” (1927) na Argentina, tema do documentário “Metropolis Refounded”, em que se pode ver toda a animação dos responsáveis pelo feito. O problema é que não basta apenas encontrar, mas, principalmente, restaurar uma obra que ficou esquecida num arquivo durante décadas.
Ferdy on films
A maioria dos filmes considerados perdidos datam do cinema mudo. Naquela época não havia a preocupação com a preservação dos negativos que, para piorar, eram feitos de nitrato de prata, substância muito inflamável e também muito valiosa. Assim, incontáveis rolos de filme foram roubados e derretidos para serem vendidos. Outros tantos pereceram em incêndios.
Percebe-se logo que muito se perdeu entre grandes produções e sequências descartáveis. Vale lembrar que muitos grandes nomes do cinema mundial começaram suas carreiras na era muda, a exemplo de John Ford, Frank Capra, William Wyler e Alfred Hitchcock. O futuro mestre do suspense começou desenhando títulos e intertítulos em 1922, passando a diretor em 1925. Incrivelmente, ele chegou a se alegrar com o sumiço de seus primeiros filmes (como “The Mountain Eagle”), alegando que eles eram muito amadores e ainda não refletiam o estilo que o tornaria famoso. Mas uma descoberta recente faria Hitch se contorcer, pois um de seus primeiros filmes está prestes a voltar à exibição.  
Self-styled siren
Em uma incrível e feliz ocorrência, foram encontrados três dos seis rolos de “The White Shadow”, filme que estreou em 1923 levando o nome de Graham Cutts como diretor, embora quase todo o esforço criativo tenha sido de Hitchcock. Aos 24 anos, Hitch foi roteirista, editor, design e diretor-assistente do filme, encontrado na Nova Zelândia. Como o país era a última parada das projeções, os donos de cinema simplesmente descartavam os filmes depois de sua exibição. Mas um colecionador e projecionista, James Murtagh, não se desfazia das cópias e as preservava. E, depois de sua morte, em 1989, esta e outras raridades, como a única cópia de “Upstream”, filme feito por John Ford em 1927, foram para o arquivo nacional, mas sob um nome errado (“Two Sisters”) e só em agosto de 2011 foi corretamente identificado. Agora começa uma nova odisséia: restaurar a película.
Restauração não é privilégio de filmes muito antigos. Para se ter uma ideia do descaso cinematográfico, “Janela Indiscreta / Rear Window”, que não tem nem 60 anos, teve de ser restaurada. Isso porque na década de 1950 as cópias a serem mandadas para os cinemas ao redor do mundo eram todas feitas a partir do negativo original, que com isso ficava gasto rapidamente. 
This island rod

Os esclarecimentos não param por aí: nesta semana não serei somente eu que escreverei sobre Hitchcock e preservação cinematográfica, mas também outros tantos internautas, unidos na terceira edição de “For the Love of Film: The Film Preservation Blogatyhon”. O objetivo dessa blogagem coletiva é também arrecadar dinheiro para que as cenas restantes do filme sejam exibidas via internet para todo o mundo, com uma trilha sonora novinha. Por isso, se você quiser ajudar, clique aqui:



Se você quiser acessar um dos três sites anfitriões da blogathon, clique nas legendas dos banners.
Se você quiser saber mais sobre filmes perdidos, reencontrados ou parcialmente perdidos, clique nos links.

Thursday, May 10, 2012

Eu nos bastidores da notícia


Como muitos de vocês devem saber, no último dia 29 de abril ocorreu o lançamento de meu segundo livro, “Crítica Retrô – Apontamentos de uma jovem cinéfila”. Como foi minha primeira experiência de contato direto com o público, fiquei um pouco nervosa, mas valeu a pena: colhi os frutos de meu trabalho e, além de vender os livros, acabei sendo destaque no jornal e na televisão!

Mais do que me promover, quero com este post mostrar o quanto o trabalho de um blogueiro pode ser sério. Já há muita gente ganhando dinheiro com blogs, além de espaço em veículos como jornal e televisão. O blog foi um espaço que encontrei para começar a me expressar e dividir meus gostos, e com ele felizmente conheci muita gente tão cinéfila e talentosa quanto eu. Por isso venho mostrar que todos podemos fazer a diferença com nossos escritos. Aproveitem!

Saturday, May 5, 2012

Todos a bordo! Filmes com trens - Parte 2

Depois de uma rápida parada na estação ferroviária, convido todos vocês a subirem a bordo novamente para o resto da viagem pelos filmes que tratam de trens.

Pacto de Sangue / Double Indemnity (1944): A perigosa e sedutora Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) faz uma proposta ao vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray): se ele ajudá-la a matar o marido, eles fugirão com o dinheiro. O seguro que Neff faz prevê o dobro de indenização caso a morte aconteça em um trem, e ele se disfarça para que pensem que o marido de Phyllis morreu num misterioso acidente.

A Conquista do Oeste / How the West was Won (1962): Este épico em episódios contém uma sequência que trata da consrução de ferrovias. Zeb (George Peppard) é encarregado de proteger uma ferrovia dos índios que passam pelo local logo após a Guerra de Secessão.

Assalto ao trem pagador (1962): Baseado em um caso verídico, acontecido dois anos antes na Central do Brasil. Um grupo rouba o comboio que levava os pagamentos e planeja não gastar os 27 milhões de cruzeiros antes de um ano para não levantar suspeitas. No elenco estão Grande Otelo e Reginaldo Faria.

O Trem / The Train (1964): O coronel Von Waldhiem (Paul Scofield) coloca uma coleção de quadros em um trem rumo a Berlim. O inspetor-chefe da estação, Paul Labiche (Burt Lancaster), depois de uma série de problemas, é encarregado de conduzir o veículo até a Alemanha, que está sendo bombardeada pelos Aliados.
O Expresso de Von Ryan / Von Ryan’s Express (1965): Novamente tendo como plano de fundo a Alemanha da Segunda Guerra, desta vez quem está às voltas com um trem é Frank Sinatra que, após ser feito prisioneiro em um campo de concentração, deve pegar um comboio tendo como destino a Suíça, país neutro onde ele e outros cativos estarão a salvo.

Trens estreitamente vigiados (1967): Durante a Segunda Guerra, a Tchecoslováquia foi ocupada pelos alemães. É nesse cenário que um jovem, seguindo os passos do pai, decide ser ferroviário. Durante seu trabalho ele divaga, observa as pessoas, deseja ardentemente se envolver em um relacionamento e vive a conturbada época bélica.

O Trem (1973): Julien (Jean-Louis Trintignant) foge da invasão alemã no leste europeu via trem. Ele, que vai no vagão de carga, é separado da mulher e da filha, que viajam no vagão de passageiros. Durante o trajeto ele conhece a alemã Anna Kupfer (Romy Schneider), por quem se apaixona.

Assassinato no Expresso do Oriente / Murder on the Orient Express (1974): Na noite em que um trem para durante uma nevasca, ocorre um misterioso assassinato. Felizmente, o famoso detetive Poirot (Albert Finney) está a bordo e tem como complicada missão desvendar esse crime, em que todos os passageiros passam a ser suspeitos.

Thomas, o trem
Um Amigo Inesperado / After Thomas (2006): O menino Kyle é portador de uma forma grave de autismo. Para melhorar, sua avó sugere que ele tenha um bichinho. É aí que surge o labrador Thomas, batizado com o nome de um personagem de desenho animado que é um trenzinho.
Thomas, o cão
A invenção de Hugo Cabret / Hugo (2011): O órfão Hugo (Asa Butterfield) mora em uma estação de trens na Paris dos anos 1930. Ele acerta os relógios do local e, secretamente, tenta montar um autômato deixado pelo pai. Através deste objeto ele terá contato com uma lenda do cinema, o brilhante Georges Méliès (Ben Kingsley), que, contudo, não fazia filmes com trens.

Há uma infinidade de filmes com trens. Aqui foram listados só alguns, sendo que ficaram de fora as inúmeras películas em que alguém chega ou parte no trem, ou mesmo é esmagado por uma locomotiva. Chegamos à estação final. Espero que tenham gostado da viagem e me despeço com Judy Garland cantando enquanto embarca, claro, num trem.

Monday, April 30, 2012

Todos a bordo! Filmes com trens - Parte 1

Sugestão de consumo: Enquanto lê este post, escute esta obra-prima do compositor Heitor Villa-Lobos.

O trem foi um meio de transporte utilíssimo e que certamente marcou a vida de muitas pessoas. Acredito que vários leitores tenham doces memórias de viagens e passeios de trens. E entre essas lembranças, por que não incluir trens célebres do cinema?

Chegada do trem à estação (1895): O próprio cinema começou com um trem. Em 28 de dezembro de 1895 os irmãos Lumière projetaram suas primeiras películas. Reza a lenda que a chegada do trem assustou a plateia.   

O grande roubo de trem /The great train robbery (1903): Do primeiro filme ao primeiro faoreste. Em 1903, Edwin S. Porter rodou uma película de pouco mais de dez minutos que conta um engenhoso roubo de um trem. A cena final, com um ator atirando para a câmera, é famosa e, novamente, conta-se que causou frisson no público.

A General / The General(1927): As duas paixões de Johnnie (Buster Keaton) são sua namorada Anabelle (Marion Mack) e a locomotiva General. Quando ambas são raptadas por soldados do Norte durante a Guerra de Secessão, o covarde maquinista vai, sozinho, tentar resgatá-las.

O Expresso de Xangai / The Shanghai Express (1932): A bela Shanghay Lily (Marlene Dietrich) reencontra-se com o antigo amor, Donald Harvey (Clive Brook) durante uma viagem de trem de Xangai a Pequim. Esta é interrompida pelo ataque de bandidos, que ameaçam a vida de Donald, fazendo com que Lily tenha de agir para salvá-lo.

A Ceia dos Acusados / The Thin Man (1934): Embora o trem não seja fundamental, é no veículo que acontece o final do filme, e também onde começa e novamente termina sua sequência, “A Comédia dos Acusados / After the Thin Man”, de 1936. Quando Nick e Nora se beijam ao final do primeiro filme, o cão Asta esconde a cabeça entre as patas, cena que seria recriada no seriado “Casal 20”.

A Dama Oculta / The Lady Vanishes (1938): Uma garota rica conversa com uma governanta durante uma viagem de trem. Quando a velhinha desaparece no meio do trajeto, a garota começa a investigar o ocorrido, pois todos tentam convencê-la de que a senhora nunca esteve no trem.

Sombra de uma Dúvida / Shadow of a Doubt (1943): O clímax deste filme acontece em um trem, quando tio Charlie (Joseph Cotten) está indo embora e atrai Charlotte (Teresa Wright), com a clara intenção de livrar-se dela, pois a garota está desconfiada de que ele seja um assassino.

Pacto Sinistro / Strangers on a Train (1951): Hitchcock tinha alguma coisa com trens. É durante uma viagem numa locomotiva que o tenista Guy Haines (Farley Granger) e Bruno Anthony (Robert Walker) se conhecem. Bruno sugere uma troca de assassinatos: ele mataria a esposa de Guy e Guy, o pai de Bruno, de modo que nenhum dos dois crimes fosse descoberto.

Vale lembrar que a cena final de “Intriga Internacional / North by Northwest” (1959) também acontece num trem, lugar onde Roger O. Thornhill (Cary Grant) e Eve Kendall (Eva Marie Saint) se conhecem.

Quanto mais quente melhor / Some like it hot (1959): Logo que se juntam à banda rumo a Miami, Daphne (Jack Lemmon) e Josephine (Tony Curtis) viajam de trem com suas novas amigas. No meio da noite há incluive uma festinha na cabine de uma das meninas e, é claro, Daphne não hesita em entrar no clima. 

Thursday, April 26, 2012

Fred e Ginger, Ginger & Fred

Fred Astaire e Ginger Rogers formaram uma das duplas mais famosas do cinema. Suas figuras são tão indissociáveis quanto as de O Gordo e o Magro, Romeu e Julieta ou Tom e Jerry. Dançaram juntos em dez musicais que renderam milhões nas bilheterias. Era de se esperar que tamanho sucesso da dupla criasse um imenso legado e rendesse diversas homenagens. Foi isso que o cineasta italiano Federico Fellini fez em 1985, quando reuniu em uma sátira à televisão dois de seus colaboradores favoritos: os atores Marcello Mastroianni e Giulietta Masina.
Frederic Austerlitz nasceu em 1899. Doze anos depois nasceu sua futura parceira, Virginia Katherine MacMath.  Ele começou a dançar aos cinco anos ao lado da irmã Adele. Ginger só iria para os palcos aos 14, depois de ganhar um concurso de Charleston. Eles se conheceram na Broadway, nos ensaios de “Gun Crazy”, mas seria apenas em 1933, nas filmagens de “Voando para o Rio / Flying Down to Rio” que eles dançariam juntos. Apesar de coadjuvantes, fizeram sucesso e a RKO logo os escalou para mais musicais. Eram filmes de roteiro simples, que serviam apenas como veículos para elaborados números. 
Surgiram muitos boatos de que a dupla não se dava bem longe das câmeras, algo que nunca foi confirmado ou negado. Depois do fracasso de “A história de Vernon e Irene Castle”, em 1939, eles seguiram caminhos diferentes. Ginger revezou papéis dramáticos e cômicos, ganhando um Oscar em 1941. Fred continuou dançando com outras mulheres belas e talentosas, a exemplo de Rita Hayworth, Cyd Charisse, Judy Garland, Audrey Hepburn e Leslie Caron. Depois que envelheceu, fez papés dramáticos, participou de séries e foi indicado a um Oscar como Ator Coadjuvante por “Inferno na Torre / Towering Inferno”, em 1974. 

Em 1985, quando a televisão já predominava sobre o cinema, o cineasta Federico Fellini atacou o jovem meio de comunicação mostrando os bastidores grotescos de um programa de variedades. Em meio ao show de horrores um ex-casal de dançarinos tenta voltar à cena, depois de trinta anos sem se apresentar. Amelia e Pippo bailavam como Fred e Ginger e depois da aposentadoria dos palcos seguiram suas vidas. Ou melhor, ela seguiu, enquanto ele cultivou a saudade. Novamente Federico trata do tema do saudosismo, atacando a nova forma de diversão popular. As demais atrações são pitorescas, mas Amelia e Pippo também têm sua dose de comédia. 
Aqui, ao contrário do filme “Monstros / Freaks”, de 1932, estamos frente a um show de horrores ao qual os participantes vão por livre e espontânea vontade. E talvez isso os torne ainda mais repugnantes. Nem se tivesse uma bola de cristal Fellini poderia imaginar que estava criando um filme que continuaria tão atual. Ainda hoje, com a mania de correr atrás dos 15 minutos de fama, as mais variadas pessoas se submetem a reality shows e outros programas de televisão (ou vídeos na Internet) mostrando seus duvidosos talentos. E, como o diretor italiano, nós também olhamos incrédulos, suspirando pelo esquecimento de talentos verdadeiros de Ginger & Fred.  
Assim como os dançarinos de Fellini, Fred e Ginger se reencontraram: fizeram mais um musical, “Ciúme, sinal de amor / The Barkleys of Broadway” (1949) e, em 1950, quando Fred ganhou seu Oscar honorário, foi Ginger quem lhe entregou o prêmio.

Thursday, April 19, 2012

A morte neste jardim (1956)

Todo diretor tem marcas que o definem e o tornam facilmente identificável por seu público. Mas isso não impede que filmes peculiares surjam dentro de filmografias ricas e sejam quase esquecidos exatamente por sua peculiaridade. Neste filme de 1956, Buñuel passeia por diversos gêneros e produz algo único, mas que ainda apresenta alguns detalhes para o que chame de seu.  
Tudo começa com um clima de faroeste, quando um forasteiro chega a uma cidadezinha poeirenta. Este é o aventureiro Chark (Georges Marchal), que está sendo perseguido pela polícia devido a um assalto a banco. Depois de um grande incêndio e de uma revolta dos mineradores locais, ele se vê obrigado a fugir novamente, desta vez de barco, junto com o minerador empobrecido Castin (Charles Vanel) e sua filha surda-muda, Maria (Michèle Girardon), o padre Lizzardi (Michel Piccoli) e a prostituta Djin (Simone Signoret), que está dividida entre o amor de Chastin e o de Chark.
A partir daí, tem-se início uma odisseia, saindo da Guiana Francesa com destino à Amazônia brasileira. Enquanto zarpam, eles são perseguidos por policiais e, em terra firme, discutem em relação a uma caixa de joias e ao caminho que devem seguir. Eles tentam sobreviver neste ambiente, sem qualquer traço de heroísmo, entregando-se à cobiça e à loucura.
Não poderiam faltar insetos numa obra de Buñuel. Tendo a floresta como cenário, há a possibilidade de inserir formigas na cena em que elas cobrem uma cobra morta que serviria de refeição ao grupo. Outra marca registrada do diretor é o ataque à religião, pois o padre não ajuda muito na sobrevivência do grupo. Um dos momentos-chave é quando Lizzardi arranca algumas folhas de sua Bíblia para alimentar a fogueira, mas não chega a colocá-las para queimar. Assim como em “Viridiana” (1960), vemos um membro do clero cheio de boas intenções, tentando ajudar um grupo perdido (aqui, literalmente), mas falhando em seu objetivo.
Este foi um dos filmes feitos durante a fase mexicana de Buñuel, ainda que tenha elenco francês. Após a Guerra Civil Espanhola e com o início da Segunda Guerra Mundial, Buñuel saiu da Espanha e passou três anos trabalhando no museu de Arte Moderna de Nova York. Neste período, ele escreveu o argumento que foi adaptado para o filme “The beast with five fingers” (1946), com Peter Lorre. No mesmo ano ele foi para o México, onde realizou 19 filmes e se preparou para o auge de sua carreira, que viria com os filmes “A bela da tarde / Belle de jour” (1967) e “O discreto charme da burguesia” (1972).  
Com um misto de faroeste e aventura (do estilo “Por um punhado de dólares” encontra “Uma aventura na África”), este é um filme atípico dentro da filmografia de Buñuel. Sem deixar nada inexplicado ou abusar dos simbolismos, o diretor produz um de seus filmes mais acessíveis, mas não por isso menos belo. Inteligente e profundo, é um filme imperdível. 
Maria, Lizzardi e Chark

Wednesday, April 11, 2012

Crítica Retrô – O livro

Alguns dos leitores do meu blog conhecem minha coluna Papel & Película no site Leia Literatura. Lá eu escrevo sobre adaptações de obras literárias para o cinema, ou seja, dos livros para as telas. Resolvi inverter essa ordem e assim escrevi meu segundo livro, “Crítica Retrô – Apontamentos de uma jovem cinéfila”.
Reuni o que estava na tela (do computador, mas relativo ao que já esteve nas telas do cinema) e organizei um livro com alguns artigos publicados em meu blog, no Leia Literatura e no recém-extinto Júri de Cinéfilos do Cinebulição, além de muito material inédito, que precisou de mais tempo para ser moldado e revisado e que por isso acabou não sendo publicado online.
Já escrevi um livro, por isso sei como é todo o processo, pois continuo minha parceria com a PerSe, que permite que o autor cuide de todos os detalhes na publicação do livro. Mas dessa vez haverá uma novidade: esta obra será lançada em uma tarde de autógrafos! Chiquérrimo!
Aproveitando a Feira do Livro de Poços de Caldas, a PerSe disponibilizou aos seus autores o espaço de seu estande para o lançamento e/ou comercialização dos livros. Meu grande dia será 29 de abril, domingo que antecede o feriado do Dia do Trabalho, e o evento ocorrerá das 14 às 17 horas.
Agradeço a todos que lêem este blog e com isso me dão incentivo para encontrar sempre temas novos e interessantes. Agradeço também a todos que de algum modo atuaram na maravilhosa indústria do cinema e deram a tantos filmes o título de “clássicos”.
Espero vocês em mais esse grande passo na minha carreira!


Loja virtual:  
http://perse.doneit.com.br/Paginas/DetalhesLivro.aspx?ItemID=1229

Wednesday, April 4, 2012

Centenário de Mazzaropi

Era uma entediante tarde de domingo, há MUITOS anos (se é que se pode dizer “há MUITOS anos” quando se tem apenas 18 de idade) e eu decidi assistir a um filme que estava começando. O artista era Mazzaropi, sobre quem eu já havia lido em um almanaque. Não lembro o nome do filme, sequer o enredo, mas a lembrança do riso ficou. Riso compartilhado com milhares de outras pessoas que tiveram a sorte de vê-lo na tela grande e que também não esqueceram a comicidade deste artista cujo centenário será comemorado em breve.
Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo em 9 de abril de 1912, filho de um italiano com uma descendente de portugueses, e recebeu o mesmo nome do avô, Amazzio. Mas seria o outro avô sua maior inspiração, pois era tocador de viola e dançarino. Os pais passaram a trabalhar em uma companhia de tecelagem em Taubaté, onde ele mais tarde também trabalharia. Era bom aluno, sempre declamava poemas em festas escolares e foi aos 10 anos, num monólogo, que pela primeira vez interpretou um caipira.
Assim como outros astros do cinema brasileiro, Mazzaropi começou no circo, juntando-se a uma trupe aos 14 anos e contando piadas entre as apresentações de um faquir. Três anos depois, ele se viu obrigado a voltar para casa sem emprego, mas a efervescência trazida pela Revolução de 32 reacendeu sua vontade de atuar. Não demoraria para que ele transformasse o mais famoso grupo itinerante do interior de São Paulo, a Troupe Olga Crutt, na Troupe Mazzaropi, inclusive levando seus pais para trabalharem com ele.
Quase dez anos depois, Mazzaropi recebeu boas críticas por sua peça “Filho de sapateiro, sapateiro deve ser”. Com o sucesso veio em 1946 o convite para o programa Rancho Alegre, da Rádio Tupi, em que ele contava piadas e cantava ao som de uma sanfona. Só na primeira semana, ele recebeu 2000 cartas de fãs, que lotavam os espetáculos que ele fazia pelo país.
Mazzaropi teve o privilégo de se apresentar na estreia da TV Tupi tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, respectivamente em 1950 e 1951. Seu programa Rancho Alegre seria a primeira atração da televisão brasileira a contar com um patrocinador.
Ao contrário de tantos outros artistas, o cinema foi o último território a ser desbravado por Mazzaropi. Em 1951 ele assinou contrato com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, onde faria seus três primeiros filmes, passando por diversas outras produtoras até fundar a sua própria em 1958: Produções Amácio Mazzaropi, a PAM Filmes. Para produzir as primeiras películas, ele vendeu tudo o que tinha. Valeu a pena: fez mais sucesso, ganhou seu próprio programa de variedades e comprou uma fazenda para construir seu estúdio.
Em 1960 ele fez o filme Jeca Tatu, repetindo o papel de caipira em mais nove produções. No mesmo ano estreia na direção, com “As aventuras de Pedro Malasartes”. E o pioneirismo não parou por aí: “Tristeza do Jeca”, do mesmo ano, seria o primeiro filme nacional colorido em Eastmancolor, tendo sido editado no México. E, por fim, em 1973 sairia o primeiro de seus dois filmes rodados no exterior: “Um caipira em Bariloche”.
Mazzaropi ganhou diversos prêmios durante sua carreira. Seu filme “No paraíso das solteironas” rendeu, em um ano, 2 bilhões e 650 milhões de cruzeiros. Rodou um filme autobiográfico, “Betão ronca ferro”, em 1970, e dois anos depois se encontrou com o presidente Emílio Garrastazu Médici, pedindo maiores verbas para o cinema brasileiro. Ele se encontraria com mais dois presidentes, sempre falando sobre a sétima arte.
Sucesso garantido
O artista nunca se casou, mas, segundo alguns depoimentos, criou ao longo de sua vida cinco meninos, embora em algumas biografias conste que ele teve apenas um filho adotivo, de nome Péricles. Mazzaropi faleceu em 13 de junho de 1981, aos 69 anos, de septicemia (infecção generalizada), dois anos antes da morte da mãe. Fez ao todo 32 filmes e contracenou com grandes nomes, como Hebe Camargo, Odete Lara, Luís Gustavo e Tarcísio Meira, tendo estes últimos estreado sob a tutela do mestre. Ensinou gerações a rirem com sua personagem caipira, mas na vida real era ambicioso, perspicaz e gostava de se vestir com elegância. Caipira esperto, uai!  
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