} Crítica Retrô

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Monday, September 7, 2015

Nada é Sagrado / Nothing Sacred (1937)

Em 1927, William A. Wellman dirigiu “Asas”, famoso por ter sido o primeiro ganhador da história do Oscar de Melhor Filme. Dez anos depois, Wellman trabalhava para David O. Selznick, que tinha ambições multicoloridas naquele ano de 1937. Foi o ano em que a parceria Wellman/Selznick rendeu dois filmes: “Nasce uma Estrela / A Star is Born” (meu filme favorito de todos os tempos) e “Nada é Sagrado / Nothing Sacred”. Enquanto o primeiro é um drama, o segundo é uma das melhores screwball comedies de todos os tempos. E, bônus: em glorioso Technicolor!

In 1927, William A. Wellman directed “Wings”, a film famous because it was the frist ever to win the Best Picture award at the Oscars. Ten years later, Wellman worked for David O. Selznick, who had colorful ambitions for the year of 1937. It was the year in which the Wellman/Selznick partnership originated two movies: “A Star is Born” (my favorite film of all time) and “Nothing Sacred”. While the first one is a drama, the later one is one of the best screwball comedies ever made. And with a bonus: it is in glorious Technicolor!
Wally Cook (Fredric March) é um jornalista que não averiguou bem suas fontes e acabou levando um falso sultão a um grande jantar. Como punição, ele passa a trabalhar na sessão de obituários, mas não por muito tempo: Wally sabe fazer boas reportagens, de “interesse humano”, e convence seu chefe a deixá-lo voltar à ativa para cobrir um caso de contaminação por rádio.

Wally Cook (Fredric March) is a journalist who hasn’t checked his sources and took a fake sultan to a dinner party. As a reprimand, he is sent to the obituaries section, but not for long: Wally knows how to identifies good news and top report things of “human interest”, and that’s how he convinces his boss to send him to cover a case of radium contamination.
Apesar da pouca simpatia dos habitantes da pequena cidade de Warsaw, Wally por fim encontra Hazel Flagg (Carole Lombard), a moça que tem pouco tempo de vida por causa da contaminação. Ele a convence a ir para Nova York, mas há segundas intenções: enquanto Hazel quer se divertir, Wally e a equipe do jornal pensam em explorar o drama dela a qualquer custo. Entretanto, a própria Hazel e o médico excêntrico que a acompanha, o doutor Enoch Downer (Charles Winninger), guardam um segredo.

Although he is not met with niceness by the population of the little town of Warsaw, he eventually finds Hazel Flagg (Carole Lombard), the lady who has little time to live because she was contaminated. He convinces her to go to New York, but with second intentions: while Hazel wants to have fun, Wally and the newspaper team want to explore her drama to the most. However, Hazel and the doctor who is travelling with her, doctor Enoch Downer (Charles Winninger), are keeping a secret.
Carole Lombard está, como sempre, ótima. Como Hazel, ela fala rápido, age despretensiosamente e tem expressões faciais impagáveis, melhor ainda captadas em Technicolor. Seu papel havia sido pensado para Janet Gaynor, que contracenara com March em “Nasce uma Estrela / A Star is Born”, obtendo muito sucesso. Apesar do grande talento de Janet, é inegável que não havia melhor escolha que Carole. “Nada é Sagrado / Nothing Sacred” pode não chegar ao nível de maestria de outros filmes da atriz, como “Irene, a Teimosa / My Man Godfrey” (1936), mas está quase lá.

Carole Lombard is great, as always. As Hazel, she is a fast talker who acts carelessly and has amazing facil expressions – that look even better in Technicolor. Her role was intended to be played by Janet Gaynor, who acted alongside Fredric Marc in “A Star is Born” with great success. Even though Janet was talented, we can’t deny that Carole was the best choice. “Nothing Sacred” may not be as good as her other films, like “My Man Godfrey” (1936), but it is in her TOP 5.
Talvez se William Powell interpretasse o jornalista Wally Cook (e eu consigo visualizá-lo perfeitamente no papel) o filme seria ainda melhor. Mas ele não deixa de ser bom, e deve isso a Carole e ao roteirista Ben Hecht. Hecht recebeu das mãos de Val Lewton, então um jovem subordinado de Selznick, um conto de James H. Street e decidiu adaptá-lo para o cinema. Hecht criou um personagem para John Barrymore, seu grande amigo, mas Selznick se recusou a trabalhar com o ator, então nos últimos anos de sua carreira e de sua batalha com o alcoolismo. Hecht abandonou o projeto (embora ainda receba crédito), Selznick fez algumas mudanças no roteiro, os dois fizeram as pazes e trabalharam em mais filmes juntos.

Maybe, if William Powell had played Wally Cook (and I can perfectly envision him in the role), the film would have been even better. But it is a nice movie, thanks to Carole and screenwriter Ben Hecht. Hecht received from Val Lewton, then a Selznick subordinate, a short story written by James H. Street and decided to adapt it to the screen. Hecht wrote the character to John Barrymore, his good friend, but Selznick refused to work with the actor, who was then in the last years of his career and figtning alcoholism. Hecht abandoned the projet (even though he received credit in the movie), Selznick made some changes in the script, the two became friends again and worked togheter in many other films.
É impossível agradar a todos / You can't please them all
Mas precisamos falar sobre o subestimado diretor William A. Wellman. Em minha opinião, Wellman merece um lugar entre os melhores diretores de todos os tempos, junto com Hitchcock, Fellini, Truffaut, Leo McCarey e W.S. Van Dyke. Mas, assim como os dois últimos, Wellman não se tornou um auteur. Wellman não tinha uma marca registrada, não trabalhava com um só gênero ou só um grupo de atores, mas dominava as técnicas de sua arte. Basta uma cena do filme para percebermos isso: quando Wally e Hazel estão andando pelas ruas de Warsaw, eles ficam um longo momento com os rostos encobertos por um tronco de árvore. Como todas as tomadas dos filmes são planejadas, não se trata de um erro, mas sim de um truque de Wellman: filmar uma cena com bom enquadramento é fácil, difícil é filmar uma cena que esconda o rosto dos protagonistas – que estão eles mesmos escondendo suas verdadeiras intenções – de um jeito tão íntimo e revelador.

But we really need to talk about underrated director William A. Wellman. In my opinion, Wellman deserves to be cited among the best directors of all times, next to Hitchcock, Fellini, Truffaut, Leo McCary and W.S. Van Dyke. But, just like the two last ones, Wellman didn’t become an auteur. Wellman didn’t have a registered mark, didn’t work in only one genre or with a small group of actors, but he knew all about the film techniques. In one scene we can realize his status as a master: when Wally and Hazel are walking by the streets of Warsaw, they stay a long while with their faces covered by a tree trunk. Since all the film shots are planned, it is not a mistake, but a trick by Wellman: to shoot a scene with a good framing is easy, but it is difficult to shoot a scene in which the leads’ faces are hidden – because the leads are, themselves, hiding their true intentions – in such an intimate and revealing way.

Em Technicolor, Carole Lombard nunca esteve tão bonita – nem tão frágil. É doloroso pensar que a comédia trata de uma moça destinada a morrer jovem, quando sabemos que o destino de Carole foi a morte em um acidente aéreo em 1942, quando ela tinha apenas 33 anos. Mas esqueçamos por um momento a vida e vamos nos concentrar na arte: porque só Carole Lombard (com uma ajudinha de Wellman, que foi inclusive colocado em uma camisa-de-força em uma brincadeira da atriz) poderia fazer um filme tão delicioso quanto este.

In Technicolor, Carole Lombard never looked so beautiful – or so fragile. It’s painful to think that the comedy is about a woman who is going to die young, when we know that Carole died in a plane crash in 1942, when she was only 33. But let’s forget real life for a moment and pay attention to fiction: because only Carole Lombard (with a little help from William Wellman, who was even put in a straightjacket by Carole in a prank) could make such a delightful film. 
Carole está DESMAIADA / Carole has FAINTED

Nada é Sagrado / Nothing Sacred” (1937) está disponível no YouTube e no Internet Archive. Aproveite!

“Nothing Sacred” (1937) is available on YouTube and Internet Archive. Enjoy!

This is my contribution to the William Wellman Blogathon, hosted by Liz at Now Voyaging.


Friday, August 28, 2015

Joana D’Arc (1948) / Joan of Arc (1948)

O filme nem precisa começar para termos certeza de que estamos assistindo a uma obra do diretor Victor Fleming. É um filme longo (145 minutos!) e os atores nos são apresentados em uma lista muito semelhante à que aparece no início de “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939). É um elenco enorme, um épico em Technicolor e sua protagonista é uma personagem feminina forte e inesquecível – mais até que Scarlett O’Hara.

The film hasn’t even started and we’re already sure that we’re watching a Victor Fleming production. It’s a long film (145 minutes!) and the actors are presented in the beginning in a list that looks a lot with the opening credits of “Gone with the Wind” (1939). It has a huge cast, it is an epic in Tehcnicolor and the lead is a strong and unforgettable female character – even more iconic than Scarlett O’Hara.



Você já deve conhecer um pouco da história: o ano é 1429. A Inglaterra e a França estão em guerra há quase 100 anos (o conflito começou em 1337). Uma jovem camponesa de 17 anos, Joana D'Arc (Ingrid Bergman) recebe um chamado de Deus, dizendo-lhe que ela deve procurar o Delfim Carlos (José Ferrer) e comandar um exército que levará a França à vitória. O Delfim será coroado rei, com o título de Carlos VII, seguindo a vontade de Deus. Claro que isso não é uma missão fácil. Joana encontra muitas dificuldades em seu caminho, seja com as autoridades ou com os capitães no campo de batalha. É difícil para eles seguir as ordens de uma moça, e nem de longe este machismo fica restrito ao século XV em que se passa o filme. Joana D’Arc é uma figura histórica e religiosa, mas os temas de seu drama não poderiam ser mais atuais. Além do machismo, há as lutas políticas e a corrupção.

You may already know the essentials about the story: the year is 1429. England and France have been at war for nearly 100 years (the war started in 1337). A 17 year-old peasant, Joan of Arc (Ingrid Bergman) receives a message from God saying that she must go to the Dauphin Charles (José Ferrer) and lead the army that will make France will the war. The Dauphin will be proclaimed King Charles VII, as God wishes. Of course this won’t be an easy task. Joan meets many obstacles in her way, both with authorities and with commanders in the battlefield. For them, it’s difficult to follow the orders of a young woman, and this sexist bias is not something that was left behind in the 15th century. Joan of Arc is a historical and religious figures, but the themes of her story couldn’t be more modern. Besides sexism, there are political disputes and corruption.

Como Joana D'Arc, Ingrid Bergman jamais aparenta ser uma adolescente (a estrela tinha 33 quando o filme foi feito), mas esta falha é perdoável. Ingrid imprime uma força sobrenatural ao papel, com sua voz grave nos momentos de dar ordem, e com doçura e inocência no olhar ao falar de Deus e das vozes dos santos que ouve. Gosto de pensar que a voz da maior intérprete de Joana D'Arc, Renée Falconetti (de “A Paixão de Joana D'Arc”, 1928) de alguma maneira se assemelharia à de Ingrid. Há convicção total na Joana D'Arc de Bergman, e ao mesmo tempo uma pureza descomunal.

As Joan of Arc, Ingrid Bergman never looks like a teenager (she was 33 when the film was made), but this is forgivable. Ingrid offers a supernatural strength to the role, with a deep voice when she's giving orders and with a sweet, innocent look when she talks about God and the voices of the saints she hears. I like to think that the voice of the actress who gave the best performance as Joan of Arc, Renée Falconetti (from “The Passion of Joan of Arc”, 1928) in some way sounded like Ingrid's voice. There is total conviction in Bergman's Joan of Arc, and at the same time a colossal purity.

Em 1946, Bergman protagonizou a peça “Joan of Lorraine”, que foi a base do filme. Entretanto, a peça é metalinguística, pois mostra como os atores de uma montagem de Joana D’Arc têm suas vidas mudadas pelos personagens que interpretam. Para os padrões de Hollywood, foi necessária uma história mais convencional, e sobrou apenas a trajetória da mártir no roteiro (imagine se o filme fosse feito na Inglaterra: Laurence Olivier perfeitamente obteria o efeito “teatro filmado”). Bergman queria muito fazer o filme, e por isso se juntou ao marido, o dentista Peter Lindstrom, ao diretor Fleming e ao produtor Walter Wanger para criar a Sierra Pictures – cujo primeiro e único projeto foi este épico impressionante.

In 1946 Ingrid starred in the play “Joan of Lorraine”, thar served as the basis for the film. The play, however, is metalinguistic, as it shows how the actors appearing in a play about Joan of Arc have their lives changed by the roles they play. In order to follow Hollywood patterns, the story became more conventional, focusing only in the martyr's trajetory (imagine if the film was made in England: Laurence Olivier could perfectly obtain the effect of “filmed theater”). Bergman really wanted to make the film, that's why she, her husband, the dentist Peter Lindstrom, the director Victor Fleming and the producer Walter Wanger got together and created Sierra Pictures – whose first and only project was this impressive epic film.

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Victor Fleming e Ingrid Bergman

Talvez você também saiba qual foi o destino da película. Pouco após a estreia, Ingrid se envolveu com o diretor italiano Robert Rossellini e ganhou a antipatia dos americanos, que por sua vez se recusaram a ver uma adúltera interpretando uma santa no cinema. Victor Fleming faleceu poucos meses após o final das filmagens, e no auge do escândalo Bergman/Rossellini, o filme foi editado para uma versão de apenas 100 minutos, perdendo muito de suas características. Apenas em 1998 uma restauração foi feita e a versão completa ressurgiu.

Maybe you already know which was the fate of this film. A little after the premiere, Ingrid got involved with the Italian director Roberto Rossellini and became a pariah in the USA, as the public refused to see an adulterous woman playing the role of a saint onscreen. Victor Fleming passed away a few months after filming and, in the apex of the Bergman/Rossellini scandal, the film was edited into a 100-minute version, losing a lot of its characteristics. Only in 1998 a restoration was made and the complete version reappeared.

 

A versão de Joana D’Arc de 1948 é mais completa que o clássico silencioso de 1928? Provavelmente, pois conta tudo que se sabe sobre a santa, mesmo que ainda haja muitas dúvidas e lendas sobre ela. Mas jamais será mais emocionante. Mais bonita, sim, em fotografia Technicolor ganhadora do Oscar, mas a versão de 1928 tem em sua crueza o maior trunfo. Os algozes de Falconetti são mais dignos de ódio que os de Bergman. O julgamento da Joana D’Arc de Bergman é desonesto, o de Falconetti é desumano.

Is the 1948 version more complete than the silent classic from 1928? Probably, because it tells everything we know about the saint, even though there are still many doubts and legends about her. But it's not as emotive – and it'll never be. Prettier, yes, in an Oscar-winning Technicolor photography, but the 1928 has in its rawness its biggest triumph. Falconetti's accusers are more hateful than Bergman's. The judgement of Bergman's Joan of Arc is dishonest, the judgement of Falconetti's is inhuman.

Bergman mal sabia que seu relacionamento com Rossellini faria dela uma espécie de mártir da moral e dos bons costumes hipócritas da sociedade pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1954 ela voltaria a interpretar Joana D’Arc, dirigida pelo novo marido em um filme estranhíssimo (afinal, é um musical!). Mas, apesar das críticas e do pouco caso com que é tratada, é a versão de 1948 que traz uma das melhores Joana D’Arc do cinema. É a força de Ingrid Bergman, atuando, como sempre, com perfeição.

Bergman barely knew that her relationship with Rossellini would make her some kind of martyr of morality and hypocritical good costumes in the post-WWII societey. In 1954 she would again play Joan of Arc, directed by her new husband in a very strange film (after all, it's a musical!). But, even with the critics and the near erasure it's the 1948 version that brings one of the best Joans of Arc in the history of film. It's Ingrid Bergman's strangth, who once again acts with perfection.


This is my contribution to The Wonderful Ingrid Bergman Blogathon, hosted by dear Virginie at The Wonderful World of Cinema. Happy 100th birthday, Ingrid!

Friday, August 14, 2015

“A Mulher do Dia / Woman of the Year” (1942) e a mulher que eu quero ser

Este texto contém spoilers.

Quando somos crianças, nos fazem a pergunta: “o que você quer ser quando crescer”? Acredito que seria mais sensato reformular a questão, e perguntar: “QUEM você quer ser quando crescer”? Sim, respostas absurdas serão inevitáveis, mas tantas outras poderão ser surpreendentes, reveladoras e de muita ajuda no futuro. Ter um modelo, um exemplo a ser seguido, é muito importante na vida de qualquer pessoa. E, se alguém me perguntasse “quem você quer ser quando crescer”, eu responderia: Tess Harding.
Quem é Tess Harding? Tess é a personagem de Katharine Hepburn em “A Mulher do Dia / Woman of the Year” (1942). Tess é uma jornalista muito respeitada da área de relações internacionais. Seu colega da sessão de esportes do jornal New York Chronicle é Sam Craig (Spencer Tracy) que, após ouvir uma entrevista de Tess no rádio, critica os conhecimentos dela sobre esportes em sua coluna no jornal. Tess revida, se inicia uma pequena guerra entre os dois e ela culmina com o primeiro encontro deles na diretoria do jornal. É amor à primeira vista.
Abra bem os olhos para as cenas em que Tess e Sam se beijam, em silhueta, em frente a uma janela iluminada. É uma sequência muito bonita em um filme que tem tudo de lindo. Katharine Hepburn nunca foi capturada tão bela pela câmera. A casa do pai de Tess também é um encanto, e até o campo de beisebol tem seu charme. O amor embeleza tudo no filme.
Tess representa tudo o que eu desejo ser: uma mulher moderna, independente, inteligente, reconhecida por sua inteligência, bem-humorada, charmosa. Tess sabe se portar em meio ao caos, aprende qualquer coisa com rapidez, fala muitos idiomas, e ainda se preocupa com os órfãos. Eu amo o cabelo de Tess, as roupas de Tess (criadas pelo estilista Adrian!), a independência de Tess, o sucesso de Tess, o apartamento de Tess, a vida de Tess.
Há uma cômica inversão de papéis no romance. Sam é atrapalhado, ansioso, inseguro. É o alvo da maioria das piadas, mas é também o personagem central do filme, com destaque desde o início. A carreira de Tess o incomoda, e incomodaria qualquer homem acostumado à velha ordem machista que de uma hora para outra se visse atado a uma fêmea alfa.
Muitas pessoas se sentem incomodadas com os minutos finais do filme, pois acreditam que Tess desiste de tudo que conquistou para se tornar uma dona de casa. Ela até tenta fazer isto, em uma sequência adorável de comédia física, mas o gosto amargo da derrota feminista some logo: eu interpreto que, se o filme tem alguma mensagem, é que Tess não precisa ser a jornalista incrivelmente durona nem a esposa perfeita. Como Sam diz, não precisa ser Tess Harding nem a senhora Craig. Pode ser Tess Harding-Craig, e encontrar um ponto de equilíbrio entre as duas personas tão diferentes.
E é esta a lição mais importante que Tess me ensinou: você não deve fazer só o que quer, mas também não deve deixar a sociedade regular a sua vida. É necessário lutar para conquistar o que se deseja, mas vez ou outra é preciso se deixar moldar um pouco pelo mundo e pelas mudanças. Se tivesse feito apenas o que eu queria ou se tivesse seguido cegamente as ordens de outros, eu não estaria aqui agora. Talvez estivesse melhor, talvez estivesse pior, mas não estaria feliz. Obrigada por ser minha mentora, Tess Harding.

This is my contribution to the Anti-Damsel Blogathon, hosted by the mighty girls Fritzi at Movies, Silently and Jo from The Last Drive In. Girl power!

Tuesday, August 11, 2015

Sherlock Holmes (1922)

Sherlock Holmes é um dos personagens literários mais famosos do mundo. Criado por Arthur Conan Doyle em 1887, Holmes foi protagonista de 60 obras do autor e, até o presente momento, de mais de 300 filmes. Começando em 1900, Sherlock se tornou o personagem mais prolífico nas telas, segundo o livro Guinness, e já foi interpretado por mais de 70 atores. O grande John Barrymore interpretou Sherlock Holmes apenas uma vez, em 1922, mas que interpretação!

Sherlock Holmes is one of the most well known literary characters in the world. Holmes was created by Arthur Conan Doyle in 1887 and was the lead in 60 works by Doyle and, until today, more than 300 movies. Starting in 1900, Sherlock became the most portrayed character on screen, according to the Guinness Book, and was played by more than 70 actors. The great John Barrymore played Sherlock Holmes only once, in 1922, but, oh my, what a performance he gave!
Temos no filme um elenco primoroso, liderado por John Barrymore. Uma filmagem aérea de Londres. Um professor Moriarty que é a combinação de Abraham Lincoln com o Doutor Caligari. Um Nick Charles embrionário. Cinematografia belíssima. Todos os ingredientes juntos criam uma película imperdível.

We have in the movie an outstanding cast, starting with John Barrymore. Aerial footage of London. A professor Moriarty who is the combination of Abraham Lincoln and Doctor Caligary. An embrionary Nick Charles. Wonderful cinematography. All the ingredients create a must-see movie.
Era uma vez um estudante de Cambridge chamado Sherlock Holmes (John Barrymore). Seu amigo Watson (Roland Young) indica-o para resolver um problema que aflige o príncipe Alexis (Reginald Denny): vossa alteza está sendo acusado de roubar dinheiro da sociedade atlética da universidade. Este primeiro caso leva Holmes a se encontrar com o professor Moriarty (Gustav von Seyffertitz, que aterrorizou Mary Pickford em “Sparrows”, de 1926), e então nosso amigo Sherlock encontra sua vocação: trabalhar como detetive para livrar o mundo de todo o mal representado por gente como Moriarty, e então se estabelece na 221B Baker Street.

Once upon a time there was a student from Cambridge called Sherlock Holmes (John Barrymore). His friend Watson (Roland Young) refers him to solve a problem that Prince Alexis (Reginald Denny) has: your Highness is being accused of stealing money from the university’s athletic society. This first case takes Sherlock to Professor Moriarty (Gustav von Seyffertitz, who terrorized Mary Pickford in “Sparrows”, from 1926) and then our friend Sherlock finds his calling: he was born to be a detective and erase the evil off the world. Then Sherlock establishes 221B Baker Street as his headquarters.
Anos depois, estamos diante do Sherlock Holmes que conhecemos e amamos. O príncipe Alexis se tornou herdeiro do trono, desistiu do casamento com Rose Faulkner (Peggy Bayfield) e agora está sendo chantageado por Moriarty. Holmes não se importa muito com a reputação do príncipe, mas não vai perder a chance de rever Alice Faulkner (Carol Dempster), por quem se apaixonou.

Years later, we find the Sherlock Holmes we all know and love. Prince Alexis inherited the throne, broke up his engagement with Rose Faulkner (Peggy Bayfield) and is being blackmailed by Moriarty. Holmes doesn’t really care about the Prince’s reputation, but he won’t miss the opportunity to once again see Alice Faulkner (Carol Dempster), with whom he fell in love.
Sherlock in love
O diretor Albert S. Parker não teve como inspiração as histórias originais de Conan Doyle, mas sim uma peça de 1899 escrita e protagonizada por William Gillette, o maior Sherlock Holmes do teatro. Gillette levou a peça para o cinema em 1916, e por muitos anos seu Sherlock cinematográfico foi considerado perdido, mas felizmente o filme foi encontrado e restaurado em 2015.

Director Albert S. Parker didn’t adapt any of Conan Doyle’s original stories, but an 1899 play written and starred by William Gillette, the greatest Sherlock Holmes of the stage. Gillette turned his play into a movie in 1916, and for many years his film was considered lost, but fortunately it was found and restored in 2015.
William Gillette
A restauração também faz parte da história do Sherlock de 1922, pois o filme também ficou durante décadas desaparecido. Nos anos 70, uma cópia foi encontrada, mas com os takes fora de ordem. O trabalho de detetive ficou por conta do próprio diretor Albert S. Parker, que instruiu os restauradores sobre a ordem dos takes. Com falhas de memória, Parker morreu antes de o trabalho ser completado, e coube ao historiador Kevin Brownlow reconstruir a película da melhor forma possível. A restauração foi financiada por Hugh Hefner – sim, o editor da revista Playboy.

Restoration is also part of the story involving the 1922 Sherlock. This film was also considered lost for decades. In the 1970s, a copy was found, but with the takes all mixed. The detective work was made by Albert S. Parker himself, who recalled the order of the takes and helped the restaurators. His memory, however, was fading, and Parker died before the job was completed. Then historian Kevin Bowwnlow jumped into the work and rebuilt the film the best way he could. The restoration was paid by Hugh Hefner – yes, the editor of Playboy magazine.
Se o filme fosse perdido, além da interpretação de Barrymore, o mundo também ficaria para sempre sem ver uma jovem Hedda Hopper no papel secundário de Madge Larrabee, e seria perdida também a estreia de William Powell no cinema, sem bigode, interpretando um estudante de Cambridge que depois se torna um mordomo. A imagem a seguir, senhoras e senhores, é a primeira vez que o mundo viu nosso querido Bill Powell:

If the film was lost, besides Barrymore’s performance, the world would never again see a young Hedda Hopper as secondary character Madge Larrabee, and William Powell’s film debut would also be lost forever. William is here without a mustache, playing a Cambridge student who later becomes a butler. The image above, ladies and gentlemen, is the very first time the world saw our beloved Bill Powell: 
Ao final, o que temos é um veículo que faz Barrymore brilhar, desde que Sherlock aparece pela primeira vez embaixo de uma árvore, aos oito minutos de projeção. A sequência de Moriarty invadindo a casa de Holmes é orquestrada com muito suspense, mas seu desfecho é rápido demais para a tensão que foi criada - a impressão é de que estariam ainda faltando cenas. Pode ser meio estranho encontrar um estudante universitário de 40 anos de idade, mas Barrymore é um Sherlock Holmes perfeito: alto, elegante, charmoso, inteligente e habilidoso.

In the end, we have a movie in which Barrymore shines. He is the focus of the feature since the first time Sherlock appears, under a tree, at the eight minute mark. The sequence in which Moriarty invades Holmes’s house is full of suspense, but its conclusion is too fast compared to the tension that escalated – it looks like there is some scene missing. It may be weird to find a 40 year-old college student, but Barrymore is a perfect Sherlock Holmes: tall, elegant, charming, intelligent and skilled.
Watson (sentado), Holmes (em pé) e uma caveira decorando o ambiente
Watson (seating), Holmes (standing) and a skull used as decoration 
Se você gosta de Benedict Cumberbatch, Basil Rathbone ou qualquer outro Sherlock da história, perceba como todos eles devem a Barrymore a aura cavalheiresca e intelectual do personagem. William Gillette pode ter introduzido a frase “Elementar, meu caro Watson”, mas foi John Barrymorre, em sua única aventura como Sherlock Holmes, que nos mostrou o que é realmente elementar para incorporar um personagem tão icônico.

If you are a fan of Benedict Cumberbatch, Basil Rathbone or any other Sherlock, you’ll see how all of them owe to Barrymore the intellectual gentleman aura the character is famous for. William Gillette may have introduced the quote “Elementary, my dear Watson”, but it was John Barrymore, in his only adventure as Holmes, who showed what really is to incorporate such an iconic character. 

This is my contribution to the Barrymore Trilogy Blogathon, hosted by Ethel Barrymore connoisseur Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood. 

Friday, July 31, 2015

Zulu (1964)

A história é tão velha quanto a humanidade: um grupo invade o espaço de outro por considerar-se mais evoluído / civilizado. O discurso é de boas intenções, de levar conhecimentos e religião para o povo inferior, mas o choque de culturas é mais forte que qualquer ato de bondade, e explode uma guerra. Vemos isto acontecendo à exaustão nos westerns, em que os homens das carruagens chegam para conquistar a terra dos índios selvagens. Mas este processo aconteceu em toda e qualquer colonização, e não foi diferente com os ingleses e os zulus.
Baseado em fatos reais, “Zulu” mostra uma batalha da Guerra Anglo-Zulu de 1879, que aconteceu no território onde hoje é a África do Sul e que na época era colonizado pelos ingleses. São quatro mil zulus contra algumas centenas de soldados ingleses, comandados pelo tenente John Chard (Stanley Baker) e pelo inexperiente tenente Gonville Bromhead (Michael Caine). Juntam-se a eles o missionário Otto Witt (Jack Hawkins) e sua filha Margareta (Ulla Jacobson), que querem evitar qualquer tipo de violência.
É um filme visualmente belo, que não precisa de efeitos especiais computadorizados para impressionar: o vermelho do uniforme contrasta com a paisagem árida, com a pele dos nativos e com as roupas de algodão cru disponíveis naquele fim de mundo. Torcer pelos nativos é como torcer pela baleia em Moby Dick: quase natural. Afinal, não eram os ingleses os invasores? É provável que o filme tenha sido feito com um grande discurso patriótico por trás, mas para uma estrangeira como eu que o vê com olhos mais críticos, não há motivos para os ingleses se orgulharem de seus antepassados. Embora não haja glamour no massacre, não há também honra, e o personagem mais interessante, embora com pouco tempo em cena, é de fato o missionário de bom coração (observe-o durante as cenas no hospital!).
E se havia guerra nas telas, nos sets de filmagem a situação era igualmente delicada: o filme foi gravado na África do Sul durante o Apartheid, o que impedia os atores a se relacionarem com a população negra do local. Ao final, o Apartheid inclusive impediu os muitos extras zulus de verem a estreia do filme nos cinemas.
Enquanto via “Zulu”, me lembrei de muitos outros filmes: “Uma Aventura na África / The African Queen” (1951), com seus missionários bem-intencionados que se encontram no meio de uma guerra; “A Ponte do Rio Kwai / The Bridge Over the River Kwai” (1957), por ter uma ponte em construção; “Lawrence da Arábia” (1962) pela atitude muitas vezes prepotente do personagem de Michael Caine caçando um leopardo; “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939), pelo caos em meio ao fogo...
E todos estes filmes em um nos fazem chegar à conclusão: todas as guerras são iguais. Sejam elas travadas com armas, flechas, escudos ou baionetas, o sofrimento e a destruição é sempre igual, ultrapassando fronteiras e barreiras de linguagem. Os rituais antes e depois da batalha, os gritos e hinos de guerra, as perdas no campo de batalha e nos hospitais improvisados são cicatrizes que ficam para sempre na memória dos envolvidos diretamente na guerra e também em seus descendentes. Pode haver honra, admiração mútua entre os combatentes, mas uma coisa é certa, mostrada pelo cinema e confirmada pela história: guerra é sempre guerra.


This is my contribution to the Second Annual British Invaders Blogathon, hosted by my friend Terence at A Shroud of Thoughts. Yes, sir!


Wednesday, July 15, 2015

A Caminho do Rio / Road to Rio (1947)

O ano é 1947. Desde 1944 Bing Crosby detinha o título de ator com maior sucesso de bilheteria. Em uma situação muito confortável, ele fez com seus parceiros Bob Hope e Dorothy Lamour o quinto dos sete filmes da série “Road to...”, que misturavam comédia, romance e musical em cenários exóticos. Desta vez os três astros iriam para o Rio de Janeiro, e o resultado, além de um filme divertidíssimo, é a imagem mais fiel do Brasil pintada pela era de ouro dei Hollywood.
É como Crosby, junto com as Andrews Sisters, canta sobre o Brasil: não é preciso entender a língua para compreender o que acontece aqui. Bastam a lua, o céu e uma garota nos seus braços. Aí é só olhar fundo nos olhos dela e as palavras serão supérfluas. Mas o riso é garantido.
Scat Sweeney (Bing Crosby) e ‘Hot Lips’ Barton (Bob Hope) estão atrás de mulheres. A busca da dupla já terminou com tiros e homens irados em diversos estados dos Estados Unidos, e a nova empreitada deles também é um fracasso: eles fazem, literalmente, um circo pegar fogo. Na fuga desesperada, eles entram como clandestinos no navio “Queen of Brazil”.

No navio viajam Lucia Maria de Andrade (Dorothy Lamour), sua tia / guardiã / hipnotizadora Catherine Vail (Gale Sondergaard) e mais uma galeria de personagens com alto potencial cômico, incluindo uma banda. Metade do filme se passa neste trajeto que por vezes fica lento, mas nunca cansativo.
Eles são recebidos no Brasil com a mesma música que recebeu o pato Donald cinco anos antes: “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. A música, só instrumental, sem letra, também acompanha os créditos iniciais, quando os nomes do trio protagonista aparecem dançando sobre a paisagem de Copacabana.

Felizmente, não há os absurdos costumeiros que vemos quando o Brasil é mostrado no cinema de Hollywood. Não há macacos nem papagaios nas ruas e as pessoas não falam espanhol. Bing Crosby, para surpresa geral, pronuncia até muito bem algumas frases em português. É incrível pensar que cenários tão realistas, como a roda de samba, o hotel e a mansão que aparece no final do filme, foram todos construídos nos estúdios Paramount, mas, obviamente, com boa pesquisa prévia. Observe as roupas dos músicos, os instrumentos e até os cartazes em português! 
E são os Wiere Brothers, também falando um pouco de português, que roubam a cena. Os três irmãos Wiere nasceram na Europa, durante as muitas viagens teatrais dos pais, e foram para os Estados Unidos na década de 1930, mas fizeram poucos filmes. Os palcos continuaram sendo sua morada.
A maioria das piadas vem de diálogos espirituosos, mas há duas longas sequências mudas: na primeira, Hope e Crosby se passam pelo barbeiro e pelo engraxate do navio, e destroem o bigode de um passageiro; e na segunda há uma confusa troca de chapéus, no melhor estilo comédia pastelão / slapstick comedy.

Talvez “Road to Rio” não seja um filme realmente especial. Mesmo assim, foi o sexto maior sucesso de bilheteria de 1947, arrecadando o equivalente a 4,5 milhões de dólares. É uma comédia excelente, do tipo que não é mais feito na atualidade, e que consegue ser ao mesmo tempo um pouquinho apimentada e inteligentemente inocente. Porque é essa mágica que o Rio de Janeiro fez com Crosby, Hope e Lamour.

This is my contribution to the 1947 blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin and Kristina at Speakeasy. 

Tuesday, July 7, 2015

Os reis do iê-iê-iê (1964) / A Hard Day's Night (1964)

"Os reis do iê-iê-iê” começa como um dia qualquer na vida do quarteto mais famoso dos anos 60: com os Beatles fugindo de uma multidão de fãs histéricas. Se você é como eu, e a história de um filme é o que mais importa, então pode pôr seu cérebro no modo descanso e aproveitar: o importante aqui é curtir a atração, sem tentar compreender uma história que não faz sentido – ou talvez faça sentido porque só poderia acontecer nos bastidores do mundo da televisão.

A Hard Day’s Night” starts as a normal day in the life of the most famous quartet of the 1960s: with the Beatles running away from a crowd of hysterical fans. If you are like me, and the story is what matters the most in a movie, then you can put your brin in rest mode and enjoy: the important here is to enjoy the attraction, without trying to understand a story that makes no sense – or maybe it makes sense because it could only happen in the TV world.

Os Beatles (John, Paul, Ringo e George) vão gravar um programa de televisão. Para chegar aos estúdios eles viajam de trem com seus empresários e levam a tiracolo o avô de Paul McCartney (Wilfrid Brambell), um idoso fora dos padrões... e também muito limpo. A principal função deste avô é criar o caos por onde passa, seduzindo moças, falsificando assinaturas, participando de uma ópera por engano e finalmente fazendo Ringo se rebelar, no melhor estilo Ferris Bueller.

The Beatles (John, Paul, Ringo and George) are going to appear in a TV show. To arrive at the studios they travel by train with their managers and take with them Paul McCartney’s grandfather (Wilfrid Brambell), an older gentleman who thinks outisde the box… and is also very clean. The grandfather’s main mission is to create chaos whenever he goes, seducing young women, forging signatures, taking part in an opera by chance and finally making Ringo go rebellious, Ferris Bueller style.

Eles são celebridades muito, muito irreverentes, que fogem das fãs, da imprensa e estão sempre desafiando a autoridade (empresários, diretores de televisão). Esta rebeldia conquistava o público, e sem dúvida fez com que muitos espectadores imaginassem como seria legal ser amigo dos Beatles (mais de 50 anos depois da estreia do filme eu ainda sonho com esta oportunidade). Neste sentido, o filme pode ser visto como a visão dos próprios Beatles sobre a fama: não é possível levar tudo e todos a sério quando se é uma celebridade. E talvez não seja preciso levar tudo e todos a sério em momento algum da vida, mesmo para as pessoas comuns.

They are very, very irreverent celebrities who run away from fans, the press and are always defying some kind of authority (managers, TV directors). This rebel way conquered the public, and without a doubt made many people think that it’d be awesome to be friends with the Beatles (more than 50 years after the release of the film still dream about this possibility). In this sense, the film can be seen like the Beatles’ vision about fame: it’s impossible to take everything and everybody seriously when you are a celebrity. And maybe you don’t need to take everything and everybody seriously in any moment in life, even if you’re a normal person.

O filme consegue ser psicodélico sem precisar de truques de câmera ou de cores ousadas (e se o filme fosse colorido, se aproximaria muito de uma obra de Wes Anderson). Os Beatles se comportam como versões muito jovens dos irmãos Marx, e é impossível perceber todas as piadas, frases espirituosas e situações cômicas vendo o filme pela primeira vez. Apenas múltiplas visitas ao grande sucesso dos Beatles no cinema são capazes de transmitir a qualidade cômica e transgressora da obra. Cada frase distorcida ou resposta malcriada é dita com toda a seriedade por rostos estoicos que dariam orgulho a Buster Keaton. As cenas de perseguição perto do final, aliás, lembram muito os curtas-metragens de Keaton, em especial “Cops” (1922).

The film manages to be psychedelic without needing camera tricks or bold colors (and if the movie was in color, it’d be very close to a Wes Anderson movie). The Beatles behave like very young versions of the Marx brothers, and it’s impossible to grasp all the jokes, witty lines and comic situations watching the film for the first time. Only multiple viewings of this great success are able to transmit this work’s comic and transgressive quality. Each twisted line or unpolite answer is said seriously by stoic faces that would make Buster Keaton proud. By the way, the chase scenes in the end reminded me of Keaton’s shorts, in special “Cops” (1922).

Apesar de tanta comédia, o filme é sobretudo um musical feito para mostrar o talento da maior banda do momento. Não apenas durante o show, mas em várias cenas ao ar livre os sucessos dos Beatles podem ser ouvidos, entre eles: “A Hard Day's Night” (obviamente, e que foi composta durante as filmagens), “She Loves You”, “Can't Buy Me Love”, “I Should Have Known Better”, “And I Love Her”, “I Wanna Be Your Man” e “All My Loving”.

Even though there is so much comedy, the film is above all a musical made to show the talent of the biggest band back then. Not only during the show, but also in several scenes in the open, the hits of the Beatles can be heard, among them: “A Hard Day’s Night” (obviously, as it was composed during the shooting) “She Loves You”, “Can't Buy Me Love”, “I Should Have Known Better”, “And I Love Her”, “I Wanna Be Your Man” and “All My Loving”.

 

Nos anos 60 os jovens estavam se rebelando contra os valores ultrapassados do pós-guerra e ensaiando a mudança no mundo. Se fosse necessário escolher um ícone cultural que representasse este mudança, sem dúvida seriam os Beatles. E nunca eles foram mais rebeldes que neste filme. Apesar de quase todas as músicas falarem de amor, é a rebeldia dos músicos que contrasta e conquista. Até o final de 1964, o filme arrecadou doze milhões de dólares nas bilheterias americanas (seu custo foi de apenas meio milhão). A Beatlemania estava só começando!

In the 1960s the young people were rebelling against the old post-war values and rehearshing change in the world. If we had to choose a cultural icon that represented this change, without a doubt the Beatles would be chosen. And they were never more rebellious than in this movie. Even though almost all songs talked about love, it’s the musicians’ rebelliousness that contrasts and conquers. When 1964 ended, the film had made 12 million dollars only in the US (it cost only half a million). Beatlemania was just starting!

This is my contribution to the Beatles Film Blogathon, hosted by Steve at Movie Movie Blog Blog. Twist and Shout!


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